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Os sert√Ķes, cem anos depois

Berthold Zilly - 2002
 

A dimens√£o internacional da guerra nos sert√Ķes

J√° antes da publica√ß√£o de Os sert√Ķes, a guerra de Canudos, que √† primeira vista nos parece assunto intrinsecamente brasileiro e at√© interiorano, bem do fim do mundo, foi, durante quase todo o ano 1897, evento de m√≠dia n√£o s√≥ no Brasil mas nas Am√©ricas e em toda a Europa, compar√°vel na nossa √©poca com o movimento zapatista em Chiapas ou a guerra na Chech√™nia. Pois aquele assalto ilegal de tropas legais contra uma comunidade relativamente pac√≠fica de vaqueiros e lavradores - sem aviso pr√©vio, sem negociac√£o, sem chance nenhuma para os assaltados - teve n√£o apenas tra√ßos arcaicos e b√°rbaros, como todas as guerras, mas foi um empreendimento muito moderno e, por conseguinte, internacional. O mundo inteiro se aliou ao ex√©rcito atacante, concedendo ao governo brasileiro os cr√©ditos necess√°rios, mandando-lhe a sua mais avan√ßada tecnologia militar, al√©m de alguns poucos frades e filantropos, e apoiando, atrav√©s dos grandes jornais do mundo, a sua campanha psicol√≥gica anticonselheirista, gra√ßas ao tel√©grafo, que, j√° naquela √©poca, estava reunindo os leitores dos grandes jornais numa aldeia global. Diferentemente de Chiapas, no caso de Canudos n√£o havia opini√£o p√ļblica mundial favor√°vel aos atacados, o que selou a sua extin√ß√£o. Ademais, a Europa, fazia tempo, tinha preparado os paradigmas te√≥ricos e interpretativos para comportamentos, considerados b√°rbaros, atrasados e desviantes, de coletividades mesti√ßas, rurais e radicalmente religiosas, aparentemente incompat√≠veis com a moderniza√ß√£o - uma ci√™ncia que era uma continua√ß√£o da guerra com meios intelectuais.

Apesar de compartilhar os preconceitos mundialmente vigentes contra popula√ß√Ķes tradicionais inconformadas, sobretudo de cor, que bem mais tarde o historiador ingl√™s Eric Hobsbawm chamaria de primitive rebels, o jornalista e engenheiro Euclides da Cunha, tenente reformado e, portanto, perito em assuntos militares, no calor da sua narra√ß√£o cada vez mais apaixonada, passou a admirar aquela comunidade religiosa no long√≠nquo sert√£o, caluniada pelos jornalistas e pelo pr√≥prio Euclides como at√°vica, fan√°tica e criminosa, o que naquela √©poca eram acusa√ß√Ķes t√£o graves quanto as de fundamentalista e terrorista hoje em dia. Pois o povo de Canudos ia tomar o seu de¬≠sti¬≠no em suas pr√≥prias m√£os, dispondo-se a entrar no palco da hist√≥ria como sujeito pol√≠tico, com um projeto social alternativo, regional, trans√©tnico, brasileiro, baseado num catolicismo tradicional, procurando obstinadamente resolver os seus problemas materiais e espirituais, sem pedir licen√ßa ao latif√ļndio, ao Estado ou √† Igreja. Afinal, nenhum deles - nem a Rep√ļblica, com seu lema Ordem e Progresso - havia feito nada para diminuir a sua mis√©ria e opress√£o, antes pelo contr√°rio.

Por que os canudenses foram perseguidos? Em √ļltima inst√Ęncia, por n√£o se adequarem √† ordem coronel√≠stica estabelecida, conhecida, aceita pelas elites, por mais esclarecidas e civilizadas que se considerassem. Ant√īnio Conselheiro e seus seguidores, apesar de se terem retirado para os rinc√Ķes mais in√≥spitos do sert√£o, onde s√≥ queriam ser deixados em paz, puseram a quest√£o do poder, questionando a quase soberania dos latifundi√°rios e dos pol√≠ticos a eles associados. Os canudenses n√£o queriam ningu√©m acima deles, a n√£o ser Deus e o seu encarregado para governar o Brasil, o imperador. Na pr√°tica, por√©m, colaboravam e trocavam mercadorias com fazendeiros e comerciantes da regi√£o, e chamavam regularmente um padre das redondezas para ministrar os sacramentos, de modo que estavam integrados na sociedade sertaneja em termos de rela√ß√Ķes humanas e econ√īmicas. √Č verdade que Canudos contrariava o monop√≥lio da viol√™ncia do Estado, mas milhares de coron√©is, mand√Ķes discricion√°rios pelo Brasil afora, tamb√©m o faziam, sem provocar a f√ļria dos guardi√£es da ordem estabelecida e da Civiliza√ß√£o.

Veracidade poética versus preconceitos "científicos"

O escritor muitas vezes √© mais clarividente do que o pensador, o artista pode intuir o que o analista ignora: pensemos no famoso exemplo de Balzac, que, apesar de monarquista e admirador da aristocracia, narrou com perspic√°cia e com certa simpatia, como foi mostrado por Luk√°cs, a ascens√£o da burguesia e a emerg√™ncia do proletariado na Fran√ßa da Restaura√ß√£o. Pois bem, o ide√≥logo republicano e cientificista Euclides da Cunha, repleto de preconceitos racistas, cada vez mais cede lugar, no decorrer das descri√ß√Ķes e narra√ß√Ķes do seu livro, ao observador direto e emp√°tico, ao "narrador sincero", que representa a realidade social e hist√≥rica atrav√©s de um "cons√≥rcio da ci√™ncia e da arte", tendendo cada vez mais para esta √ļltima. Resolve, embora nem sempre de modo coerente, evitar "os garbosos neologismos etnol√≥gicos", transformando, pelo contr√°rio, a pr√≥pria ci√™ncia em arte, em arsenal de recursos est√©ticos. Em um momento de ceticismo cient√≠fico, resolve at√© retratar os sertanejos espont√Ęnea e subjetivamente, assumindo, em uma das suas t√≠picas hip√©rboles, a atitude de "simples copista" que reproduziria "todas as impress√Ķes, verdadeiras ou ilus√≥rias, que tivemos quando, de repente, acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta do sert√£o, com aqueles desconhecidos singulares, que ali est√£o - abandonados - h√° s√©culos". Vale a pena repetir: "impress√Ķes, verdadeiras ou ilus√≥rias." At√© as percep√ß√Ķes ilus√≥rias podem captar aspectos da realidade - um esbo√ßo de epistemologia impressionista. Se ele lan√ßa m√£o da subjetividade e da fantasia na representa√ß√£o do espa√ßo e da hist√≥ria, sempre o faz a servi√ßo da verdade, percebida atrav√©s de um temperamento cheio de compaix√£o com todos os seres sofridos, as pedras, as plantas, os animais, os soldados e, sobretudo, os sertanejos; pois v√™ reinar no sert√£o o "mart√≠rio secular da Terra", que condiciona o "mart√≠rio do homem". Sugere que o mart√≠rio pode transcender o sert√£o, sendo atributo da condi√ß√£o humana, da natureza, do universo, de modo que o sert√£o seria o mundo, id√©ia que mais tarde encontramos em Guimar√£es Rosa.

Crítica da razão colonialista

Sarcasticamente, Euclides desmonta n√£o s√≥ as "fantasias ps√≠quico-geom√©tricas" da psiquiatria e craniometria da √©poca, mas sobretudo os discursos grandiloq√ľentes, hip√≥critas e desumanos dos seus colegas da imprensa e do Ex√©rcito, que legitimam o colonialismo interno e o massacre dos vencidos com a suposta miss√£o de salvar a Rep√ļblica e assegurar o triunfo da Civiliza√ß√£o sobre a barb√°rie sertaneja. Ora, s√£o discursos muito pr√≥ximos daqueles que o pr√≥prio autor pratica, de modo que precisa exagerar de modo caricatural a ret√≥rica belicista dos oficiais positivistas, para os quais os caboclos s√£o meros objetos de uma opera√ß√£o violenta de mudan√ßa social: "Era preciso que sa√≠ssem afinal da barbaria em que escandalizavam o nosso tempo, e entrassem repentinamente pela civiliza√ß√£o adentro, a pranchadas". A campanha de Canudos, para o Ex√©rcito, mas tamb√©m para o narrador, √© "uma invas√£o em territ√≥rio estrangeiro". A cr√≠tica euclidiana √† pr√°tica e √† ret√≥rica da moderniza√ß√£o autorit√°ria do seu tempo √© tamb√©m autocr√≠tica, pois volta e meia o pr√≥prio autor defende m√©todos tir√Ęnicos e at√© imperialistas de "desenvolvimento", como se diria mais tarde, comparando a Campanha de Canudos com a ocupa√ß√£o da Tun√≠sia pela Fran√ßa, mencionando tamb√©m como termo de compara√ß√£o, no Di√°rio de uma expedi√ß√£o, a invas√£o francesa em Madagascar, a italiana na Abiss√≠nia, a inglesa na √Āfrica do Sul. Justifica, pelo menos implicitamente, esse tipo de interven√ß√£o b√©lica pelo benef√≠cio civilizat√≥rio que traria - a constru√ß√£o de a√ßudes e estradas, por exemplo -, mas do qual duvida cada vez mais, pelo menos no caso do sert√£o colonizado √† for√ßa. Pois, diferentemente das col√īnias ultramarinas da Europa, o sert√£o deve ser "incorporado √† nossa nacionalidade" e, se ainda √© uma esp√©cie de col√īnia interna, deveria deixar de s√™-lo. Estas dubiedades, duplicidades, ambival√™ncias, incoer√™ncias s√£o t√≠picas na escrita de um autor que disse de si mesmo: "eu sistematizo a d√ļvida" e que repassa as suas d√ļvidas, quando n√£o consegue esclarec√™-las, para o leitor de Os sert√Ķes. Grande parte das id√©ias e imagens neste livro s√£o poliss√™micas ou amb√≠guas, revelando √† an√°lise atenta um segundo ou terceiro sentido, muitas vezes oposto ao primeiro, de modo que o leitor √© chamado a participar de um debate com v√°rias vozes e de resultado aberto, em que o autor √© apenas um moderador, sem posi√ß√£o definida e muito menos definitiva.

Quando Euclides p√Ķe de lado as ideologias colonialistas, passa, embora n√£o sem hesita√ß√Ķes, a justificar, em seu estilo amargamente ir√īnico e ao mesmo tempo solene, a resist√™ncia dos "rudes patr√≠cios transviados" contra a invas√£o das suas terras: "O jagun√ßo [...] s√≥ podia fazer o que fez - bater, bater terrivelmente a nacionalidade que, depois de o enjeitar cerca de tr√™s s√©culos, procurava lev√°-lo para os deslumbramentos da nossa idade dentro de um quadrado de baionetas, mostrando-lhe o brilho da civiliza√ß√£o atrav√©s do clar√£o de descargas". Em vez do direito e da educa√ß√£o, o governo, como representante da Civiliza√ß√£o, da Rep√ļblica e da Na√ß√£o, manda aos brasileiros "retardat√°rios" do sert√£o o Ex√©rcito, que fala unicamente a linguagem da viol√™ncia. No combate √† barb√°rie, recusa qualquer di√°logo, lan√ßando m√£o de m√©todos b√°rbaros: "Enviamos-lhes o legislador Comblain; e esse argumento √ļnico, incisivo, supremo e moralizador - a bala". √Č nos emiss√°rios do Progresso e da Modernidade, muito mais do que nos "b√°rbaros" do sert√£o, que ressurge "a animalidade primitiva", que degola os inimigos presos, violando todas as regras da lei e da moral. Se o sert√£o √© b√°rbaro, ele o √© mais pela a√ß√£o da Civiliza√ß√£o colonialista do que pela sua aus√™ncia, um paralelo com a selvageria do interior da √Āfrica em O cora√ß√£o das trevas, de Joseph Conrad, romance tamb√©m publicado em 1902. "A Rua do Ouvidor valia por um desvio das caatingas", assim como a Bruxelas de Conrad tem aspectos t√£o sombrios e tumulares quanto o Congo explorado e bestializado pelo colonialismo belga. As luzes que a na√ß√£o brasileira e os seus √≥rg√£os, o governo, o Ex√©rcito, a imprensa prentendem levar ao sert√£o, num combate contra o obscurantismo, contra as trevas da supersti√ß√£o e do fanatismo, produzem um vasto cemit√©rio, hoje submerso num a√ßude, um ground zero da hist√≥ria brasileira.

Se o autor enfatiza a dimens√£o internacional desse conflito, √© que lhe atribui car√°ter paradigm√°tico dentro da Hist√≥ria Universal, como choque de culturas provocado pela expans√£o secular da Civiliza√ß√£o, que, t√£o sedutora quanto violenta, esmaga no mundo inteiro aquelas sociedades tradicionais e sobretudo rurais, que n√£o se deixam facilmente integrar ou nem sequer t√™m a chance de faz√™-lo. Diferentemente da √Āfrica ou da √Āsia, no Brasil essa Modernidade global, atropeladora de tudo o que for diferente e incompreens√≠vel, n√£o necessita de interven√ß√Ķes imperialistas, pois tem como aliados e c√ļmplices os pol√≠ticos, os intelectuais, os cientistas, os militares do litoral, da mesma na√ß√£o, entre os quais o pr√≥prio autor se inclui numa auto-acusa√ß√£o: "N√≥s, [...] armados pela ind√ļstria alem√£, tivemos na a√ß√£o um papel singular de mercen√°rios inconscientes".

Valorização ambígua da mestiçagem

Entre as vis√Ķes inovadoras de Euclides, merece destaque a valoriza√ß√£o, pelo menos no plano po√©tico-narrativo, da mesti√ßagem. A capacidade de sobreviv√™ncia do sertanejo contra as adversidades da natureza e da guerra √© extraordin√°ria e admir√°vel. A comunidade de Canudos consegue satisfazer as necessidades b√°sicas de milhares de habitantes em plena caatinga, num semideserto, onde vivem melhor do que nas fazendas das redondezas, em certa dignidade, calma e solidariedade, o que provoca a constante migra√ß√£o rumo a esse arraial. Depois da derrota da segunda expedi√ß√£o, muitos sertanejos pensaram que o governo e o Ex√©rcito "os deixariam, afinal, na quietude da exist√™ncia simples do sert√£o", id√©ia id√≠lica embora ilus√≥ria com que simpatiza o narrador. Esses mesti√ßos t√™m uma cultura material, musical e po√©tica com que simpatiza o narrador, eles criam bodes e vacas, s√£o bons agricultures e artes√£os, homens h√°beis e honestos, trocam no "barrac√£o da feira" das suas vilas os seus produtos por aqueles da Civiliza√ß√£o, poderiam ser felizes se esta √ļltima n√£o os perseguisse. Mais ainda, os sertanejos, em princ√≠pio, depois de tr√™s s√©culos de intensa miscigena√ß√£o e reclus√£o, est√£o maduros para absorver a Civiliza√ß√£o: "Aquela ra√ßa cruzada [...] pode alcan√ßar a vida civilizada".

Euclides, ou pelo menos o narrador em Os sert√Ķes, acaba reconhecendo a mesti√ßagem - considerada por muitos intelectuais da √©poca, inclusive pelo pr√≥prio autor, um estorvo para o progresso civilizat√≥rio - como processo fundamental e positivo para a forma√ß√£o da sociedade sertaneja e brasileira. √Č principalmente na hora da morte que o sertanejo, esse condenado pela ci√™ncia racista do seu tempo, se transfigura - "transfigurar" √© uma palavra favorita de Euclides - em poss√≠vel agente pol√≠tico e fazedor de sua pr√≥pria hist√≥ria. Ele, por√©m, √© tragicamente sacrificado, de modo que na realidade n√£o pode dar a sua contribui√ß√£o para a constru√ß√£o de um moderno Estado verdadeiramente nacional, permanecendo a sua valoriza√ß√£o mais bem no n√≠vel simb√≥lico e est√©tico. Mesmo assim, na hist√≥ria do pensamento social brasileiro, Euclides, com a eleva√ß√£o de um mesti√ßo a her√≥i nacional, constitui importante elo de liga√ß√£o entre o viajante alem√£o Martius - que, no seu tratado Como se deve escrever a hist√≥ria do Brasil, publicado em 1844, reinterpretou a mesti√ßagem como processo necess√°rio e prop√≠cio para a constitui√ß√£o do Brasil como na√ß√£o - e o soci√≥logo Gilberto Freyre, cujo ensaio cl√°ssico Casa grande e senzala (1933) comprovou e elogiou o car√°ter mesti√ßo da popula√ß√£o e da cultura no Brasil, um marco contra o racismo ¬Ďcient√≠fico¬í.

Uma visão trágica e, contudo, alentadora da História

Quando a Rep√ļblica, no seu fanatismo civilizador, extermina o sertanejo, ela pratica um ato de automutila√ß√£o nacional - numa guerra de ass√©dio, cuja sombria grandiosidade lembra a Can√ß√£o dos Nibelungen, epop√©ia medieval alem√£, transformada em ciclo de √≥peras por Richard Wagner, em que um her√≥i capaz de redimir o mundo da maldi√ß√£o do ouro √© assassinado pelos dirigentes da tribo germ√Ęnica dos Borgonheses, tamb√©m chamados de Nibelungen, por sua vez aniquilada pelos hunos, sob o comando de √Ātila. O inimigo execrado, na hora da sua morte, se afigura como "cerne de uma nacionalidade", "a rocha viva da nossa ra√ßa". Aquele povinho que, tal qual os caboclos da Amaz√īnia, vive "√† margem da hist√≥ria", atrasado e analfabeto, aparentemente inferior e estranho, quase estrangeiro dentro do Brasil, incapaz para a constru√ß√£o da na√ß√£o, tem de repente a sua "apoteose", revelando-se no ocaso como superiormente brasileiro e entrando na luz de ribalta da hist√≥ria, embora apenas em n√≠vel simb√≥lico-cultural, justamente atrav√©s de Os sert√Ķes. O sert√£o era "um par√™ntese, um v√°cuo, um hiato", um n√£o-lugar - lembrando o Congo de Joseph Conrad, em Cora√ß√£o das trevas - que s√≥ como "fic√ß√£o geogr√°fica" fazia parte do territ√≥rio nacional. Mas agora ele entra na Hist√≥ria e passa a ser visto, momentaneamente, quando √© tarde demais, como poss√≠vel ber√ßo de um futuro Estado brasileiro, j√° n√£o excludente, como era o projeto nacional das elites, mas incorporador e participante, embora n√£o igualit√°rio nem formalmente democr√°tico - a utopia tr√°gica de uma cidadania aut√īnoma dos que tinham sido mantidos n√£o-cidad√£os.

A gl√≥ria e a atualidade de Os sert√Ķes nem tanto se devem √†s informa√ß√Ķes e √†s reflex√Ķes sobre a guerra, que se encontram quase todas tamb√©m em numerosos outros escritos da √©poca, pois foi exagero de Euclides afirmar que a Hist√≥ria n√£o teria ido a Canudos. Muito se publicou sobre a guerra antes e indepentemente de Os sert√Ķes, mas √© certo que a guerra, os sofrimentos e as realiza√ß√Ķes dos canudenses na paz e na guerra, assim como os crimes praticados contra eles, teriam ca√≠do no esquecimento da opini√£o p√ļblica sem este livro. O seu efeito se deve principalmente √† arte presentificadora e encenat√≥ria do autor, ao seu estilo sugestivo, sonoro e pl√°stico, ao seu poder imag√©tico e escultural, √† sua prosa altamente ret√≥rica e po√©tica, entre sarc√°stica e sublime, √† sua teatraliza√ß√£o do meio, dos eventos, dos objetos e personagens. Todos eles aparecem como entidades e for√ßas t√≠picas, n√£o individuais, mas concretas e vivas, representando os principais agentes naturais e hist√≥ricos, nacionais e internacionais, de modo que o Ex√©rcito, mais ainda o povo e a paisagem, as pedras e plantas, os ventos, mas tamb√©m os canh√Ķes, passam a ser os protagonistas, pois um importante recurso estil√≠stico √© a antropomorfiza√ß√£o das for√ßas e dos objetos. O principal protagonista √© o sert√£o, que, no plural, na sua multiplicidade e variabilidade, fornece o t√≠tulo do livro. Acima de todos os agentes, paira, por√©m, o destino, a Hist√≥ria com mai√ļscula, as leis inexor√°veis e em grande parte insond√°veis da Evolu√ß√£o e da Civiliza√ß√£o, os deuses da Vida e da Morte. Mesmo assim, obedecer cegamente √†s leis hist√≥ricas, ao avan√ßo da Civiliza√ß√£o por vezes mort√≠fera, √© um crime. Em vez do soldado, ela deveria ter mandado o professor e o engenheiro, pessoas como o pr√≥prio Euclides.

Apesar do seu ceticismo, o autor admite que o car√°ter sagrado do sert√£o, na vis√£o dos canudenses, passe para a obra, que √© santificada pelo assunto. N√£o √© por acaso que o seu livro maior foi logo chamado de b√≠blia da nacionalidade. As aporias √©ticas, pol√≠ticas, intelectuais da recente hist√≥ria nacional e internacional, e as incoer√™ncias anal√≠ticas no pensamento do pr√≥prio autor encontram uma solu√ß√£o duradoura, exemplar e satisfat√≥ria no plano est√©tico-metaf√≠sico. Raramente na hist√≥ria da literatura a identifica√ß√£o entre um segmento da realidade e a sua representa√ß√£o √© t√£o intensa quanto aqui, pois quase todos os leitores reconhecem uma simbiose entre a obra, a regi√£o e o evento. Uma parte atrasada, carente, marginalizada do Brasil de repente se transfigura - "transfigurar" √© um dos verbos prediletos de Euclides - em regi√£o virtualmente modelar do pa√≠s e at√© da hist√≥ria universal. Os √ļltimos ser√£o ou poderiam ser os primeiros. √Ä centralidade geogr√°fica dos sert√Ķes, mais bem te√≥rica e matem√°tica, corresponde, inesperadamente, uma centralidade hist√≥rica e pol√≠tica. Com seu car√°ter de epop√©ia nacional e sua impl√≠cita e tr√°gica teologia pol√≠tica, Os Sert√Ķes √© um livro fundador, uma s√ļmula da nacionalidade, uma obra que, com suas ambig√ľidades e contradi√ß√Ķes, consegue constituir o Brasil como na√ß√£o capaz de p√īr perguntas ao mundo.

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Berthold Zilly √© professor do Instituto Am√©rica Latina da Universidade Livre de Berlim e tradutor alem√£o de Os sert√Ķes.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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