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A quest√£o meridional, intelectuais e classe dirigente

Marcelo Diana - Abril 2011
 

Texto publicado um pouco antes da sua pris√£o, pela pol√≠cia fascista na It√°lia, em 1926, A quest√£o meridional de Antonio Gramsci pode ser lido como um artigo de conjuntura, escrito no calor da hora pelo autor (√† semelhan√ßa de Marx, cujo 18 de Brum√°rio assim o fora tamb√©m); por√©m, pode ser retomado, hoje, como uma an√°lise seminal de sociologia pol√≠tica que parece resistir ao quase um s√©culo do seu aparecimento [1]. Com efeito, a sociologia pol√≠tica pode ser uma outra chave de leitura para este importante texto, que n√£o pereceu ao tempo, que n√£o se perdeu no encadeamento de fatos que a an√°lise de Gramsci apresenta, e √© precisamente esta chave que nos interessar√° aqui. Com ela, Gramsci expressa, em boa conta, a import√Ęncia das massas camponesas do Sul da It√°lia nas defini√ß√Ķes de rumos e posi√ß√Ķes de um poss√≠vel¬†regime socialista na pen√≠nsula, al√©m de destacar a rela√ß√£o que os estratos intelectuais podem estabelecer com a classe dominante.

O texto de Gramsci √©, em seu primeiro sentido, uma resposta aos problemas que o partido socialista (PSI) enfrentava ao n√£o considerar, em alguma escala, a quest√£o meridional como um problema pol√≠tico e nacional da It√°lia. Seu texto inicia com uma caracteriza√ß√£o das "f√≥rmulas m√°gicas" imaginadas pelos jovens de Turim "que conhecem perfeitamente, em suas linhas gerais, o problema meridional" (GRAMSCI: 405, grifos do texto). Portanto, n√£o √© √† toa que o texto se inicia com a discuss√£o da "f√≥rmula m√°gica" que resolveria de maneira autom√°tica e instant√Ęnea a quest√£o meridional. O "perfeitamente" e as "linhas gerais" grifados pelo autor apontam especialmente para o erro de escala em que os "jovens" turinenses, dado o seu "despreparo e diletantismo superficial", teriam incorrido na avalia√ß√£o da quest√£o agr√°ria na hist√≥ria e na pol√≠tica italianas.

A "f√≥rmula m√°gica", na an√°lise de Gramsci, revela este erro de an√°lise, ao resolver, pela simples reparti√ß√£o do latif√ļndio entre os trabalhadores do campo, a a√ß√£o que deveria ser comandada a princ√≠pio pelo proletariado das f√°bricas; ao contr√°rio, para Gramsci, se houvesse uma f√≥rmula para a It√°lia, ela recairia sobre o que h√° de mais essencial na defini√ß√£o da quest√£o: a necessidade de composi√ß√£o de uma alian√ßa entre o campo e a cidade, a fim de afastar a burguesia do poder do Estado. Se os jovens turinenses estavam corretos na divis√£o do latif√ļndio entre os trabalhadores do campo, n√£o estavam, de igual modo, conscientes de que essa a√ß√£o n√£o se daria apenas enquanto comando e orienta√ß√£o da sua classe oper√°ria urbana, por√©m deveria vir acompanhada e at√© mesmo sustentada por uma alian√ßa que levasse em conta a a√ß√£o conjunta dos trabalhadores do campo. A import√Ęncia dessa alian√ßa e a guerra de posi√ß√Ķes que nela repercute constituiriam, esta sim, uma "f√≥rmula m√°gica", da qual os jovens turinenses teriam se aproximado, sem, contudo, saber ao fundo o seu sentido.

[...] o que importa observar aqui √© que o conceito fundamental dos comunistas turinenses n√£o era a ¬Ďf√≥rmula m√°gica¬í da divis√£o do latif√ļndio, mas a alian√ßa pol√≠tica entre os oper√°rios do Norte e os camponeses do Sul, com o objetivo de afastar a burguesia do poder de Estado (GRAMSCI: 407).

Sob a direção do proletariado, a revolução iniciada nas fábricas, a partir da tomada de poder dos operários, deveria ser estendida, também, até o campo, por meio não apenas de uma divisão da terra entre os trabalhadores do Sul, mas enquanto aliança operário-camponesa, que constituiria uma frente nacional dos setores "subalternos". A concepção de uma "hegemonia do proletariado" somente poderia reivindicar este título se estivesse atenta para esta específica questão de classe na Itália, para a aliança que deveria ser feita entre os seus estratos, entre este elo subalterno do campo com o operário da cidade. A questão meridional diz respeito, então, ao "sistema de alianças de classe que permita mobilizar contra o capitalismo e o Estado burguês a maioria da população trabalhadora" (GRAMSCI: 408). Este constitui, para Gramsci, o cerne da questão meridional, uma vez que a ação do proletariado de fábrica, se realizada descolada da adesão e da formação de um consenso com aquele do campo, poderia ser falha na conquista do poder e na tomada do Estado pela sua classe.

A conquista da "hegemonia prolet√°ria" deveria ser buscada n√£o apenas nos setores oper√°rios que firmam a sua luta pol√≠tica nas f√°bricas, mas tamb√©m no interior daqueles grupos que, na hist√≥ria da It√°lia, poderiam ser (e n√£o raras vezes o foram) cooptados pelo Estado e pelo poder da burguesia. Avalia Gramsci, neste sentido, que a classe dirigente n√£o governa sem o apoio dos camponeses e dos intelectuais, o que torna a conquista do Estado uma luta a ser travada n√£o apenas no interior das f√°bricas, por√©m, de igual via, nas distintas esferas da cultura e da sociedade. Ao inv√©s de desprezar e dar reduzida aten√ß√£o √†s demandas camponesas ou ao papel do intelectual na hist√≥ria italiana, a classe dirigente, composta pelo proletariado urbano, deveria considerar e granjear a ades√£o de uma maioria desses grupos para que pudesse melhor articular a sua luta contra o poder burgu√™s. O que diz Gramsci com isso, em um mesmo sentido, √© que a a√ß√£o das f√°bricas deveria ser replicada em a√ß√Ķes no campo no Sul da It√°lia e na cultura representada pelos intelectuais.

A tomada do Estado, como exemplo dessa sociologia, implicaria uma guerra de posi√ß√Ķes que envolvesse n√£o apenas Estado¬†e classe oper√°ria, mas tamb√©m os outros estratos sociais que historicamente laboraram conjuntamente com a burguesia e a classe dominante para a conserva√ß√£o do poder. Somente lidando com essa complexidade da luta social √© que o proletariado poderia se tornar a classe dirigente¬†e substituir o poder burgu√™s, ao se pensar "como oper√°rios membros de uma classe que tende a dirigir os camponeses e os intelectuais, de uma classe que s√≥ pode vencer e construir o socialismo se for ajudada e seguida pela grande maioria destes estratos sociais" (GRAMSCI: 416).

Assim o autor demonstra na sua an√°lise de conjuntura - que, n√£o obstante o afastamento do tempo, ainda guarda alguma reserva de sentido, se for do nosso interesse compreender as democracias contempor√Ęneas - que a burguesia percebeu que n√£o mais poderia governar isoladamente, por uma ditadura "exclusivista, violenta e direta" (GRAMSCI: 417). Para governar, a classe dominante deveria mudar sua estrat√©gia e governar em blocos de classes.

No novo século [Gramsci se refere aqui ao século XX], a classe dominante inaugurou uma nova política, de alianças de classe, de blocos políticos de classe, ou seja, de democracia burguesa (GRAMSCI: 417).

Destarte, acompanhando esta hist√≥ria de alian√ßas, o sindicalismo na It√°lia nasce contra o regime solit√°rio da burguesia no poder, for√ßando, no Estado, a entrada de outras demandas e estrat√©gias pol√≠ticas que n√£o fossem de interesse estritamente burgu√™s. Nessa senda aberta, por√©m, aparecem os intelectuais, estes desempenhando um importante papel na cria√ß√£o do sindicalismo italiano, atuando como intermedi√°rios sociais entre o Estado e os propriet√°rios agr√°rios. Isto daria a eles um lugar de import√Ęncia para a conquista desse mesmo Estado. De fato, os estratos intelectuais comp√Ķem um importante setor para a defini√ß√£o da guerra de posi√ß√Ķes, uma vez que ocupam a maioria dos cargos da burocracia estatal, funcionando, al√©m disso, como intermedi√°rios entre o poder estatal e os pequenos e m√©dios propriet√°rios que t√™m avers√£o ao campon√™s trabalhador, como destaca o autor na sua refinada an√°lise hist√≥rica.

Embora em sua maioria expropriados, os intelectuais na It√°lia estavam ligados aos interesses do campo, √† pol√≠tica agr√°ria e √† quest√£o da terra, ou seja, estavam, na cartografia¬†da sociedade, entre o Estado e a classe subalterna. Esta aproxima√ß√£o do poder, experimentada pelos intelectuais meridionalistas, teve, contudo, uma outra repercuss√£o: levou ao fortalecimento do poder burgu√™s, em detrimento da mobiliza√ß√£o da a√ß√£o prolet√°ria. Neste sentido, indica Gramsci, a institucionaliza√ß√£o das a√ß√Ķes oper√°rias, tivessem sido elas provenientes do campo ou das cidades, levada¬†√† frente pelo Estado, "atrav√©s da a√ß√£o dos deputados oper√°rios, atrav√©s da subordina√ß√£o do partido pol√≠tico oper√°rio √† pol√≠tica governamental", empurraria os oper√°rios-sindicalistas e os intelectuais meridionalistas a uma desagrad√°vel posi√ß√£o na ordena√ß√£o do poder (GRAMSCI: 421). Isto porque, como ressalta Gramsci, "o proletariado n√£o mais existir√° como classe independente, mas apenas como um ap√™ndice do Estado burgu√™s".

Contudo, o caminho hist√≥rico que leva das cooperativas no campo para o sindicalismo oper√°rio-burgu√™s e, por fim, deste para o corporativismo tra√ßa a perda de posi√ß√£o de vanguarda da classe oper√°ria na realiza√ß√£o do seu plano socialista, incidindo, ent√£o, novamente, em uma democracia do tipo burgu√™s, de bloco de classes, por√©m n√£o mais sociais e sim pol√≠ticas, alojadas no interior do Estado, nas institui√ß√Ķes. H√° uma grave crise de orienta√ß√£o a√≠, diria Gramsci. De fato, essa posi√ß√£o insustent√°vel do proletariado sindical √© observada por Gramsci. Na luta por uma democracia social, "o corporativismo de classe ter√° triunfado, mas o proletariado ter√° perdido sua posi√ß√£o e sua fun√ß√£o de dirigente e de guia. Ser√° visto pelas massas dos oper√°rios mais pobres como um privilegiado e, pelos camponeses, como um explorador igual √† burguesia, j√° que a burguesia - como sempre faz - apresentar√° √†s massas camponesas os n√ļcleos oper√°rios privilegiados como a √ļnica causa dos seus males e de sua mis√©ria" (GRAMSCI: 421).

Ainda na caracteriza√ß√£o do estrato intelectual meridional, Gramsci aponta para a identidade que este setor apresentava com o clero, identificado este mais como homens de neg√≥cios e usura do que religiosos ao p√© do altar. Por tr√™s elementos - quais sejam, a participa√ß√£o dos intelectuais na burocracia, a rela√ß√£o de distin√ß√£o e demagogia que estabelecem com os trabalhadores camponeses e a sua atua√ß√£o, no caso do clero, mais como burgueses do que semeadores de f√© -, Gramsci destaca a import√Ęncia desses dois estratos na defini√ß√£o da revolu√ß√£o socialista. Somente ganhando a ades√£o desse partido intelectual, que n√£o representa a grande propriedade, mas tamb√©m n√£o deixa de constantemente assentar-se na t√™nue fronteira entre a sua situa√ß√£o de cultura¬†e a situa√ß√£o do campon√™s mais subalterno, √© que a classe prolet√°ria poderia ganhar e determinar a sua posi√ß√£o na luta para o poder.

Tamb√©m os crit√©rios geogr√°fico e social determinariam alguma an√°lise a respeito dessa sociologia pol√≠tica na It√°lia. Dada a desagrega√ß√£o social que caracteriza o cen√°rio sulista, os intelectuais seriam os agentes intermedi√°rios entre o poder estatal e a propriedade agr√°ria. Convoc√°-los a uma luta comum, juntamente com os setores mais subalternos da It√°lia, consistiria em travar uma guerra de posi√ß√£o entre as classes dominante e a dominada. A import√Ęncia do estrato intelectual como partido pol√≠tico de uma elite, que sabe ser reacion√°ria quando precisa, mas tamb√©m se permite usar da pol√≠tica quando se faz necess√°rio,¬†se deve¬†ao desempenho de um papel de articula√ß√£o¬†entre um Sul desagregado politicamente e um Estado centralizado e dirigido por uma alian√ßa burgu√™s-sindical. A a√ß√£o revolucion√°ria deve incidir precisamente sobre esse n√≥ que ata as massas camponesas ao Estado - os intelectuais -, dada a sua desarticula√ß√£o como movimento pol√≠tico, de modo a constituir, naqueles, figura de relev√Ęncia e peso na arma√ß√£o poss√≠vel de um novo elo de classes.

"Intelectuais proletarizados", portanto, seriam indispens√°veis para combater a hegemonia da classe dominante no poder. Contudo, com olhar cr√≠tico, Gramsci adverte que "os intelectuais se desenvolvem lentamente [...] por causa de sua pr√≥pria natureza e de sua fun√ß√£o hist√≥rica". O problema, desse modo, continua exposto: considerando o fato de que a forma√ß√£o de um partido de ideias n√£o se faz imediatamente, ou seja, n√£o se constr√≥i da noite para o dia, mas, antes, parece estar dilatada num tempo lento de organiza√ß√£o de classe e de proje√ß√£o da vontade pol√≠tica, como fazer com que a classe prolet√°ria, ainda assim, tivesse condi√ß√Ķes de lutar pela conquista de poder, sem abrir m√£o desse estrato intelectual e do campo que a ele se ligaria? A este respeito, Gramsci n√£o desconsidera os intelectuais (como Piero Gobetti), que, apesar de n√£o terem lutado diretamente em nome da classe prolet√°ria, prestavam a ela um importante servi√ßo, j√° que, como continua o autor:

[...] √© tamb√©m importante e √ļtil que, na massa dos intelectuais, ocorra uma fratura de car√°ter org√Ęnico, historicamente caracterizada; ou seja, que se crie, como forma√ß√£o de massa, uma tend√™ncia de esquerda, no significado moderno da palavra, isto √©, uma tend√™ncia orientada para o proletariado revolucion√°rio. A alian√ßa entre proletariado e massas camponesas exige esta forma√ß√£o" (GRAMSCI: 434).

Na sua an√°lise da quest√£o meridional, o partido prolet√°rio italiano deveria, portanto, reconhecer na alian√ßa oper√°rio-camponesa um agente de luta e desarticula√ß√£o do intelectual daqueles seus compromissos reacion√°rios de classe, conquistando-o em favor de uma outra forma de organiza√ß√£o da classe dirigente no poder. O √™xito da a√ß√£o revolucion√°ria estaria, assim, reservado para a "capacidade de desagregar o bloco intelectual que √© a armadura - flex√≠vel, por√©m extraordinariamente resistente - do bloco agr√°rio" (GRAMSCI: 435). Sem sombra de d√ļvidas, A quest√£o meridional √© a√≠ tornada, na sua inten√ß√£o mais original sobre a sociologia de classes, um artigo presente, ainda que p√≥stumo √† sobreviv√™ncia do seu autor.

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Marcelo Diana é doutorando em Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (antigo Iuperj).

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Notas

[1] GRAMSCI, Antonio. [1926] (2004). "A questão meridional". In: Id. Escritos Políticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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