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A garota que o Partido matou

Ana Amélia M.C. Melo - Outubro 2009
 

Sérgio Rodrigues. Elza, a garota: a história da jovem comunista que o partido matou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

A tentativa revolucionária de 1935 tem merecido a atenção da produção historiográfica brasileira recente, como um dos eventos mais importantes para a compreensão do acerbado anticomunismo do período, seja como política do Estado varguista, seja como uma ideologia conservadora. Em alguns casos esta revisão tem demonstrado tratar-se, o anticomunismo, de uma questão muito mais complexa do que a mera conspiração imperialista ou demonstração de irracionalismo [1]. O conhecido caso da garota Elza surge neste contexto de revisão como algo emblemático.

Arrefecidas as disputas explicitamente ideol√≥gicas em torno da hist√≥ria do comunismo no Brasil nos anos 1930 e 1940, √© poss√≠vel observar e analisar criticamente o caso do assassinato de Elvira Cupello, conhecida como Elza Fernandes, em 1936, com a idade de 16 anos. Presa junto com outros companheiros ap√≥s a "Intentona Comunista", ela seria logo em seguida solta pela pol√≠cia por ser considerada inocente. Ap√≥s a soltura r√°pida, Elza seria alvo da desconfian√ßa dos demais companheiros. A desconfian√ßa chega ao ponto de decidirem escond√™-la em uma casa distante no sub√ļrbio carioca do que ent√£o se chamava Ricardo de Albuquerque. Durante esse per√≠odo em que se mant√©m sob estrita vigil√Ęncia dos companheiros, √© interrogada insistentemente. Apenas uma semana ap√≥s sua liberta√ß√£o, j√° se falava em "medidas extremas". Em meados de fevereiro os companheiros come√ßam a ter d√ļvidas sobre a necessidade da execu√ß√£o. No entanto, as palavras finais de Prestes incitam e definem a senten√ßa. Elvira √© executada e enterrada no quintal da casa. O corpo √© encontrado em 1940.

O livro do jornalista Sérgio Rodrigues busca retomar esta estarrecedora história. Entremeando o acontecimento com a descrição jornalística e uma história ficcional que conduz o relato, ele logra assombrar os leitores numa narrativa bem elaborada, mantendo o cuidado em distinguir o fato histórico de sua criação como escritor. Se esta penosa história da jovem amante de Miranda, na época secretário-geral do PCB, já era conhecida, o livro de Sérgio Rodrigues nos deixa uma desconfortável sensação diante do que se chamou, equivocadamente, de "erro político". Qualificar isto como um ato político significaria, lembrando Hannah Arendt, desprover a política de suas bases.

Na esfera da pol√≠tica, o requisito √©, inversamente e sobremaneira, a persuas√£o discursiva afirmada sobre as bases da pluralidade. √Č nesse mundo, no qual todos s√£o livres e "iguais", que se instaura a pol√≠tica, a a√ß√£o genuinamente humana. Com a a√ß√£o e com a palavra, o homem torna-se capaz de exprimir essa diferen√ßa. Parafraseando Arendt, s√≥ com atos e palavras √© que podemos nos inserir no mundo, como um segundo nascimento com o qual afirmamos nosso singular aparecimento neste mesmo mundo [2]. Esta qualidade suprema da pol√≠tica deve ser sempre lembrada. O caso Elza contradiz isto que deveria ser nosso horizonte ut√≥pico. A l√≥gica da desconfian√ßa, do terror e da viol√™ncia toma o lugar da palavra, tornando-se parte tamb√©m da pr√°tica daqueles que deveriam representar as tend√™ncias mais politicamente progressistas da sociedade.

O livro de S√©rgio Rodrigues desvela ainda a necessidade de um estudo historiogr√°fico rigoroso que busque, no esquadrinhamento das fontes, uma aproxima√ß√£o aos fatos reais, compreendendo-os no √Ęmbito dos temores, valores e disputas pol√≠ticas da √©poca, sem que com isso se justifique o injustific√°vel, que foi este assassinato. Nossa historiografia carece de um estudo deste processo judicial que chocou a sociedade e que foi muito manipulado.

A cuidadosa narrativa de Sérgio Rodrigues é uma ficção bem engendrada a partir deste caso historicamente comprovado; portanto, não tem o propósito nem segue os procedimentos metodológicos necessários da pesquisa histórica, o que, entretanto, não lhe retira valor.

O autor consegue sobrepor história e ficção de maneira inteligente. A história do levante militar liderado por Prestes e a morte de Elza são contadas a um jovem jornalista por um dos personagens do livro, um velho senhor que vivera as fortes experiências dessa geração de comunistas. Sua fórmula literária joga com o leitor ao usar recursos do estilo ficcional, mesclados com o jornalístico, para contar um fato histórico recheado de documentação. O resultado é uma emocionada e impactante história dessa desconhecida jovem, cuja morte "não oferece possibilidade de redenção".

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Ana Amélia M.C. Melo é professora do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará.

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Notas

[1] Faço referência aqui ao livro do historiador Rodrigo Patto Sá Motta. Em guarda contra o perigo vermelho. São Paulo: Perspectiva, 2002.

[2] Arendt, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense, 2001, p. 189.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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