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Salve Geral e 9mm: o Outro somos nós

Luiz Eduardo Soares - Novembro 2009
 

Em Salve Geral, L√ļcia ajeita os cabelos diante do espelho, enquanto espera ser atendida pela propriet√°ria do sal√£o de beleza: Ruiva, advogada cafajeste, c√ļmplice dos criminosos, que se disp√īs a ajudar seu filho. Atr√°s do espelho falso, Ruiva a observa. Ela √© a ant√≠poda de L√ļcia, recatada m√£e de fam√≠lia, vi√ļva devotada ao filho, levado √† pris√£o quase inadvertidamente, como "o estrangeiro" de Camus. L√ļcia e Ruiva, a m√£e apol√≠nea e a m√£e dionis√≠aca, miram-se na imagem invertida de si mesmas. Est√£o condenadas a tornarem-se a outra. A protetora, que encarna o modelo da m√£e idealizada, sacrifica-se, vendendo o piano, instrumento de sua realiza√ß√£o pessoal¬†- profissional e narc√≠sica. Sacrifica-se de novo pelo filho, aproximando-se do PCC, e acaba participando do c√≠rculo de reciprocidade entre presos e seus comparsas libertos, intermediando rela√ß√Ķes perigosas. Finalmente, para redimir o filho e libert√°-lo (√Čdipo √†s avessas), adota nova linguagem corporal e se entrega apaixonadamente ao Outro, ao homem que re√ļne em si todos os signos da alteridade: um dos l√≠deres presos da fac√ß√£o criminosa.

A travessia conduz L√ļcia √† posi√ß√£o de Ruiva. Fragilizada, vulner√°vel, L√ļcia termina, involuntariamente, assumindo o lugar de quem mata. A maldi√ß√£o do espelho cumpre-se. A cena que sintetiza Salve Geral antecipa seu desfecho. O lugar da vulnerabilidade passa a ser ocupado por Ruiva. A metamorfose de L√ļcia liberta o filho, mas, em certo sentido, tamb√©m a liberta da camisa de for√ßa do arqu√©tipo (sociocultural e psicol√≥gico) da m√£e pura e piedosa, que sacrifica pelo filho o pr√≥prio desejo. Essa liberdade, mesmo prec√°ria, depende da visita ao inferno. L√ļcia liberta-se de si e renuncia ao para√≠so artificial de uma vida de tempos mortos e pian√≠ssimos. Ela adere ao pr√≥prio desejo e devolve ao filho a liberdade - ainda que desidealizada, maculada com sangue.

O filme de S√©rgio Rezende submete a viol√™ncia ao jogo de espelhos e substitui as posturas manique√≠stas e simplificadoras por uma inquietante ambiguidade, muito mais verdadeira do que as f√°bulas do senso comum. De que lado est√£o, afinal, os mocinhos? O filme derrota esse vocabul√°rio empobrecedor e essa interpreta√ß√£o unilateral. A janela que se abre sobre os fen√īmenos da viol√™ncia √© especular. Quem olhar bem para si encontrar√° o outro indesej√°vel. O √≥dio ao mal corresponde √† vontade culpada de exorciz√°-lo de si mesmo. Duvidemos do discurso punitivo e vingativo.

Um quadro an√°logo nos oferece 9mm, a extraordin√°ria s√©rie produzida por Roberto D¬í√Āvila, escrita sob a coordena√ß√£o de Newton Cannito, sobretudo no epis√≥dio 13 -tamb√©m dedicado ao dia em que S√£o Paulo parou -, dirigido por Michael Ruman. Neste epis√≥dio tamb√©m est√£o contemplados os v√≠nculos familiares: a rela√ß√£o angustiada da inspetora Luisa com a filha distante (maternidade incompleta, portanto); a paternidade incompleta do inspetor Hor√°cio, cujo s√≠mbolo ostensivo √© a fome de amor de seu enteado, Gilson; a tardia descoberta do pai por parte do delegado Eduardo (paternidade incompleta); a orfandade do detetive 3P, criado pela tia, cujo primo √© irm√£o incompleto e incompleto inimigo: metade parceiro, metade seu avesso. A solid√£o do detetive Tavares, que vive a incompletude: nega sua origem para fazer-se policial e √© tra√≠do por seu grupo social de refer√™ncia.

Em diálogo cruzado com temas que aludem à crise do PCC, em 2006, e à segunda parte do livro Elite da Tropa, a trama do episódio 13 de 9mm mostra a cidade beijando a lona quando policiais, liderados pelo primo corrupto de 3P, sequestram a irmã do líder do "partido" para provocar a guerra e executar criminosos. Mas o processo sai do controle e as autoridades rendem-se à negociação.

A costurar a trama, uma crian√ßa em andrajos, ferida, terr√≠vel mediadora entre dom√≠nios da cidade. Ela perambula pelas ruas desertas como son√Ęmbulo espectral disseminando o medo, transitando entre a fantasia paranoica, a antevis√£o do futuro e a condena√ß√£o do passado. Esse personagem magn√≠fico faz o papel do coro grego: vocaliza a cidade dos invis√≠veis. Para conter a viol√™ncia foi preciso contar com um time de her√≥is demasiadamente humanos, marcados pela incompletude. S√≥ assim eles poderiam frequentar o mundo das margens, dialogar com ele e "resolver" o problema. As fronteiras terminam suprimidas, as culpas distribu√≠das com equidade, o claro escuro manique√≠sta substitu√≠do pela polifonia de responsabilidades. Em suma, leitor: voc√™ quer conhecer a viol√™ncia? Comece olhando no espelho. Do lado de l√° estar√° quem voc√™ n√£o conhece, embora √≠ntimo. Eis o recado de ambas as obras.

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Luiz Eduardo Soares é coautor de Tropa de elite e Espírito Santo.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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