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A vida de Gramsci

Otto Maria Carpeaux - 1966
 

Antonio Gramsci é o fundador do Partido Comunista da Itália. A história das suas lutas, do seu martírio no cárcere e das vitórias póstumas do seu espírito é leitura edificante para os adeptos do credo político que foi o seu. Mas suas atividades de altiva independência em parte só agora reveladas, também o tornam caro a todos os que apreciam a heresia, the right to dissent, em suma: a liberdade. A recordação de Gramsci deve ser igualmente cara a todos os que reivindicam a verdadeira democracia, contra as hipocrisias do elitismo. Sua obra de grande intelectual - um dos maiores do século XX - inspira respeito até aos adversários do seu credo: inspirou respeito também ao intransigente Benedetto Croce que "só com reverência e com afeto" se permitiu falar desse morto, desse símbolo vivo de uma resistência inquebrantável nos cárceres mais escuros da tirania. Antonio Gramsci foi um mártir e quase um santo. Sua história é um exemplum vitae humanae.

A vida de Gramsci! Seria um livro para todos. Mas não pretendo escrevê-lo. Em parte porque minha intenção é outra; em parte porque os fatos já são bem conhecidos, de modo que basta recordá-los.

1. Antonio Gramsci nasceu em 23 de janeiro de 1891 em Ales, prov√≠ncia de Cagliari, na Ilha de Sardegna, na parte mais pobre e mais atrasada da It√°lia, filho de gente humilde ao qual s√≥ duras priva√ß√Ķes permitiram o estudo na Universidade de Turim, onde em 1915 aderiu ao socialismo, no mesmo ano em que Benito Mussolini saiu das fileiras do partido socialista para entrar nas do nacionalismo reacion√°rio e belicoso, que seria depois o ber√ßo do fascismo. Enquanto o renegado sonhava, nas trincheiras, sua futura ditadura, o jovem Gramsci organizou em 1917 a greve dos oper√°rios de Turim contra a continua√ß√£o da guerra. Restabelecida, precariamente, a paz europ√©ia, e entrando a It√°lia numa fase de graves perturba√ß√Ķes sociais, Gramsci fundou o seman√°rio Ordine Nuovo que reuniu em breve os mais avan√ßados intelectuais da pen√≠nsula. Organizou os consigli di fabbrica que, em momentos de greve, ocuparam f√°bricas e usinas, preparando-se para administr√°-los. Em abril de 1920 dirigiu a greve geral. No Congresso do Partido Socialista Italiano em Livorno, em janeiro de 1921, foi Gramsci o l√≠der da ala radical que saiu, constituindo-se como Partido Comunista Italiano. Foi o primeiro secret√°rio-geral desse partido, que o elegeu deputado e do qual fundou o √≥rg√£o jornal√≠stico, o di√°rio L¬īUnit√†. Enquanto isso, fortaleceu-se cada vez mais a ditadura fascista, que ainda tolerava a exist√™ncia do Parlamento para oferecer ao estrangeiro o espet√°culo de uma democracia simulada. Mussolini conseguiu vencer a crise mais grave do seu regime, a indigna√ß√£o moral do pa√≠s inteiro depois do assassinato de Matteoti. S√≥ ent√£o, o terrorismo iniciou, sem freios, a opress√£o totalit√°ria. Os mandatos dos deputados oposicionistas foram cassados. Perdida a imunidade parlamentar, Gramsci foi preso em 8 de novembro de 1926 e confinado na ilha de Ustica, perto de Palermo. Alguns meses depois, transportaram-no de volta, algemado, para Roma. Processo perante o Tribunal especial. O Promotor falou com franqueza: "Devemos", dizia aos ju√≠zes, "inutilizar por 20 anos esse c√©rebro perigoso": a 20 anos de reclus√£o na Penitenci√°ria de Turi, perto de Bari, foi Gramsci condenado. Submeteram-no a um regime severo, embora permitindo-lhe escrever cartas e notas, permiss√£o da qual nasceu a imponente obra desse esp√≠rito encarcerado. Mas em 1933 os sintomas da tuberculose dos ossos tornaram-se evidentes. A doen√ßa fez progressos r√°pidos. Enfim, as autoridades fascistas n√£o quiseram que o preso morresse como m√°rtir dentro dos muros do c√°rcere. Gramsci foi solto tr√™s dias antes do desenlace. Morreu em 27 de abril de 1937 numa cl√≠nica particular em Roma. Foi sepultado no Cemit√©rio dos Ingleses, √† sombra da Pir√Ęmide de Cestio, perto do t√ļmulo de Keats. Uma coroa de verdes permanentes, com fita vermelha, indica o lugar em que dormem seus pobres restos mortais.

2. Seria esta a vida de Antonio Gramsci: de um homem morto h√° 29 anos e que n√£o acreditava na ressurrei√ß√£o dos corpos. Acreditamos, por nossa vez, no preceito evang√©lico que manda deixar aos mortos o mister de enterrar os mortos. Importam os vivos. No t√ļmulo de Keats, perto daquele de Gramsci, o poeta infeliz mandara gravar as palavras: "Eis um cujo nome foi escrito na √°gua". Mas na verdade tinha escrito os versos imortais em l√≠ngua inglesa. Quando Antonio Gramsci foi, em 1937, enterrado, o que ele tinha feito e pensado tamb√©m parecia "escrito na √°gua". E hoje sua personalidade est√° mais viva que jamais e o poeta Pier Paolo Pasolini, no col√≥quio com o sepultado do Cemit√©rio dos Ingleses que abre o volume Le ceneri di Gramsci, pode acrescentar "√†s fadigas, contradi√ß√Ķes, pensamentos, atos, lutas e vit√≥rias" a homenagem de una luce poetica. A personalidade de Gramsci continua uma for√ßa viva.

Tratando-se de um discípulo de Croce - à filosofia do pensador napolitano dedicou Gramsci um volume, escrito na prisão -, temos o direito de empregar a distinção crociana entre a personalidade empírica e a personalidade "poética", isto é, que se exprime através de versos ou de pensamentos ou mesmo de ação. A personalidade "atual" de Gramsci desapareceu. Mas sua personalidade "poética", de escritor, pensador e homem de ação, continua atual e é - veremos - uma atualidade para nós e conosco. Eis por que importa a Vida de Gramsci.

Muitos estrangeiros, fora da It√°lia, j√° se admiravam do alto n√≠vel intelectual do Partido fundado por Gramsci. Intelectuais de estatura, os l√≠deres Palmiro Togliatti e Umberto Terracini. Ao PCI pertencem ou pertenceram grandes professores universit√°rios como Luigi Russo, Eugenio Garin e Natalino Sapegno, escritores como Cesare Pavese, Elio Vittorini, Alberto Moravia, Salvatore Quasimodo, Vasco Pratolini, Pier Paolo Pasolini, os cineastas Vittorio De Sica, Cesare Zavattini, Lucchino Visconti, o pintor Guttuso, o compositor Nono. A fascina√ß√£o exercida pela personalidade j√° desaparecida, pela recorda√ß√£o de Gramsci tem contribu√≠do para essa atra√ß√£o intelectual do Partido. Decisivo, por√©m, √© um fato do qual o fundador do Partido apenas participa. Durante mais de 30 anos, a filosofia de Benedetto Croce dominava espiritualmente a It√°lia, inclusive os anticrocianos que nunca conseguiram livrar-se totalmente da influ√™ncia do fil√≥sofo. Toda a vida italiana da primeira metade do s√©culo XX, a literatura, as disciplinas hist√≥ricas e cient√≠ficas, o pensamento pol√≠tico e econ√īmico estavam e est√£o imbu√≠dos de esp√≠rito filos√≥fico. Um antimarxista italiano n√£o √© ou n√£o precisa ser um propagandista vulgar, mas √© ou pode ser um crociano. Um marxista italiano √©, em regra, um ex-crociano. Antonio Gramsci tamb√©m foi ex-crociano e essa sua forma√ß√£o filos√≥fica abriu-lhe os olhos para interpreta√ß√Ķes erradas, porque pouco filos√≥ficas, do marxismo.

Como secretário-geral do Partido fundado por ele, Gramsci teve de combater radicalismos ("a doença infantil do radicalismo") e a tentação contrária de acomodação reformista. Enfim, a vitória total da ditadura fascista acabou com os adversários de Gramsci dentro do Partido: tornando impossível a revolta armada exigida pelos radicais e recusando a adesão dos reformistas. Gramsci já estava na Penitenciária de Turi - e esse contraste, entre o ditador vitorioso e soberbo e o preso reduzido à impotência e o silêncio - é a primeira vez que a atualidade de Gramsci, hic et nunc, aqui e agora, nos toca vivamente.

Pois qual tinha sido o "crime" que levara Gramsci para o c√°rcere? N√£o penso em pintar-lhe o retrato como de um anjo inocente, condenado sem culpa nenhuma. Foi ele homem de a√ß√£o revolucion√°ria, disposto a subverter pela for√ßa e pela viol√™ncia a ordem estabelecida. Mas apenas estava disposto para tanto, sem chegar a realizar seus projetos, ao passo que o ditador fascista tinha realizado a subvers√£o, colocando-se a si pr√≥prio acima de todas as leis humanas e divinas e atribuindo-se o direito de punir com requintes de crueldade, e inapelavelmente, o crime pol√≠tico que ele pr√≥prio perpetrou. Alega-se salvar a democracia ou a civiliza√ß√£o ocidental, destruindo-se a democracia e violando-se a civiliza√ß√£o. Compreendemos, hic et nunc, aqui e agora, a situa√ß√£o de Mussolini na ditadura e a de Gramsci na pris√£o. √Č uma atualidade que continua e percebemos que Gramsci, embora postumamente, venceu.

3. Mas n√£o vamos antecipar nada. Ainda estamos em 1926: Gramsci na pris√£o, e os democratas italianos de todas as nuan√ßas perseguidos e no ostracismo. Como se comportar, nessa situa√ß√£o aparentemente sem sa√≠da? Comportavam-se como se todos estivessem, com Gramsci, na pris√£o. Esperavam um milagre: pela marcha inexor√°vel dos acontecimentos hist√≥ricos. O preso, dentro dos muros da Penitenci√°ria de Turi, sabia disso; e discordou. Reconheceu, sim, naquele fatalismo passivo uma fonte de fortalecimento moral em tempos de opress√£o. Definiu a f√© em certa razionalit√† della storia como suced√Ęneo da f√© dos crist√£os na Provid√™ncia divina. Mas rejeitou a analogia, exigindo a permanente tomada de consci√™ncia, √ļnica fonte poss√≠vel - naquelas circunst√Ęncias - do futuro ativismo revolucion√°rio.

Esse ativismo é bem marxista. Ou então, para defini-lo mais exatamente: é marxista-leninista. Mas Gramsci não encontrara os argumentos para refutar o fatalismo nem em Marx nem em Lenin. Sua doutrina da consciência como fonte de ação - que lembra, de longe, pensamentos de Lukács e Ernst Bloch - é herança do seu mestre ou ex-mestre Croce. Como discípulo do filósofo de Nápoles, exigiu Gramsci um marxismo humanista, base etica del nuovo Stato. Como discípulo de Croce, Gramsci não podia imaginar a revolução política e social sem a consideração devida dos fatores culturais. Mas esses pensamentos e raciocínios todos não seriam tipicamente revisionistas?

A cr√≠tica de Gramsci contra as falsas interpreta√ß√Ķes do marxismo, unilateralmente economicistas e mecanicistas, tamb√©m se baseia em pensamentos de Croce. Enquanto o Partido Comunista Italiano sempre, desde 1945, defendeu a ortodoxia, no sentido de Moscou, como doutrina de Gramsci, os advers√°rios do Partido nunca deixaram de focalizar aquelas diferen√ßas: o santo do comunismo italiano tamb√©m √© venerado como santo nos altares do revisionismo internacional, ao lado de Trotski, Bogdanov, Deborin, Luk√°cs, Bloch e Lefebvre. A verdade √© que nos escritos e manifesta√ß√Ķes de Gramsci se encontram trechos e frases capazes de justificar esta e aquela interpreta√ß√£o. Seriam as "contradi√ß√Ķes" √†s quais Pasolini, em Le ceneri di Gramsci, prestou a homenagem de sua luce poetica. Estou convencido que essas contradi√ß√Ķes se revelar√£o, futuramente, como elos do seu pensamento dial√©tico. Limito-me, agora, a focaliz√°-las sem tentativa nenhuma de escond√™-las.

Bem ortodoxamente exigiu Gramsci, antes de tudo, a unidade doutrin√°ria. Mas para justific√°-la apelou, mais uma vez, para Croce: como este, citou o exemplo da unidade doutrin√°ria do catolicismo. Anticlerical, como sempre foram os intelectuais italianos, Gramsci n√£o √©, no entanto, anticat√≥lico. Venera, de longe, a Igreja √† qual n√£o pertence. Pretende aproveitar a milenar experi√™ncia moral da institui√ß√£o de Roma. Exige que os comunistas preservem a disciplina intelectual e moral de um clero. √Č assim que ele entende o Partido.

O escrito básico de Gramsci, a esse respeito, é sua interpretação originalíssima de Maquiavel. O fascismo vitorioso tinha proclamado o "Duce" como reencarnação do "Príncipe"; e todo mundo, dentro e fora da Itália, tinha concordado, acostumado como se estava a ver no secretário florentino o pai do amoralismo político. Gramsci, devolvendo a Maquiavel o papel de fundador do pensamento político moderno, tinha, antes de tudo, de destruir aquela identificação. Embora reconhecendo, com Croce, o papel dos grandes espíritos individuais na História, nega a possibilidade e a necessidade de um Príncipe individual nos tempos modernos. O Príncipe de hoje é um coletivo: é o partido de vanguarda política, é o partido comunista, liderando e dirigindo o povo.

Nessa altura, Gramsci parece leninista dos mais ortodoxos. Mas leninista, sim, e n√£o stalinista. Citando trechos menos citados do pensador-revolucion√°rio russo, Gramsci rejeita ou parece rejeitar a ditadura do proletariado, admitindo apenas a hegemonia do proletariado numa fase de transi√ß√£o (ver Fabrizio Onofri, ex-membro do Comit√™ Central do PCI, em seu artigo "La via sovietica alla conquista del potere e la via italiana aperta da Gramsci", Nuovi Argomenti, 23/24, 1957). Este Gramsci √© o pai do comunismo libertario e da democracia operaia, o fundador dos consigli di fabbrica, que estavam destinados a ocupar, explorar e administrar as empresas industriais. A esse respeito √© Gramsci o precursor da organiza√ß√£o industrial hoje em vigor na Iugosl√°via, come√ßo de uma evolu√ß√£o que ainda n√£o terminou. √Č bem poss√≠vel que esse "revisionismo" de Gramsci se transforme mesmo em "ortodoxia". E o mesmo vale quanto √†s atitudes democr√°ticas de Gramsci dentro do seu partido e dentro da III Internacional de ent√£o.

A publica√ß√£o dos respectivos documentos √© de data recente. S√≥ em 1964 permitiu Togliatti a publica√ß√£o (L¬īUnit√†, 30/05/64) da carta de Gramsci, datada de 15 de outrubro de 1926, dirigida "aos camaradas russos", na qual advertiu contra a supress√£o da oposi√ß√£o trabalhista dentro do partido russo. Mas os iniciados sabiam, h√° anos, dessa atitude de Gramsci. J√° em 15 de mar√ßo de 1956 tinha Togliatti veladamente aludido a ela, acrescentando: "A procura de um caminho italiano para o socialismo foi nossa preocupa√ß√£o permanente. Creio poder afirmar que essa preocupa√ß√£o tamb√©m foi a de Gramsci, que em seus atos pol√≠ticos e essencialmente no pensamento da √ļltima parte de sua vida estava ocupado em tirar dos ensinamentos da revolu√ß√£o russa as conclus√Ķes de uma vers√£o italiana dela". Caminho italiano para o socialismo, caminho franc√™s para o socialismo, etc., etc., essas atitudes tamb√©m foram ontem "revisionistas" e passam hoje por "ortodoxas". O pensamento de Gramsci est√° hoje mais vivo que no momento da morte do seu corpo. A vida de Gramsci continua.

Gramsci como mentor do "caminho italiano para o socialismo" parece confirmar aquilo que poder√≠amos chamar de "italianismo essencial de Gramsci". Sua vida e seu pensamento s√≥ s√£o compreens√≠veis como parte de determinada fase da evolu√ß√£o pol√≠tica, social e cultural da It√°lia; suas id√©ias continuam id√©ias de Croce, embora invertendo-as; italianos s√£o todos os seus pontos de refer√™ncia, a come√ßar com Maquiavel. O italianismo de Gramsci culmina em sua cr√≠tica dos intelectuais italianos, da intelligentsia italiana, pois s√£o fen√īmenos, estes, diferentes em qualquer uma das na√ß√Ķes modernas, dependentes da hist√≥ria, da evolu√ß√£o social, da evolu√ß√£o liter√°ria e at√© da forma√ß√£o da l√≠ngua. N√£o seria poss√≠vel aplicar √† intelligentsia francesa ou russa ou espanhola as li√ß√Ķes tiradas das experi√™ncias hist√≥ricas, muito diferentes, da intelligentsia italiana. No entanto, justamente atrav√©s do italianismo fundamental de Gramsci revela-se seu universalismo.

O respectivo livro de Gramsci, Gli intellettuali e l¬īorganizzazione della cultura, censura nos intelectuais italianos o cosmopolitismo e a falta de rela√ß√Ķes com o povo. Lembra o fato de que toda a maravilhosa literatura italiana, Dante, Petrarca, Boccaccio, os humanistas, Ariosto, Tasso, Parini, Goldoni, Alfieri, Foscolo, Leopardi, Manzoni, Carducci, foi feita por uma pequena classe de letrados para ser lida por pequena classe de amadores; ainda por volta de 1880, 20 anos depois da unifica√ß√£o pol√≠tica da It√°lia pelo Risorgimento, que passava por movimento democr√°tico, 80% da na√ß√£o italiana eram de analfabetos, exclu√≠dos da pol√≠tica e da cultura do pa√≠s; e essa "desnacionaliza√ß√£o" agravou-se no s√©culo XIX pelo afrancesamento das classes cultas da pen√≠nsula.

A prop√≥sito das cr√≠ticas de Gramsci √† interpreta√ß√£o fatalista-passiva do marxismo em tempos de opress√£o e persegui√ß√£o e a prop√≥sito da resist√™ncia inquebrant√°vel de preso contra a tirania armada, tocou-nos a atualidade surpreendente e dolorosa, hic et nunc, dessa vida exemplar. N√£o √© menor a atualidade, aqui e agora, da sua cr√≠tica a uma intelligentsia cosmopolita (antes afrancesada e agora, muitas vezes, americanizada), sem rela√ß√Ķes com a maioria analfabeta de na√ß√£o. Um dos pensamentos mais italianos de Gramsci revela sua validade universal.

O pr√≥prio Gramsci indica as causas desse universalismo: pois o car√°ter cosmopolita da intelligentsia italiana √© heran√ßa do universalismo cat√≥lico medieval - Roma como Capital supranacional da Europa, do mundo de ent√£o - e do car√°ter supranacional do humanismo italiano. O catolicismo de rotina e o humanismo formalista das na√ß√Ķes da Am√©rica Latina participam da mesma heran√ßa; e por isso o pensamento especificamente italiano de Gramsci tamb√©m vale aqui e agora, assim como seu exemplo de resist√™ncia.

Na solidão do cárcere descobriu Gramsci a índole ilusória da muito exaltada "independência do intelectual" de tipo tradicionalista. Exigiu a formação de um novo tipo de intelectual, técnico e científico, capaz de organizar o trabalho e a classe que trabalha; mas, advertindo seriamente contra o especialismo e o especialista que é bárbaro em tudo fora de sua especialidade e incapaz de desempenhar verdadeira atividade dirigente, revela Gramsci novamente o humanismo crociano no fundo do seu pensamento marxista.

Enfim, a variedade das interpreta√ß√Ķes do marxismo de Gramsci baseia-se na evolu√ß√£o dial√©tica do pensamento do pr√≥prio Gramsci, no qual descobrimos v√°rias camadas: o comunismo "libert√°rio"-democr√°tico dos consigli di fabbrica, o ortodoxo "comunismo de Partido" do escrito sobre Maquiavel; e, enfim, a id√©ia revolucion√°ria de uma alian√ßa libertadora dos oper√°rios industriais do Norte da It√°lia com as massas rurais do Sul subdesenvolvido da pen√≠nsula. Essa √ļltima id√©ia parece, mais uma vez, especificamente italiana, nascida de circunst√Ęncias hist√≥ricas. No entanto, mais uma vez, o italianismo de Gramsci se revela como de validade universal.

La questione meridionale, a "quest√£o do Sul", √© o permanente problema pol√≠tico-social da It√°lia. Do pa√≠s da mais antiga civiliza√ß√£o na Europa toda, agora tamb√©m economicamente bem desenvolvido, desse pa√≠s a parte mais populosa, o Sul, continua entregue aos males do latif√ļndio feudal, do pauperismo, da mis√©ria, do analfabetismo, das supersti√ß√Ķes populares, da mortalidade infantil. N√£o √© exagero afirmar que as melhores cabe√ßas pol√≠ticas dos √ļltimos cem anos - e a It√°lia √© a terra de promiss√£o da ci√™ncia pol√≠tica - se t√™m dedicado ao trabalho de estudar as causas do problema e de propor rem√©dio da doen√ßa. Gramsci escreveu sua Questione meridionale em 1926, √†s v√©speras de ser preso pelos fascistas, completando o trabalho na pris√£o. S√≥ n√£o foi poss√≠vel a publica√ß√£o na It√°lia. Em 1930, uma revista de exilados pol√≠ticos em Paris publicou o escrito que, tratando de problema especificamente italiano, n√£o encontrou repercuss√£o na Europa e ficou praticamente despercebido, enterrado como seu autor. Mas a roda da Hist√≥ria deu uma volta: e depois da queda do fascismo, em fevereiro de 1945, a pequena obra-prima foi republicada na revista Rinascita: desde ent√£o, continua sendo guia de todos os que pretendem resolver radicalmente e para sempre a "quest√£o do Sul". Qual √© a solu√ß√£o? Muitos j√° t√™m denunciado as condi√ß√Ķes clim√°ticas e a aridez da terra. Tamb√©m denunciaram o pecado capital da democracia italiana, de ter abusado das massas humanas do Sul para, por meio de elei√ß√Ķes fraudulentas, conseguir Parlamentos d√≥ceis em Roma, que votaram tudo menos a modifica√ß√£o das condi√ß√Ķes de vida no Sul. Mas a destrui√ß√£o do regime parlamentar pelo fascismo tampouco modificou coisa alguma. E Gramsci previu bem que o restabelecimento da democracia formal (acontecido, depois, em 1945) tampouco modificaria as coisas. A chamada reforma agr√°ria, desde ent√£o empreendida, limita-se a melhorar as condi√ß√Ķes f√≠sicas, a irriga√ß√£o, o adubamento, etc., desmentindo pelo menos o fatalismo daqueles que acreditavam na inevitabilidade da mis√©ria produzida pela aridez da terra e pelo desfavor√°vel regime de chuvas. Gramsci, por√©m, responsabilizou pela questione meridionale o formalismo da democracia do Risorgimento, que deu aos sulinos o voto sem dar-lhes a terra, isto √©, a independ√™ncia econ√īmica do voto. E prop√Ķe a democratiza√ß√£o do Sul pela radical reforma agr√°ria, que as popula√ß√Ķes rurais conseguiriam pela alian√ßa com o operariado industrial nortista.

Pela terceira vez atinge-nos a atualidade do pensamento gramsciano; e seu universalismo, v√°lido para toda a gente fora da It√°lia. A primeira vez foi o exemplo da resist√™ncia contra a ditadura terrorista. A segunda vez: a aliena√ß√£o da intelligentsia e a necessidade de sua reconstru√ß√£o em bases nacionais. Agora, na terceira vez, pensamos no latif√ļndio, na mis√©ria, na democracia formal e na necessidade de uma radical reforma agr√°ria, reconhecendo: aquilo que na It√°lia √© o Sul, isto √©, exatamente, no Brasil o Nordeste.

Um dos argumentos ou pseudo-argumentos mais usados pelos advers√°rios de reformas sociais √© a alegada necessidade maior de realizar uma reforma moral da sociedade. Em vez da reforma agr√°ria levantam a falsa bandeira da luta contra a corrup√ß√£o. Depois de extirpada a corrup√ß√£o, eles realizariam o milagre de reformar tudo sem tocar no regime social vigente. Exigem, antes, a reforma moral porque a sabem invi√°vel ou porque, desprezando as possibilidades do homem, a acreditam invi√°vel. A esse pseudomoralismo op√Ķe Gramsci o exemplo da sua vida. Um exemplo irrespond√≠vel de reforma moral e verdadeira.

4. As obras escritas por Gramsci no c√°rcere s√≥ podiam ser publicadas depois de 1945. O primeiro volume que saiu compreende as 218 cartas que o preso escreveu entre 1926 e 1936 a membros de sua fam√≠lia: √† m√£e; aos filhos que viviam em Moscou com a mulher do preso, f√≠sica e mentalmente quebrada; e, sobretudo, √† cunhada Tatiana, a pessoa l√° fora no mundo que melhor o compreendeu. Escritos sob a censura das autoridades da Penitenci√°ria, as Lettere dal carcere falam pouco ou nada de pol√≠tica. Destinam-se, sobretudo, √† luta contra a solid√£o dentro das quatro paredes; √† luta contra o progressivo enfraquecimento f√≠sico, e, sobretudo, √† luta pela sobreviv√™ncia espiritual: separado dos seus para sempre, o encarcerado n√£o quer ficar esquecidos por eles. Por isso, se dirige Gramsci, nesse grande documento humano e obra-prima da literatura italiana, com prefer√™ncia a seus filhos nos quais espera sobreviver. Nessas cartas aos filhos n√£o se percebe o menor tra√ßo de sofrimento, de impaci√™ncia, mas uma maravilhosa adapta√ß√£o ao esp√≠rito infantil: no entanto, muitas vezes, as palavras t√™m duplo sentido, escondendo atr√°s dos conselhos paternais, acess√≠veis √† compreens√£o das crian√ßas, confiss√Ķes de auto-introspec√ß√£o do preso e prop√≥sitos dele para seu pr√≥prio futuro, t√£o limitado. Penosamente, o epistol√≥grafo procura reconstruir as caras, as vozes que ele j√° quase esqueceu. Lembra-se para n√£o ficar esquecido e n√£o esquecer, √© seu grande esfor√ßo. Atr√°s da fam√≠lia surgem recorda√ß√Ķes de sua pr√≥pria inf√Ęncia na Sardenha, inspiradas pelo profundo amor crist√£o desse materialista aos pobres da sua terra. O estilo rigorosamente s√≥brio das Lettere dal carcere n√£o dissimula a emo√ß√£o de quem as escreve. Pela emotividade procura Gramsci superar o intelectualismo seco que ele pr√≥prio censurara nos seus pares, nos intelectuais; e procura fortalecer-se para o trabalho intelectual em circunst√Ęncias monstruosamente dif√≠ceis.

"Eu sei", diz Gramsci, "que bater com a cabe√ßa contra o muro n√£o destr√≥i o muro, mas a cabe√ßa". N√£o desespera. Mas escreve. Escreve furiosamente, cadernos, cadernos e mais cadernos, que foram, depois de 1945, coligidos e ordenados pelos seus testamenteiros e publicados pela Editora Einaudi: O materialismo hist√≥rico e a filosofia de Benedetto Croce; o escrito sobre Maquiavel; Os intelectuais e a organiza√ß√£o da cultura; Literatura e vida nacional; um coment√°rio sobre o Canto X do Inferno de Dante; um estudo sobre Pirandello; e a vers√£o definitiva da Questione meridionale. √Č um output admir√°vel. Escrevendo e escrevendo, o mortalmente doente sempre repete em suas cartas: "Sto bene, sto bene". "Sinto-me muito bem", porque o tirano n√£o conseguiu realizar a promessa do promotor, de "inutilizar por 20 anos esse c√©rebro". A morte prematura foi a coroa do mart√≠rio. Mas a cova debaixo da campa fascista ficou vazia. O esp√≠rito ressurgiu.

"O esp√≠rito est√° disposto, mas a carne √© fraca", diz S√£o Paulo. Vida, mart√≠rio e morte de Antonio Gramsci desmentem vigorosamente esta frase, mas confirmam outras palavras do ap√≥stolo: "A f√©, o amor e a esperan√ßa, esses tr√™s ficam, mas o amor √© o maior entre eles". Grande foi, realmente, o amor de Antonio Gramsci a seu povo sofredor e maltratado. Maior foi, por√©m, em seu caso, a f√© que consegue transferir montanhas e que para Gramsci abriu, espiritualmente, os muros da pris√£o. Mas a maior das virtudes suas foi a Esperan√ßa. Pensamos: em 1926, quando Gramsci escreveu La questione meridionale, o preso j√° n√£o podia public√°-la; em 1930, quando em Paris se publicou o escrito, s√≥ poucos o leram; e em 1937, quando Gramsci morreu, seu pensamento parecia enterrado com ele na terra italiana, dominada talvez para sempre pela tirania fascista, baseada em ex√©rcito, pol√≠cia, hordas inumer√°veis de milicianos armados, justi√ßa especial, dinheiro da grande burguesia, apoio do latif√ļndio, ajuda de pot√™ncias estrangeiras e apatia do povo exausto. Mas s√≥ poucos anos depois caiu como um castelo de cartas todo esse edif√≠cio da tirania e o sintoma externo dessa queda foi, em 1945, a segunda publica√ß√£o da Questione meridionale numa revista editada na Via delle Botteghe Oscure, em pleno cora√ß√£o da Roma libertada.

Mesmo no escuro da prisão que parece perpétua e é efêmera, a esperança não morre e "é a maior das três". Eis a vida de Antonio Gramsci.



Fonte: Revista Civilização Brasileira, 7 maio 1966.

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