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PCB, 90 anos. Armênio Guedes, pizza e vinho

Paulo Moreira Leite - Março 2012
 

Gramsci e o Brasil sente-se profundamente devedor de grandes dirigentes comunistas, como, para citar dois exemplos, Marco Ant√īnio Tavares Coelho e Arm√™nio Guedes. Sobre Arm√™nio, objeto deste texto de Paulo Moreira Leite (publicado originalmente na revista √Čpoca, em 2009), basta lembrar seu papel na hist√≥rica revista Novos Rumos, na fase anterior a 1964, trabalhando ao lado de Astrojildo Pereira, um dos fundadores do PCB. Cabe lembrar, ainda, sua lideran√ßa entre os chamados "eurocomunistas" do partid√£o, j√° na resist√™ncia ao regime de 1964, quando a express√£o "comunismo democr√°tico" adquiriu sentido e vigor, deixando de ser uma contradi√ß√£o em termos. E, finalmente, sua defini√ß√£o mais recente por um novo reformismo, profundamente apegado aos valores da democracia pol√≠tica e desconfiado de todos os regimes autorit√°rios, de esquerda ou de direita. Por tudo isso, Gramsci e o Brasil sa√ļda e homenageia a lucidez de Arm√™nio Guedes, um homem sempre capaz de autorrenova√ß√£o em sentido antidogm√°tico, precisamente agora quando se comemoram os 90 anos da Semana de Arte Moderna e da funda√ß√£o do velho PCB.

Num domingo recente, fui convidado para comer uma pizza com Arm√™nio Guedes, veterano dirigente do velho PCB, 91 anos de idade. Ergui os bra√ßos ao avist√°-lo. Ele respondeu com o mesmo gesto. Ao sentar, fiz uma ironia sobre a cor de seu pul√īver, vermelho como as bandeiras de uma passeata. "Continua um velho comunista", eu disse. "Continuo reformista", respondeu Arm√™nio, rindo.

Embora n√£o tenha tido a influ√™ncia de um Luiz Carlos Prestes, Carlos Marighella, Jo√£o Amazonas e outros, Arm√™nio Guedes √© hoje a principal refer√™ncia do velho PCB. Est√° l√ļcido, embora cansado. A mem√≥ria continua boa, em especial para os fatos antigos - o que √© de extrema valia para o atual momento de sua vida. O tamanho do prest√≠gio de Arm√™nio Guedes pode ser medido pelo mercado editorial. Em fase de preparativos, duas editoras preparam duas biografias diferentes sobre ele.

Uma delas est√° sendo escrita por Sandro Vaia, antigo diretor de reda√ß√£o do Estad√£o. A outra √© alinhavada por Mauro Malin, que, na condi√ß√£o de membro do PCB sob a ditadura militar, acompanhou Arm√™nio Guedes em boa parte da clandestinidade, inclusive no ex√≠lio. "Tenho d√ļvidas se minha vida merece uma biografia", diz Arm√™nio, modesto. "Quanto mais duas".

Num momento em que uma parcela da esquerda formada nas fileiras do PCB enfrenta uma situação de orfandade, Armênio é uma referência que se mantém. Ele gosta de dizer que sempre foi um "comunista de direita". A definição é uma autoironia, mas tem um fundo de verdade. Para usar um chavão, Armênio é uma pessoa complexa.

Entre a pizza meio aliche, meio margarita, além de um vinho chileno, Armênio falou de vários assuntos, que serão tratados abaixo. Se você não tem interesse em fatos perdidos pela História, divergências que parecem arquivadas pelo passado, lutas que se transformaram em quase espiritualidade, mude de nota porque isso aqui vai longe. A conversa com Armênio, sempre um diálogo informal, amigo, andou em torno de vários assuntos.

Entre eles:

1) sua vis√£o sobre o esquerdismo do PCB

2) o anarquismo de Carlos Marighella

3) a vida em Moscou e a perda de fé na URSS

Capaz de apegar-se a valores democr√°ticos num tempo em que eram desprezados nas fileiras da esquerda como desprez√≠veis valores "burgueses", Arm√™nio Guedes foi capaz de sair inteiro da longa travessia dos militantes, funcion√°rios e burocratas dos PCs iniciada com a queda do Muro de Berlim e o colapso das reformas de Gorbatchov, o √ļltimo esfor√ßo do Kremlin antes da rendi√ß√£o ao capitalismo.

Ele conta que, naquele momento, já tinha dificuldade para seguir acreditando que os regimes comunistas eram capazes de produzir um modo de vida superior para o conjunto da humanidade. Mas admite que não perdera todas as esperanças. "Apoiei as mudanças de Gorbatchov e achava que elas poderiam ter mudado aquele regime para melhor", diz.

Entre os brasileiros, Arm√™nio foi um dos primeiros a condenar a no√ß√£o de ditadura do proletariado. Em v√°rios momentos da luta interna, destacou-se por criticar o PCB por ignorar a necessidade de defender e ampliar a democracia no Brasil. Arm√™nio diz que o partido desperdi√ßou chances reais de ampliar sua influ√™ncia nos destinos do pa√≠s porque reagia de forma errada ("antiga, embolorada") aos desafios da conjuntura. "Sempre achei que o partido s√≥ podia crescer defendendo a liberdade, o desenvolvimento econ√īmico. Estas deveriam ser nossas lutas".

Nas √ļltimas d√©cadas, o PCB foi alvo de uma cr√≠tica a sua postura moderada, "reformista", "conciliadora". Essa era a cr√≠tica que lhe fazia a esquerda de 1968 e tamb√©m na d√©cada seguinte. A maioria desses cr√≠ticos encontra-se hoje no PT, que acabaria ocupando um espa√ßo que, em seus manuais de astrologia, muitos comunistas imaginavam que estivesse reservado a seu partido.

A maioria dos comunistas que partilhava as mesmas ideias de Armênio formou o PPS, partido que hoje faz oposição ao governo Lula e tem uma imensa proximidade com o governador José Serra. Muitos são filiados ao PSDB.

H√° 30 anos, Arm√™nio Guedes nadava contra a corrente majorit√°ria da esquerda. Para ele, o partido foi pouco reformista. Empregando as palavras dos cr√≠ticos, ele diria que foi pouco conciliador. Conversando com Arm√™nio, voc√™ conclui que, em sua opini√£o, se tivesse sido mais moderado, mais reformista, mais "cuec√£o", como chegavam a dizer militantes de outras organiza√ß√Ķes, o PCB poderia ter tido um papel mais consistente na hist√≥ria do pa√≠s. Como eu j√° disse, este sujeito √© complexo.

Depois de pedir ao gar√ßom uma pizza "de peixinho", ele lembra seu primeiro encontro com Marighella, em 1935. Acabara de ingressar no PCB e compareceu a primeira reuni√£o de uma c√©lula estudantil, em Salvador. Marighella era o instrutor da turma ¬Ė o dirigente que transmitia a linha do partido, definia tarefas e responsabilidades, ligando aquele grupo ao conjunto da organiza√ß√£o.

O codinome do instrutor era Estanislau, "mas n√£o se deve fazer muitas perguntas sobre ele", lhe disseram.

Marighella/Estanislau j√° era uma lenda entre os comunistas baianos. √ďtimo aluno da faculdade de engenharia, n√£o temia solidarizar-se com colegas que eram v√≠timas de gestos arbitr√°rios de professores - mesmo correndo o risco de prejudicar-se. Era capaz de assumir culpa por faltas que n√£o cometera apenas para denunciar o autoritarismo de puni√ß√Ķes injustas. Tamb√©m era capaz de atitudes irreverentes. "Certa vez, ele saiu √†s ruas com metade da cabe√ßa raspada, a outra com todos os cabelos," conta Arm√™nio, descrevendo uma figura que lembra os punks que iriam aparecer pelas cidades europeias meio s√©culo mais tarde. "Ele j√° tinha tend√™ncias anarquistas", comenta, com um jeito divertido de referir-se a coisas s√©rias. O "marighelismo", como dizem os comunistas mais eruditos, foi a base da ALN, a principal organiza√ß√£o armada criada no Brasil nos anos 60 e 70. Foi, provavelmente, a grande diverg√™ncia de Arm√™nio com comunistas que estavam dentro e fora do partido.

Ao contr√°rio das organiza√ß√Ķes comunistas tradicionais, estruturadas de forma centralizada e disciplinada, a ALN pretendia ter um comando descentralizado, com grupos de militantes capazes de agir com relativa autonomia. Os cr√≠ticos do "marighelismo" sustentam que essa frouxid√£o no comando levou um setor da organiza√ß√£o a tomar iniciativas temer√°rias e contraproducentes, como ingressar por conta pr√≥pria no sequestro do embaixador Charles Burk Elbrich - epis√≥dio que teve v√°rios efeitos colaterais, inclusive iniciar uma ca√ßada policial que levaria Marighella √† morte, num golpe mortal que iria desestruturar a ALN para sempre.

Arm√™nio era um calouro do PCB quando, em novembro de 1935, os comunistas tentaram tomar o poder a partir da ocupa√ß√£o de quart√©is no Rio de Janeiro e Natal. Nos anos seguintes, grande parte dos dirigentes e quadros do partido foi presa e condenada a longas penas de cadeia. Arm√™nio, que ao longo de sua vida s√≥ foi detido duas vezes "rapidamente, em casos sem import√Ęncia", diz, acabou assumindo responsabilidades cada maiores. Em 1941, participou da organiza√ß√£o da Confer√™ncia da Mantiqueira, que permitiu a reestrutura√ß√£o do partido ainda sob o Estado Novo. Nessa confer√™ncia, o PCB tomou uma decis√£o ousada. Embora os dirigentes principais estivessem na cadeia, perseguidos por um regime que chegara a torturar diversos de seus integrantes, al√©m de submeter muitos deles ao regime de pris√£o solit√°ria, onde pelo menos um dos dirigentes da revolta de 1935 perderia a raz√£o, os comunistas de fora da cadeia aprovaram uma resolu√ß√£o favor√°vel ao governo Vargas.

Manifesto meu espanto pela decis√£o. "Era poss√≠vel apoiar o governo em duas circunst√Ęncias: na paz e na guerra," diz Arm√™nio, referindo-se √† Segunda Guerra Mundial. "Nossa resolu√ß√£o foi apoiar o governo na guerra contra o nazismo. E tamb√©m na paz".

Pergunto se isso n√£o causou desconforto no partido, j√° que o n√ļcleo dirigente se encontrava na pris√£o. Ele diz que sim, que v√°rios dirigentes n√£o gostaram. Mas explica que o apoio √† guerra contra o nazismo tornara-se um consenso entre os comunistas do mundo depois que Hitler invadiu a Uni√£o Sovi√©tica. Quando saiu da pris√£o, Luiz Carlos Prestes, ent√£o no auge de seu prest√≠gio, "disse que n√≥s est√°vamos corretos, mas que hav√≠amos ¬Ďexagerado um pouco¬í", lembra Arm√™nio, divertido.

Capaz de traduzir, no rosto, a decep√ß√£o que sentiu no passado, ele recorda o momento em que o partido foi colocado na ilegalidade, em 1947, quando possu√≠a 200 mil filiados e uma bancada expressiva de deputados e senadores. "N√≥s perdemos uma grande chance," diz. E explica: "O partido tinha prest√≠gio, tinha popularidade. Poderia ter feito uma campanha pela liberdade, pela democracia". Em vez disso, conta Arm√™nio, o PCB adotou uma linha de confronto aberto com o regime e as institui√ß√Ķes.

"O objetivo era provar a superioridade do poder proletário em todas as oportunidades, seja de modo permanente, por alguns anos, meses, semanas, dias, horas ou minutos", lembra Armênio, com sarcasmo na voz.

A palavra "se" quase nunca é bem-vinda nos debates históricos. Mas não deixa de ser tentador imaginar o que poderia ter ocorrido no país, se aquele partido que tinha uma presença expressiva nos movimentos movimentos sociais, incluindo sindicatos e estudantes, sem falar num punhado de intelectuais e políticos de prestigio em seus quadros, tivesse adotado outra postura, lutando por seu lugar na vida política, alargando a legalidade, em vez de buscar um confronto no qual dificilmente poderia sair vencedor.

A verdade era que isso n√£o estava no horizonte do aparato comunista, nem no Brasil e muito menos em Moscou, que j√° iniciava um giro esquerdista, uma linha de confronto aberto com os governos capitalistas do Ocidente.

Numa linha de a√ß√£o que refletia, em termos locais, a postura geral da Uni√£o Sovi√©tica nos primeiros anos de Guerra Fria, cada oportunidade oferecida pela conjuntura era aproveitada para gerar confrontos. Em 1952, quando um secret√°rio de Estado do governo americano veio a S√£o Paulo, o PCB preparou uma recep√ß√£o t√≠pica, com queima de bandeiras e com√≠cios-rel√Ęmpago. Arm√™nio ajudou a organizar o mais importante deles, na Pra√ßa da Rep√ļblica, local de passagem de centenas de milhares de pessoas. Em companhia de Joaquim C√Ęmara Ferreira, que mais tarde iria formar a ALN com Marighella - e tamb√©m seria o dirigente mais importante no cativeiro de Elbrich -, Arm√™nio preparou o ato. Os dois tiveram cuidado de encontrar uma bandeira americana e lev√°-la j√° molhada em gasolina para o local da manifesta√ß√£o, "pois pano de bandeira n√£o pega fogo f√°cil n√£o. Tem de ajudar", diz Arm√™nio. O protesto apareceu at√© nas p√°ginas da revista Time americana, uma esp√©cie de B√≠blia da m√≠dia mundial naquele momento. Ali, os manifestantes eram identificados pela express√£o "treinados em Moscou", recorda-se Arm√™nio, dando boas risadas. "Sempre que ia falar de algum militante comunista, de qualquer parte do mundo, a Time abria um par√™nteses para dizer: ¬ĎMoscou training¬í".

Armênio morou muitos anos na antiga União Soviética e conta que lá mesmo começou a achar que o regime tinha dado errado. "Era tudo muito difícil, complicado. Você queria uma televisão, não conseguia encontrar. Um carro também era difícil. Eu vinha do Brasil e mesmo aqui as coisas eram mais fáceis". Armênio morou na URSS durante o longo reinado de Leonid Brejnev. Recorda-se dos dias de festa, em coquetéis onde os dirigentes mergulhavam na vodka. "Você podia perceber isso de longe", conta. "Eu ficava com pena daqueles que tinham de beijar esses dirigentes na boca", diz.

Em atividade, Arm√™nio Guedes h√° seis meses escreveu a orelha do livro Por um novo reformismo, do italiano Giuseppe Vacca, autor que prop√Ķe uma revis√£o completa no pensamento marxista, abandona a ideia de revolu√ß√£o e sugere uma combina√ß√£o do capitalismo - como modo de produ√ß√£o - com o socialismo, como forma de regula√ß√£o.

"N√£o vejo nisso nenhum esp√≠rito de ¬Ďconcilia√ß√£o¬í", escreve Arm√™nio, "mas um convite desafiador a imaginar o conte√ļdo desta poss√≠vel regula√ß√£o de tipo socialista, indissoci√°vel, como √© evidente, de lutas e conflitos sociais bastante complexos. A democracia √© sempre dif√≠cil!"

Nota de março de 2012: hoje, aos 94 anos, Armênio é presidente de honra da Fundação Astrojildo Pereira/PPS.

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Fonte: √Čpoca, 11 set. 2009 & Gramsci e o Brasil.

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