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A televisão como Moderno Príncipe

Giulio Ferroni - Outubro 2009
 

Para o professor de literatura italiana da Universidade La Sapienza, de Roma, Giulio Ferroni, a concepção gramsciana do moderno Príncipe não está presente nas ideias dos atuais partidos de esquerda italianos. Ele é enfático ao dizer que, na Itália, "o moderno Príncipe atual é a televisão". Ferroni ressalta que na política italiana Gramsci foi usado como modelo polêmico, principalmente entre 1950 e 1960. "O Partido Comunista procurou construir um modelo gramsciano", impondo uma "hegemonia" cultural própria, ele explica. E, em seguida, dispara: "Mas aquele modelo atuou apenas em parte sobre as massas trabalhadoras e foi cancelado totalmente pelo domínio da mídia, da cultura da aparência, da publicidade, do espetáculo".

De sua produção intelectual, citamos: Mutazione e riscontro nel teatro di Machiavelli (Roma: Bulzoni, 1972), Il comico nelle teorie contemporanee (Roma: Bulzoni, 1974) e Istruzione, cultura e illusioni della riforma (Turim: Einaudi, 1997). A entrevista a seguir foi concedida por e-mail à IHU On-Line.

Qual √© a atualidade do conceito de intelectual org√Ęnico, cunhado por Gramsci?

Poder-se-ia dizer que o conceito de intelectual org√Ęnico √©, ao mesmo tempo, atual e inatual. Atual pela lucidez com que Gramsci estendeu a categoria de intelectual, incluindo n√£o s√≥ as figuras tradicionais (escritores, fil√≥sofos, artistas, etc.), mas abrangendo todas as figuras de t√©cnicos e de mediadores do consenso e das formas de consci√™ncia e conhecimento sob t√≠tulos diversos (aqueles que hoje poder√≠amos chamar de operadores culturais). Inatual porque hoje n√£o podemos mais falar de intelectuais que sejam org√Ęnicos para uma classe ou um grupo de classes. Quando muito, h√° intelectuais funcion√°rios que s√£o org√Ęnicos em rela√ß√£o ao sistema de comunica√ß√£o e intelectuais "n√£o org√Ęnicos", que resistem ao sistema global da comunica√ß√£o, sem nenhum mandato social.

Na Itália, como a intelectualidade da esquerda e a da direita se posicionaram no século XX com base neste conceito?

No fundo, os verdadeiros intelectuais org√Ęnicos foram aqueles "pol√≠ticos" com que precisamente o fascismo tentou construir, mesmo que contraditoriamente, um modelo de atividade intelectual centralizada, reunindo em torno de uma fun√ß√£o org√Ęnica at√© mesmo intelectuais divergentes e de oposi√ß√£o (como √© o caso do Instituto da Enciclop√©dia Italiana e da atividade de Giovanni Gentile, ou da revista Primato, dirigida por Giuseppe Bottai). Na esquerda, foi o Partido Comunista Italiano, de 1945 a 1970, que tentou, de v√°rias maneiras, criar um grupo de intelectuais org√Ęnicos, empenhados no trabalho de construir o consenso para aquele "Moderno Pr√≠ncipe" que era o partido. Mas diga-se que se tratou prevalentemente de intelectuais "pol√≠ticos" ou de intelectuais funcion√°rios, enquanto as contribui√ß√Ķes mais fecundas para o pensamento e a pol√≠tica de esquerda vieram precisamente de intelectuais "n√£o org√Ęnicos".

Como o senhor faz a análise da influência de Maquiavel no pensamento político de Gramsci? Que elementos conserva do escritor florentino e em que o supera?

Para Gramsci, Maquiavel¬† √© um grande modelo "m√≠tico". Gramsci v√™ em Maquiavel a capacidade de confrontar-se com as mais avan√ßadas monarquias europeias da √©poca e a busca de uma interven√ß√£o sobre a situa√ß√£o italiana que criasse, tamb√©m na It√°lia, um regime centralizado e moderno: o Pr√≠ncipe √© aquele que sabe dar-se conta da situa√ß√£o e sabe p√īr em campo todos os meios para agir sobre ela, conquistando no "povo" o necess√°rio consenso. Assim, o partido moderno deve ter, como o Pr√≠ncipe de Maquiavel, aquela capacidade de suscitar consenso e de intervir de modo revolucion√°rio na situa√ß√£o contempor√Ęnea. Este √©, precisamente, o mito do "Moderno Pr√≠ncipe". Mas Gramsci tamb√©m percebeu, no c√°rcere, a fal√™ncia do projeto de Maquiavel, acabando por tamb√©m ver nele uma imagem de sua pr√≥pria derrota.

Quais seriam as maiores diferenças entre a concepção de Estado de Gramsci em relação a Marx e Lenin?

A maior diferen√ßa est√° no fato de que, em seu pensamento mais maduro, Gramsci parece indicar a imagem de um Estado muito articulado, cuja estrutura n√£o deve apoiar-se sobre a ditadura do proletariado, mas sobre a capacidade do proletariado de ser "hegem√īnico", de impor o desenvolvimento revolucion√°rio atrav√©s do consenso e da alian√ßa com as classes intermedi√°rias.

Togliatti afirmou que Gramsci era o primeiro bolchevique italiano, o primeiro leninista do país. De que modo a concepção gramsciana de "Moderno Príncipe" influencia os atuais partidos de esquerda na Itália?

Bolchevique nos anos da revolução soviética e naqueles da fundação do Partido Comunista Italiano, Gramsci se afastou do bolchevismo no pensamento mais maduro dos Cadernos do cárcere, pensamento que também é animado por uma forte contraditoriedade e por uma grande tensão dramática. Quanto à concepção do "Moderno Príncipe", os atuais partidos de esquerda, também aqueles que ainda pretendem ser "comunistas", estão, com efeito, muito distantes disto. Na realidade, o atual "Moderno Príncipe" não é mais um partido ou o partido, mas é a televisão.

Para Lenin, os sovietes são órgãos do governo para os trabalhadores, os quais são conduzidos pelo estrato de vanguarda do proletariado e não pelas massas trabalhadoras. De que modo esta situação se apresentou na Itália? Houve na Itália uma revolução cultural do ponto de vista gramsciano?

Parece-me que, na política italiana, Gramsci tenha sido usado como modelo polêmico e lhe tenham sido atribuídos os pontos de vista mais diversos e até mesmo opostos. Sobretudo nos anos 1950 e nos primeiros anos 1960, o Partido Comunista procurou construir um modelo gramsciano, procurando impor uma "hegemonia" cultural própria, até mesmo por causa da inteligência, da rica cultura dos seus dirigentes, mas que atuou apenas em parte sobre as massas trabalhadoras e foi totalmente eliminado pelo domínio da mídia, da cultura da aparência, da publicidade, do espetáculo.

Poderia dar detalhes do contexto no qual emergem e o que eram as Comiss√Ķes Internas, consideradas por Gramsci como embri√Ķes de sovietes?

Em meio aos conflitos econ√īmicos e sociais da It√°lia sa√≠da da Primeira Guerra Mundial, no contexto muito vivaz e vital da Turim oper√°ria, os conselhos de f√°brica foram uma grande tentativa de gest√£o direta da f√°brica por parte dos oper√°rios (que o turinense Gobetti¬† apreciava precisamente a partir de um ponto de vista "liberal"): certamente havia muitas semelhan√ßas com os sovietes, mas eles emergiam num horizonte cultural, econ√īmico e social muito diverso.

Gramsci teve influência na literatura italiana? De que forma?

A influência foi importante do ponto de vista da crítica e da teoria literária, e, sobretudo, da linguística. Um eco da reflexão de Gramsci é sentido provavelmente naquelas experiências que confrontaram a língua nacional com os diversos dialetos, que deram atenção aos encontros e conflitos entre a língua literária e a expressividade das línguas regionais (de Pasolini a Meneghello). No famoso livro de Pasolini, Le ceneri di Gramsci, há uma referência a um modelo heroico, à perspectiva histórica e política e ao empenho por uma nova humanidade que Gramsci representa, mas não se pode falar de um verdadeiro influxo de Gramsci. Sobre narradores e poetas a influência de Gramsci foi somente indireta.



Fonte: IHU On-Line & Gramsci e o Brasil.

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