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Cesare Battisti, esquerda e terror

Luiz Sérgio Henriques - Fevereiro 2011
 

Cesare Battisti é hoje uma figura razoavelmente presente na nossa vida política cotidiana. Frequenta manchetes, alimenta um conflito entre Itália e Brasil, ocupa os tribunais e a presidência da República, suscita a mobilização de intelectuais e juristas de peso, na sua maior parte — ao menos entre nós — favoráveis a um desfecho positivo para o militante dos “Proletários armados para o comunismo”, um dos inúmeros pequenos grupos que giraram em torno das Brigadas Vermelhas, expressão maior do terror italiano de extrema-esquerda nos anos 1970.

Difícil movermo-nos no intrincado labirinto jurídico que, de resto, complicou-se durante décadas a fio, com acusações contra Battisti feitas pelos “arrependidos”: aqueles que, por um motivo ou por outro (inclusive a possibilidade de redução da pena), se dissociaram da aventura militarista. Neste meio-tempo, como se sabe, depois de um curto período de prisão, nosso personagem obteve refúgio na França, ao abrigo da doutrina Mitterand, e uma certa simpatia até mesmo em círculos socialistas. Personagem intrigante, cuja história tem enredo rocambolesco e que terminou assumindo uma dimensão maior do que a que efetivamente merece.

Fatos e processos bem mais importantes correm o risco de ser obscurecidos e até ignorados pelo relevo atribuído às vicissitudes de Battisti, ressalvado de modo inabalável o sistema de garantias que todas as democracias dignas do nome reconhecem a qualquer indivíduo que alegue real ou suposta perseguição política. Muito particularmente, fica num plano secundário, ou mesmo torna-se invisível, o então avançado processo de mudança social numa das sociedades politicamente mais dinâmicas do pós-guerra europeu. Um processo à cuja frente esteve o antigo Partido Comunista Italiano, o maior do Ocidente, como se costumava dizer, e um dos responsáveis pela construção da Itália moderna, trazendo em massa, para o novo Estado republicano, amplos setores até então excluídos ou postos numa condição subalterna.

Este fato de massas não se exerceu no vazio. Num país de formação estatal tardia, historicamente fragmentado em reinos e ducados, teve papel relevante a Democracia Cristã, um partido de centro-direita que, à sua maneira, protagonizou a reconciliação da imensa população católica com o Estado. Sem falar nas outras tradições políticas ativas no pós-guerra — socialistas, republicanos, liberais e mesmo neofascistas —, PCI e DC viveram um conflito áspero, ainda por cima no contexto da Guerra Fria, com os duros condicionamentos impostos naquele mundo bipolar.

Os anos 1970 foram como o auge de todo este processo. Seria irrealista pensar que em algum momento a Itália fosse se tornar comunista — algo então generalizadamente entendido como uma “mudança de campo” (da Otan para o Pacto de Varsóvia, do Mercado Comum para o Comecon, etc.) ou como a construção de uma primitiva (e autoritária) forma estatal baseada no partido único. Pelo contrário. O PCI talvez tenha nos dado o último grande dirigente do comunismo histórico — Enrico Berlinguer —, a quem devemos a expressão lapidar da “democracia (política) como valor universal”. Seus teóricos mais ousados, como Pietro Ingrao, falavam não de estatização dos meios de produção, mas de programação democrática da economia; não de democracia “popular”, mas de elaboradas formas de “socialização da política”, no quadro das liberdades representativas “burguesas”.

Um cenário pleno de novidades, contra o qual se desencadearam as fúrias da Guerra Fria: serviços secretos de ambas as superpotências, setores desviados do Estado italiano, lojas maçônicas, máfias e camorras. E, não em último lugar, o terrorismo de direita e o de esquerda, sócios siameses da mesma “estratégia de tensão”, que devia desestabilizar a Itália e inviabilizar qualquer perspectiva de mudança: os “elementos de socialismo”, de que falava Berlinguer.

O primeiro — o terrorismo dito negro — costumava atacar generalizadamente, com bombas em locais públicos e o assassinato de dezenas de pessoas; o terrorismo dito vermelho, mais seletivo, encarregou-se de fabricar “cadáveres excelentes”, como o democrata-cristão Aldo Moro, e muitas vezes teve como alvo principal dirigentes e personalidades do próprio campo da esquerda democrática. Afinal, na lógica insana do extremismo de esquerda, os “reformistas” são até piores do que os fascistas. Os “Proletari armati”, para citar um exemplo cruel, cometeram muitos atentados atirando nas pernas (“le gambe”) dos “inimigos do povo”. Criou-se um neologismo — “gambizzare” — para tal infâmia. Sem dúvida, uma forma de tortura, cometida com a certeza sádica de que o “inimigo” estaria fisicamente estropiado para o resto da vida.

Este é o mundo, estas são as motivações que explicam o personagem Cesare Battisti. Um mundo fosco, turvo, em que se entrelaçavam e se acumpliciavam poderes ocultos, fora da possibilidade de qualquer controle democrático. Tanto tempo depois, à luz de princípios legais e humanitários que uniram políticos tão diversos como Moro e Berlinguer, podemos nos perguntar se ainda cabe a punição (a extradição e o cumprimento da pena) para os crimes graves de que Battisti é acusado — gravidade admitida até por Toni Negri, também envolvido nos acontecimentos de uma Itália que ainda tem dificuldade para compreender os extremismos que a dilaceraram.

No entanto, não deveríamos ter o direito de nos iludirmos sobre a natureza pretensamente socialista dos objetivos da galáxia extremista mais ou menos comandada pelas Brigadas Vermelhas. O “partido armado”, no caso italiano e em outros contextos democráticos, pela própria natureza foi só perversidade recoberta de linguagem pesadamente ideológica. E sempre a um passo da criminalidade comum, passo que provavelmente nunca saberemos se foi ou não dado.

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Luiz Sérgio Henriques é o editor de Gramsci e o Brasil.



Fonte: O Estado de S. Paulo, 7 fev. 2011.

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