Busca:     


Gramsci: uma introdução

Valentino Gerratana - 1997
Tradução: Luiz Sérgio Henriques
 

Pol√≠tico e escritor. Uma nova luz sobre sua biografia e os conte√ļdos de sua obra foi lan√ßada pelos estudos realizados nos anos mais recentes. Depois de uma juventude atormentada por doen√ßas e apertos econ√īmicos, transferiu-se em 1911 para Turim, gra√ßas a uma bolsa de estudos que lhe permitiu matricular-se na universidade, na Faculdade de Letras e Filosofia. Apaixonou-se inicialmente pelos estudos de Ling√ľ√≠stica, sob a orienta√ß√£o do glot√≥logo M. Bartoli, mas em seguida se ligou aos mais ativos movimentos liter√°rios e pol√≠ticos da capital piemontesa. Seus estudos universit√°rios, por√©m, foram retardados por freq√ľentes crises de esgotamento nervoso, e ele renunciar√° por fim a diplomar-se, para empenhar-se cada vez mais no jornalismo militante (em dezembro de 1915 come√ßou a trabalhar na reda√ß√£o turinense de Avanti!, √≥rg√£o do Partido Socialista Italiano).

Sua atividade jornal√≠stica se imp√Ķe √† aten√ß√£o geral n√£o s√≥ pela qualidade do texto mas tamb√©m pela profundidade da pesquisa cultural. Neste sentido, tornou-se exemplar a prepara√ß√£o de um n√ļmero √ļnico redigido em fevereiro de 1917 por conta da Federa√ß√£o da Juventude Socialista do Piemonte (La citt√† futura), em que ao lado de artigos originais de teoria e de propaganda socialista se alinhavam escritos de Croce, Salvemini e A. Carlini. Neste per√≠odo, a influ√™ncia de Croce e da pol√™mica antipositivista do idealismo italiano tamb√©m se mostra na avalia√ß√£o entusiasmada da Revolu√ß√£o Russa de novembro de 1917, interpretada como "revolu√ß√£o contra O Capital" (isto √©, contra a vers√£o determinista da obra de Marx). Com estas diretrizes preparou e em seguida dirigiu, no p√≥s-guerra, o peri√≥dico L¬īOrdine Nuovo, publicado entre maio de 1919 e dezembro de 1920 com o subt√≠tulo de "publica√ß√£o semanal de cultura socialista". Ligando-se ao movimento turinense dos conselhos de f√°brica, o peri√≥dico pretendia ser tanto instrumento de investiga√ß√£o cultural quanto √≥rg√£o de luta pol√≠tica. Esta experi√™ncia se situava, numa perspectiva revolucion√°ria, √† esquerda do movimento socialista da √©poca, mas em conformidade com outros fermentos da cultura italiana do per√≠odo, como os que se referiam ao neoliberalismo de P. Gobetti, que de fato julgou positivamente a obra do grupo.

Em 1921 participou do Congresso de Livorno, que assinalou a cis√£o do Partido Socialista e a constitui√ß√£o do Partido Comunista. Ainda em Turim, dirigiu o √≥rg√£o do novo partido, L¬īOrdine Nuovo, que se tornou um cotidiano (no qual tamb√©m colaborou Gobetti, como cr√≠tico teatral). Todavia, nos primeiros anos do novo partido sua atividade foi condicionada pela dire√ß√£o de A. Bordiga, que, tendo organizado uma fac√ß√£o nacional antes da cis√£o, havia obtido uma posi√ß√£o de destaque, influenciando tamb√©m grande parte do pr√≥prio grupo turinense de L¬īOrdine Nuovo.

Neste per√≠odo, em maio de 1922, antes do golpe de Estado fascista, partiu para Moscou, onde ficou at√© novembro de 1923 como representante do partido italiano no comit√™ executivo da Internacional Comunista. Em seguida se dirigiu a Viena, para preparar uma nova s√©rie de L¬īOrdine Nuovo, que come√ßou a sair quinzenalmente a partir de primeiro de mar√ßo de 1924. Pouco depois foi eleito para o Parlamento e p√īde voltar √† It√°lia, empenhando-se na luta contra o fascismo e, dentro do partido, na a√ß√£o organizativa necess√°ria para impor uma linha pol√≠tica diversa da bordiguiana, que, por seu extremismo, havia entrado em rota de colis√£o com as posi√ß√Ķes prevalecentes na Internacional Comunista.

A linha de G., que reuniu em torno de si um novo grupo dirigente "centrista", prevaleceu a seguir no III Congresso do Partido Comunista da It√°lia, realizado em Lyon, em janeiro de 1926. Alguns meses depois, por√©m, suas rela√ß√Ķes com a Internacional Comunista sofreram um primeiro abalo, com sua iniciativa de escrever uma alarmada carta ao comit√™ central do Partido Bolchevique em raz√£o das divis√Ķes internas daquele partido. Mesmo criticando a oposi√ß√£o, a carta tamb√©m trazia reservas sobre os m√©todos da maioria (Stalin-Bukharin), e por este motivo Togliatti, ent√£o representante em Moscou dos comunistas italianos, considerou oportuno n√£o entreg√°-la oficialmente. Da√≠ nasceu uma viva pol√™mica entre G. e Togliatti, relevante sobretudo pela insist√™ncia por parte do primeiro na necessidade de "apelar √† consci√™ncia pol√≠tica dos companheiros russos e indicar energicamente os perigos e as fraquezas que suas atitudes estavam por determinar".

A precipita√ß√£o dos eventos na It√°lia o afastou, no entanto, desta pol√™mica: em 8 de novembro de 1926, depois das "medidas de exce√ß√£o" do governo fascista contra os oposicionistas, G. foi detido apesar da imunidade parlamentar e enviado, primeiramente, ao confinamento em Ustica e, depois, ao c√°rcere de Mil√£o, para ser submetido, junto com outros dirigentes comunistas, ao Tribunal Especial para a Defesa do Estado. No julgamento, realizado em Roma entre maio e junho de 1928, foi condenado a 20 anos de reclus√£o. Destinado, para cumprir a pena, √† penitenci√°ria de Turi (Bari), a√≠ ficou at√© dezembro de 1933, quando por graves motivos de sa√ļde foi transferido, primeiro, para a enfermaria do c√°rcere de Civitavecchia e, depois, sempre na condi√ß√£o de preso, para uma cl√≠nica privada de Formia. S√≥ em outubro de 1934 foi posto em liberdade condicional, mas permaneceu na mesma cl√≠nica de Formia, n√£o tendo condi√ß√Ķes de retomar a atividade normal em raz√£o da sa√ļde comprometida. Morreu, enfim, na cl√≠nica Quisisana, de Roma, para onde fora transferido sob vigil√Ęncia desde a cl√≠nica de Formia.

Sua vida no c√°rcere tamb√©m foi tornada amarga pelas dif√≠ceis rela√ß√Ķes estabelecidas com o partido que havia dirigido antes da pris√£o. Em desacordo com a linha pol√≠tica adotada no fim de 1929 sob press√£o do Komintern, ent√£o em luta n√£o s√≥ com o fascismo mas tamb√©m com a social-democracia (definida como "social-fascismo"), se via em aberto conflito com a maioria dos outros comunistas presos em Turi, e isto o havia induzido a fazer de seu isolamento a forma exclusiva da pr√≥pria exist√™ncia. Explica-se assim por que sua situa√ß√£o n√£o tenha sido ent√£o discutida nos √≥rg√£os dirigentes ativos no ex√≠lio, com os quais suas rela√ß√Ķes foram sempre indiretas (com a media√ß√£o do amigo economista P. Sraffa, que trabalhava em Cambridge). Todavia, depois de 1934, com o abandono da propaganda sobre o "social-fascismo" e o predom√≠nio da pol√≠tica de unidade antifascista, foram intensificadas as campanhas internacionais de imprensa para pedir sua liberta√ß√£o.

√Ä parte os reconhecimentos provenientes dos contempor√Ęneos no curso de sua atividade (Gobetti, Prezzolini, Dorso), sua fama est√° ligada sobretudo √† publica√ß√£o, no p√≥s-guerra, dos escritos p√≥stumos. Em 1947, a primeira edi√ß√£o das Cartas do c√°rcere (uma edi√ß√£o nova e mais ampla foi publicada em 1965) teve uma enorme repercuss√£o nos ambientes culturais mais diversos. Seguiram-se os volumes extra√≠dos dos Cadernos do c√°rcere, na edi√ß√£o tem√°tica: O materialismo hist√≥rico e a filosofia de Benedetto Croce (1948), Os intelectuais e a organiza√ß√£o da cultura (1949), O Risorgimento (1949), Notas sobre Maquiavel, a pol√≠tica e o Estato moderno (1949), Literatura e vida nacional (1950), Passado e presente (1951). Em v√°rios volumes foram depois recolhidos os escritos jornal√≠sticos do per√≠odo pr√©-c√°rcere. A ordem sistem√°tica escolhida na primeira edi√ß√£o dos Cadernos, com o agrupamento editorial das notas gramscianas por argumentos e temas homog√™neos, tornava mais imediatamente acess√≠veis os conte√ļdos da obra, mas n√£o revelava seus nexos internos e o fio condutor seguido pelo autor em seu trabalho.

Esta foi, no entanto, a tarefa que se prop√īs a edi√ß√£o cr√≠tica dos Cadernos do c√°rcere, publicada em quatro volumes em 1975 sob os cuidados de V. Gerratana, segundo a ordem dos manuscritos integrais assim como foram deixados pelo autor, mas com um amplo aparato de notas e √≠ndices e com o cotejo das fontes utilizadas. Assim foi poss√≠vel seguir o ritmo de desenvolvimento da investiga√ß√£o gramsciana atrav√©s da primeira reda√ß√£o de notas registradas em cadernos mistos, depois retomadas, e em alguns casos desenvolvidas na segunda reda√ß√£o dos cadernos "especiais", a partir dos quais o autor se propunha compor ensaios independentes relacionados entre si, mas n√£o um trabalho org√Ęnico de conjunto (como parecia sugerir a primeira edi√ß√£o tem√°tica).

Ponto de partida da investiga√ß√£o √© a ordem de id√©ias esbo√ßadas num ensaio sobre a quest√£o meridional escrito antes da pris√£o, com a an√°lise da rela√ß√£o cidade/campo e das alian√ßas de classe na sociedade italiana das primeiras d√©cadas do s√©culo. A an√°lise se amplia e se aprofunda no trabalho dos Cadernos com o estudo da fun√ß√£o dos intelectuais na hist√≥ria da It√°lia. √Č uma pesquisa complexa e original, porque a no√ß√£o de "intelectual", em sua fun√ß√£o de co√°gulo da forma√ß√£o de todo bloco hist√≥rico, √© ampliada al√©m dos limites tradicionais, numa vis√£o que estende o conceito mesmo de Estado, entendido n√£o mais s√≥ como "sociedade pol√≠tica", √≥rg√£o de coer√ß√£o jur√≠dica, mas como entrela√ßamento de sociedade pol√≠tica e "sociedade civil", em que a hegemonia de um grupo social se exerce atrav√©s de organiza√ß√Ķes privadas, como Igreja, sindicatos, escolas e outros instrumentos de dire√ß√£o cultural.

Esta estrutura te√≥rica, que tem no centro o conceito de "hegemonia", leva tamb√©m a uma nova interpreta√ß√£o da queda das comunas medievais e de sua incapacidade de superar a fase econ√īmico-corporativa do Estado, em raz√£o do car√°ter cosmopolita dos intelectuais italianos e da aus√™ncia, neles, de uma fun√ß√£o nacional-popular. No Estado moderno, ao contr√°rio, o exerc√≠cio da hegemonia permite √†s classes dominantes obter o consenso das classes subalternas, seja com a energia das revolu√ß√Ķes de tipo jacobino, seja atrav√©s de diferentes formas de "revolu√ß√£o passiva": com este termo, tomado de V. Cuoco, √© indicado um processo de revolu√ß√£o-restaura√ß√£o ou de "revolu√ß√£o sem revolu√ß√£o", como aquele ilustrado na hist√≥ria italiana pelo Risorgimento, em que os moderados conseguem exercer sua hegemonia sobre o Partido de A√ß√£o.

Nesta an√°lise, tamb√©m o fascismo √© considerado uma forma particular de revolu√ß√£o passiva; o fascismo visto n√£o s√≥ em seus aspectos repressivos mas tamb√©m em seus esfor√ßos econ√īmico-sociais de moderniza√ß√£o em rela√ß√£o ao fen√īmeno do americanismo e do fordismo, outro veio explorado com const√Ęncia anal√≠tica nos Cadernos. Neste quadro historiogr√°fico se insere a vis√£o pol√≠tica de uma estrat√©gia revolucion√°ria fundada na passagem da "guerra de movimento" e do ataque frontal √† "guerra de posi√ß√£o" adequada √†s condi√ß√Ķes do Ocidente, em que o exerc√≠cio da hegemonia √© confiado √† conquista do consenso em todas as principais articula√ß√Ķes da sociedade civil.

Liga-se a tal estrat√©gia a reflex√£o sobre dois temas recorrentes nos Cadernos: o problema da rela√ß√£o entre Maquiavel e Marx (e surge desta reflex√£o a id√©ia de um partido como moderno Pr√≠ncipe) e a perspectiva de um desenvolvimento do marxismo como filosofia da pr√°xis em suas rela√ß√Ķes com o senso comum e com as correntes culturais do mundo moderno. A estreita conex√£o destes temas se mostra ainda mais evidente na sucess√£o dos manuscritos originais tal como s√£o reproduzidos na edi√ß√£o cr√≠tica, na riqueza de suas implica√ß√Ķes e dos problemas deixados em aberto pelo pr√≥prio autor. Por isto, trata-se de temas que podiam servir de est√≠mulo para novas pesquisas e de fato foram discutidos longamente, mesmo em outros pa√≠ses.

Tradu√ß√Ķes da edi√ß√£o cr√≠tica dos Cadernos existem na Fran√ßa (Paris, Gallimard), Am√©rica Latina (M√©xico, Ediciones Era), Alemanha (Hamburgo, Argument), Estados Unidos (Columbia University Press). Um testemunho minucioso da difus√£o do pensamento de G. no mundo est√° na Bibliografia Gramsciana, organizada por J. Cammett, apresentada no Congresso Internacional de Formia em outubro de 1989; nela est√£o registrados mais de 7 mil t√≠tulos em 27 l√≠nguas.


BIBLIOGRAFIA


N. Matteucci. Antonio Gramsci e la filosofia della prassi. Milano, 1951 (1977, 2. ed.); Studi gramsciani (Atti del convegno del gennaio 1958). Roma, 1958 (1969, 2a ed.); E. Garin. "Gramsci nella cultura italiana". In: La filosofia come sapere storico. Bari-Roma, 1959 (1990, 2. ed.); R. Mondolfo. Da Ardig√≤ a Gramsci. Milano, 1962; G. Tamburrano. Antonio Gramsci. Manduria, 1963 (1977, 2. ed.); G. Fiori. Vita di Antonio Gramsci. Roma-Bari, 1966 (1989, 9. ed.); A.R. Buzzi. La th√©orie politique d¬īAntonio Gramsci. Paris-Louvain, 1967; J. Cammett. Antonio Gramsci and the origins of Italian communism. Stanford, 1967; P. Togliatti. Gramsci. Org. por E. Ragionieri. Roma, 1967; G. Galasso. Croce, Gramsci e altri storici. Milano, 1967 (2. ed. ampliada, 1977); M.A. Manacorda. Il principio educativo in Gramsci. Roma, 1970; A. Paggi. Antonio Gramsci e il moderno principe. Roma, 1970; AA.VV. Gramsci e la cultura contemporanea (Atti del Convegno internazionale di studi gramsciani, Cagliari, aprile 1967). Roma, 1967-70. 2 v.; H. Portelli. Gramsci et le bloc historique . Paris, 1972; M.L. Salvadori. Gramsci e il problema storico della democrazia. Torino, 1972; E. Garin. Intellettuali italiani del XX secolo. Roma, 1974; N. Badaloni. Il marxismo di Gramsci. Dal mito alla ricomposizione politica. Torino, 1975; Ch. Buci Glucksmann. Gramsci et l¬īEtat. Paris, 1975; G.C. Jocteau. Leggere Gramsci: Guida alle interpretazioni. Milano, 1975; P. Anderson. "The Antinomies of Antonio Gramsci". New Left Review, 100 (1977), p. 5-78; G. Bergami. Il giovane Gramsci e il marxismo (1911-1918). Milano, 1977; P. Spriano. Gramsci e Gobetti. Introduzione alla vita e alle opere. Torino, 1977; A. Lepre. Gramsci secondo Gramsci. Napoli, 1978; AA.VV. Politica e storia in Gramsci (Atti del Convegno internazionale di studi gramsciani, Firenze, dicembre 1977). V. 1: Relazioni a stampa. Roma, 1977; V. 2: Relazioni, interventi, comunicazioni. Roma, 1979; A. Del Noce. Il suicidio della rivoluzione. Milano, 1978; F. Lo Piparo. Lingua, intellettuali, egemonia in Gramsci. Roma-Bari, 1979; W.L. Adamson. Hegemony and Revolution: A study of Antonio Gramsci¬īs political and cultural theory. Berkeley, 1980; A. Showstack Sassoon. Gramsci¬īs politics. London, 1980; J.V. Femia. Gramsci¬īs political thought; hegemony, consciousness and the revolutionary process. Oxford, 1981; AA.VV. Letture di Gramsci. Org. por A. Santucci. Roma, 1986; M.A. Finocchiaro. Gramsci and the history of dialectical thought. New York, 1988; N. Bobbio. Saggi su Gramsci. Milano, 1990; G. Fiori. Gramsci Togliatti Stalin. Roma-Bari, 1991; Bibliografia gramsciana. Org. por J.M. Cammett. Roma, 1991.



Fonte: Enciclopédia Italiana.

  •