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A Dama de Ferro: filme e realidade

Jaldes Reis de Meneses - Março 2012
 

Em que pese a magnífica interpretação de Meryl Streep no papel de Margaret Thatcher, A Dama de Ferro é um filme decepcionante, absolutamente sofrível. Tem a serventia de nos fazer revisitar acontecimentos que ainda estão frescos na memória; no entanto, tais acontecimentos, no filme, aparecem como um jogo de quebra-cabeças sem relação, a não ser compor o cenário de vida de uma modesta menina, filha de comerciantes de bairro, que foi subindo degrau a degrau até tornar-se primeira-ministra da Inglaterra. Uma pena ver matéria-prima de primeira qualidade desperdiçada.

√Ä primeira vista, poder-se-ia pensar que estamos diante de uma hagiografia da dama de ferro - da for√ßa do indiv√≠duo que conquista o mundo, narrativa t√£o cara ao cinema -, mas acontece precisamente o contr√°rio. A escolha intimista da narrativa, √© claro, tem o objetivo de "humanizar", tornar "simp√°tico" um personagem que ficou conhecido como duro e inflex√≠vel, mas o foco da narrativa s√£o as alucina√ß√Ķes de uma senhora decr√©pita, demonstrando senilidade, que se relaciona quase exclusivamente com o marido e a filha, perdendo pouco a pouco os derradeiros fios de vida que a prendem ao mundo. Certamente por isso o filme despertou a ojeriza da fam√≠lia Thatcher. Grande lideran√ßa conservadora inglesa depois do insuper√°vel Winston Churchill, Margaret Thatcher merecia melhor sorte no cinema.

Mrs. Thatcher assumiu o poder no cargo de primeira-ministra alguns poucos anos depois que os Beatles j√° tinham se desfeito e a onda punk (de ideologia an√°rquico-oper√°ria), bem como a purpurina glam (David Bowie) j√° haviam sido assimiladas pela ind√ļstria cultural. Contudo, seu governo foi contempor√Ęneo de um momento alto da cultura gay, atrav√©s do Queen (especialmente Freddie Mercury) e dos primeiros clubbers (Boy George). S√£o movimentos cujos efeitos na cultura perduram at√© hoje. Se houve contribui√ß√£o de Thatcher aos estilos de vida, mesmo indireto, foi a euforia niilista yuppie, ciosa de ganhar dinheiro, mas incorporando, devidamente depurados de qualquer veleidade pol√≠tica, os trejeitos do glam e do clubber.

Tudo isso para dizer que a dama de ferro √© um personagem decisivo dos anos 80, comp√Ķe o esp√≠rito do tempo tanto quanto Madonna ou Michael Jackson. Embora ricos cultural e politicamente, os anos 1970 foram uma esp√©cie de "d√©cada perdida" em termos de economia europeia - ao menos para o capital -, e havia no eleitorado ingl√™s uma ressaca com as solu√ß√Ķes, que com o tempo foram virando paliativos, dos seguidos primeiros-ministros trabalhistas, acossados entre os compromissos com o status quo e o movimento sindical mais forte de toda a Europa. Como n√£o havia mais como servir a dois senhores, os trabalhistas foram apeados do poder. Pudera, em termos pol√≠ticos, o pacto, t√°cito ou expl√≠cito, entre o trabalho e o capital, t√≠pico da regula√ß√£o do Welfare State, foi colocado √† prova em toda a Europa, em acontecimentos como a revolta francesa de maio de 1968 e o "outono quente" da It√°lia em 1969/70.

Resultado: em 1979 assumiu o governo pela primeira vez uma mulher, num mundo em que a política ainda era quase uma exclusividade masculina. Mas, principalmente, chegava ao poder uma personalidade portadora de vontade, oriunda da adesão de tipo religioso a uma ideologia desprezada até então mesmo pelos conservadores mais pragmáticos, que pode ser resumida como uma espécie de confiança férrea na autorregulação dos mercados e no desprezo absoluto pelos acordos sindicais com o capital, pedra de toque da montagem dos diversos Welfare States do pós-guerra europeu.

Margaret Thatcher, portanto, pretendia dar adeus aos projetos de paz social de grandes reformadores, como o Barão de Beverigde e o sociólogo T. H. Marshall - alguns dos formuladores da ideologia prevalecente até aquele momento -, que pretendiam introduzir cápsulas de igualdade num regime estruturalmente desigual como o capitalismo. Em bela passagem de seu livro Era dos extremos, o historiador Eric Hobsbawm demostra que a conquista dos direitos sociais no pós-guerra foi o principal resultado do próprio esforço de guerra, pois o soldado precisa ir ao campo de batalha com a promessa de que no retorno "nada mais seria como antes" (p. 302). Com a chegada ao poder de Mrs. Thatcher, a época histórica do contrato de afluência social (a expressão é de T. H. Marshall) dos "trinta anos gloriosos" do capitalismo democrático viu-se numa encruzilhada. Doravante, os ideólogos da vez passaram a ser os economistas da escola austríaca e os politólogos neoconservadores. Nada disso aparece no filme, sequer alusivamente.

Em outro diapasão, o filme sequer recorda que foram os soviéticos, o vacilante Mikhail Gorbachev à frente, que batizaram Thatcher com a alcunha de dama de ferro. Aliás, o fim da Guerra Fria - um evento do qual Thatcher foi uma estrela de primeira grandeza - quase não aparece no filme, a não ser alusivamente, através da exibição de material de época, com os alemães derrubando o Muro de Berlim, material seguido de uma simbólica dança de valsa com Ronald Reagan.

Por outro lado, a guerra das Malvinas (Falklands, para os ingleses) mereceu tratamento um pouco melhor: em alguns minutos, a Dama de Ferro aparece enérgica e inflexível, indisposta a negociar qualquer proposta conciliatória com o General Galtieri (à época ditador chefe da junta militar argentina). Vale anotar que tanto Thatcher como a junta argentina passavam por picos de impopularidade, e a vitória poderia vir a ser a plataforma de saída do fundo do poço.

Cabe observar que o filme mente ao insinuar que a posi√ß√£o dos Estados Unidos naquele epis√≥dio foi de apaziguamento do conflito (bolas de sab√£o do roteiro), quando, ao contr√°rio, houve um total alinhamento com as posi√ß√Ķes inglesas, um total apoio de institui√ß√Ķes multilaterais relevantes, como a¬†Otan e a ex-Comunidade Europeia (hoje UE). Do lado argentino, restaram as ditaduras militares latino-americanas, a exemplo da brasileira, mas tamb√©m os movimentos anti-imperialistas de esquerda no continente, em inusitada alian√ßa pr√°tica.

Contudo, a principal lacuna do filme √© que quem assiste aos inumer√°veis conflitos em que a dama de ferro se meteu por toda a vida fica com a impress√£o de que ela era somente uma birrenta, um galo de briga (ou uma galinha?) disposta a perder uma boiada para n√£o deixar a contenda. O grave √© que as for√ßas pol√≠ticas em conflito aparecem desprovidas de ideologia. Embora apare√ßa a palavra "conservador" algumas vezes e Thatcher esteja frequentemente assediada, dentro de um carro oficial, por uma s√©rie de militantes que mais parece uma horda de insanos, trata-se apenas de inexplic√°veis emers√Ķes abruptas, fadadas a desaparecer em seguida. Para que perder a dimens√£o did√°tica do cinema? O que se ganha e o que se perde com isso?

Por que a bancada trabalhista lhe fazia ferrenha oposi√ß√£o na C√Ęmara dos Comuns, por exemplo? Ao deixar de fornecer as senhas do conflito, a saga de um personagem hist√≥rico p√ļblico, pol√≠tico at√© a medula, aparece despolitizada. N√£o se fazem mais filmes pol√≠ticos como antigamente - penso na filmografia de um Costa-Gavras (Z, A confiss√£o, Estado de s√≠tio, etc.) ou de um Gillo Pontecorvo (A batalha de Argel, Queimada), quando se tematizava internamente o conflito ideol√≥gico.

Melhor virar o meu argumento crítico pelo avesso. Neste sentido, porém, contraditoriamente, pode-se dizer que de alguma maneira as escolhas narrativas do roteirista e da diretora Phyllida Lloyd prestam involuntariamente uma homenagem à dama de ferro, pois o seu projeto na política era precisamente despolitizar o conflito, jamais reconhecer sujeitos coletivos, mas tão somente cidadãos individuais. "Não existe essa coisa de sociedade. Existem homens e mulheres e existem famílias" - esta, a frase mais lapidar da dama de ferro, pronunciada no enfrentamento da greve dos mineiros ingleses. Em filosofia, Mrs. Thatcher postulava um individualismo metodológico e existencial absoluto. A rigor, o filme também postula simplesmente dois níveis básicos: o do indivíduo e o da família; por seu turno, a sociedade que surge na tela é uma bruma informe, de escassa explicação.

Se assim √©, com o passar do tempo, a aplica√ß√£o desta pol√≠tica (que ficou conhecida como neoliberal) haveria de acarretar a perda do respeito aos bens definidos socialmente, numa sociedade desprovida de cren√ßa. Na verdade, Mrs. Thatcher vem a lume com o intuito de resolver uma crise aguda do capitalismo, ingl√™s e mundial. Nos tempos dos gabinetes trabalhistas de Harold Wilson e James Callaghan, que ela substituiu, a for√ßa reivindicat√≥ria do trabalho - greves e mais greves, muitas das quais com resultados vitoriosos - emparedou circunstancialmente o capitalismo. A regula√ß√£o trabalhista, pol√≠tica dominante desde quando Clement Attlee derrotou nas urnas o mito de Churchill, nas primeiras elei√ß√Ķes do p√≥s-guerra, come√ßava a chegar ao t√©rmino.

Para se ter uma ideia da dimens√£o do processo, hoje esquecido, mencionamos o dubl√™ de economista e dirigente da IV Internacional Ernest Mandel: "[...] a Gr√£-Bretanha tornou-se [...] a √ļnica pot√™ncia imperialista que se revelou incapaz de ampliar a taxa de explora√ß√£o de sua classe oper√°ria [...] durante ou ap√≥s a Segunda Guerra Mundial" (Capitalismo tardio, p. 126). Nestes termos, na Inglaterra, em 1971, devido a um intenso movimento grevista, as rendas do trabalho superaram as rendas do capital. Alguma coisa haveria de ser feita. A dama de ferro chegou com todo o g√°s para derrotar a economia pol√≠tica do trabalho, lan√ßando na Europa simultaneamente, duas faces da mesma moeda, o processo japon√™s de reestrutura√ß√£o produtiva e a precariza√ß√£o do trabalho t√≠pica do ent√£o chamado "terceiro mundo".

O historiador brit√Ęnico de extra√ß√£o social-democrata Tony Judt resumiu brilhantemente a era Thatcher da seguinte maneira: "A revolu√ß√£o do thatcherismo fortaleceu o Estado [no sentido de empoderar o n√ļcleo duro dirigente], fomentou o crescimento do mercado - e dedicou-se a desmanchar os elos que anteriormente uniam Estado e mercado" (P√≥s-Guerra ¬Ė uma hist√≥ria da Europa desde 1945, p. 542).

Para François Mitterrand, em galanteio charmoso, pensando bem, olhada melhor e de perto, a dama de ferro exalava sensualidade e tinha os "olhos de Calígula e a boca de Marilyn Monroe". O êxito político sempre vira objeto de desejo. Na foto de divulgação do filme, vejo uma foto de Meryl Streep na qual os olhos de Calígula e a boca de Marilyn são evidentes. Infelizmente, a sugestiva promessa da foto desaparece no filme.

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Jaldes Reis de Meneses é professor do Departamento de História, UFPB.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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