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Valentino Gerratana (1919-2000): In memoriam

G. Liguori & F. F. Buey - 2000
 

Como em todos os lugares em que se desenvolvem estudos gramscianos, também em nosso site aparece difusamente o nome de Valentino Gerratana, intelectual italiano recentemente desaparecido.

Tal fato est√° longe de ser uma casualidade: na verdade, o nome de Gerratana est√° associado √† primeira edi√ß√£o efetivamente cr√≠tica dos Cadernos do c√°rcere, datada de 1975. E a import√Ęncia desta edi√ß√£o cr√≠tica ¬Ė ou, exatamente, "edi√ß√£o Gerratana" ¬Ė n√£o se esgota em ter restitu√≠do os cadernos carcer√°rios em sua integridade filol√≥gica, mas reside tamb√©m, e talvez principalmente, em ter fornecido o s√≥lido fundamento para todo um rico per√≠odo de realiza√ß√Ķes te√≥ricas inspiradas na obra de Gramsci.

Gerratana, com sua paix√£o gramsciana, com seus estudos sobre o marxismo, representa como poucos um momento extremamente alto do pensamento cr√≠tico em nosso tempo: um daqueles "grandes velhos" do marxismo italiano e europeu ¬Ė como Nicola Badaloni, como Pietro Ingrao e alguns outros mais ¬Ė, cuja li√ß√£o de vida e de pensamento √© ainda mais importante neste complicado tempo de transi√ß√£o que nos cabe viver.

Em homenagem a Gerratana, seguem-se textos de Guido Liguori, redator-chefe da revista Critica marxista, especialmente escrito para Gramsci e o Brasil, e do professor espanhol Francisco Fern√°ndez Buey, publicado originalmente na revista mientras tanto.

1. Um intelectual inatual, de Guido Liguori.

√Č dif√≠cil comentar o desaparecimento de Valentino Gerratana, acontecido sexta-feira, 17 de junho, em Roma. Quem teve a sorte de n√£o se deter no limiar de sua timidez, de sua reserva e at√© de sua mod√©stia, modos de ser que era f√°cil confundir com aspereza, quem teve a sorte de se poder dizer seu amigo, hoje sente sobretudo a dor pela perda de um homem que, como poucos outros, soube ser exemplo de paix√£o pol√≠tica, agudeza de engenho, honestidade intelectual. Um comunista e um homem de cultura profundamente inatual, defini√ß√£o que ¬Ė estou convencido ¬Ė lhe teria agradado.

Conheci Gerratana nos corredores e salas repletas de livros do Instituto Gramsci, na velha sede da Via del Seminario. Jovem redator de Critica marxista, fui buscar um artigo de Paolo Spriano para um n√ļmero especial da revista sobre Togliatti. Spriano e Gerratana, amigos de toda uma vida, eram muito diferentes um do outro: culturalmente, politicamente e psicologicamente. Gerratana era reservado e s√©rio, mais inclinado a escutar do que a falar, na mesma medida em que Spriano era extrovertido e brincalh√£o. Para n√≥s, estudantes ou pouco mais do que isso, era mais f√°cil entrar em sintonia sobretudo com o segundo. Encontrei-os naquele dia conversando num corredor. Spriano me ouvia e me estendeu logo o escrito que j√° estava pronto. E a√≠ decidiu fazer uma das suas: "Mas voc√™s n√£o pediram um artigo a Valentino? Voc√™ n√£o sabia que Togliatti gostava muito dele?". Me senti arrasado: n√£o, n√£o t√≠nhamos pedido um artigo a Gerratana. Acontece. Valentino compreendeu meu embara√ßo, me sorriu, resmungou alguma coisa, fez uma alus√£o ir√īnica. Eu fui embora quase correndo.

A partir daquele dia nossas rela√ß√Ķes mudaram pouco a pouco. Convidou-me cada vez mais freq√ľentemente a entrar em seu gabinete do Instituto, em que tamb√©m trabalhava Antonio Santucci. Tornou-se um h√°bito, primeiro, fazer-lhe algum pedido de esclarecimento, em seguida buscar a ousadia para fazer com que lesse os primeiros estudos gramscianos que eu escrevia. N√£o era um leitor complacente. Era at√© excessivamente franco (um tra√ßo "gramsciano"?). Mas estava sempre incrivelmente dispon√≠vel para quem tinha vontade de estudar e de saber. Quantos estudiosos, italianos ou estrangeiros, jovens e menos jovens, passaram por aquele gabinete ou, mais tarde, por sua casa, para lhe pedir uma opini√£o, para tentar resolver uma d√ļvida? Valentino ouvia longamente, avaliava as quest√Ķes, se levantava silencioso para consultar um livro ou uma revista que pudessem ajudar.

Nos √ļltimos anos Gerratana se havia retirado cada vez mais entre seus livros. A sa√ļde era prec√°ria e a vida n√£o lhe havia poupado golpes cru√©is. Ir encontr√°-lo em Monte Mario, alguns metros acima do Est√°dio Ol√≠mpico, n√£o era f√°cil. Mas n√£o era nunca um peso, um sacrif√≠cio. Porque, superadas as dificuldades do tr√°fego e de nossa vida cada vez mais agitada, encontr√°vamos em seu gabinete uma pessoa intelectualmente sempre viva e combativa, com quem era um prazer falar e discutir. Falava de bom grado de pol√≠tica e de estudos gramscianos. Comentava a √ļltima entrevista de seu amigo Alessandro Natta. Queria saber novidades da International Gramsci Society¬†- IGS. Criticava o √ļltimo livro ou o √ļltimo artigo sobre Gramsci, que infalivelmente havia lido. Defendia sua "edi√ß√£o cr√≠tica" dos Cadernos do c√°rcere, advertindo sobre os riscos que se correria alterando sua materialidade, ou seja, a interven√ß√£o na ordem dos par√°grafos, deslocando-os com base em hip√≥teses interpretativas certamente interessantes, mas sempre controvertidas e imprecisas.

Sua "edi√ß√£o cr√≠tica" havia representado um enorme passo adiante nos estudos sobre Gramsci, em rela√ß√£o √† edi√ß√£o tem√°tica de Togliatti (que, deve-se dizer, ele n√£o desprezava de modo algum, convencido de que, no tempo em que saiu, o imediato p√≥s-guerra, fosse a melhor poss√≠vel para assegurar a fortuna de Gramsci e seu uso pol√≠tico, duas coisas que n√£o considerava absolutamente em contradi√ß√£o, que estava certo de que o comunista Gramsci tamb√©m n√£o teria visto como contradit√≥rias): n√£o s√≥ por um aparato de notas considerado por todos indispens√°vel, ainda que pass√≠vel de melhoramento, mas tamb√©m pelo fato de oferecer ao leitor um texto "preciso", a partir do qual cada um pode formular suas pr√≥prias hip√≥teses interpretativas e at√© filol√≥gicas, sem pretender imp√ī-las aos demais, oferecendo-as assim √† discuss√£o da comunidade cient√≠fica nas melhores condi√ß√Ķes poss√≠veis. Por este amor √† honestidade e √† clareza, defendia "seu Gramsci", tal como havia tentado defender "seu" partido, o partido de sua vida, o Partido Comunista Italiano. E, depois do fim do PCI, fim contra o qual se empenhou ativamente, permaneceu um comunista sem partido.

Farão falta à cultura italiana a severidade quase formal de Gerratana, sua absoluta aversão aos pequenos acordos tanto teóricos quanto políticos, sua aspereza, sua oposição à cultura e à política como espetáculo? Duvido. Seria extraordinário, seria importante, mas duvido. Também por isto resta o lamento por sua morte. Pela perda, além do amigo, de um mestre verdadeiro. Não sei dizer de qual das duas coisas, hoje, sinto mais a falta.

2. En recuerdo de Valentino Gerratana, de Francisco Fern√°ndez Buey.

1. Valentino Gerratana murió el 17 de junio en Roma. Los lectores que hayan seguido esta revista desde su fundación recordarán, sin duda, el nombre -- que aquí ha sido citado muchas veces -- y, tal vez, recuerden también alguno de sus excelentes artículos sobre Gramsci, no hace mucho tiempo traducido para mientras tanto por Josep Torrell. Por su parte, los gramscianos y más en general las personas que aprecian la obra de Gramsci recordarán siempre con agradecimiento a Valentino Gerratana, ya que, desde 1975, su trabajo como editor de los Quaderni del carcere era referencia obligada en toda traducción o comentario del pensador sardo.

La edici√≥n cr√≠tica de los Quaderni de Antonio Gramsci, publicada por Einaudi en 1975 en cuatro vol√ļmenes, ha sido con toda seguridad el m√°s alabado de los trabajos realizados por Gerratana. Por ella era conocido y apreciado, con raz√≥n, desde los Estados Unidos de Norteam√©rica a la India y desde Jap√≥n a los diferentes pa√≠ses de Europa. Las actas del Congreso gramsciano reunido en Formia en 1987 bajo el r√≥tulo "Gramsci nel mondo" son todav√≠a un testimonio inigualable de la unanimidad con que estudiosos de los cinco continentes han elogiado merecidamente esta labor. Por ella fue nombrado presidente honor√≠fico de la International Gramsci Society - IGS, que all√≠, en Formia, inici√≥ su andadura. Pero Gerratana no fue s√≥lo el mejor editor y lector de Gramsci hasta la fecha. Fue tambi√©n un excelente historiador de las ideas y un intelectual permanentemente comprometido con el ideal de la liberaci√≥n.

Valentino Gerratana entendi√≥ desde joven la libertad como liberaci√≥n y, frente a las concepciones formalistas o meramente procedimentales de la democracia, vi√≥ √©sta como un proceso hist√≥rico en marcha. En la vida p√ļblica actu√≥ siempre de acuerdo con esas convicciones: primero en el todav√≠a gramsciano mundo "grande y terrible" de la segunda guerra mundial, cuando a√ļn Mussolini dominaba Italia; luego, en los a√Īos del renacimiento del marxismo en Europa; m√°s tarde, cuando Gramsci se convirti√≥, por politicismo estrecho, en una moda instrumental. Y as√≠ sigui√≥ actuando Gerratana cuando el autodenominado "pensamiento d√©bil" y el presunto "pensamiento √ļnico" desplazaron el estudio de la obra de Gramsci de los programas que es preceptivo ense√Īar en las facultades de humanidades y ciencias sociales y empez√≥ a dudarse en los ambientes intelectuales de la oportunidad de leer a quien sin duda ha sido uno de los cl√°sicos del pensamiento pol√≠tico en el siglo XX.

Durante los largos a√Īos que separan la Liberaci√≥n de Roma de la desaparici√≥n del "socialismo real" y de la disoluci√≥n del partido comunista italiano Gerratana fue un comunista laico, un comunista cr√≠tico y al mismo tiempo leal a los ideales por los que luch√≥ ya en su juventud.

De s√≠ mismo habl√≥ y escribi√≥ muy poco. Apenas nos ha dejado unas cuantas p√°ginas que sirvieran para trazar su biograf√≠a en la hora de la muerte. Y ni siquiera en la hermosa introducci√≥n que escribi√≥ en 1950 para el volumen de los escritos p√≥stumos de Giaime Pintor, el amigo muerto con el que hab√≠a compartido momentos dif√≠ciles en los a√Īos de la resistencia antifascista, hizo √©l concesiones autobiogr√°ficas. Como ha escrito Simonetta Fiori en una nota necrol√≥gica publicada en La Repubblica al d√≠a siguiente de su fallecimiento, Gerratana prefer√≠a echar un velo -- el velo del pudor -- sobre su papel en los a√Īos de la resistencia antifascista, precisamente "porque no era amante de medallas ni trofeos".

El que fue decano de todos los gramscianos sol√≠a definirse a s√≠ mismo, en privado y en broma, como "un detective". Y, en cierto modo, lo era: un detective del pensamiento, de la filolog√≠a, de la historia de las ideas. Cuando se compara su edici√≥n de los Cuadernos gramscianos con la edici√≥n tem√°tica anterior (que hab√≠a sido inspirada y parcialmente preparada por Palmiro Togliatti) se comprende mejor el sentido de aquella autoiron√≠a. Pues hay en su edici√≥n un trabajo tan paciente como inteligente de desciframiento de alusiones cruzadas, de contextualizaci√≥n de referencias, de dataci√≥n de los manuscritos, de comparaci√≥n entre las varias redacciones de las notas. Y un trabajo as√≠ exige, efectivamente, una capacidad deductiva, un m√©todo y un rigor intelectual parecidos a los que ten√≠a Holmes. No es ninguna casualidad el que "b√ļsqueda", "investigaci√≥n" y "m√©todo" hayan sido palabras recurrentes con las que el propio Gerratana calific√≥ su producci√≥n intelectual.

2. Valentino Gerratana hab√≠a nacido en Scicli (Sicilia) el 14 de febrero de 1919. Estudi√≥ en M√≥dica, en Salerno y en Roma. En esta √ļltima ciudad fue ayudante en la c√°tedra de Filosof√≠a del Derecho ocupada por Giorgio Del Vecchio. Siendo a√ļn muy joven, entre 1938 y 1942, public√≥ sus primeros escritos acad√©micos en la "Rivista internazionale di filosofia politica e sociale" y en el "Bolletino dell¬īIstituto di filosofia del diritto" de la Universidad de Roma. Casi todos estos escritos juveniles son recensiones de obras contempor√°neas de filosof√≠a del derecho, bien de autores italianos (F. Battaglia, G. Gualtieri, G. Santucci, G. Candoloro), bien de cl√°sicos como Campanella, Tocqueville y Sombart. De los escritos suyos de esa √©poca llaman la atenci√≥n dos aportaciones: "Contributo alla teoria del diritto naturale" (1938) y "Per una nuova impostazione del problema della libert√†" (1941), donde discute ya con Benedetto Croce.

A los veinticuatro a√Īos, durante la segunda guerra mundial, Gerratana fue uno de los promotores de la Resistencia antifascista en Roma. Queda una foto de esa √©poca, reproducida hace poco en La Repubblica, en la que se le ve junto a Giaime Pintor, Geno Pampaloni, Chichi Marongiu y Carlo Salinari. Despu√©s de la ca√≠da de Mussolini, particip√≥ en la reconstrucci√≥n del partido comunista en la capital y al terminar la guerra empez√≥ a escribir regularmente en L¬īUnit√† y en Rinascita. Desde finales de la d√©cada de los cuarenta Gerratana fue miembro del consejo de redacci√≥n de la revista Societ√†, y colabor√≥ habitualmente en Rinascita, en Il Contemporaneo y en Cr√≠tica marxista, publicaciones que han sido, hasta los a√Īos setenta, exponentes principales de la cultura marxista en Italia. Tambi√©n fue uno de los promotores de Editori Riuniti. Simult√°neamente, Gerratana ense√Ī√≥ historia de la filosof√≠a en las Universidades de Salerno, Siena y nuevamente Salerno (hasta su jubilaci√≥n, ya en la d√©cada de los noventa).

3. Gerratana ha sido un excelente historiador de las ideas y uno de los mejores conocedores del marxismo que ha dado Italia en el siglo XX. Después de dialogar con Croce sobre el concepto de libertad a principios de la década de los cuarenta, lo hizo con Bobbio sobre el concepto de democracia en la década de los cincuenta y más tarde con Lucio Colletti, con Althusser y con Della Volpe sobre la interpretación de la obra de Marx en la década de los sesenta, o con Sebastiano Timpanaro sobre el concepto de materialismo y la posibilidad de un "marxismo leopardiano".

A pesar de lo que estas referencias puedan sugerir, no era Gerratana un filósofo particularmente amigo de la polémica, sino más bien un pensador que intervenía en la batalla de ideas sólo en aquellos casos en que tenía la convicción de que éstas estaban siendo tergiversadas o trivializadas y que esta tergiversación o trivialización había de tener consecuencias prácticas negativas. En este sentido fue, sobre todo, un pensador de la práctica y del método, un hombre de la tribu de los que buscan, que supo combinar muy bien el rigor académico con la pasión política y al que nunca abandonó el convencimiento de que el beneficio de la duda y la crítica de las ilusiones tiene que equilibrarse con creencias analíticamente fundamentadas para que el pensamiento se haga práctica, actuación razonable.

Gerratana fue siempre un hombre extremadamente reservado y muy prudente, tanto en sus juicios políticos como en su trabajo de historiador de las ideas; un hombre alejado de los excesos, de las modas del momento y de los espectáculos intelectuales. Tal vez por eso cuando hoy, con la distancia que da el tiempo transcurrido, se releen aquellas intervenciones suyas en discusión con Croce, Bobbio, Althusser, Colletti o Timpanaro lo que más llama la atención es el respetuoso equilibrio con que trata a los clásicos y a sus intérpretes, la claridad en la exposición de las ideas, el esfuerzo por precisar las variaciones en el uso de las grandes palabras ("libertad", "democracia", "socialismo") y la coherencia de la argumentación.

Tampoco fue Gerratana un autor de muchos libros: en los casi sesenta a√Īos en que se mantuvo activo como escritor y publicista apenas llegar√≠a a publicar un centenar de ensayos, art√≠culos y rese√Īas. Los m√°s importantes de estos escritos fueron recogidos en dos libros: Ricerche di storia del marxismo y Gramsci. Problemi di metodo.

La primera parte de las Ricerche incluye tres de los asuntos a cuyo conocimiento m√°s ha aportado Gerratana, Gramsci aparte. En primer lugar, la interpretaci√≥n de la obra de Rousseau y su recepci√≥n por Marx. En segundo lugar, la valoraci√≥n del Anti-D√ľhring de Engels en la historia del marxismo. Y en tercer lugar, el papel y la fortuna de Antonio Labriola. Los tres eran temas ampliamente discutidos en Italia en la d√©cada de los sesenta y siguen siendo asuntos de importancia para la comprensi√≥n de lo que ha sido la evoluci√≥n hist√≥rica del marxismo. Pero en su lectura de Rousseau, Marx, Engels y Labriola, Gerratana rebasa con mucho lo que era entonces la pol√©mica italiana. Hay, adem√°s, en esa primera parte de las Ricerche, un estimulante ensayo sobre "Marxismo y darwinismo", que es de las pocas aportaciones originales y documentadas escritas por aquellos a√Īos a este respecto.

La segunda parte del libro está dedicada a un asunto que por entonces levantaba pasiones: los debates sobre la transición al socialismo. En ella Gerratana aborda la evolución de la concepción leninista del estado, la controversia que mantuvieron los bolcheviques sobre capitalismo de estado y estado socialista o sobre cómo se debe entender el concepto, más general, de "formación económico-social". En ese contexto discute además Gerratana uno de los temas de investigación que entonces había propuesto Louis Althusser, el de "los aparatos ideológicos del estado", para aclarar a partir de ahí cómo hay que entender -- pensando en el marco de una tradición y evitando el dogmatismo -- el método de Marx.

Aunque todos y cada uno de los ensayos contenidos en este libro se aguantan por si solos como investigación historiográfica, la discusión de la "cuestión del método" es de hecho el hilo conductor de las Ricerche (como lo es también de la lectura que Gerratana ha hecho de Gramsci). Y en este aspecto las páginas que dedicó a estudiar las relaciones entre historia, estructura y sistema, por un lado, y entre ciencia e ideología en el marxismo, por otro, son seguramente de las más ecuánimes que se han escrito en cualquier momento y país.

4. Para Gerratana, la ciencia, al igual que la ideolog√≠a, est√° vinculada a una praxis social, de tal modo que, "fuera de dicha praxis, no es nada". Ahora bien, en su contrastaci√≥n con la pr√°ctica social, el an√°lisis cient√≠fico se diferencia de la visi√≥n ideol√≥gica por el hecho de que no es s√≥lo, como esta √ļltima, funcional a la praxis, sino que al mismo tiempo es funcional a la comprensi√≥n de dicha praxis. En ese cuadro te√≥rico cobra relevancia como instrumento metodol√≥gico fundamental la scepsis de la raz√≥n cient√≠fica. √Čsta es entendida como la duda impl√≠cita en toda b√ļsqueda en la que no se da por anticipado el resultado de la investigaci√≥n que se debe alcanzar en el transcurso de la indagaci√≥n. En la scepsis de la raz√≥n cient√≠fica la duda est√° incorporada a la certeza y es inseparable de ella. Es la vibraci√≥n de ese polo lo que impide que la certeza cristalice en dogmatismo y lo que asegura la continuidad del proceso cognoscitivo, de una praxis en la que la inmediatez del conocimiento emp√≠rico sigue siendo un elemento subordinado.

En las breves consideraciones suplementarias que Gerratana escribió en 1974 para la presentación de la edición castellana de las Investigaciones hay un paso que pone de manifiesto su equilibrio, también en el debate metodológico:

Decir que el movimiento es el elemento constitutivo de la naturaleza del marxismo, en el sentido de que la historia del marxismo resulta ser una articulación directa de la estructura del mismo, tiene que significar dar primacía a la noción de "historia" respecto de la noción de "sistema" [...] Me doy cuenta de que esta orientación entra en contraste abierto con las orientaciones antihistoricistas tan difundidas hoy en la cultura contemporánea y en las cuales hay que incluir ciertas corrientes que pregonan su vinculación al maxismo. [...] Me limitaré a hacer observar que mientras el antihistoricismo implica en todos los casos una desvalorización de la noción de "historia", la posición opuesta, que tiende a dar la primacía a esa noción, no implica en absoluto ni necesariamente la desvalorización de la noción de "sistema" o de "estructura" [...] No me interesa hacer una defensa indiscriminada del historicismo (algunas de cuyas formas no merecen, en mi opinión, una defensa, sino una crítica sin prejuicios); lo que me interesa es más bien una renovación metodológica radical del mismo. Y en este campo creo que mi contribución consiste sólo en haber indicado una perspectiva y trazado una hipótesis. La historia del marxismo [...] aparece como una experimentación permanente de estructuras teóricas móviles en tanto que corruptibles y estables en tanto que renovables, como un arsenal, en suma, en el que la conclusión de los trabajos no es previsible.

5. En la d√©cada de los ochenta Gerratana sigui√≥ trabajando, en colaboraci√≥n con Antonio Santucci, en la edici√≥n de otros escritos de Labriola y de Gramsci. Frutos de esta colaboraci√≥n son la publicaci√≥n del Epistolario de Labriola (1890-1895 y 1896-1904) y una nueva edici√≥n, cr√≠tica, de los art√≠culos de Gramsci en L¬īOrdine Nuovo (1919-1920). Ya entonces, y m√°s a√ļn en sus √ļltimos a√Īos, Gerratana se distanci√≥ del Instituto Gramsci por la lectura "instrumental", plegada a la acci√≥n pol√≠tica m√°s inmediata, que √©ste estaba haciendo del pensador sardo. Tuvo que pasar entonces por la situaci√≥n parad√≥jica del comunista laico que lo sigue siendo cuando otros dejan caer el nombre y dervirt√ļan la cosa: √©l, que hab√≠a dedicado los mejores a√Īos de su vida a la reconstrucci√≥n paciente y desinteresada de los escritos gramscianos de la c√°rcel (gracias a cuya labor restituy√≥ el estilo "fragmentario" de Gramsci, aquella escritura funcional a un pensamiento abierto, problem√°tico y antidogm√°tico) a√ļn vivi√≥ el trance amargo de ser exclu√≠do de los actos oficiales del sesenta aniversario de la muerte de Gramsci organizados por el mismo Instituto con el que hab√≠a preparado la edici√≥n cr√≠tica de los Quaderni.

Aun as√≠ mantuvo en estas lamentables cosas p√ļblicas la misma discreci√≥n de siempre: el viejo comunista supo encajar. No pudo, en cambio, superar otras desgracias m√°s √≠ntimas: la melancol√≠a que le produjeron la muerte de un hijo todav√≠a joven, estudiante de Nietzsche en Berl√≠n, y, muy poco despu√©s, de su mujer, Olga Apicella, cuyo nombre seguramente resultar√° familiar a los amantes de los films de Nanni Moretti.

De Moretti, sobrino suyo, me habl√≥ Valentino con admiraci√≥n y cari√Īo la √ļltima vez que le v√≠ en Roma. A√ļn tengo el recuerdo de aquella conversaci√≥n romana, en ocasi√≥n de un encuentro organizado por la International Gramsci Society. Y lo recuerdo no s√≥lo por la afectuosidad de la menci√≥n, sino tambi√©n porque, adem√°s de descubrirme una obra que entonces yo no conoc√≠a, √©sta fue una manera, muy propia del maestro que era, de desviar cortesmente una conversaci√≥n que se estaba deslizando peligrosamente hacia los t√≥picos jerem√≠acos sobre los males de la izquierda. Con este desv√≠o Gerratana quer√≠a tal vez resaltar todav√≠a el lado bueno del momento: la aparici√≥n de alguien, m√°s joven, que ha conservado en im√°genes el esp√≠ritu cr√≠tico de los viejos rojos y renovado, con ese esp√≠ritu, el sano humor que se necesita para resistir en los momentos dif√≠ciles.

Adi√≥s, pues, y gracias por lo que nos ense√Īaste, tambi√©n a nosotros, Valentino Gerratana.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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