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A esquerda democrática e a revolução cubana

F. de La Cuadra - Junho 2011
 

Claudia Hilb. Silêncio, Cuba. A esquerda democrática diante do regime da Revolução Cubana. Trad. Miriam Xavier. São Paulo: Paz e Terra, 2010. 111p.

Quando os tanques soviéticos invadiram Praga e o socialismo real se apresentava aos nossos olhos - junto com o fascismo - como um grande pesadelo do século XX, a revolução cubana surgia como uma experiência inédita, diáfana e enaltecedora. E, inclusive, os fuzilamentos que se seguiram ao triunfo de Santa Clara foram considerados consequências inevitáveis das dores do parto.

Mas como fazer a critica de uma revolu√ß√£o que gerou tanta esperan√ßa na regi√£o e no mundo? Como questionar um processo que se enraizava nos valores mais elevados da humanidade, o fim da explora√ß√£o dos mais desprovidos, dos mais vulner√°veis? Como abordar as pr√°ticas autorit√°rias do regime cubano, sem fazer causa comum com os setores mais "reacion√°rios"? Estas e outras perguntas de similar teor acabaram por imunizar Cuba da cr√≠tica da pr√≥pria esquerda democr√°tica. Por isso, j√° passadas mais de cinco d√©cadas desde aquele 1¬ļ. de janeiro de 1959, ainda existe um sil√™ncio c√ļmplice sobre os erros de rumo de uma¬†revolu√ß√£o que continua assombrando os intelectuais progressistas e a esquerda assumidamente democr√°tica.

√Č precisamente esse sil√™ncio inc√īmodo que estimula a reflex√£o de Claudia Hilb. Esta soci√≥loga e cientista pol√≠tica argentina, militante da esquerda radical, teve de sair para o ex√≠lio depois do golpe de 1976. Em Paris, realizou estudos de p√≥s-gradua√ß√£o e frequentou os semin√°rios de Claude Lefort, sua principal fonte de inspira√ß√£o intelectual. Colocada diante da pergunta sobre a raz√£o pela qual a esquerda democr√°tica tem guardado um consp√≠cuo sil√™ncio frente aos tra√ßos autorit√°rios do regime cubano, ela tenta responder atrav√©s da seguinte hip√≥tese: a recusa desta esquerda a se pronunciar a este respeito se deve, em grande parte, ao fato de que reconhece o esfor√ßo realizado pelo regime em termos de justi√ßa social, ou seja, este setor da esquerda reconhece "algumas realiza√ß√Ķes indiscut√≠veis do regime em quest√£o, particularmente o fato de igualar as condi√ß√Ķes sociais e universalizar o acesso √† sa√ļde e √† educa√ß√£o" (Hilb, 2010, p. 14).

Mas isso √© suficiente para legitimar um regime pol√≠tico que diz lutar por um mundo mais justo, livre e solid√°rio? Certamente n√£o. Claudia Hilb decomp√Ķe os meandros deste dilema e conclui com a certeza inquietante de que os esfor√ßos pela iguala√ß√£o radical das condi√ß√Ķes de vida do povo cubano, na primeira d√©cada da revolu√ß√£o, foram um fen√īmeno entrela√ßado com o processo de concentra√ß√£o total do poder nas m√£os de Fidel Castro.

Ainda mais, no percurso do texto a autora demonstra consistentemente como uma voca√ß√£o de domina√ß√£o total, sustentada na vontade do l√≠der m√°ximo, transformou o entusiasmo e a virtude revolucion√°ria em obedi√™ncia acr√≠tica. De modo an√°logo, a gesta revolucion√°ria de inspira√ß√£o emancipadora produziu, atrav√©s do medo, um comportamento oportunista e paralisador dos mesmos sujeitos ativos da revolu√ß√£o. Ela argumenta que o processo de concentra√ß√£o de poder nas m√£os do Comandante Fidel foi um fen√īmeno de teor organicista, pelo qual o l√≠der se v√™ como reitor de uma sociedade, situado legitimamente no topo de uma pir√Ęmide a partir da qual o social torna-se vis√≠vel em sua plenitude.

Foi assim que, como consequência inevitável desta visão, Fidel Castro se transformou na encarnação suprema da revolução. Tudo o que provém dele representa a revolução, e, como ele mesmo sentenciou na mensagem dirigida aos intelectuais cubanos no ano seguinte ao seu triunfo, "dentro da Revolução, tudo; contra a Revolução, nada".

Desta forma - relata Hilb -, o regime passou a cooptar ou subordinar a totalidade das dimens√Ķes que conformavam a realidade cubana - as universidades e o movimento estudantil, as f√°bricas e os sindicatos, os intelectuais e as entidades da cultura -, numa velocidade vertiginosa e arrasadora que se consolida j√° nos primeiros anos do regime socialista, sepultando qualquer vest√≠gio de critica, ainda que fosse realizada por eminentes figuras surgidas no seio da pr√≥pria luta revolucion√°ria, como Huber Matos, Carlos Franqui ou Heberto Padilla. O caso deste √ļltimo foi o mais dram√°tico e pat√©tico: "A lament√°vel par√≥dia da sua confiss√£o de culpa foi o sinal definitivo de que a possibilidade de discordar dentro da √°rea cultural revolucion√°ria ficava eliminada e tamb√©m foi um sinal que, apesar dos esfor√ßos por ignorar o rumo que a Revolu√ß√£o tomava j√° h√° muito tempo, muitos dos seus antigos amigos j√° n√£o conseguiram ou quiseram deixar de ouvir" (Hilb, op. cit., p. 35).

A excepcionalidade da experi√™ncia cubana se transformou no mesmo pesadelo de matriz stalinista, em que o poder do povo se transforma em poder do partido revolucion√°rio, deste se transfere para o comit√™ central e, finalmente, o dito poder acaba concentrado nas m√£os do ditador. Mas o que salienta a autora, e certamente representa uma importante afirma√ß√£o, √© que este processo de concentra√ß√£o do poder foi concomitante com as intensas e veementes a√ß√Ķes em prol do nivelamento das condi√ß√Ķes de vida da popula√ß√£o cubana. As mobiliza√ß√Ķes espont√Ęneas de apoio √† revolu√ß√£o - como a campanha pela alfabetiza√ß√£o, o trabalho volunt√°rio durante a safra do a√ß√ļcar - foram constituindo-se numa pr√°tica formal destinada a obter maiores benef√≠cios e prebendas da parte do regime. Por sua vez, √† vasta e incondicional ades√£o e ao entusiasmo inicial captado pelo movimento revolucion√°rio seguiu-se um per√≠odo de desconfian√ßa e medo, causado pelo crescente e perverso patrulhamento ideol√≥gico, a espionagem e a dela√ß√£o entre vizinhos, fato este n√£o s√≥ amplamente documentado em milhares de relat√≥rios sobre direitos humanos na ilha, mas tamb√©m em inumer√°veis express√Ķes no campo da cultura (liter√°ria e art√≠stica), como o romance de Guillermo Cabrera Infante, Tr√™s tristes tigres, ou o livro autobiogr√°fico de Reinaldo Arias, Antes que anochezca, levado posteriormente para o cinema.

Assim, o regime cubano foi institucionalizando apoios e alimentando medos, e, paradoxalmente, o custo pol√≠tico evidente de uma manifesta√ß√£o de descontentamento tamb√©m se estendeu a uma postura neutra. A neutralidade, afinal, era uma posi√ß√£o mais sintomaticamente pol√≠tica que qualquer ades√£o resignada e conservadora marcada pelo interesse individual para obter benef√≠cios do governo ou como disfarce diante de poss√≠veis repres√°lias dos aparelhos de vigil√Ęncia (por exemplo, os Comit√™s de Defesa de Revolu√ß√£o - CDR). A "neutralidade" gerava igual ou maior suspeita que uma posi√ß√£o decididamente opositora e, em definitivo, resultava ser tanto ou mais perigosa que o enfrentamento direto: se falo, sou um inimigo, mas, se n√£o falo, tamb√©m sou um inimigo em potencial. Como depois seria emulado pelo socialismo bolivariano, o regime cubano foi criando uma extensa trama de aduladores e seres desprez√≠veis que fazem da complac√™ncia acr√≠tica uma f√≥rmula f√°cil para ganhar as simpatias do l√≠der e aceder aos privil√©gios proporcionados pelo Estado, no melhor estilo stalinista descrito magistralmente por George Orwell em seu romance dist√≥pico 1984.

Neste breve e contundente ensaio, a autora nos lembra tamb√©m que o ponto de vista organicista n√£o √© privil√©gio somente das correntes "reacion√°rias" do pensamento, mas tamb√©m de certas vertentes que se dizem de esquerda ou socialista. No caso cubano, √© sintom√°tico que qualquer arroubo de cr√≠tica tenha sido automaticamente reprimido, qualquer sinal de pensamento dissidente imediatamente expurgado, qualquer ind√≠cio de criatividade distinto do c√Ęnon institucionalizado igualmente extirpado, como um c√Ęncer maligno que pretendesse se alastrar pelo conjunto do corpo social.

Sistemas conceituais fechados de explica√ß√Ķes absolutas e totalizadoras n√£o d√£o espa√ßo para o debate democr√°tico, pois, qualquer que seja a natureza do questionamento das restri√ß√Ķes √†s liberdades pol√≠ticas e individuais, a resposta quase sempre ser√° que aquele que age dessa forma pensa a partir de uma perspectiva "pequeno-burguesa", raz√£o pela qual possui valores deturpados e uma compreens√£o ofuscada da realidade derivada da sua condi√ß√£o privilegiada de classe. Portanto, n√£o existe espa√ßo para devaneios e diletantismos te√≥ricos: "dentro da Revolu√ß√£o tudo; contra a Revolu√ß√£o, nada", segundo o axioma mencionado. O Comandante encarna, em √ļltima inst√Ęncia, o fulgor e a epopeia revolucion√°ria e,¬†consequentemente, √© tamb√©m quem decide o que est√° dentro e o que est√° fora.

Atribuindo-se a si mesmo o esp√≠rito e o comando da revolu√ß√£o, Fidel conseguiu num breve per√≠odo de tempo - durante a primeira d√©cada do regime - concentrar todo o poder do Estado cubano e sufocar qualquer tipo de iniciativa pol√≠tica que pudesse colocar em risco sua lideran√ßa e autoridade. E precisamente neste ponto a autora nos conduz para uma reflex√£o perturbadora a respeito do fato de que a experi√™ncia revolucion√°ria acumulada - R√ļssia e China, entre outras - nos demonstraria que a afinidade entre personaliza√ß√£o e concentra√ß√£o de poder revolucion√°rio representa uma tend√™ncia constante e inevit√°vel, baseada na "convic√ß√£o de que o af√£ construtivista, a pretens√£o de moldar de cima a sociedade est√° indissoluvelmente ligada √† convic√ß√£o de que esta tarefa deve ser encarada de modo onipotente desde o ponto mais alto da sociedade". √Č a√≠ que a figura do L√≠der emerge como uma esp√©cie de alquimia para organizar o todo social, para definir metas, fun√ß√Ķes e responsabilidades de cada um dos membros desse organismo. Assim, durante o processo de constru√ß√£o da Revolu√ß√£o Cubana esse papel foi concentrado na pessoa de Fidel, que com seu carisma e lideran√ßa resolveria, "definitiva e brutalmente", a polissemia revolucion√°ria.

No entanto, esta síntese que define o destino do povo cubano perde desde muito cedo seu verdadeiro caráter emancipatório. Se bem que o projeto revolucionário tenha conseguido resolver drasticamente a desigualdade prevalecente nos tempos de Batista, ele não permitiu, simultaneamente, realizar os anseios de autonomia e participação democrática entre os habitantes da ilha. Pelo contrário, a aspiração liberadora das "garras" da ditadura batistiana transformou-se num breve espaço de tempo no império da censura, do medo e da submissão.

Tal contradi√ß√£o do socialismo "realmente existente" j√° tinha sido denunciada, h√° anos, por Rudolf Bahro no seu livro Die Alternative (1977) [1]. Nele o escritor alem√£o constata - entre outros aspectos - como o socialismo real dos pa√≠ses da Europa Oriental optou por priorizar (ainda que com evidentes limita√ß√Ķes) a resolu√ß√£o da quest√£o da igualdade e da justi√ßa social, √† custa dos princ√≠pios da liberdade civil e pol√≠tica e do respeito¬†aos direitos de participa√ß√£o democr√°tica e autorrealiza√ß√£o dos cidad√£os.

Tamb√©m em Cuba a pretens√£o construtivista e igualit√°ria sup√īs que um conjunto de valores coletivistas poderia ser inoculado nas pessoas para que elas superassem o individualismo e o ego√≠smo particularista, criando uma entidade - com caracter√≠sticas do tipo puro ideal weberiano - chamada de "homem novo". Mas este projeto transformador se realizou desde cima, desprezando e coibindo qualquer puls√£o dos indiv√≠duos em prol da forma√ß√£o de um novo organismo ou corpo social em que primassem os princ√≠pios igualit√°rios consagrados pela √©pica revolucion√°ria: "A fabrica√ß√£o vertical da sociedade exige que cada um cumpra um papel que o poder, desde a c√ļpula, lhe atribui; se n√£o cumprir por consci√™ncia, cumprir√° por temor".

De tal modo, o desejo de liberdade se transformou em aceita√ß√£o da opress√£o, o Terror e o medo substitu√≠ram a ades√£o e o fervor revolucion√°rio do povo cubano. Quem n√£o compartilha estes princ√≠pios converte-se em traidor e p√°ria: um gusano [2]. A execra√ß√£o das "Damas de Branco", que viraram arqu√©tipo da deslealdade e alvo do rep√ļdio dos populares, que descarregam contra elas a palavra de ordem: "as ruas s√£o de Fidel", expressa sem maiores subterf√ļgios a consagra√ß√£o de uma sociedade amorda√ßada e imobilizada pelo temor.

Por isto, nos interrogamos - tal como se interroga a autora -, o que resta da promessa da Revolução? O que resta do sonho libertário e emancipatório que encarnava a façanha revolucionária dos barbudos? O que dele pode restar para uma esquerda democrática e plural que acredita na construção de uma sociedade mais justa, igualitária e livre da opressão? Muito pouco ou nada.

A Revolução que se fez para igualar e libertar os "de baixo" acabou por se construir pelo alto, domesticando a população através de mecanismos de persuasão e de coerção. Transformou-se, assim, na negação da esperança de um mundo pluralista e tolerante, marca iniludível de um socialismo moderno que não pode abjurar dos princípios democráticos. Ou quiçá, também, na negação da esperança de um tipo de socialismo associativo que, segundo a formulação de Paul Hirst, aspire a constituir-se numa democracia social alternativa ao socialismo autocrático de Estado e ao liberalismo do livre mercado [3].

Nesse contexto, adquirem maior significado as palavras do¬†recentemente falecido¬†Antonio Cort√©s Terzi, para quem os ideais inovadores e pioneiros de Allende t√™m mais de "socialismo do s√©culo XXI" que as pr√°ticas ortodoxas dos irm√£os Castro ou de Ch√°vez. Estas √ļltimas parecem aproximar-se mais do legado stalinista do s√©culo passado que de um socialismo renovado e projetado para resolver os desafios futuros de nossas sociedades.

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Fernando de La Cuadra é sociólogo chileno e membro da Rede Universitária de Pesquisadores sobre a América Latina (RUPAL). 

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Notas

[1] No Brasil: A alternativa ¬Ė Para uma critica do socialismo real. S√£o Paulo: Paz e Terra, 1980.

[2] Este temor ao linchamento social cria paralelamente uma "dupla moral", uma dissocia√ß√£o entre a moral p√ļblica de fidelidade e apoio ao regime e a moral privada, de sobreviv√™ncia, que utiliza in√ļmeros recursos ilegais para resolver restri√ß√Ķes e problemas da vida cotidiana.

[3] Paul Hirst. A democracia representativa e seus limites. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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