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A esquerda e a imagem da mulher

Lincoln Secco - 2004
 

Uma mulher tem o direito de subir ao cadafalso; ela deve ter também o de subir a uma tribuna (Olympe de Gouges, Les Droits de la Femme et de la Citoyenne) [1].

Marianne √© o s√≠mbolo da Revolu√ß√£o Francesa. A est√°tua da liberdade √© uma mulher. A Rep√ļblica e a Na√ß√£o s√£o mulheres. Tamb√©m a deusa da democracia. Os principais √≠cones que ainda sustentam os ideais de emancipa√ß√£o humana s√£o femininos, entretanto as rela√ß√Ķes pr√°ticas das mulheres com os movimentos de esquerda nunca se deram em termos de igualdade. Proudhon, o te√≥rico do anarquismo e da liberdade, acreditou, em seu Amour et mariage, na inferioridade da mulher. A Associa√ß√£o Internacional dos Trabalhadores, da qual Marx e Engels faziam parte, condenou o trabalho feminino para que as mulheres pudessem "ficar em casa". Certamente, e como teremos oportunidade de ver, mulheres participaram sempre desses movimentos, fossem eles anarquistas, socialistas ou comunistas.

√Č verdade que a aristocracia setecentista nas regi√Ķes francesas podia ser acusada de muitas coisas, mas n√£o por seu machismo [2]. Entretanto, a liberdade feminina era restrita √†s cortes√£s e √†s mulheres de sangue nobre. Somente na Grande Revolu√ß√£o Francesa as mulheres esbo√ßaram sua primeira forma de participa√ß√£o pol√≠tica coletiva. A Declara√ß√£o dos Direitos do Homem e do Cidad√£o n√£o se referiu √†s mulheres. E as constitui√ß√Ķes da Fran√ßa mon√°rquica ou republicana n√£o deram direitos a elas (nem mesmo a Constitui√ß√£o de 1793, a mais democr√°tica de todas) [3]. S√≥ √†s v√©speras da Rep√ļblica, depois de 1791, um "feminismo te√≥rico", na express√£o de Elizabeth Roudinesco, ganhou for√ßa. Era o ano da crise, da guerra. Neste ano foi criada a Sociedade dos Amigos da Verdade, primeiro clube feminino [4].

O ano seguinte assistiria √† fuga de Varennes e √†s dissens√Ķes que levariam ao 10 de agosto, √† vit√≥ria francesa em Valmy, √† queda da monarquia e ao in√≠cio do Ano I republicano (22 de setembro de 1792). No ano II, a atriz de prov√≠ncia Claire Lacombe (dita Rose Lacombe) e Pauline L√©on animaram o segundo clube exclusivamente feminino da Revolu√ß√£o: o Clube das Cidad√£s Republicanas Revolucion√°rias. Este era dominado pelo esp√≠rito enrag√© de homens como Leclerc e Jacques Roux e representava a sans-culotterie feminina. Este Clube foi fechado pelo Comit√© de Salut Publique em 30 de setembro de 1793. Protegida pelos h√©bertistes, Lacombe s√≥ foi aprisionada em mar√ßo do ano seguinte. Permaneceu presa at√© 1795 [5].

Apesar desses antecedentes, o feminismo n√£o se desenvolveu nem deixou rastros por muitos anos. Ele s√≥ recobrar√° √Ęnimo depois de 1830, com o advento da monarquia de julho, de recorte liberal. O regime juste milieu n√£o podia manter as mulheres nas mesmas condi√ß√Ķes da Restaura√ß√£o. Ou podia? Certamente, as mulheres mais militantes n√£o concordariam com isso e fizeram suas demandas no bojo da nova ascens√£o das lutas revolucion√°rias dos anos 1830-1848. Foi nesses anos que a pr√≥pria palavra come√ßou a ser veiculada em franc√™s. F√©minisme apareceu por volta de 1837 [6]. N√£o por acaso foi nessa √©poca que a palavra socialisme come√ßou a ser utilizada e Robert Owen asseverou que o grau de emancipa√ß√£o da mulher era a medida mais segura para mostrar o n√≠vel de emancipa√ß√£o humana. As experi√™ncias cooperativistas de Owen criaram os jardins- de-inf√Ęncia e promoveram as id√©ias de igualdade entre os sexos.

A nova fase despertada pelas revolu√ß√Ķes, especialmente depois de 1848, viu surgir uma nova mulher naqueles meios mais militantes (n√£o necessariamente oper√°rios). A mulher livre. Segundo um dicion√°rio de 1845, era aquela mulher que se desejava independente da lei e do poder do homem. Que pretendia os mesmos empregos que ele. Citava como as mais c√©lebres mulheres livres aquelas da √©poca da Revolu√ß√£o Francesa, como Catherine Th√©ot e Olympe de Gouges [7]. Mas, em verdade, as mulheres militantes (do feminismo e ou do socialismo) fizeram suas primeiras apari√ß√Ķes p√ļblicas na Primavera dos Povos. Foi a mais not√°vel gera√ß√£o de mulheres revolucion√°rias surgida at√© ent√£o.

Em geral, nasceram com a Revolu√ß√£o de Julho de 1830 e eram bem jovens em 1848, mas j√° em condi√ß√Ķes de participar ou compreender o fen√īmeno revolucion√°rio. E se tornaram militantes maduras na √©poca da Primeira Internacional e da Comuna de Paris. Esses marcos hist√≥ricos fizeram dessa gera√ß√£o a mais importante na luta pela emancipa√ß√£o feminina. Favorecidas pela educa√ß√£o recebida e, muitas vezes, pela origem na classe m√©dia, elas optaram, sempre, por uma combina√ß√£o de estudos das quest√Ķes sociais com uma vida independente, que exigia de algumas delas um extenuante trabalho f√≠sico para a garantia da sobreviv√™ncia. Afastadas de casamentos tradicionais, elas tiveram muitas dificuldades financeiras.

A boa educa√ß√£o foi fator decisivo na evolu√ß√£o de todas elas. Nathalie Lemel (1827-1921) era filha do dono de um caf√© e adquiriu boa instru√ß√£o. Abriu, depois, uma livraria. L√©odile L√©o (1832-1900), que se tornaria conhecida assinando seus escritos como Andr√© L√©o, era filha de um oficial da marinha, o qual lhe concedeu excelente educa√ß√£o formal. Louise Michel (1830-1905), a mais c√©lebre agitadora e escritora socialista, era filha do ch√Ętelain de Vrancourt, que lhe deu boa instru√ß√£o. A mais jovem dessa gera√ß√£o, Pauline Mekarska Mink (1839-1901), conhecida como Paule Mink, era filha do Conde Mekarski, participante da insurrei√ß√£o polonesa de 1830 e que se refugiara na Fran√ßa. Margherite Tinayre (1831 - ?) era filha de burgueses remediados e fez bons estudos.

Essa gera√ß√£o s√≥ se tornou reconhec√≠vel depois de 1860, data da publica√ß√£o de La femme affranchie, de Jenny d¬íH√©ricourt. O movimento feminista ampliou-se e cooperativas de ajuda m√ļtua e de consumos foram criadas com as mulheres. Livros e artigos come√ßaram a ganhar a imprensa oper√°ria. No final do s√©culo XIX o cat√°logo do Partido Oper√°rio Belga tinha uma se√ß√£o de feminismo [8].

A palavra féministe passou a ser usada para designar essas mulheres militantes. A Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864, já tinha mulheres como Nathalie Lemel. Ela fundou com Varlin "La marmite", uma sociedade de alimentação para operários a preços módicos.

Em Paris, as mulheres trabalhadoras viviam em situa√ß√£o de pen√ļria. A cidade tinha, em 1870, ao redor de 112 mil oper√°rias [9]. Um livro de 1874 declarava que uma mulher solit√°ria n√£o poderia viver numa cidade com menos de 248 francos. Na juventude ela ainda conseguiria em m√©dia uns 172 francos. No auge de sua for√ßa f√≠sica uns 250 francos. Mas na velhice n√£o mais do que 126 francos [10]. Essas mulheres dificilmente chegariam aos mesmos n√≠veis de educa√ß√£o daquelas supracitadas. Ainda assim, a exemplo dos oper√°rios do sexo masculino, ainda que em menor medida, muitas delas se fizeram autodidatas e escreveram autobiografias.

Na √Āustria, Adelheid Popp descobriu sua milit√Ęncia atrav√©s da auto-educa√ß√£o. Com um hist√≥rico de abusos sexuais, opress√£o familiar e falta de escolaridade formal, ela come√ßou lendo romances at√© que descobriu a literatura socialista. Leu Kautski, Lassale, Engels e os jornais oper√°rios. Fez-se a primeira l√≠der feminina da socialdemocracia austr√≠aca. Foi editora do partido e, depois da Guerra de 1914-1918, deputada no parlamento [11].

Mas esse já era um momento em que o feminismo espraiou-se para além do socialismo, envolvendo mulheres de classe média que lutavam pelo voto. Um comentário de um autor português da época revela muito: "[...] todas as meneuses do sufragismo inglês [...] roucas, violentas, desgrenhadas, masculinas, invectivando de punhos cerrados a multidão - hão de ser vencidas na luta com o homem, sobretudo porque a sua obra, além de contraditória com a fisiologia e com a psicologia da mulher, é uma obra destruidora de toda a harmonia, de toda a felicidade, de toda a beleza. O enigma da mulher resume-se nisto: ser bela para ser possuída" [12].

Era obra da mentalidade difusa na época o ideal de estar de acordo com a fisiologia, a psicologia, a sociologia... enfim: a ciência. Não era até mesmo o racismo "científico"? O preconceito contra a mulher não era diferente. E só foi combatido de modo eficaz por elas mesmas. Até mesmo no interior dos movimentos socialistas. Eles foram menos hostis a elas. Mas não estavam despidos de toda a misoginia de sua época.

A prova disso pode ser encontrada seja nos meios socialistas, seja naqueles libert√°rios (de longe os mais abertos √† liberdade sexual e social das mulheres). No in√≠cio do s√©culo XX a principal acusa√ß√£o que se fazia √†s mulheres nos meios anarquistas era a de que sua entrada no mercado de trabalho rebaixava os sal√°rios dos homens e provocava at√© mesmo o desemprego entre eles [13]. Os sindicatos socialistas e trabalhistas preferiam ver a mulher casada no lar. E, de fato, a maioria delas trabalhava at√© o casamento, mas n√£o depois (com as exce√ß√Ķes habituais, como a regi√£o t√™xtil do Lancashire). Na Inglaterra, em 1911, s√≥ 11% das trabalhadoras tinham marido e, na Alemanha, 30% em 1907 [14]. Muitas que continuavam a trabalhar para fora o faziam em casa. Mas nem mesmo o trabalho dom√©stico, t√≠pico de fam√≠lias aristocr√°ticas ou das classes dominantes e das camadas m√©dias no Terceiro Mundo ainda hoje, manteve sua import√Ęncia no emprego das mulheres. Em 1913 s√≥ 5% das casas tinham dom√©sticas residentes na Inglaterra. Em 1951, somente 1% [15].

Tudo isso mudou muito depois de 1914, com a Guerra Europ√©ia. Mais mulheres assumiram postos na ind√ļstria e no setor terci√°rio. E os movimentos exclusivamente femininos, bem como as alas femininas dos sindicatos e partidos oper√°rios levaram a esquerda a ampliar a luta pela igualdade de direitos entre os g√™neros. Incluindo o sufr√°gio universal que come√ßou a se estender dos pa√≠ses n√≥rdicos aos Estados Unidos e at√© ao Brasil depois da Revolu√ß√£o de 1930, abarcando, hoje, a maioria dos pa√≠ses.

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Lincoln Secco é professor de História da USP.

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Notas

[1] Roudinesco, Elizabeth. Théroigne de Méricourt: uma mulher melancólica durante a Revolução. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 106.

{2] Apud Renato Janine Ribeiro, em: Montesquieu. Cartas Persas. São Paulo: Paulicéia, 1991.

[3] Les Constitutions de la France depuis 1789. Présentation par Jacques Godechot. Paris: Flammarion, 1979, p. 73.

[4] Roudinesco, cit., p. 103.

[5] Tulard, J. et. al. Histoire et dictionnaire de la Révolution Française. 1789-1799. Paris: Rober Laffont, 1987, p. 917.

[6] Dauzat, A., Dubois, J., e Mitterrand, H. Nouveau dictionnaire étymologique et historique. Paris: Larousse, 1971, p. 300.

[7] Saint-Laurent, Ch. Dictionnaire encyclopédique usuel. Répertoire universel et abrégé de toutes les connaissances humaines. 3 ed. Paris: Au comptoir des imprimeus-unis, 1845, p. 581.

[8] Destrée, J., e Vandervelde, E. Le socialisme en Belgique. Paris: Ed. V. Giard e E. Brière, 1903. (1ª ed.: 1898).

[9] Nöel, Bernard. Dictionnaire de la Comune. Paris: Ed. Fernand Hazan, 1971, p. 171.

[10] Legouvé, Ernest. Histoire morale des femmes. Paris: Ed. Didier, 1874, p. 371.

[11] Lyons, Martyn "Experiências de leitura: mulheres de classe trabalhadora na Europa do século XIX". In: Lyons, M., e Leahy, C. A palavra impressa. Histórias da leitura no século XIX. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 1999, p. 85.

[12] Dantas, J√ļlio. Figuras de ontem e de hoje. 2 ed. Porto: Livraria Chardron, 1919, p. 54-5.

[13] Garc√≠a-Maroto, M. Angeles. La mujer en la prensa anarquista. Espa√Īa 1900-1936. Madrid: Anselmo Lorenzo, 1996, p. 77 s.

[14] Hobsbawm, Eric. Mundos do trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 135.

[15] Id. Da Revolução industrial inglesa ao imperialismo. Rio de Janeiro: Forense, 1979, p. 260.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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