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8 de março, o dia triunfal de Fernando Pessoa

Jaldes Reis de Meneses - Março 2011
 

No começo do ano de 1935, próximo da data de desaparecer precocemente, encantar-se e virar estrela, com apenas um livro publicado (Mensagem), o poeta lusitano Fernando Pessoa escreveu uma famosa carta ao crítico literário Adolfo Casais Monteiro, na qual relata os acontecimentos do dia 8 de março, numa longínqua tarde de 1914, o "dia triunfal" de sua vida.

O "dia triunfal" deu-se √† maneira de um "estalo de Vieira": em um dia aparentemente banal, de repente, a partir de um transe inspirado do poeta, vieram √† vida no territ√≥rio livre da linguagem, alojados na pisque, os tr√™s heter√īnimos mais c√©lebres de sua imensa cole√ß√£o de 72 heter√īnimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e √Ālvaro de Campos.

Comemora-se no mundo inteiro, e √© feriado nacional na Irlanda, o dia 16 de junho - o Bloomsday - alusivo √†s horas de odisseia do personagem de James Joyce em Ulisses, Leopold Bloom, pelas ruas de Dublin. Por√©m, ao contr√°rio de Joyce, at√© hoje, o "dia triunfal" de Fernando Pessoa passou praticamente incolume no calend√°rio das efem√©rides. Proponho, por isso, que doravante, mesmo em concorr√™ncia com a esta√ß√£o do carnaval e o dia internacional da mulher, deva-se organizar saraus de leitura dos poemas de Fernando Pessoa e seus heter√īnimos. Procuro parceiros para tal empreendimento.

O poeta lusitano¬†√© uma daquelas unanimidades da literatura moderna. Mas ao mesmo tempo √© esfinge, cuja obra aberta de imensa riqueza liter√°ria pode ser elucidada em v√°rias vertentes. Desde a mais comum, a psicol√≥gica, alusiva √† capacidade de despersonaliza√ß√£o do autor - em seus pr√≥prios termos, a capacidade de "outrar-se" - at√© uma poss√≠vel, mais rara, leitura sistem√°tica do projeto filos√≥fico escondido nas dobras dos versos, sem esquecer, √© claro, o autor moderno ao rev√©s de Cam√Ķes, no sentido de que¬†este √ļltimo¬†cantou a gl√≥ria, e o¬†primeiro versejou em Mensagem uma esp√©cie de ode anti√©pica ao desparecimento dos tempos de gl√≥ria.

Contudo, ao cantar o fogo-f√°tuo da melancolia sem fim e o espesso nevoeiro da desencantada realidade lusitana, Fernando Pessoa n√£o estava rigorosamente abrindo sendas. Recordo-me de uma brilhante passagem de S√©rgio Buarque em Ra√≠zes do Brasil, na qual menciona que mesmo em Cam√Ķes j√° h√° um escapismo, visto que ele j√° cantava as gl√≥rias do passado recente em vez do presente.¬†No entanto,¬†isso √© assunto para outro artigo, a prop√≥sito das contradi√ß√Ķes da √©pica, pois nem em Cam√Ķes nem em Fernando Pessoa, ao contr√°rio de Virg√≠lio (poeta oficial romano nos tempos de Oct√°vio Augusto), havia, aliada √† gl√≥ria ou √† sua perda, a materialidade de um imp√©rio que dominava o mundo.

Antes de explorar as vertentes da ode anti√©pica e da despersonaliza√ß√£o psicol√≥gica, para mim, por ocasi√£o do "dia triunfal" √© mais apropriado falar do indiscut√≠vel projeto filos√≥fico de Fernando Pessoa. Fontes ancestrais de um mesmo riacho da linguagem, a principal contribui√ß√£o da poesia √† filosofia √© a cria√ß√£o de mitos individuais que logo se tornam patrim√īnio social compartilhado. Nos termos do poeta e fil√≥sofo carioca Antonio Cicero, criar mitos √© precisamente um dos √≠ndices de modernidade em poesia, pois trata-se da cria√ß√£o de um indiv√≠duo que ganha o mundo. √Č claro que, neste caso, as fronteiras entre mito, filosofia e poesia s√£o m√≥veis, vide o exemplo √≥bvio de Plat√£o: embora fosse fil√≥sofo e renegasse o papel do poeta na p√≥lis, Plat√£o foi um criador de mitos; portanto, de alguma maneira, ao criar mitos, como o de Atl√Ęntida, o continente perdido, contraditoriamente estava no campo da poesia.

Fernando Pessoa tinha muita clareza de tudo isso: ele repetia insistentemente que o mais reles poeta da prov√≠ncia tinha algo da grandeza de Homero. H√° um heter√īnimo estritamente filos√≥fico em Fernando Pessoa, Antonio Mora, junto com √Ālvaro de Campos (o poeta moderno) e Ricardo Reis (o poeta cl√°ssico), um disc√≠pulo fundamental de Alberto Caeiro (o poeta pag√£o). De alguma maneira, o paganismo espont√Ęneo de Caeiro √© repaginado em termos de filosofia de jarg√£o acad√™mico por Antonio Mora.

Nesta trama de heter√īnimos, chega-se √† concep√ß√£o desejada por Fernando Pessoa como uma utopia para o mundo. Um mundo, enfim, no qual o ser humano e a poesia se confundem, n√£o h√° divis√£o, trauma nem tormenta rom√Ęntica, embora, √© claro, √© humano, deva haver dor e melancolia. Ouro puro, √°gua l√≠mpida de riacho. O poeta liberto da aliena√ß√£o, um poeta alegre em sua discri√ß√£o e principalmente fiel ao mundo que viveu e descreve sem preocupa√ß√Ķes estritas com realismo, embora totalmente imerso na realidade.

Qual o poeta desta linhagem, senão Alberto Caiero, em sua espontaneidade? Mesmo assim, há "fingimento" em Caeiro - deslindado por Antonio Mora, por outro lado, quando também se trata, na verdade, de poetizar os fundamentos da filosofia empírica, sob o disfarce de um panteísmo espinosiano. Encerro o presente artigo, como não poderia deixar de ser, com uma mensagem enigmática: Caeiro é espontaneidade, mas também metalinguagem, filosofia da filosofia.

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Jaldes Reis de Meneses √© professor dos Programas de P√≥s-Gradua√ß√£o em Hist√≥ria e Servi√ßo Social ¬Ė UFPB.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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