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"Uma nova política global já está aí, amorfa."

Silvio Pons & Leonardo Cazes - Setembro 2014
 


"A rejeição da política como solução para a vida me preocupa". Uma frase de Silvio Pons, professor da Universidade de Roma II e vice-diretor da Fundação Instituto Gramsci, em Roma, que esteve no Brasil para lançar A revolução global. História do comunismo internacional (1917-1991), pela Editora Contraponto, a Fundação Astrojildo Pereira e o site Gramsci e o Brasil. 

"Tenho 59 anos, nasci em Floren√ßa, na It√°lia, e sou apaixonado por futebol. Fiz gradua√ß√£o na Universidade de Floren√ßa, nos anos 1970, e no doutorado estudei a pol√≠tica externa da Uni√£o Sovi√©tica na Segunda Guerra. Meu √ļltimo livro procura relacionar a hist√≥ria do comunismo internacional e a Hist√≥ria global do s√©culo XX".

Pons come√ßou seus estudos universit√°rios, quando novas pesquisas sobre a experi√™ncia sovi√©tica se multiplicavam no continente. Aluno de Giuliano Procacci, √© especialista na pol√≠tica externa da Uni√£o Sovi√©tica. Nesta entrevista, ele aponta que a origem da crise da URSS foi pol√≠tica, mais do que econ√īmica, e analisa o imagin√°rio pol√≠tico comunista marcado pelas guerras.

A entrevista foi conduzida pelo jornalista Leonardo Cazes.

Conte algo que n√£o sei.

As guerras foram o grande fator de ascens√£o das revolu√ß√Ķes comunistas no s√©culo XX, n√£o as crises do capitalismo. A Revolu√ß√£o Russa est√° ligada √† Primeira Guerra Mundial; a Revolu√ß√£o Chinesa, √† Segunda Guerra. Nenhuma revolu√ß√£o surgiu a partir da Grande Depress√£o, em 1929, ou do choque do petr√≥leo nos anos 1970. O avan√ßo comunista na Indochina, nessa √©poca, est√° relacionado √†s duas guerras anteriores na regi√£o.

Essas guerras impactaram o pensamento comunista?

A imagina√ß√£o pol√≠tica comunista ficou muito marcada pela guerra desde o in√≠cio. Houve uma combina√ß√£o entre ideologia e experi√™ncia. Havia uma vis√£o catastr√≥fica do capitalismo. Para os comunistas, a Hist√≥ria era violenta, o capitalismo era violento. Essa seria a origem dos conflitos e por causa deles haveria revolu√ß√£o. √Č diferente do fascismo, que via a guerra como um projeto de conquistas territoriais.

Então essa é a raiz do autoritarismo desses regimes?

Isso contribui para explicá-lo, mas não só. Havia o ethos do sacrifício, de se preparar para tempos difíceis para que houvesse dias melhores. O autoritarismo também estava ligado à ideia comunista de uma guerra civil mundial inevitável. A noção do comunismo como uma modernidade alternativa ao capitalismo não se referia apenas à construção de uma sociedade melhor, mas também a uma preparação para essa guerra que viria. Esse foi o foco da modernização soviética feita por Josef Stalin, por exemplo.

O senhor v√™ a principal raz√£o do fim da Uni√£o Sovi√©tica em uma crise pol√≠tica, mais do que econ√īmica. Por qu√™?

Nos anos 1980, n√£o havia recess√£o econ√īmica na Uni√£o Sovi√©tica, mas estagna√ß√£o. Hoje na Europa tamb√©m h√° estagna√ß√£o, e nem por isso a Uni√£o Europeia vai acabar. As ra√≠zes da desagrega√ß√£o est√£o nas muitas contradi√ß√Ķes na rela√ß√£o entre o Estado sovi√©tico e os partidos e os Estados comunistas. √Č o choque entre um projeto de revolu√ß√£o mundial e os interesses de um Estado. Quando h√° a ruptura entre a China e a Uni√£o Sovi√©tica (em 1963), acaba a unidade do movimento comunista internacional. Ali, ele perde a sua legitimidade como um projeto global de alternativa ao capitalismo. Em maio de 1968, a crise do comunismo j√° existia, mas n√£o foi compreendida.

A China hoje pode ser considerada um país comunista?

Sim e não. Há legado do comunismo na China, que não pode ser entendida sem a revolução. Há um partido comunista, um comitê central. Mas, a partir dos anos 1980, o país abandonou o projeto global de uma modernidade anticapitalista e fez sua transição para um autoritarismo de mercado. A China abandonou a característica básica do comunismo no século XX, sua ambição universal.

Em todo o mundo, as pessoas parecem desiludidas com a política. A utopia faz falta?

A rejei√ß√£o da pol√≠tica como solu√ß√£o para a vida me preocupa, talvez porque eu esteja ficando velho (risos). Mas n√£o devemos ser nost√°lgicos da era das grandes ideologias. O fim do comunismo legou uma falta de f√© em qualquer transforma√ß√£o pol√≠tica, pois era uma experi√™ncia hiperpol√≠tica que falhou. Creio que uma nova pol√≠tica global j√° est√° a√≠, amorfa e dispersa, e vai emergir em algum momento de formas que ainda n√£o conhecemos. A Primavera √Ārabe foi um exemplo disso.

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Fonte: O Globo, 1 set. 2014.

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