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Leite derramado: ficção e história

José Antonio Segatto e Maria Célia Leonel - Abril 2011
 

Para o te√≥rico e cr√≠tico marxista da literatura, Mikhail Bakhtin (2003, p. 246, grifo do autor), os "[...] acontecimentos representados no romance devem abranger de certo modo toda a vida de uma √©poca" e nessa "capacidade de abranger o todo real est√° sua essencialidade art√≠stica" [1]. Em tal forma de representa√ß√£o, para o autor, h√° uma peculiar concatena√ß√£o, literariamente expressa, das rela√ß√Ķes temporais e espaciais - o cronotopo: "A√≠, o tempo e o espa√ßo est√£o em uma unidade indissol√ļvel tanto no enredo quanto em imagens particulares dele". Tem-se, nesse caso, n√£o "um fragmento da hist√≥ria", mas "o tempo hist√≥rico condensado no espa√ßo" (BAKHTIN, 2003, p. 253) [2]. Essas afirma√ß√Ķes fornecem subs√≠dios importantes para a an√°lise da obra Leite derramado (2009) de Chico Buarque, objeto deste trabalho.

1. Tempo e espaço da memória

Leite derramado figura, pelo menos, duas grandes √©pocas hist√≥ricas do Brasil: uma que vai do in√≠cio do s√©culo XIX at√© 1930 e outra da√≠ em diante. √Č a representa√ß√£o da saga da ascens√£o e decad√™ncia socioecon√īmica de uma fam√≠lia (Assump√ß√£o) em sincronia com a hist√≥ria brasileira, ao longo de dois s√©culos. A hist√≥ria √© relatada pelo narrador-protagonista centen√°rio, homem mediano, sem virtudes ou for√ßa - Eul√°lio Montenegro d¬íAssump√ß√£o, nascido em 1907 no Rio de Janeiro - que viveu, em sua fase adulta, o per√≠odo de decad√™ncia. Moribundo, o narrador, possivelmente, dita suas mem√≥rias, no leito de um hospital, para algu√©m (uma ou v√°rias enfermeiras) ou as narra √† filha e a outros doentes da enfermaria.

O que mais chama a aten√ß√£o no romance √© a narra√ß√£o vinculada ao protagonista a qual, na tentativa de simular a mem√≥ria de algu√©m que apresenta manifesta√ß√Ķes de dem√™ncia senil, explora as possibilidades de representa√ß√£o temporal, recompondo os fatos de maneira intermitente, imprecisa, com interpola√ß√Ķes, constituindo um vaiv√©m desordenado. A sequ√™ncia cronol√≥gica do vivido ou sucedido no trajeto da personagem-narradora √©, constantemente, interrompida pela interpola√ß√£o de eventos anteriores ou posteriores. Apesar de reconhecer que a "cabe√ßa √†s vezes fica meio embolada" ou que √© "uma tremenda barafunda", de ter a percep√ß√£o de que a mem√≥ria "√© deveras um pandem√īnio" e que √© "dado a devaneios" (BUARQUE, 2009, p. 39, 41 e 136), o protagonista considera que

[...] está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que removeu a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto (BUARQUE, 2009, p. 41) [3].

As narra√ß√Ķes repetidas de fatos visivelmente constituem maneira de garantir a veracidade do acontecido e ensejo para acrescentar-lhe detalhes, mas, ao mesmo tempo - por serem desencontradas e embaralhadas - s√£o oportunidade para modificar as lembran√ßas, oferecendo vers√Ķes, √†s vezes d√≠spares, das a√ß√Ķes e processos. Deve ser observado que, na narra√ß√£o das mem√≥rias, al√©m da simula√ß√£o de desordem, h√° a simula√ß√£o de que as mesmas s√£o apresentadas - naturalmente ou por conveni√™ncia - como seletivas, decantadas e transfiguradas, compondo a fisionomia do protagonista e criando as demais personagens. Pela habilidade com que o tempo √© estruturado no romance, a personagem ganha, por meio dele e de outras categorias narrativas, concre√ß√£o, encorpando-se gradativamente. Juntando os fragmentos da mem√≥ria, o passado vai sendo reposto e recomposto, dando ao leitor, como sugere Henry James, "a impress√£o de dura√ß√£o, de lapso e acumula√ß√£o do tempo" e a percep√ß√£o da totalidade hist√≥rico-espacial da representa√ß√£o como quer M. Bakhtin.

Elemento medular das rememora√ß√Ķes (e um de seus motivos desencadeadores fundamentais) da personagem-narradora e em torno do qual gravita boa parte de suas mem√≥rias √© a figura de Matilde, adolescente voluptuosa - casada e m√£e aos 16 anos -, cujos tra√ßos f√≠sicos e comportamentais a√ßulam a paix√£o e o ci√ļme doentio de Eul√°lio. As lembran√ßas de Matilde percorrem todo o relato, aparecendo, no mais das vezes, por meio de flashes de oito d√©cadas pregressas, com os quais o protagonista procura reconstituir - e talvez entender - a conviv√™ncia com ela.

Conhece-a na missa f√ļnebre do pai na igreja da Candel√°ria, onde a mo√ßa era congregada mariana. Retrata-a do seguinte modo: "[...] pele quase castanha, era a mais moreninha das sete irm√£s, filha de um deputado correlegion√°rio do meu pai" (p. 29-30). Percebendo a empolga√ß√£o de Eul√°lio pela jovem, a m√£e dele chega mesmo a lhe perguntar sarcasticamente se "Matilde n√£o tinha cheiro de corpo" (p. 20 e 29). A insinua√ß√£o deriva do fato de a mo√ßa ser mesti√ßa e, portanto, teria cheiro de suor de negro, sin√īnimo de trabalho manual, de servi√ßal. Tal preconceito abjeto e secular foi largamente difundido e utilizado pela elite dominante como uma das formas de diferencia√ß√£o e de discrimina√ß√£o para reproduzir privil√©gios e desigualdades. Mais tarde, o protagonista procuraria assegurar √† filha do casal - Eulalinha - que Matilde "nunca foi mulata": "Teria quando muito uma ascend√™ncia mourisca, por via de seus ancestrais ib√©ricos, talvez algum long√≠nquo sangue ind√≠gena" (p. 149).

Contrariando a m√£e, Eul√°lio insiste na rela√ß√£o amorosa e casa-se com a mo√ßa numa cerim√īnia deveras constrangedora:

Como ali√°s ningu√©m soube do casamento, a cerim√īnia no casar√£o foi discreta, n√£o imprimimos convites, os proclamas foram lavrados num desses jornais que gente de respeito n√£o l√™. A rogo de minha m√£e, o padre da Candel√°ria se abalou de sua par√≥quia, e tive a impress√£o de que ruborizou ao me ver em p√© defronte dele. Fez o serm√£o de cabe√ßa baixa, e tinha um ar mais lastimoso que nas ex√©quias do meu pai, talvez acabrunhado pelo vestido informal de Matilde, estampado com flores vermelhas (p. 72).
O brev√≠ssimo relacionamento, como ele recorda, embora tivesse bons momentos, foi marcado por infort√ļnios e ang√ļstias, suscitados pelo seu ci√ļme obviamente centrado na desconfian√ßa de infidelidade da mulher. O casamento foi ainda mais atribulado porque a conviv√™ncia mostrou-se perpassada por rela√ß√Ķes de poder e possess√£o. Os modos de portar-se de Matilde - assobiar para chamar o gar√ßom, gostar de maxixe e samba, ter um verniz cultural fosco e um franc√™s parco - deixam Eul√°lio vexado:
Política não lhe interessava, negócios, muito menos, amava fitas de caubói, mas não sustentaria uma conversação sobre literatura. Pouco sabia de ciências, geografia e história, apesar de ter estudado no Sacré-Coeur. Aos 16 anos, quando deixou o colégio para casar comigo, não tinha completado o curso ginasial. Estudara piano, como todas as meninas do seu gabarito, mas tampouco brilhava nessa matéria (p. 45).

Al√©m disso, o costume da mulher de conversar com servi√ßais, frequentar a cozinha e ali, muitas vezes, almo√ßar e jantar, provoca em Eul√°lio um "sentimento obscuro, entre a vergonha e a raiva de gostar de uma mulher que vive na cozinha" (p. 66). Para ele, aquele espa√ßo era lugar, eminentemente, de trabalho para empregados e n√£o de patr√Ķes, nascidos para serem servidos.

Um belo dia, Matilde desaparece misteriosamente, sem, ao menos, fazer as malas, deixar bilhete ou qualquer pista. Desconsolado, Eul√°lio passa o resto da vida martirizado, sem conseguir explica√ß√Ķes minimamente razo√°veis para o sumi√ßo da jovem esposa - morreu? fugiu? Os boatos multiplicam-se e, da "bab√° ao portuguesinho do armaz√©m, todas sabiam que a [...] desarvorada, tinha partido" (p. 95). O protagonista acaba tomando conhecimento de que, de fato, a mo√ßa era filha adotiva e provinha de um caso que o deputado Vital teve na Bahia.

Na verdade, as insinua√ß√Ķes da m√£e, o modo como se deu o casamento, mostram que, anteriormente, ele √© que n√£o aceitava - ou n√£o percebia - os fatos como eram, podendo-se observar, nas entrelinhas do pr√≥prio relato, sua prov√°vel - ou mesmo vis√≠vel - ingenuidade, pois era sabido que Matilde era mulata. Ali√°s, esse mesmo tra√ßo - a ingenuidade - entre outros, n√£o lhe permitiu encarar as mudan√ßas sociais e pol√≠ticas, agir em rela√ß√£o a elas, o que o impossibilitou de manter a fortuna da fam√≠lia.

Além disso, pode-se até mesmo supor que, com a paixão de Eulálio por Matilde, Chico Buarque tenha embutido, com olhar crítico, o estereótipo - criado e largamente difundido, entre outros, por Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala (1952) e introjetado no imaginário popular - da atração provocada em homens brancos, por negras e mulatas, o que seria herança cultural dos portugueses.

Como bem mostra Te√≥filo Queiroz J√ļnior (1975), o estere√≥tipo que vincula determinados tra√ßos positivos e negativos √† mulata surge em v√°rias manifesta√ß√Ķes da literatura brasileira, como em Greg√≥rio de Matos, Manuel Antonio de Almeida, Aluisio Azevedo, Jorge Amado.

Para sintetizar os dois polos da avalia√ß√£o corrente sobre a mulata, podemos dizer que, de positivo, s√£o reconhecidas suas habilidades culin√°rias, via de regra, sua higiene, sua resist√™ncia f√≠sica ao trabalho, sua sa√ļde, sua solidariedade, sua beleza perturbadora, sua sensualidade irresist√≠vel, seus artif√≠cios de sedu√ß√£o a que sabe recorrer, quando canta, dan√ßa e se enfeita. J√° a soma de seus defeitos √© constitu√≠da por sua falta de moralidade, por sua irresponsabilidade, por ela ser muito pr√≥diga sempre (QUEIROZ J√ļnior, 1975, p. 76-77).

A ideia de que a mulata possui traços favoráveis e desfavoráveis pode ser rastreada no romance de Chico Buarque: de um lado, a beleza de Matilde que desperta a paixão em Eulálio e que suscita a admiração do francês Dusboc - representante da firma com que Eulálio mantinha negócios; de outro lado, a vulgaridade que o marido acredita haver nela. Por exemplo, quando Eulálio leva Matilde para dançar, ao vestido "cinzento de gola alta" que ele sugere, a mulher prefere o "de alças, cor de laranja". Olhando seus ombros nus, Eulálio acha "que nunca a tinha visto tão bonita na vida" e menciona "suas coxas bronzeadas" (p. 64). Embora "sentada na ponta da cadeira", "ela dançava o foxtrote da cintura para baixo" (p. 65).

Com a mulher dançando maxixe com o francês - que exclama "Le maxixe! [...] é magnífico o ritmo dos negros! [...]" - o protagonista distingue "o que nele foi ensinado do que era nela natural" (p. 65). Eulálio nota também o contraponto: em Matilde, nos "movimentos de ombros e quadris, havia excesso" (p. 65-66) e julga, pela primeira vez, meio vulgar a moça com quem tinha casado (p. 66).

Abandonado, Eulálio recebe outras mulheres em seu quarto de casal no chalé de Copacabana, obrigando-as a vestirem roupas de Matilde, que continuará frequentando seus pensamentos como um fantasma sempre presente.

A postura da personagem Eul√°lio, observa Roberto Schwarz (2009, p. 6), indica que "[...] tanto o amor como o ci√ļme se alimentam da desigualdade de classe e de cor, que, segundo a ocasi√£o, funcionam como atrativo ou obje√ß√£o". E acrescenta: "A rela√ß√£o desigual, em que nome da fam√≠lia, dinheiro, preconceito de cor e classe se articulam com desejo e ci√ļme, forma um padr√£o consistente, que vira cacoete".

2. Tempos de ascens√£o

Concomitantemente √†s lembran√ßas de Matilde, as mem√≥rias esparsas de Eul√°lio reconstituem a saga familiar, da ascens√£o √† decad√™ncia. Remontam aos "ancestrais por parte da m√£e [Montenegro], com ca√ßadores de √≠ndios num ramo paulista, num outro guerreiros escoceses do cl√£ dos McKenzie" (p. 184-5). O protagonista relembra ainda que, "pelo [...] lado materno, o Rio de Janeiro parecia uma √°rvore geneal√≥gica" (p. 77-78) e que "os Montenegro possu√≠am metade do estado de Minas Gerais" (p. 59). J√° do lado paterno, as "origens mais long√≠nquas" s√£o de um "alquimista e m√©dico particular de dom Manuel I" (p. 184), no s√©culo XV. Seu trisav√ī teria chegado ao Brasil com a fam√≠lia real (1808) como "confidente de dona Maria Louca" (p. 50); o bisav√ī, traficante de escravos, "[...] foi feito bar√£o [dos Arcos] por dom Pedro I e pagava altos tributos √† coroa pelo com√©rcio de m√£o de obra de Mo√ßambique" (p. 79) [4].

O av√ī, "comensal de dom Pedro II" que chegou a trocar correspond√™ncia com a rainha Vit√≥ria (p. 51), foi "um figur√£o do imp√©rio, gr√£o-ma√ßom e abolicionista radical" (p. 15). Elaborou mesmo o projeto de cria√ß√£o da Nova Lib√©ria, que seria viabilizado em "parceria com os colonizadores ingleses", para "mandar todos os pretos brasileiros de volta para a √Āfrica"; delimitou o local (Costa do Ouro); desenhou a bandeira e encomendou o "hino oficial ao grande Carlos Gomes" (p. 51). Granjeou "[...] o apoio da Igreja, da ma√ßonaria, da imprensa, de banqueiros, de fazendeiros e do pr√≥prio imperador, a todos parecia justo que os filhos de √Āfrica pudessem retornar √†s origens, em vez de perambularem Brasil afora na mis√©ria e na ignor√Ęncia" (p. 51). O que seria um grande neg√≥cio, fracassou; at√© seus pr√≥prios escravos, "depois de alforriados, escolheram permanecer na propriedade dele." (p. 15). Mesmo com a frustra√ß√£o do empreendimento africano, o av√ī multiplicou a riqueza dos Assump√ß√£o: al√©m de uma fazenda ao p√© da serra no Rio de Janeiro, "Possu√≠a cacauais na Bahia, cafezais em S√£o Paulo, fez fortuna, morreu no ex√≠lio [...]" (p. 15).

O pai, senador conservador, "republicano de primeira hora, √≠ntimo de presidentes" (p. 52), foi influente nos c√≠rculos de poder, associado ao capital ingl√™s na concess√£o que obteve do porto de Manaus, intermedi√°rio no com√©rcio de caf√© com a Europa, al√©m de neg√≥cios (escusos) com armeiros da Fran√ßa. Assim, Eul√°lio recomp√Ķe o trajeto da ascens√£o socioecon√īmica da fam√≠lia Assump√ß√£o.

A linhagem familiar √© tamb√©m retomada historicamente por meio de um instrumento de mando, s√≠mbolo do poder de domina√ß√£o e opress√£o: o chicote. Tal objeto era guardado "na biblioteca, atr√°s da enciclop√©dia Larousse" (p. 102), am√°lgama de coa√ß√£o e ilustra√ß√£o, e o senador o levava embaixo do palet√≥ quando ia encontrar as amantes. Foi comprado pelo pai do tetrav√ī (general que o brandiu contra a Fran√ßa de Robespierre), "pr√≥spero comerciante" do Porto, para fustigar os jesu√≠tas; fora usado pelo trisav√ī para "dar li√ß√Ķes a marujo indolente" quando da vinda da corte portuguesa para o Brasil. Seu bisav√ī, legat√°rio do instrumento, "[...] quando pegava negro fuj√£o, a√ßoitava com grande estilo. O golpe mal estalava era um assobio no ar o que se ouvia"; ele "apenas riscava a carne do malandro com a ponta da correia, mas o verg√£o ficava para sempre" (p. 102).

J√° o av√ī costumava exercitar o chicote num velho escravo alforriado: "O Balbino nem era mais escravo, mas dizem que todo dia tirava a roupa e se abra√ßava a um tronco de figueira, por necessidade de apanhar no lombo. E vov√ī batia de chapa, sem mal√≠cia na m√£o, batia mais pelo estalo que pelo supl√≠cio" (p. 102). Chico Buarque elabora assim, artisticamente, por meio do romance, rela√ß√Ķes sociais de domina√ß√£o e poder, indicando similitudes com a cl√°ssica caracteriza√ß√£o de Hegel (1992, p. 126 s.) da dial√©tica do senhor e do escravo, que, no limite, pode afigurar-se como uma esp√©cie de servid√£o volunt√°ria (LA BO√ČTIE, 1982).

3. Tempos de decadência

O assassinato do pai - por motivos passionais ou a mando da oposição - marca o fim da linha ascendente da família e é também o início da decadência dos Assumpção.

A narra√ß√£o de um epis√≥dio ocorrido ap√≥s a morte do senador, quando a m√£e ainda guardava luto - um jantar para o franc√™s Dusboc - revela um fato bastante sintom√°tico da mudan√ßa da condi√ß√£o familiar. Por meio da met√°fora do borgonha estragado, o escritor aponta o decl√≠nio socioecon√īmico dos Assump√ß√£o:

[...] eu estava no jantar da minha mãe, e o mordomo me chamava com gestos agoniados. Na copa, deparei com uma dezena de garrafas de borgonha abertas, cheirando a mofo e frutas podres, e deduzi que os tintos de papai, intocados no porão, não sobreviveram ao verão carioca. Mandei buscar cervejas na Frigidaire, pois mesmo abstêmia, minha mãe não suportaria ver vinho branco em mesa de carne vermelha (p. 88).

Se n√£o bastassem a morte do pai e o casamento breve e tumultuado, os neg√≥cios passam a enfrentar todo tipo de adversidade. A crise, desencadeada com o crack da bolsa de Nova Iorque em 1929, n√£o s√≥ interrompeu as exporta√ß√Ķes de caf√© como aniquilou quase todo o esp√≥lio da fam√≠lia, "desafortunadamente aplicado no mercado de a√ß√Ķes norte-americano" (p. 59).

Eul√°lio recebera a representa√ß√£o no pa√≠s da firma Le Creusot & Cie, o que custou "[...] ao amor-pr√≥prio [da m√£e] escrever seguidas cartas √† Companhia, at√© conseguir para o filho o antigo posto do marido" (p. 85). No entanto, sem o mesmo poder de influ√™ncia e prest√≠gio do senador, o neg√≥cio de importa√ß√£o de armas pelo Estado brasileiro complica-se, pois envolvia rela√ß√Ķes de cumplicidade, patrimonialistas e clientelistas, que somente quem tinha poderes e influ√™ncias podia exercitar. Como a situa√ß√£o havia mudado, os neg√≥cios n√£o caminhavam: o "momento pol√≠tico tamb√©m era delicado, ministros vacilavam, e muitas horas amargamos em antessalas do governo, Dubosc e eu" (p. 57). Al√©m do mais, os jornais denunciavam as negociatas: "At√© O Paiz nos achincalhava em seus editoriais, charges ridicularizavam nossas pe√ßas de artilharia, apresentadas como rebotalho da Grande Guerra" (p. 132). Os concorrentes, agora, corrompiam "certos jornalistas com quem ainda ontem troc√°vamos favores" (p. 132).

Eul√°lio, apesar de come√ßar a perceber que a situa√ß√£o n√£o era a mesma e de amargar horas para desembara√ßar mercadorias na alf√Ęndega - provid√™ncia que o pai senador tomava por telefone - n√£o perde a postura presun√ßosa e mant√©m a ilus√£o de que o nome da fam√≠lia continuaria abrindo portas para facilitar os neg√≥cios, legais e/ou escusos. O Estado, para ele, deveria permanecer o locus apropriado para o tr√°fico de influ√™ncia dos poderosos; o espa√ßo p√ļblico sendo concebido como instrumento de benesses, esfera de manuten√ß√£o de regalias:

[...] eu sabia que as portas estavam apenas encostadas, meu pai passara por elas outras vezes. Por ser um jovem inexperiente [...] talvez amanh√£ me visse perdido num labirinto com setecentas portas. Mas eu n√£o tinha d√ļvida de que, para mim, a porta certa se abriria sozinha. De tr√°s dela, me chamaria pelo nome a pessoa que eu procurava. E esta anunciaria com presteza √† pessoa influente, que desceria as escadas para me buscar. E me abriria seu gabinete, onde j√° me aguardariam v√°rias chamadas telef√īnicas. E pelo telefone, poderosas pessoas me soprariam as palavras que desejavam ouvir. E de olhos fechados, eu molharia pelo caminho as m√£os que meu pai molhava. E pelo triplo do pre√ßo tratado, me comprariam os canh√Ķes, os obuses, os fuzis, as granadas e toda a muni√ß√£o que a Companhia tivesse para vender. Meu nome √© Eul√°lio d¬íAssump√ß√£o, n√£o por outro motivo a Le Creusot & Cie. me confirmou como seu representante no pa√≠s (p. 43-4).

N√£o obstante manter ilus√Ķes de que o nome e o status da fam√≠lia seriam suficientes para o gozo e a manuten√ß√£o de privil√©gios, o narrador-personagem vai tomando consci√™ncia da nova situa√ß√£o, em que as antigas influ√™ncias se esva√≠am. N√£o seria mais poss√≠vel, inclusive, o mantenimento da conduta ostentat√≥ria e perdul√°ria do pai. Os tempos eram outros. O capital da fam√≠lia no exterior estava desaparecendo, o que faz Eul√°lio lembrar o pai: "[...] n√£o consigo imagin√°-lo sem suas viagens anuais √† Europa, seu camarote, seus hot√©is, restaurantes e mulheres de primeira classe" (p. 132). Sobretudo, n√£o teriam mais lugar os antigos procedimentos de fazer pol√≠tica: nela, afirma o protagonista, "[...] a civilidade daria lugar ao cabotinismo e ao espalhafato, e tampouco vejo meu pai pedindo votos em pra√ßa p√ļblica, subindo em palanques, apertando a m√£o de populares, sorrindo para fotografias com a roupa suja de gordura" (p. 132) [5].

Sem op√ß√Ķes, resolve arrumar emprego, o que consegue prontamente, uma vaga no gabinete do sogro deputado. A m√£e, por√©m, objeta, alegando que isso seria trai√ß√£o √† mem√≥ria do pai, j√° que o deputado que fez carreira √† sombra do senador, havia passado para a oposi√ß√£o:

[...] mam√£e me prop√īs uma mesada de tr√™s contos de r√©is, mais as obras no chal√©, contanto que renunciasse √† proposta daquele traidor. Acabei levando quatro contos, e de abono o Ford usado, depois de a fazer ver que um assessor de deputado federal n√£o ganhava menos do que isso (p. 71).

Alguns anos mais tarde, com a depreciação da mesada, Eulálio volta a se interessar por um cargo no aparelho estatal e procura o pai de Matilde, agora figura com certos poderes na ditadura do Estado Novo varguista [6]. Diz terem prescrito as antigas "divergências políticas" e estar disposto a relevar os rancores (p. 191). Dirige-se com a filha ao palácio do Catete, apresenta a neta ao sogro, que desconversa, faz-se de desentendido e diz: "Ah, sim, Matilde, uma escurinha que criamos como se fosse da família, dito isso o doutor Vidal deu meia-volta para subir a escada, e um dos seus puxa-sacos me barrou o caminho" (p. 192).

Entendemos ser apropriado um pequeno par√™ntese sobre o percurso do sogro deputado, que, de fato, √© emblem√°tico. De fiel correligion√°rio do senador conservador a suspeito de seu assassinato, passando a deputado liberal e, a seguir, a adepto e figura de import√Ęncia do Estado Novo (1937-1945), a personagem Vidal - tal como √© constru√≠da pelo autor - √© o prot√≥tipo e a encarna√ß√£o de concep√ß√Ķes e pr√°ticas t√≠picas da pol√≠tica e de pol√≠ticos nativos, como o patrimonialismo, o clientelismo, a esperteza fisiol√≥gica. Herdeiro do patrim√īnio pol√≠tico do senador Assump√ß√£o, representa o per√≠odo que se abria na hist√≥ria brasileira sem modifica√ß√Ķes significativas em suas eternas formas de fazer pol√≠tica. Personifica os novos donos do poder provenientes da revolu√ß√£o de 1930, em substitui√ß√£o √† velha elite republicana ¬Ė os primeiros ocupam e a segunda desocupa o espa√ßo sociopol√≠tico. Os que entram, sem grandes transtornos e rupturas, mant√™m muito da cultura pol√≠tica pret√©rita, ainda que atualizada, conservando a esfera p√ļblica como espa√ßo de interesses privados.

Enquanto isso, na fam√≠lia Assump√ß√£o, o curso do depauperamento sociopol√≠tico √©, a partir desses anos, progressivo e acompanhado por desventuras outras, como a dissipa√ß√£o do patrim√īnio que, sem meios de reprodu√ß√£o, vai-se acabando. As adversidades da fam√≠lia, juntando-se as fra√ß√Ķes de mem√≥ria de Eul√°lio, podem ser sequenciadas.

A filha, Maria Eul√°lia, que interrompe a tradi√ß√£o de herdeiros masculinos da linhagem, casa-se com um italiano, Amerigo Palumba, que "enriqueceu em S√£o Paulo estripando porcos" e teve seus frigor√≠ficos incendiados por "bandas antifascistas" (p. 37). Ap√≥s a guerra, foi viver na capital como novo rico e de modo ostentat√≥rio, at√© que, diz o sogro, "me deu o bote e sumiu". Come√ßaram a chegar "[...] as faturas, as presta√ß√Ķes do convers√≠vel, da companhia de navega√ß√£o, do antiqu√°rio, de todo lado explodiam ap√≥lices, hipotecas, papagaios [...]" (p. 37); al√©m disso, o genro sacrificou joias da fam√≠lia e o casar√£o do Botafogo. Para piorar ainda mais a situa√ß√£o, a fazenda do p√© da serra √© desapropriada em 1947 para a constru√ß√£o de uma estrada, sem nunca a fam√≠lia receber indeniza√ß√£o.

Do casamento de Maria Eulália com Palumba resultou um neto "que cresceu rebelde com toda razão", perfeitamente condizente com o ditado popular: "pai rico, filho nobre, neto pobre" (p. 38). O neto pobre adere ao comunismo "de linha chinesa", é preso pela ditadura, engravida "outra comunista, que teve um filho na cadeia e na cadeia morreu" (p. 38). O bisneto que, com o tempo, "começou a pretejar" (p. 148), tem um filho com a neta da irmã caçula da bisavó e é morto num quarto de motel por "uma quarentona jeitosa num carro de luxo" (p. 152).

Por fim, o tataraneto, com tino comercial, √© bem sucedido economicamente e paga para o protagonista o plano de sa√ļde do hospital em que est√° internado. Seus neg√≥cios s√£o ligados ao com√©rcio de entorpecentes; o narrador comenta sobre esse ponto: "[..] acho que outro dia o vi com a namoradinha nessa televis√£o, os dois algemados num aeroporto, escondendo a cara" (p. 120). Algum tempo antes, o tataraneto e a namorada oriental estiveram com Eul√°lio na comemora√ß√£o de seu centen√°rio. O tataraneto vende o apartamento (onde o protagonista e a filha residiam) para um pastor, que, de favor, aloja pai e filha numa casa de um s√≥ c√īmodo junto a sua igreja na periferia na periferia. Sem nada de seu, "at√© o jazigo da fam√≠lia ela [Maria Eul√°lia] passou nos cobres" (p. 120), o velho Eul√°lio espera pela morte. Riqueza, poder, privil√©gios, status, luxo n√£o s√£o mais que reminisc√™ncias remotas.

4. O ocaso de uma linhagem

Seria o fim da linha dos Assump√ß√£o, sem que o protagonista perdesse, por√©m, a pose de classe. Embora reconhe√ßa ser agora "uma esc√≥ria igual a voc√™s [os que o ouvem verdadeira ou supostamente]" (p. 50) e "mesmo vivendo nas condi√ß√Ķes de um hindu sem casta" (p. 137), ele n√£o perde a linha. Ainda que morando "de favor numa casa de um s√≥ c√īmodo nos cafund√≥s" (p. 50), manteve o h√°bito de usar "pijamas sedosos com o monograma" do pai "e n√£o dispensava um roup√£o de veludo" para ir ao "banheiro com paredes chapiscadas e ch√£o de cimento" (p. 137).

Eul√°lio, mesmo arruinado, procura, o tempo todo, demarcar sua superioridade face aos subalternos, por meio da reafirma√ß√£o de valores culturais e comportamentais que garantiam a reprodu√ß√£o de privil√©gios classistas. Isso fica evidenciado no relacionamento com os empregados, tratados com menosprezo, especialmente quando negros ou mesti√ßos. Relaciona-se com eles com ar senhorial como se devessem permanecer numa situa√ß√£o de subservi√™ncia, pois, para ele, nasceram para servir; essa √© uma forma de perpetuar o padr√£o de rela√ß√£o do passado escravocrata. Em v√°rios momentos de suas mem√≥rias, o narrador deixa transparecer essa postura elitista que impregnou a classe dominante brasileira e continua embutida at√© seu √Ęmago. Numa passagem, depois de comemorar seu centen√°rio, sai √† rua e, num encontro com dois policiais negros, indaga-lhes "[...] se estavam felizes aqui ou se pretendiam voltar para a √Āfrica. Opinei que servir na pol√≠cia era um grande progresso para os negros, que ainda ontem o governo s√≥ empregava na limpeza p√ļblica" (p. 175). Em outra, faz coment√°rios sobre negros de religi√Ķes evang√©licas:

N√£o vai aqui a inten√ß√£o de ofender os mais humildes, sei que muitos de voc√™s s√£o crentes, e nada tenho contra sua religi√£o. Talvez seja at√© um avan√ßo para os negros, que ainda ontem sacrificavam animais em candombl√©, andarem agora arrumadinhos com a B√≠blia debaixo do bra√ßo. Tampouco contra a ra√ßa negra nada tenho, saibam voc√™s que meu av√ī era um pr√≥cer abolicionista, n√£o fosse ele e talvez todos a√≠ estivessem at√© hoje tomando bordoada no quengo (p. 193).

Eul√°lio externa assim - e em diversos outros trechos de sua narra√ß√£o - a conduta t√≠pica de setores decadentes de grupos de status, que procuram manter privil√©gios e prest√≠gio sociais, alicer√ßando-se no poder econ√īmico e pol√≠tico de um passado bem aventurado. Por meio do sobrenome, Assump√ß√£o, afirma e reafirma o status, como no caso em que, ap√≥s "uma desaven√ßa com um chofer de pra√ßa", "mulato suarento", diz: "eu sou bisneto do bar√£o dos Arcos" (p. 50). Em outros di√°logos que mant√©m com subalternos, procura sempre se afirmar como pertencente ao estamento dominante, proferindo senten√ßas que poderiam ser sintetizadas na tradicional express√£o: Voc√™ sabe com quem est√° falando?

Mesmo que esses valores e formas de comportamento sejam aparentes, superficiais ou simples adorno, eles tiveram, ao longo do tempo e em determinados espaços sociais, a função precípua de distinguir camadas e classes sociais, castas e estamentos, e conferir status a indivíduos, famílias e grupos dominantes, visando manter certos elementos de distinção, tratamento especial, prerrogativas e vantagens. Pode-se, no limite, dizer que as memórias do protagonista são, em geral, governadas pelo passado e/ou pela tradição, presas à nostalgia de um tempo pregresso sem volta, irreversível.

Embora mantenha a mentalidade senhorial e o orgulho aristocrata (evocando sempre os outrora tempos gloriosos), a personagem n√£o consegue dissimular sua condi√ß√£o de sujeito ap√°tico e in√ļtil que n√£o encontra, nem ao menos, sentido para a vida. Tendo sido conformista durante d√©cadas a fio, externa como, ao longo do tempo, sua personalidade foi se desagregando e sua integridade sendo minada. Observa-se, ali√°s, que n√£o s√≥ Eul√°lio √© uma personagem passiva, mas as demais como ele, s√£o est√©reis, ociosas e parasitas de uma sociedade in√≠qua ao extremo. Em contraposi√ß√£o, √© interessante assinalar que, no per√≠odo √°ureo dos Assump√ß√£o, as figuras s√£o fortes, robustas, ativas, como na representa√ß√£o que faz do tatarav√ī, do bisav√ī, do av√ī e do pai. J√° no per√≠odo de decad√™ncia, s√£o inativas, fr√°geis, in√ļteis, como o pr√≥prio Eul√°lio, a filha, o neto, o bisneto, o tataraneto.

Assim √© que Chico Buarque, por meio da figura√ß√£o art√≠stico-liter√°ria, refaz a saga hist√≥rica da decad√™ncia inevit√°vel de uma categoria social (fra√ß√£o da classe dominante), personificada na fam√≠lia Assump√ß√£o, com seus valores √©ticos e culturais, suas concep√ß√Ķes de mundo e seu comportamento - estiliza, enfim, sua dissolu√ß√£o social e moral [7]. E, ao fazer isso, coloca in√ļmeros problemas - desde humano-existenciais at√© hist√≥rico-pol√≠ticos - para a reflex√£o do leitor.

Situada, mormente, na interse√ß√£o de duas grandes √©pocas hist√≥ricas conectadas e mesmo sobrepostas na narrativa, a exposi√ß√£o das lembran√ßas de Eul√°lio perfaz um movimento conc√™ntrico, de volteio, n√£o linear. Do apogeu √† ru√≠na, da inf√Ęncia e adolesc√™ncia √† velhice, do passado ao presente, passa em revista sua hist√≥ria e a da fam√≠lia. Na narrativa, tempo e espa√ßo s√£o indissoci√°veis, condensados, em movimento; os acontecimentos abarcam um largo per√≠odo hist√≥rico, dois s√©culos - √†s vezes mais, pois o narrador refere-se mesmo, em alguns momentos, aos s√©culos XV e XVIII -, fechando-se, em geral, num espa√ßo circunscrito, o Rio de Janeiro.

O movimento circular da narrativa compreende, a partir da inf√Ęncia, a fazenda id√≠lica na "raiz da serra" com um ribeir√£o de √°guas cristalinas, passando pelo palacete do Botafogo e o chal√© de Copacabana, o apartamento ex√≠guo na Tijuca (afora quando menciona as estadas, bem como as do pai e do av√ī, em Paris e Londres), at√© terminar seus tempos no mesmo local dos prim√≥rdios, o da fazenda, agora transformado em bairro perif√©rico miser√°vel. Nele, no suposto presente da narra√ß√£o, "[...] grassavam casebres de alvenaria crua e sem telhado" e o ribeir√£o transformara-se em um "rio podre", "quase estagnado de t√£o lamacento"; sobre "os escombros da capela que o cardeal arcebispo aben√ßoou em mil oitocentos e l√° vai fuma√ßa", encontra-se a "Igreja do Terceiro Templo" (p. 177-8) e, ao lado dela, "sobre o cemit√©rio" dos antepassados, o quarto onde seriam alojados, de favor, pelo pastor.

A espacialidade da √©poca pr√≥spera e da era do decl√≠nio √© figurada exemplarmente na presen√ßa dos ancestrais na nomea√ß√£o de logradouros p√ļblicos. √Č o caso do pai que chegou a nomear uma pra√ßa arborizada no centro do Rio de Janeiro e acabou reduzido a nome de rua sem sa√≠da, "atr√°s da esta√ß√£o do metr√ī"; o av√ī "tamb√©m √© uma travessa, l√° pelos lados das docas" (p. 77).

A saga da fam√≠lia Assump√ß√£o - conforme √© reconstitu√≠da por meio de fragmentos de mem√≥ria do narrador - vai da ascens√£o no s√©culo XIX com a fortuna acumulada √† sombra do Estado e com neg√≥cios como o tr√°fico de escravos, sofre uma inflex√£o nos anos 1930, dando in√≠cio a uma curva descendente de queima do cabedal e desemboca no √ļltimo dos Assump√ß√£o, pr√≥spero negociante de entorpecentes. Desse modo, Chico Buarque, por meio da autobiografia exposta por um narrador-personagem [8] sem muitas virtudes e qualidades, refaz a saga da ascens√£o e decad√™ncia de uma fam√≠lia ilustre, que vai do tr√°fico de escravos ao tr√°fico de coca√≠na, de privil√©gios √† indig√™ncia. Essa simula√ß√£o da autobiografia pode ser vista "na perspectiva de uma refigura√ß√£o do tempo operado conjuntamente pela historia e pela fic√ß√£o" (RICOEUR, 1995, p. 174).

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José Antonio Segatto é Professor Titular do Departamento de Sociologia da FCL/UNESP/Araraquara. Maria Célia Leonel é Professora Titular do Departamento de Literatura da FCL/UNESP/Araraquara.

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Notas

[1] √Č interessante notar que tais formula√ß√Ķes de Bakhtin aproximam-se daquelas de G. Luk√°cs concebidas na mesma √©poca, guardando mesmo muitas semelhan√ßas com elas. Al√©m de contempor√Ęneas, foram elaboradas no mesmo espa√ßo hist√≥rico, a R√ļssia Sovi√©tica dos anos 1930 e imediatamente posteriores. Para efeito de compara√ß√£o, consultar escritos de Luk√°cs (1965; 1968; 2009) daqueles anos traduzidos e publicados em portugu√™s em tr√™s colet√Ęneas. Essa proximidade de concep√ß√Ķes j√° havia sido notada, por exemplo, por Reis e Lopes (1987, p. 84).

[2] Observe-se que a no√ß√£o de cronotopo para Mikhail Bakhtin resulta da unidade, mas n√£o da identidade entre tempo e espa√ßo na representa√ß√£o art√≠stica das experi√™ncias humanas e das rela√ß√Ķes sociais.

[3] A partir deste momento, serão indicadas apenas as páginas da edição do romance utilizada.

[4] Durante mais de três séculos, o tráfico de escravos foi um dos negócios mais rentáveis. Na primeira metade do século XIX, teve um impulso brutal, devido, principalmente, ao desenvolvimento da economia cafeeira no centro-sul e aos lucros potencializados. O capital acumulado com o tráfico de negros africanos está na origem de grandes fortunas da classe dominante brasileira.

[5] O narrador-personagem refere-se, nesse caso, ao tipo de pol√≠tica preponderante na Primeira Rep√ļblica (1889-1930). Nesse per√≠odo da hist√≥ria brasileira, vigorou o controle dos votos pelas oligarquias estaduais e pelo poder local ou municipal, favorecendo a fraude, a corrup√ß√£o e o voto de cabresto - isso era acentuado pelo fato de o voto ser pronunciado a descoberto e, muitas vezes, registrado a bico de pena. Um l√≠der oposicionista, Assis Brasil (apud KINZO, 1980, p. 79), chegou a afirmar √† √©poca, que "[...] a elei√ß√£o passou a ser mera formalidade. Toda gente se convenceu de que, para ser deputado, senador ou mesmo presidente da Rep√ļblica, n√£o era preciso ter obtido voto algum". Na representa√ß√£o fict√≠cia desse sistema de poder, o senador Assump√ß√£o, obviamente, n√£o precisava sujar as m√£os e muito menos expor-se no espa√ßo p√ļblico.

[6] O autor recria, nesse epis√≥dio das mem√≥rias de Eul√°lio, um fen√īmeno muito comum na hist√≥ria brasileira: o emprego p√ļblico - que oferece seguran√ßa - utilizado como uma esp√©cie de salvaguarda para os filhos da elite e/ou de grupos de influ√™ncia. O Estado √© usado, frequentemente, como provedor de cargos, sem a necessidade de m√©rito, e como garantidor de renda pelo er√°rio a ser compartilhado pelos agraciados dos que mandam. Antonio Candido (1979, p. xiii), no "Pref√°cio" a um livro de S√©rgio Miceli, diz que este mostra "[...] como do decl√≠nio social se nutriram os quadros governamentais depois de 1930, quando o abalo das estruturas tradicionais e o predom√≠nio do ritmo urbano suscitam novos tipos de clientela, patronato, depend√™ncia e concep√ß√£o de trabalho". Embora o coment√°rio do cr√≠tico se refira a casos diversos do de Eul√°lio, o romance representa o mesmo processo.

[7] A problem√°tica da decad√™ncia √© deveras frequente em nossa literatura e presente em grandes obras. Antonio Candido (1979, p. xii-xiii) assinala que sempre o "[...] intrigou o fato de um pa√≠s novo como o Brasil, e num s√©culo como o nosso, a fic√ß√£o, a poesia, o teatro produzirem a maioria das obras de valor no tema da decad√™ncia - social, familiar, pessoal. Assim vemos em Graciliano Ramos, Jos√© Lins do Rego, √Črico Ver√≠ssimo, Ciro dos Anjos, L√ļcio Cardoso, Nelson Rodrigues, Jorge Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade. Cheguei a pensar que este estigma [...] seria quase requisito para produzir obras valiosas, e que portanto os rebentos das fam√≠lias mais velhas estariam no caso em situa√ß√£o favor√°vel".

[8] O recurso à autobiografia da personagem de ficção, do qual Chico Buarque lança mão em Leite derramado, é bastante antigo e usual na literatura. Desde Goethe, passando por Dostoievski e Proust, até Svevo e Joyce e muitos outros, tem sido utilizado com grande eficiência e produzido grandes resultados. No Brasil, esse método tem sido empregado de modo eficaz e originado romances excepcionais como Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro de Machado de Assis, São Bernardo de Graciliano Ramos, Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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