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A dialética tropical de Roberto Schwarz

Fernando da Mota Lima - Agosto 2012
 

Roberto Schwarz. Martinha versus Lucrécia. Ensaios e entrevistas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 

O novo livro de ensaios cr√≠ticos de Roberto Schwarz pouco varia nos temas, enquanto previsivelmente reitera a perspectiva te√≥rica que embasa toda sua atua√ß√£o como cr√≠tico. Machado de Assis, como tamb√©m seria previs√≠vel, √© a figura dominante. Al√©m de fornecer o mote que d√° t√≠tulo ao livro, √© o foco do ensaio de abertura, "Leituras em competi√ß√£o", de "A virada machadiana" e de uma das entrevistas que integram o volume. Al√©m disso, a cr√īnica de Machado que confere t√≠tulo e mat√©ria ao livro vem reproduzida no final do volume. Repetindo procedimento j√° familiar para quem acompanha sua obra, as entrevistas se somam aos ensaios, como de resto vem expl√≠cito no subt√≠tulo de Martinha versus Lucr√©cia. O ensaio de maior f√īlego, que alcan√ßou mais repercuss√£o na m√≠dia, como seria tamb√©m previs√≠vel, √© o que dedica a Verdade tropical, livro de mem√≥rias de Caetano Veloso. Ali√°s, Schwarz o identifica como autobiografia quase-romance (ver p. 85). Schwarz tamb√©m retoma alguns dos seus autores de elei√ß√£o na cena liter√°ria contempor√Ęnea: Chico Buarque, Francisco Alvim, Paulo Lins. Por fim, os uspianos e afins: Giannotti, Bento Prado, Gilda de Mello e Souza, Francisco de Oliveira, Michael L√∂wy. Tentarei abaixo esmiu√ßar um pouco do que vai condensado neste par√°grafo inicial.

Antes que o leitor apressadamente conclua que os muitos "previs√≠veis" acima anotados sup√Ķem algum ju√≠zo cr√≠tico negativo, me apresso a afirmar o contr√°rio. Um livro de ensaios cr√≠ticos de Roberto Schwarz cont√©m muito de previs√≠vel, antes de tudo, porque ele, √† diferen√ßa da usina recicladora de modas intelectuais que √© a universidade, sobretudo a brasileira, perif√©rica e portanto sempre deslumbrada com tudo que produzem os centros hegem√īnicos da cultura intelectual, ele √© um cr√≠tico consistente e coerente. Podemos discordar de sua perspectiva te√≥rica, √© o meu caso; da√≠ a desqualific√°-lo deformando grosseiramente suas ideias, procedimento patente em resenhas como a de Nelson Ascher, publicada na Veja (2 de maio de 2012), √© passar da diverg√™ncia te√≥rico-ideol√≥gica para o ataque grosseiro. Ali√°s, √© isso o que tamb√©m faz Caetano Veloso na entrevista que concedeu √† Folha de S. Paulo (22 de abril 2012). Infelizmente, no Brasil raramente sustentamos um debate de ideias, que logo desanda para o bate-boca e o ataque pessoal. H√° algumas explica√ß√Ķes razo√°veis para esse fen√īmeno, algumas identific√°veis na pr√≥pria leitura que Schwarz faz da obra de Machado e de outros autores, mas prender-se a elas seria fugir do foco desta resenha, al√©m de along√°-la em demasia.

Roberto Schwarz declara sempre nitidamente de onde fala, em nome de que fala e interv√©m no debate ideol√≥gico e intelectual. A todo tempo, eis nele algo previs√≠vel que j√° se tornou lugar comum, reitera sua filia√ß√£o ao pensamento dial√©tico. Seus mestres supremos tamb√©m s√£o sempre invocados: Adorno, na tradi√ß√£o marxista alem√£, e Antonio Candido, na brasileira. O primeiro me parece absolutamente ileg√≠vel, mas a culpa √© certamente minha, talvez por n√£o saber alem√£o nem me dispor a um treinamento de exegese e hermen√™utica (que o leitor de blog me perdoe os palavr√Ķes) que consumiria anos de minha vida e me tornaria mais infeliz. Antonio Candido √© outra hist√≥ria. √Č n√£o apenas nosso cr√≠tico liter√°rio supremo, mas tamb√©m autor dotado de um estilo de exposi√ß√£o cr√≠tica, de esclarecimento das ideias que lamentavelmente n√£o fizeram escola na nossa capenga tradi√ß√£o universit√°ria. Alguns dos seus disc√≠pulos confessos, √© o caso de Walnice Nogueira Galv√£o e Jo√£o Luiz Lafet√°, s√£o fieis √† sua linhagem estil√≠stica, que prima pela clareza, eleg√Ęncia e avers√£o sistem√°tica a qualquer modismo ou tenta√ß√£o obscura que muitos subletrados confundem com profundidade. Quanto a Schwarz, seu disc√≠pulo mais c√©lebre, ostenta um estilo dial√©tico demais para o meu gosto.

Mas sigamos voltando ao ensaio de grande f√īlego dedicado ao livro de Caetano Veloso. Num dos seus ensaios mais citados ("Cultura e pol√≠tica, 1964-69", inclu√≠do na obra O pai de fam√≠lia e outros estudos), escrito em 1972, Schwarz faz uma aprecia√ß√£o cr√≠tica do movimento tropicalista no contexto dos embates culturais e ideol√≥gicos daquela √©poca turbulenta. Agora, 14 anos depois da publica√ß√£o de Verdade tropical, ele retoma as quest√Ķes centrais daquele ensaio ampliando-as no exame de cr√≠tica dial√©tica a que submete a trajet√≥ria art√≠stica e ideol√≥gica de Caetano Veloso. Perguntaram ao pr√≥prio Caetano a raz√£o de Schwarz demorar tanto tempo para afinal escrever o ensaio. Claro que Caetano n√£o tem resposta para isso. Pelo visto, nem o pr√≥prio Schwarz, que responde alegando ser mais lento do que deveria.

A julgar pelo que ele descreve sobre seu processo de matura√ß√£o de intui√ß√Ķes e ideias, √© f√°cil seguir essa rota atrav√©s das muitas entrevistas que concede e integra a v√°rias das suas obras, Schwarz √© um acad√™mico t√≠pico consagrado ao conv√≠vio com os livros e ideias que o perseguem como obsess√Ķes inarred√°veis. Seguindo o que historia sobre sua intui√ß√£o fundamental da obra de Machado de Assis, conclu√≠mos que suas reflex√Ķes e an√°lises que gradualmente se refinam prendem-no √† obra de Machado desde a juventude at√© o presente. Embora tenha escrito apenas dois livros sobre o conjunto dos romances do Bruxo do Cosme Velho, livros ali√°s um tanto compactos, um intervalo de cerca de 15 anos separa as duas obras, sem contar tudo que matutou antes e depois.

Mas em que consiste essa intui√ß√£o luminosa de Schwarz que provocou uma reviravolta na leitura da obra de Machado de Assis? Espremendo a mat√©ria do modo mais sum√°rio e claro poss√≠vel, o cr√≠tico descobre na sua paciente leitura dos romances de Machado, notadamente os que datam a partir de Mem√≥rias p√≥stumas de Br√°s Cubas, uma rela√ß√£o de homologia entre forma romanesca e processo social. A forma caprichosa e vol√ļvel adotada pelo narrador machadiano corresponderia ao processo social singular que o cr√≠tico identifica na realidade brasileira na qual contraditoriamente (como conv√©m ao jarg√£o dial√©tico) se combinam escravid√£o e liberalismo. O grande feito de Machado seria estilizar nossa realidade social contradit√≥ria onde escravid√£o e liberalismo, homens livres privados de mercado, favor e clientelismo se mesclam de forma peculiar. Em s√≠ntese, Schwarz parte dessa intui√ß√£o para elaborar o dispositivo cr√≠tico que mobiliza e reitera para dar conta da obra de Machado de Assis e mais tarde de praticamente todos os autores que submete ao escrut√≠nio de sua cr√≠tica dial√©tica.

Para chegar aonde chegou, depois de muito ruminar ideias com a lentid√£o que √© o primeiro a admitir, o cr√≠tico uspiano tra√ßou um longo e complexo percurso de ideias passando pela tradi√ß√£o dial√©tica alem√£, em particular Adorno, e pelo estreito conv√≠vio com seus companheiros formados na Universidade de S√£o Paulo. Esse conv√≠vio fecundo compreende sua aprendizagem da cr√≠tica dial√©tica de Antonio Candido e seu debate franco e cont√≠nuo com amigos de gera√ß√£o. Esse debate √© um fen√īmeno raro no ambiente intelectual brasileiro. Um exemplo pessoal. Estava em S√£o Paulo em 1995, quando de uma das muitas celebra√ß√Ķes acad√™micas do famoso semin√°rio de estudos do Capital, de Marx. Os disc√≠pulos de Schwarz, Giannotti e outros dos participantes desse grupo n√£o mediram esfor√ßos para converter essa experi√™ncia acad√™mica singular numa lenda que, como conv√©m ao pioneirismo de locomotiva dos intelectuais paulistas, eleva o feito a desmedidas incongruentes com o esp√≠rito desmitificador e desmistificador do marxismo.

Reunidos no audit√≥rio da USP, situado na lend√°ria rua Maria Ant√īnia, Schwarz, Giannotti, Fernando Novais, Paulo Eduardo Arantes e outras estrelas da universidade debateram exaustivamente a hist√≥ria e as consequ√™ncias ideol√≥gicas e culturais do semin√°rio de leitura de O capital. O que mais me impressionou, al√©m do bandeirantismo indisfar√ß√°vel dos uspianos, n√£o obstante as ironias corretivas de Schwarz e Giannotti, foi a franqueza isenta de qualquer complac√™ncia observ√°vel no debate entre estes. Surpreende-me ainda, tendo em mente minha experi√™ncia pregressa e prospectiva, ao considerar a forma como argumentavam e divergiam.

O t√≠tulo da minha resenha, que pouco trata do livro, admito, cont√©m seu gr√£o de ironia ou provoca√ß√£o. Como comecei assinalando, Roberto Schwarz continua manejando com sofistica√ß√£o e pertin√°cia sua dial√©tica tropical. Assim procedendo, ele se alinha dentro da longa tradi√ß√£o do pensamento cr√≠tico que procura ainda e em v√£o explicar o Brasil. N√£o que sua obra n√£o esclare√ßa muito de Machado, em particular, e do Brasil, em geral. Mas confesso que por vezes muito me custa, n√£o raro √†s bordas da ang√ļstia, articular minha compreens√£o do Brasil, com seus impasses insol√ļveis, tendo as categorias dial√©ticas de Schwarz como norte.

Elas me parecem abstratas demais, a partir do pr√≥prio conceito de dial√©tica que, como certa vez observou Jos√© Guilherme Merquior, √© uma dama de bem pouca virtude. De fato, o conceito foi v√≠tima de tanto uso e abuso que gente como eu, mal escolada no radicalismo te√≥rico da academia, tende a encar√°-la como indigesta. No mais, descendo a um exemplo extra√≠do do ensaio sobre Caetano Veloso, surpreendeu-me ler o tom elogioso com que Schwarz menciona um longu√≠ssimo per√≠odo de Verdade tropical (cf. pp. 35-6) que √© estilisticamente uma das passagens mais infelizes na prosa clara e l√ļcida de Caetano. Depois de qualificar o per√≠odo como um aut√™ntico "ol√© dial√©tico", Schwarz afirma que "... a sintaxe procura sugerir, ou captar, a complexidade do processo real. Pela abrang√™ncia da vis√£o, pela sua pot√™ncia organizadora, pelo teor de paradoxo e pela capacidade de enxergar o presente no tempo, como hist√≥ria, √© uma fa√ßanha" (p. 72).

Por fim, embora com razão tanto critique o radicalismo inoperante da cultura acadêmica, Schwarz pratica uma crítica dialética exposta ao risco de resvalar na impotência e no desespero político. Afinal, onde se inscreve o solo social da sua dialética inspirada numa ideologia que sempre insistiu sobre a necessidade de mudarmos o mundo? Como sabemos, o agente histórico dessa suposta mudança revolucionária pregada por Marx seria o proletariado urbano. Onde se esconde esse sujeito histórico na dialética de Schwarz? Até onde sei, não é mais o proletariado do ABC paulista, cujo líder chegou ao poder e nele se manteve e mantém aliado às forças mais retrógadas da política brasileira. Portanto, Lula Sarney ou Lula Maluf é carta fora do baralho dialético.Quem é, afinal, o sujeito histórico da dialética tropical tão refinadamente burilada e reiterada pela crítica de Roberto Schwarz?

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Fernando da Mota Lima é professor da UFPE.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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