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Sociologia e ciência política em Gramsci

Theófilo Codeço Machado Rodrigues - Setembro
 

Karl Marx n√£o nos legou uma teoria plenamente sistematizada da pol√≠tica ou do Estado, embora fosse sua vontade. Tal vazio abriu espa√ßo para que muitas vertentes marxistas constru√≠ssem poss√≠veis sociologias ou ci√™ncias da pol√≠tica a partir de suas interpreta√ß√Ķes singulares da obra do fil√≥sofo alem√£o. Neste trabalho apresento o que o italiano Antonio Gramsci (1891-1937) compreendeu como sociologia e ci√™ncia pol√≠tica a partir de seus famosos Cadernos do c√°rcere.

Principal dirigente do Partido Comunista Italiano, Gramsci foi preso em 1926¬†e s√≥ saiu do c√°rcere¬†quando a morte j√° se aproximava, em 1937. Embora seja autor de uma obra vast√≠ssima que hoje est√° organizada e publicada em todo o mundo, o comunista da Sardenha jamais publicou um livro em vida. Seus textos publicados eram apenas informes pol√≠ticos ou artigos de jornais, em especial para L¬īOrdine Nuovo. Mas foi na pris√£o que o autor escreveu a extensa obra que o traria postumamente para o pante√£o dos grandes cl√°ssicos do marxismo: os Cadernos do c√°rcere. Ao todo somam 33 os cadernos redigidos na pris√£o entre 1929 e 1935, tratando dos mais variados assuntos, como a filosofia, a arte, a cultura, o folclore, a lingu√≠stica, a religi√£o, a hist√≥ria da It√°lia, a economia, a educa√ß√£o, etc. Para o objetivo deste artigo, interessam-nos em especial os temas relacionados ao Estado, √† ci√™ncia pol√≠tica e √† sociologia, com √™nfase no di√°logo realizado com a obra de soci√≥logos de seu tempo.

Assim como Marx edificou sua filosofia da pr√°xis a partir do di√°logo cr√≠tico aberto com os intelectuais do tempo [1], Gramsci construiu sua interpreta√ß√£o da sociologia e da ci√™ncia pol√≠tica rebatendo muitos dos te√≥ricos seus contempor√Ęneos. Deste modo, recha√ßou tanto aquilo que definiu como a sociologia positivista do bolchevique russo Nicolai Bukharin quanto a teoria das elites de soci√≥logos italianos, como Robert Michels, Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca. Da mesma forma, assim como Marx foi herdeiro da filosofia alem√£, da economia inglesa e da pol√≠tica francesa, Gramsci foi ele mesmo um herdeiro de Maquiavel, Marx e Labriola.

O artigo est√° dividido em quatro breves se√ß√Ķes. Na primeira, examino a influ√™ncia de Maquiavel na compreens√£o de Gramsci sobre o Estado e a ci√™ncia pol√≠tica que se encontra no caderno 13. Essa leitura √© fundamental n√£o apenas para entender como Gramsci reformula a teoria do Estado, como tamb√©m para apreender sua defini√ß√£o geral de partido pol√≠tico e espec√≠fica de partido como "pr√≠ncipe moderno". Na segunda se√ß√£o, apresento a cr√≠tica desferida por Gramsci no caderno 11 √† teoria sociol√≥gica de Bukharin presente no livro A teoria do materialismo hist√≥rico: manual popular de sociologia marxista. Aqui j√° √© poss√≠vel encontrar um primeiro combate feito pelo sardo contra o positivismo na teoria sociol√≥gica, no caso, contra a sociologia marxista que era constru√≠da na R√ļssia revolucion√°ria. A terceira parte debru√ßa-se sobre os coment√°rios cr√≠ticos aos soci√≥logos da teoria das elites: Robert Michels, Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca. A mesma cr√≠tica feita contra o positivismo sociol√≥gico de Bukharin tamb√©m est√° presente contra os chamados "soci√≥logos burgueses". No entanto, Gramsci vai al√©m, combatendo conceitos espec√≠ficos formulados por esses autores com foco na ess√™ncia da teoria das elites, qual seja, a exist√™ncia eterna de uma divis√£o entre governantes e governados nas sociedades. Na quarta se√ß√£o, observo algumas aproxima√ß√Ķes e distanciamentos de Gramsci com o soci√≥logo alem√£o Max Weber. Como veremos, al√©m de diversas afinidades tem√°ticas, Gramsci relaciona-se teoricamente com Weber de forma muito mais respeitosa do que com os soci√≥logos italianos. Por fim, te√ßo algumas considera√ß√Ķes finais sobre a forma como √© encarada a sociologia e a ci√™ncia pol√≠tica no conjunto dos Cadernos do c√°rcere.

Como ser√° visto ao longo do texto, a √™nfase deste artigo n√£o est√° voltada para o aprofundamento de conceitos fundamentais legados por Gramsci para a teoria sociol√≥gica, como hegemonia, revolu√ß√£o passiva, americanismo e transformismo, entre tantos outros. O objetivo aqui √© observar os di√°logos travados por Gramsci com os soci√≥logos contempor√Ęneos, como Michels, Mosca, Pareto e Weber. Acrescente-se ao debate a influ√™ncia de Maquiavel sobre Gramsci pelo seu protagonismo como um dos fundadores da ci√™ncia pol√≠tica moderna.

Gramsci e a ciência política de Maquiavel

Tudo come√ßou com Maquiavel √© um importante e frequente aforismo da ci√™ncia pol√≠tica [2]. H√° seus motivos para s√™-lo. Foi a partir de Nicolau Maquiavel (1469-1527) que os estudiosos da pol√≠tica passaram a dar visibilidade ao mundo real em seus estudos - a√≠ inseridas suas conting√™ncias e circunst√Ęncias -, ou empreenderam cr√≠ticas alicer√ßadas naquilo que Lenin definiu como "an√°lise concreta da realidade concreta". Some-se a isso o fato de Maquiavel ser um italiano e compreenderemos o destacado papel que o fil√≥sofo ocupou nos Cadernos do c√°rcere.

S√£o muitos os cadernos onde encontramos men√ß√Ķes ao nome de Maquiavel, mas foi indubitavelmente no caderno 13 que Gramsci mais se¬†dedicou ao estudo do fil√≥sofo de Floren√ßa. Aqui encontramos refer√™ncias aos Discursos, √† Arte da guerra e √†s Hist√≥rias florentinas, mas √© em especial O Pr√≠ncipe que ocupa maior destaque nos cadernos. De acordo com nosso autor, at√© Maquiavel a ci√™ncia pol√≠tica caminhava "entre a utopia e o tratado escol√°stico". √Č a partir do Pr√≠ncipe de Maquiavel que algo muda na exata medida em que o dever ser une-se finalmente √† realidade concreta. "Maquiavel trata de como deve ser o Pr√≠ncipe para conduzir um povo √† funda√ß√£o do novo Estado, e o tratamento √© conduzido com rigor l√≥gico, com distanciamento cient√≠fico" (2007, p. 14), informa-nos Gramsci logo no in√≠cio de seu texto.

Ao trazer Maquiavel para o seu campo de estudo, Gramsci está preocupado em apropriar-se de um elemento fundamental de sua ciência política, qual seja, a mudança histórica na forma como se dá a ação política na sociedade moderna a partir da mediação entre coerção e consenso. Gramsci percebe - influenciado por Maquiavel - que o desenvolvimento histórico obriga a ciência política a operar uma mudança radical na ação política. A "guerra de movimento" própria do Oriente, onde a "sociedade civil era primitiva e gelatinosa", é substituída no Ocidente pela "guerra de posição". Em outras palavras, a ação política direta contra um determinado Estado era possível nas sociedades atrasadas que não desenvolveram uma sociedade civil. Nas sociedades modernas, onde a sociedade civil é complexa, a disputa pelo Estado também é complexa, pois é necessário conquistar a hegemonia da sociedade civil antes de alcançar o "Palácio de Inverno". Segundo Gramsci, "o Estado era apenas uma trincheira avançada, por trás da qual se situava uma robusta cadeia de fortalezas e casamatas" (2007, p. 262). As sociedades primitivas mantinham-se através de um máximo de coerção e um mínimo de consenso. O desenvolvimento de uma sociedade civil complexa nas sociedades modernas, ao contrário, possibilitou a manutenção do poder do Estado com um máximo de consenso e um mínimo de coerção.

Mas n√£o √© apenas a natureza d√ļplice do Centauro maquiav√©lico, "ferina e humana, da for√ßa e do consenso, da autoridade e da hegemonia, da viol√™ncia e da civilidade, do momento individual e daquele universal (da ¬ĎIgreja¬í e do ¬ĎEstado¬í), da agita√ß√£o e da propaganda, da t√°tica e da estrat√©gia" (2007, p. 33) que Gramsci recolhe do autor do Pr√≠ncipe. Assim como o fil√≥sofo de Floren√ßa descreveu a necessidade hist√≥rica de um Pr√≠ncipe capaz de unificar a It√°lia, o fil√≥sofo da Sardenha depositou no partido pol√≠tico a tarefa de ser o moderno Pr√≠ncipe, com a responsabilidade de "ser o anunciador e o organizador de uma reforma intelectual e moral, o que significa, de resto, criar o terreno para um novo desenvolvimento da vontade coletiva nacional-popular no sentido da realiza√ß√£o de uma forma superior e total da civiliza√ß√£o moderna" (GRAMSCI, 2007, p. 18).

Por fim, importante ressaltar um ponto fundamental lembrado por Gramsci. O mérito da original ciência política de Maquiavel não está nos ensinamentos dados ao príncipe propriamente. Por óbvio, as táticas da política - como as da guerra - modificam-se ao longo do tempo e do espaço. O original na ciência política advinda do Príncipe está na percepção da responsabilidade histórica dos atores políticos e em como eles devem posicionar-se diante dos problemas de sua época, diante dos fatos concretos. Conforme nos indica o sardo,

Maquiavel é um homem inteiramente de seu tempo e sua ciência política representa a filosofia da época que tende à organização das monarquias nacionais absolutas, a forma política que permite e facilita um novo desenvolvimento das forças produtivas burguesas. Em Maquiavel, pode-se descobrir in nuce a separação dos poderes e o parlamentarismo (o regime representativo): sua "ferocidade" está voltada contra os resíduos do mundo feudal, não contra as classes progressistas (GRAMSCI, 2007, p. 30).

De Maquiavel o sardo recolhe, portanto, importantes elementos que constituirão as bases da sua nova ciência política.

Gramsci contra a sociologia de Bukharin

O debate sobre a então nascente sociologia encontrou um espaço profícuo - embora crítico - nos Cadernos do Cárcere, em especial no caderno 11. A partir da desconstrução da principal obra do bolchevique Nikolai Bukharin (1888-1938), Gramsci apresentou alguns elementos de uma crítica da sociologia ou, ao menos, da sociologia feita até o momento. Sendo o mais relevante construtor e difusor do que seria uma possível sociologia soviética, ou do que seria um diálogo do marxismo com a sociologia, Bukharin acabou tornando-se o alvo preferencial da crítica de Gramsci.

Bolchevique de Moscou - o que n√£o √© pouca coisa -, Bukharin figura entre os mais destacados dirigentes do processo revolucion√°rio do in√≠cio do s√©culo passado na R√ļssia. Um dos poucos que teve o privil√©gio de pertencer ao Comit√™ Central do Partido Comunista, Bukharin foi simplesmente descrito por Lenin como "um valios√≠ssimo e grande te√≥rico do partido, como, al√©m disso, √© legitimamente considerado o favorito de todo o partido" [3]. N√£o √† toa, s√£o muitos os que reconhecem em Bukharin, e n√£o em Trotski, a real alternativa ao poder de Stalin na Uni√£o Sovi√©tica [4].

Editor do Pravda e autor de uma proeminente obra teórica dentre os bolcheviques, Bukharin formulou sobre a teoria do imperialismo e sobre a teoria do Estado, tendo influenciado diretamente textos de Lenin como O Estado e a revolução e Imperialismo, fase superior do capitalismo. Contudo, foi com A teoria do materialismo histórico: manual popular de sociologia marxista publicado em 1921 que o autor encontrou de vez a sociologia e tornou-se referência teórica para grande parte dos revolucionários do período. Foi também a partir da Teoria do materialismo histórico - que ao longo do caderno 11 aparece como Ensaio popular - que Gramsci estabeleceu seu diálogo crítico com Bukharin.

De antemão, poderíamos dizer que as principais críticas formuladas por Gramsci ao Ensaio popular encontram-se em um só lugar: a relação construída por Bukharin entre sociologia e marxismo a partir da suposta falta de uma análise dialética da realidade. Vejamos primeiro a crítica à sociologia e em seguida a crítica à falta da dialética.

Bukharin foi um profundo conhecedor da sociologia de seu tempo. Conhecia muito bem as obras de liberais, ou simplesmente n√£o-marxistas, como Durkheim, Simmel, Pareto, Michels e Weber o que incomodava parcela consider√°vel dos te√≥ricos bolcheviques, em especial Lenin. Um importante historiador estadunidense registrou, inclusive, que ap√≥s 1917 Bukharin "passou a ter uma viva consci√™ncia das implica√ß√Ķes das teorias sobre as elites de Pareto e Michels, e das teorias sobre a burocracia, de Max Weber - a seu ver o maior dos te√≥ricos n√£o-marxistas -, para a incipiente ordem sovi√©tica" (COHEN, 1990, p. 37). Mantinha tamb√©m apreci√°vel admira√ß√£o pela sociologia que advinha do austro-marxismo de Otto Bauer e Rudolf Hilferding, entusiasmo n√£o compartilhado por Lenin e pelos bolcheviques. Foi esse o ambiente ecl√©tico que em suas singularidades informou a teoria sociol√≥gica de Bukharin e que contribuiu para alguns de seus desdobramentos.

Logo na introdu√ß√£o do seu Ensaio popular Bukharin declarou que "a classe prolet√°ria tem sua sociologia pr√≥pria, conhecida pelo nome de materialismo hist√≥rico". Todavia, para Gramsci toda a ci√™ncia e a sociologia desenvolvidas por Bukharin n√£o passavam de uma sociologia positivista. De forma assertiva o autor chegou a afirmar que o conceito de ci√™ncia presente no Ensaio popular "deve ser criticamente destru√≠do; ele √© pura e simplesmente recolhido das ci√™ncias naturais, como se estas fossem a √ļnica ci√™ncia, ou a ci√™ncia por excel√™ncia, tal como acreditava o positivismo" (GRAMSCI, 2011, p. 122). Tal categoriza√ß√£o possui rela√ß√£o com aquilo que Gramsci definiu como a "lei dos grandes n√ļmeros", ou seja, a busca cient√≠fica por leis estat√≠sticas que possam prever os resultados sociais. Se o concreto √© "s√≠ntese de m√ļltiplas determina√ß√Ķes", conforme asseverou Marx em sua Cr√≠tica da economia pol√≠tica de 1859, e se as m√ļltiplas determina√ß√Ķes s√£o din√Ęmicas, ent√£o qualquer previs√£o social ser√° sempre imprecisa, na medida em que partir√° sempre de informa√ß√Ķes incompletas. Ao contr√°rio das ci√™ncias naturais, a hist√≥ria n√£o √© um laborat√≥rio ass√©ptico¬†em que¬†as vari√°veis est√£o sempre controladas por um analista. Deste modo, Gramsci apenas aceita a possibilidade de previs√£o da luta social, mas jamais dos seus momentos ou dos seus resultados.

Na realidade, é possível prever "cientificamente" apenas a luta, mas não os momentos concretos dela, que não podem deixar de ser resultados de forças contrastantes em contínuo movimento, sempre irredutíveis a quantidades fixas, já que nelas a quantidade transforma-se continuamente em qualidade (GRAMSCI, 2011, p. 121).

De forma original o italiano observa que a "lei dos grandes n√ļmeros", ou melhor, que a sociologia s√≥ pode encontrar resultados reais em sociedades passivas, ou seja, em contextos em que esteja presente um determinado equil√≠brio social. Utilizar a sociologia para aferir resultados¬†em sociedades¬†que passam por¬†processos de transforma√ß√£o certamente levar√° o analista a erro. Em suas palavras, "a extens√£o da lei estat√≠stica √† ci√™ncia e √† arte pol√≠tica pode ter consequ√™ncias muito graves se delas nos utilizarmos para construir perspectivas e programas de a√ß√£o" (GRAMSCI, 2011, p. 147).

De acordo com Gramsci, o grande equívoco de Bukharin resume-se em ter tentado reduzir a filosofia da práxis a uma sociologia.

A raiz de todos os erros do Ensaio e do seu autor [...] consiste precisamente nesta pretensão de dividir a filosofia da práxis em duas partes: uma "sociologia" e uma filosofia sistemática. Destacada da teoria da história e da política, a filosofia não pode deixar de ser metafísica, ao passo que a grande conquista da história do pensamento moderno, representada pela filosofia da práxis, é precisamente a historicização concreta da filosofia e sua identificação com a história (GRAMSCI, 2011, p. 144).
Esta divis√£o do marxismo entre uma sociologia e uma filosofia estaria intimamente relacionada com a suposta falta de compreens√£o do processo dial√©tico apontada por Gramsci. De fato, essa defici√™ncia de Bukharin j√° havia sido registrada por Lenin em seu testamento pol√≠tico. N√£o obstante os elogios feitos a Bukharin j√° mencionados anteriormente, Lenin asseverou que "as suas concep√ß√Ķes te√≥ricas s√≥ com grandes reservas se podem qualificar de inteiramente marxistas, pois h√° nele qualquer coisa de escol√°stico - nunca estudou e penso que nunca compreendeu inteiramente a dial√©tica" (LENINE, 1979, p. 641). N√£o se sabe se Gramsci chegou a conhecer o testamento de Lenin, mas a semelhan√ßa na cr√≠tica que ambos fazem a Bukharin √© not√°vel. Conforme o texto de Gramsci, "no Ensaio, inexiste qualquer tratamento da dial√©tica" (GRAMSCI, 2011, p. 142). Mais do que isso, "deve-se dizer que escapa ao autor o pr√≥prio conceito de metaf√≠sica, na medida em que lhe escapam os conceitos de movimento hist√≥rico, de devir e, consequentemente, da pr√≥pria dial√©tica" (GRAMSCI, 2011, p. 120). Por fim, Gramsci traz para a seara de pol√™micas um dos fundadores da filosofia da pr√°xis, ao concluir que a influ√™ncia positivista de Bukharin viria, na verdade, de Engels.
√Č certo que em Engels (Anti-Duhring) encontram-se muitos motivos que podem levar aos desvios do Ensaio. Esquece-se que Engels, embora tenha trabalhado muito tempo na obra prometida para demonstrar a dial√©tica como lei c√≥smica, deixou escassos materiais sobre ela; e exagera-se ao afirmar a identidade de pensamento entre os dois fundadores da filosofia da pr√°xis (GRAMSCI, 2011, p. 167).

O erro de Gramsci est√° em tentar cindir a teoria produzida por Engels daquela de Marx. Claro que essa tentativa poderia ser poss√≠vel em algum outro momento. Mas n√£o no caso do Anti-Duhring. O Anti-Duhring n√£o apenas foi escrito enquanto Marx ainda estava vivo, o que j√° seria o suficiente para imaginarmos que Marx o leu e concordou com suas teses. Mais do que isso: o pr√≥prio Engels afirmou no pref√°cio da segunda edi√ß√£o em 1885 que leu para Marx o "manuscrito inteiro antes da impress√£o; e o d√©cimo cap√≠tulo da parte segunda, consagrada √† economia pol√≠tica (¬ĎSobre a Hist√≥ria Cr√≠tica¬í), foi escrito por Marx" (ENGELS, 1976, p. 9). Ainda que algu√©m argumentasse levianamente que Engels poderia ter mentido no pref√°cio de 1885, j√° que Marx se encontrava morto desde 1883, ainda assim seria improv√°vel, ou mesmo imposs√≠vel, que Marx n√£o tivesse tido acesso ao Anti-Duhring nos cinco anos passados desde a publica√ß√£o da primeira edi√ß√£o em 1878 at√© a sua morte. Portanto, acusar Engels de ser positivista no Anti-Duhring seria o mesmo que acusar Marx [5].

Outrossim, cumpre salientar que a principal obra de Marx e Engels na qual consta a defini√ß√£o de materialismo¬†hist√≥rico ainda n√£o havia sido publicada na √©poca do Ensaio popular: trata-se da Ideologia alem√£, redigida em 1846, que s√≥ veio a p√ļblico parcialmente a partir de 1926 e s√≥ foi completamente publicada em 1932¬†pelo Instituto Marx-Engels de Moscou. Conforme o pr√≥prio Marx deixou claro em seu Pref√°cio de 1859, o manuscrito filos√≥fico foi relegado "√† cr√≠tica roedora dos ratos"¬†por causa da¬†falta de condi√ß√Ķes para sua impress√£o. Por √≥bvio, Bukharin n√£o poderia conhecer em 1921, ano da publica√ß√£o de seu Ensaio popular, muito mais sobre a filosofia de Marx e Engels, ou melhor, sobre o processo de constitui√ß√£o do materialismo hist√≥rico. Por si s√≥ essa anota√ß√£o n√£o esclarece tudo, j√° que Lenin tamb√©m n√£o chegou a conhecer a Ideologia alem√£, mas explica grande parte da dificuldade de compreens√£o dial√©tica de Bukharin.

Como pudemos observar, ao longo de todo o texto Gramsci tece cr√≠ticas talvez exageradamente √°cidas, cr√≠ticas que a nosso ver podem ser consideradas injustas com Bukharin. Ao comentar o Ensaio popular, Gramsci fala em "prurido de pedantismo intelectual", que o texto √© "superficial", que "o t√≠tulo n√£o corresponde ao conte√ļdo do livro" e que n√£o passa de um "desvio infantil da filosofia da pr√°xis". O sardo chega mesmo a afirmar de forma ir√īnica que, "lendo o Ensaio, temos a impress√£o de algu√©m que n√£o pode dormir por causa da claridade da lua e que se esfor√ßa por matar a maior quantidade poss√≠vel de vaga-lumes, convencido de que assim a claridade diminuir√° ou desaparecer√°" (GRAMSCI, 2011, p. 142). Ou seja, a mesma cr√≠tica √† "orat√≥ria" que Gramsci faz a Bukharin poderia ser facilmente desferida contra ele pr√≥prio.

Além disso, cabe notar uma curiosidade: a radical mudança de opinião sobre Bukharin operada por Gramsci entre 1925 e 1932 e que não parece ser explicada em nenhum momento dos Cadernos do cárcere. Em seu clássico Gramsci e o Estado, a filósofa francesa Christinne Buci-Glucksmann demonstra como em 1925 o italiano tinha no Ensaio popular uma grande referência como obra teórica. Segundo Buci-Glucksmann, ao elaborar o curso de formação de quadros do partido na Itália em 1925, Gramsci teria assegurado que, "na primeira parte, que retomará, ou melhor, traduzirá o livro do camarada Bukharin sobre a teoria do materialismo histórico, os camaradas encontrarão um tratado completo sobre o assunto". Ou seja, enquanto em 1925 o italiano defendia a obra de Bukharin como referência de estudo para os quadros do partido, sete anos depois, em 1932, sua opinião transformar-se-ia radicalmente no caderno 11 [6].

Curiosamente, Gramsci tamb√©m n√£o menciona a presen√ßa no Ensaio popular de alguns elementos daquilo que viria a ser um dos pontos centrais de sua teoria sobre o Estado ampliado. Como vimos na se√ß√£o anterior, a originalidade do sardo esteve em ter compreendido o Estado moderno a partir da uni√£o entre a sociedade civil e a sociedade pol√≠tica. Em outras palavras, Gramsci observou que o Estado moderno n√£o era representado apenas por pal√°cios de governo, mas tamb√©m por suas ramifica√ß√Ķes na sociedade, os "aparelhos privados de hegemonia". Surpreendentemente, no texto de Bukharin j√° encontramos um ensaio dessa compreens√£o sobre as ramifica√ß√Ķes superestruturais. "A estrutura pol√≠tica e social da sociedade n√£o se exprime inteiramente pelo poder pol√≠tico. Tanto a classe dominante como as classes oprimidas disp√Ķem de numerosas organiza√ß√Ķes e de uni√Ķes as mais variadas", diz Bukharin dez anos antes de Gramsci.

Entre essas numerosas organiza√ß√Ķes descritas por Bukharin est√£o os partidos pol√≠ticos, mas tamb√©m muitas outras associa√ß√Ķes que segundo o autor cumprem "o papel de organiza√ß√£o auxiliar do Estado". Assim, tal qual Gramsci, o autor conclui que "a superestrutura pol√≠tica n√£o se limita a um s√≥ aparelho humano" do Estado. N√£o obstante longa, a seguinte passagem recolhida do cap√≠tulo VI do Ensaio popular demonstra bem como Bukharin compreendia as organiza√ß√Ķes da sociedade civil como trincheiras das classes sociais e como aparelhos auxiliares do Estado de forma semelhante √†quela desenvolvida posteriormente por Gramsci.

Al√©m dos partidos organizados, h√° ainda outras organiza√ß√Ķes: assim, por exemplo, os capitalistas americanos t√™m hoje em dia as suas associa√ß√Ķes de luta contra os oper√°rios, organiza√ß√Ķes especiais para as fraudes eleitorais [...], organiza√ß√Ķes de recrutamento, furadores de greve, organiza√ß√Ķes de provocadores (ag√™ncia de pol√≠cia e detetives particulares de Pinkerton) e grupos escondidos aos olhos do mundo [...], grupos cujas decis√Ķes s√£o em seguida confirmadas pelos √≥rg√£os oficiais do Estado. Na antiga R√ļssia, o papel de organiza√ß√£o auxiliar do Estado dos nobres era assumido pelos "Cem-negros" [...]; em 1921, o mesmo papel era desempenhado na It√°lia pelos fascistas, na Alemanha pelo Orguesch. As classes oprimidas t√™m tamb√©m, fora de seus partidos, uni√Ķes "econ√īmicas" diversas (os sindicatos profissionais, por exemplo), organiza√ß√Ķes de combate, clubes [...]. Numa palavra, todas as organiza√ß√Ķes que empreendem uma luta de classe, a come√ßar pela "juventude dourada", as "corpora√ß√Ķes" alem√£s de estudantes e acabando pelo Estado de um lado; a come√ßar pelos partidos e acabando pelos clubes do outro, todas fazem parte da estrutura pol√≠tica e social da sociedade.

A semelhança é nítida, embora não mencionada nos Cadernos do cárcere. Concordamos assim com Buci-Glucksmann quando afirma que "essa preocupação bukharinista com as superestruturas em seus aspectos menos teorizados aproxima Gramsci de Bukharin: entre outras coisas, pela problemática da ampliação do Estado e o lugar das ideologias na organização do consenso" (BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p. 324).

Ademais, o italiano, que sempre foi um crítico feroz da estatolatria, ou seja, do poder crescente do Estado, não reconhece em Bukharin - ou simplesmente não menciona nada sobre o assunto - um aliado contra o crescente poder da burocracia estatal soviética. Vale lembrar que uma das grandes polêmicas entre Lenin e Bukharin tratava exatamente deste tema. Como mostra-nos Cohen (1990), partiu de Bukharin a principal influência do tema do fim do Estado presente em O Estado e a revolução de Lenin. Essa poderia ter sido uma linha de aproximação teórica e política entre os dois pensadores combatentes da burocracia partidária e estatal. Contudo, tal aproximação jamais ocorreu e sequer foi explorada pela literatura especializada de forma satisfatória, o que é uma pena se tivermos em conta o modo como os dois encontraram o fim de suas vidas. Em 1937 morre Gramsci em decorrência de doenças desenvolvidas no cárcere e, no ano seguinte, morre Bukharin, vítima do expurgo de Stalin de 1938.

Gramsci contra a teoria das elites de Mosca, Pareto e Michels

Em seu cárcere, Gramsci dedicou-se a estudar profundamente a sociologia e a ciência política italiana de sua época, em especial aquela formulada pelos autores da Teoria das elites. Robert Michels (1876-1936), Vilfredo Pareto (1848-1923) e Gaetano Mosca (1858-1941) são autores de Sociologia dos partidos políticos, Tratado de sociologia geral e Elementos de ciência política, respectivamente, clássicos que podem ser considerados fundadores da moderna ciência política. A inovação teórica proposta pelos três está na percepção da política dividida entre governantes e governados, divisão permanente e existente em todas as sociedades. Os três foram densamente examinados e criticados pelo sardo ao longo dos Cadernos, como veremos adiante.

Uma das críticas disferidas por Gramsci contra os autores da teoria das elites, notadamente à Michels, é aquela que também está presente na crítica a Bukharin, qual seja, a tentativa desses teóricos de constituir rígidas leis sociológicas. No caderno 11, redigido entre 1932 e 1933, encontramos a maior parte dessas críticas. Nas palavras do autor,

As chamadas leis sociol√≥gicas, que s√£o assumidas como causa - tal fato ocorre gra√ßas a tal lei, etc. -, n√£o t√™m a menor import√Ęncia causal; elas s√£o, quase sempre, tautologias e paralogismos. Frequentemente, n√£o passam de uma duplica√ß√£o do pr√≥prio fato observado. Descreve-se o fato ou uma s√©rie de fatos, atrav√©s de um processo mec√Ęnico de generaliza√ß√£o abstrata, extrai-se uma rela√ß√£o de semelhan√ßa e chama-se esta rela√ß√£o de lei, atribuindo-lhe a fun√ß√£o de causa. Mas, na realidade, que se encontrou de novo? De novo h√° s√≥ o nome coletivo dado a uma s√©rie de fatos mi√ļdos, mas os nomes n√£o s√£o novidade. (Nos tratados de Michels, pode-se encontrar todo um registro de tais generaliza√ß√Ķes tautol√≥gicas: a √ļltima, e mais famosa, √© a de "chefe carism√°tico") (GRAMSCI, 2011, p. 151-2).

Por sinal, a implic√Ęncia de Gramsci com o conceito supracitado de chefe carism√°tico tamb√©m est√° presente no caderno 2 - escrito entre 1929 e 1933 -, quando afirma que "Michels fez muito barulho na It√°lia por ¬Ďseu¬í achado do ¬Ďl√≠der carism√°tico¬í, que provavelmente, seria preciso verificar, j√° estava em Weber" (GRAMSCI, 2007, p. 162).

Michels tamb√©m √© criticado pela superficialidade com que trata a defini√ß√£o te√≥rica de partidos pol√≠ticos. "Quando se quer escrever a hist√≥ria de um partido pol√≠tico, deve-se enfrentar na realidade toda uma s√©rie de problemas muito menos simples do que aqueles imaginados, por exemplo, por Robert Michels, considerado um especialista no assunto" (GRAMSCI, 2007, p. 87). Gramsci, um fil√≥sofo da totalidade, observa que a compreens√£o da hist√≥ria de um determinado partido pol√≠tico s√≥ √© poss√≠vel se forem analisados dados mais complexos e abrangentes da realidade hist√≥rica e suas rela√ß√Ķes internas e externas. At√© mesmo as influ√™ncias internacionais precisam ser estudadas. Antes de tudo, √© necess√°rio compreender a que grupo social cada partido pertence e como ele se coloca em antagonismo com outras for√ßas sociais. Em suas palavras, "a hist√≥ria de um partido n√£o poder√° deixar de ser a hist√≥ria de um determinado grupo social" (GRAMSCI, 2007, p. 87).

Gramsci n√£o se contenta apenas em criticar a ess√™ncia do erro de Michels. Traz para o seu alvo de ataque tamb√©m a forma como o cientista pol√≠tico apresenta suas ideias. "A classifica√ß√£o que Michels faz dos partidos √© muito superficial e sum√°ria"; "O artigo [de Michels] est√° cheio de palavras vazias e imprecisas"; "As ideias de Michels sobre os partidos pol√≠ticos s√£o bastante confusas e esquem√°ticas"; "A bibliografia dos trabalhos de Michels pode ser reconstru√≠da sempre a partir de seus pr√≥prios textos, porque ele cita a si mesmo abundantemente"; "seus escritos est√£o cheios de cita√ß√Ķes bibliogr√°ficas, em boa parte ociosas e confusas"; "ele apoia at√© ao mais banais tru√≠smos com a autoridade dos escritores mais d√≠spares"; "Michels deve ter organizado um imenso fich√°rio, mas como diletante, como autodidata"; s√£o apenas alguns exemplos do modo exagerado com o qual Gramsci trata seu advers√°rio te√≥rico no caderno 2, redigido entre 1929 e 1933.

Todavia, não é apenas Michels a ser criticado pela insuficiência conceitual do que seriam os partidos políticos. Mosca também é apresentado por Gramsci como um autor que não obteve sucesso nessa tentativa. Em seu caderno 13 o sardo explica que "a deficiência da abordagem de Mosca reside no fato de que ele não enfrenta, em seu conjunto, o problema do partido político, o que se compreende, dado o caráter dos livros de Mosca e especialmente dos Elementi di scienza politica" (GRAMSCI, 2007, p. 22-3).

Para além da crítica ao líder carismático, ao conceito de partido político ou ao positivismo sociológico que estava impregnado naqueles teóricos, Gramsci também concentra esforças em condenar a essência da teoria das elites que pode ser compreendia a partir dos conceitos de "elite" de Pareto, de "classe política" em Mosca ou de "lei de ferro das oligarquias" de Michels resguardadas suas diferenças.

A chamada "classe pol√≠tica" de Mosca n√£o √© mais do que a categoria intelectual do grupo social dominante: o conceito de "classe pol√≠tica" de Mosca deve ser aproximado do conceito de "elite" de Pareto, que √© uma outra tentativa de interpretar o fen√īmeno hist√≥rico dos intelectuais e sua fun√ß√£o na vida estatal e social (GRAMSCI, 2006, p. 163).

Como j√° foi dito, a teoria das elites caracteriza-se por compreender as sociedades atrav√©s da divis√£o entre governantes e governados, dirigentes e dirigidos. Para os autores, todas as sociedades sempre ter√£o uma minoria que ocupa o poder para dirigir uma maioria, seja nas democracias, seja nas sociedades socialistas. Essa perspectiva certamente n√£o √© compartilhada por Gramsci. Evidentemente, o sardo compreende as sociedades modernas atrav√©s do bin√īmio elitista dirigentes-dirigidos, governantes-governados. Contudo, observa que essa constru√ß√£o elitista √© hist√≥rica e que pode ser superada na sociedade de novo tipo.

Na forma√ß√£o dos dirigentes, √© fundamental a premissa: pretende-se que sempre existam governados e governantes ou pretende-se criar as condi√ß√Ķes nas quais a necessidade dessa divis√£o desapare√ßa? Isto √©, parte-se da premissa da divis√£o perp√©tua do g√™nero humano ou cr√™-se que ela √© apenas um fato hist√≥rico, correspondente a certas condi√ß√Ķes? (GRAMSCI, 2007, p. 325).

Notória também é a maneira como Gramsci refere-se a Mosca de forma ríspida. Os adjetivos utilizados para descrever seus escritos assemelham-se em dureza àqueles empregados contra a obra de Bukharin. Em uma de suas obras mais maduras, o caderno 19 - redigido entre 1934 e 1935 -, trata o texto de Mosca da seguinte forma:

A reedição do livro de Mosca é um dos tantos episódios da inconsciência e do diletantismo político dos liberais no período imediatamente após a guerra e no subsequente. De resto, o livro é bisonho, desordenado, escrito apressadamente por um jovem que pretende "sobressair" em seu tempo com uma atitude extremista e com palavras altissonantes e, muitas vezes, triviais em sentido reacionário. Os conceitos políticos de Mosca são vagos e oscilantes, sua preparação filosófica é nenhuma (e assim restou por toda a carreira literária de Mosca), seus princípios de técnica política também são vagos e abstratos e tem caráter acentuadamente jurídico. O conceito de "classe política", cuja afirmação se tornará o centro de todos os escritos de ciência política de Mosca, é de uma fragilidade extrema e não é discutido nem justificado teoricamente (GRAMSCI, 2011, p. 32).

Embora demonstre leitor assíduo e conhecer perfeitamente bem a literatura produzida pelos três cientistas políticos, Gramsci os trata, como vimos, com o desdém de quem os considera adversários teóricos, do mesmo modo como já havia feito com o sociólogo marxista Bukharin. Como veremos na próxima seção, Weber não foi destinatário dos mesmos ataques, ainda que sua sociologia estivesse muito mais próxima dos autores da teoria das elites do que de Gramsci.

Aproxima√ß√Ķes com a sociologia de Max Weber

N√£o h√° muitas d√ļvidas sobre o fato de Gramsci ter sido um conhecedor da obra do soci√≥logo alem√£o Max Weber (1864-1920), ainda que n√£o da mesma forma profunda como a dos soci√≥logos anteriormente analisados. N√£o apenas por Weber ter sido um dos mais conhecidos fundadores da moderna sociologia, mas tamb√©m pelas afinidades tem√°ticas dos dois autores. Ao longo dos Cadernos do c√°rcere encontramos algumas refer√™ncias a obras do autor como Parlamentarismo e governo, Economia e sociedade [7] e √Čtica protestante e o esp√≠rito do capitalismo [8]. Mais do que isso, mesmo em passagens sem cita√ß√Ķes, observamos nitidamente semelhan√ßas anal√≠ticas que indicam a influ√™ncia que o alem√£o exerceu sobre o italiano. Vejamos primeiramente as men√ß√Ķes aos estudos de Weber sobre os partidos pol√≠ticos. Logo no caderno 2, redigido entre 1929 e 1933, Economia e sociedade de Weber surge como refer√™ncia para a compreens√£o sociol√≥gica dos partidos pol√≠ticos.

Segundo Max Weber [...], [o partido pol√≠tico] se origina de duas esp√©cies de causas: seria especialmente uma associa√ß√£o espont√Ęnea de propaganda e de agita√ß√£o, que visa ao poder para assim permitir a seus aderentes ativos (militantes) possibilidades morais e materiais de alcan√ßar fins objetivos ou vantagens pessoais ou, ainda, as duas coisas juntas (GRAMSCI, 2007, p. 160-1).

Seguindo no texto em seu percurso pela teoria dos partidos pol√≠ticos, Gramsci trata Michels de forma ir√īnica - conforme j√° vimos na se√ß√£o anterior - ao comentar que o autor teria feito "muito barulho na It√°lia por ¬Ďseu¬í achado do ¬Ďl√≠der carism√°tico¬í, que provavelmente, seria preciso verificar, j√° estava em Weber" (GRAMSCI, 2007, p. 162).

Outra fonte do italiano para a questão dos partidos é o livro Parlamento e governo de Weber. No caderno 15, de 1933, Gramsci descreve como os partidos elaboram na sociedade civil determinadas diretrizes políticas que após passarem pelo debate no Parlamento tornam-se políticas de governo de acordo com as maiorias formadas. A não existência desse debate no Parlamento oculta um regime de partidos fracos definidos por ele como de pior espécie. "Max Weber, por exemplo, é de opinião que uma grande parte das dificuldades atravessadas pelo Estado alemão no pós-guerra foram motivadas pela ausência de uma tradição político parlamentar e de vida partidária antes de 1914" (GRAMSCI, 2007, p. 342).

A refer√™ncia ao livro Parlamento e governo tamb√©m est√° presente no caderno 12 de 1932. Ao realizar uma an√°lise comparativa entre diversos pa√≠ses no que diz respeito ao papel dos intelectuais org√Ęnicos e tradicionais - como, ali√°s, √© uma caracter√≠stica do seu m√©todo -, Gramsci observa como na Alemanha os junkers cumpriram papel destacado como intelectuais tradicionais. Para ilustrar esse seu argumento, o autor apropria-se de Weber.

No livro Parlamento e governo na nova ordem da Alemanha, de Max Weber, podem-se encontrar muitos elementos que permitem observar como o monop√≥lio pol√≠tico dos nobres impediu a elabora√ß√£o de um pessoal pol√≠tico burgu√™s numeroso e experimentado e constituiu a base das cont√≠nuas crises parlamentares e da desagrega√ß√£o dos partidos liberais e democr√°ticos; da√≠ a import√Ęncia do Centro Cat√≥lico e da Social-Democracia, que conseguiram, durante o per√≠odo imperial, elaborar um estrato parlamentar e diretivo pr√≥prio bastante numeroso (GRAMSCI, 2006, p. 29).

No que diz respeito √† √Čtica protestante e o esp√≠rito do capitalismo, Gramsci provavelmente conheceu apenas a tradu√ß√£o italiana que havia sido publicada em 1931 na revista Nuovi Studi di Diritto, Economia e Pol√≠tica. No caderno 11, redigido entre 1931 e 1932, o autor menciona o texto de Weber ao comentar a quest√£o do calvinismo e da difus√£o popular das concep√ß√Ķes de mundo.

Contudo, talvez esteja para al√©m das cita√ß√Ķes diretas de Weber presentes nos Cadernos do c√°rcere a maior afinidade entre os dois autores. Penso, em especial, na proximidade existente entre o tema da hegemonia em Gramsci e o da domina√ß√£o leg√≠tima em Weber. Em seu conhecido discurso conhecido como A pol√≠tica como voca√ß√£o, Weber observou que "o Estado √© uma comunidade humana que pretende, com √™xito, o monop√≥lio do uso leg√≠timo da for√ßa f√≠sica dentro de um determinado territ√≥rio" (WEBER, 2002, p. 56). Trata-se, portanto, de um instrumento de domina√ß√£o. Todavia, essa domina√ß√£o precisa ser leg√≠tima. O soci√≥logo descreveu ent√£o tr√™s tipos puros dessa domina√ß√£o leg√≠tima: a de car√°ter racional; a de car√°ter tradicional; e a de car√°ter carism√°tico. Ora, como n√£o perceber a similitude entre o que Weber definiu como domina√ß√£o leg√≠tima e o que Gramsci conceituou como hegemonia? Como j√° vimos na primeira se√ß√£o desse artigo dedicada √† Maquiavel, Gramsci apropriou-se da ideia de complementaridade entre o consenso e a coer√ß√£o para compreender a forma√ß√£o do Estado e da hegemonia. Assim, facilmente podemos relacionar a coer√ß√£o com o "monop√≥lio do uso leg√≠timo da for√ßa f√≠sica" e o consenso com a domina√ß√£o leg√≠tima.

Embora tamb√©m n√£o cite o alem√£o, a forma como trata a rela√ß√£o entre moral e pol√≠tica no caderno 14 possui enorme semelhan√ßa com o conceito weberiano de "√©tica da responsabilidade". Nessa passagem de inspira√ß√£o maquiaveliana, o sardo defende que o pol√≠tico deva ser julgado apenas pelo resultado de suas a√ß√Ķes e n√£o por suas a√ß√Ķes por si s√≥s [9].

Um conflito √© ¬Ďimoral¬í quando torna o fim mais distante ou n√£o cria condi√ß√Ķes que tornem o fim mais pr√≥ximo (ou seja, n√£o cria meios mais adequados √† conquista do fim), mas n√£o √© ¬Ďimoral¬í de outros pontos de vista ¬Ďmoralistas¬í. Desse modo, n√£o se pode julgar o pol√≠tico por ser ele honesto ou n√£o, mas por cumprir ou n√£o seus compromissos (e neste cumprimento pode estar compreendido ¬Ďser honesto¬í, isto √©, ser honesto pode ser um fator pol√≠tico necess√°rio, e em geral o √©, mas o ju√≠zo √© pol√≠tico e n√£o moral). Ele √© julgado n√£o pelo fato de atuar com equidade, mas pelo fato de obter ou n√£o resultados positivos, ou evitar um resultado negativo, e nisto pode ser necess√°rio ¬Ďatuar com equidade¬í, mas como meio pol√≠tico e n√£o como ju√≠zo moral (GRAMSCI, 2007, p. 312-3).

Além disso, poderíamos citar objetos de análise como a burocracia, o líder carismático, a objetividade como método e a questão da religião como exemplos de afinidades temáticas entre os dois autores na conformação de uma teoria sociológica e que precisariam de uma observação mais complexa, para além dos limites do presente artigo.

Considera√ß√Ķes finais

Por que trabalhar a rela√ß√£o entre Gramsci e a sociologia e ci√™ncia pol√≠tica neste artigo? Diria serem duas as principais raz√Ķes. Em primeiro lugar, porque Gramsci trouxe no in√≠cio do s√©culo XX contribui√ß√Ķes originais para a an√°lise do desenvolvimento das complexas sociedades modernas em di√°logo permanente com a obra dos grandes soci√≥logos e cientistas pol√≠ticos de seu tempo. Em segundo lugar - simples, mas verdadeiro -, por serem pouqu√≠ssimos os trabalhos da literatura especializada que se debru√ßaram sobre o tema. Uma pesquisa mais acurada observar√°, por exemplo, que grande parte dos textos que trazem Gramsci para o centro da lupa anal√≠tica possuem alguma rela√ß√£o com o campo da pedagogia a partir de seus textos de educa√ß√£o. Muitos outros est√£o relacionados a problemas filos√≥ficos ou hist√≥ricos. Os que abordam as perspectivas das ci√™ncias sociais est√£o preocupados, em geral, com temas como hegemonia, movimentos sociais, Estado, partidos pol√≠ticos e sociedade civil. Mas os que tratam especificamente da rela√ß√£o de Gramsci com os soci√≥logos e cientistas pol√≠ticos da √©poca e de suas contribui√ß√Ķes para a pesquisa cient√≠fica s√£o raros.

Uma busca pela literatura especializada nos indica que um dos poucos autores que tiveram esse objetivo foi Renato Ortiz com suas Notas sobre Gramsci e as ci√™ncias sociais (2006). Contudo, ao contr√°rio do que fizemos no presente artigo, Ortiz esteve mais interessado em buscar as rela√ß√Ķes de Gramsci com t√≥picos caros √†s ci√™ncias sociais como a rela√ß√£o entre indiv√≠duo e sociedade, a no√ß√£o de intelectual e a an√°lise das religi√Ķes. Com uma breve exce√ß√£o em Weber, n√£o h√° em Ortiz men√ß√Ķes aos soci√≥logos com quem Gramsci tentou dialogar, como Bukharin, Michels, Pareto ou Mosca. Assim, nossa proposta distanciou-se daquela apresentada por Ortiz.

O mesmo ocorre com A sociologia de Gramsci (2006), de Oliveiros S. Ferreira. Para o autor, Gramsci não constituiu nos Cadernos uma teoria sociológica, embora tenha formulado elementos de análise que podem ser apropriados em uma pesquisa social.

√Č preciso cuidado com as palavras quando se discute um tema como a "sociologia de Gramsci". N√£o se trata, como poder√° parecer, de dizer que Gramsci tenha constitu√≠do, a partir dos Cadernos do c√°rcere, uma teoria sociol√≥gica. Cuida-se, t√£o simplesmente, de procurar ver aquilo que, neles, indica que o pensamento do autor estava em conson√Ęncia com uma certa maneira de analisar a realidade social que se chamava, √† √©poca e hoje, de "sociologia" (FERREIRA, 2006).

Sem mencionar os sociólogos com quem Gramsci dialogou nos Cadernos, Ferreira apresenta uma parcela do instrumental gramsciano que pode ser utilizado por uma sociologia, como a noção de hegemonia, por exemplo, o que também caracteriza seu distanciamento daquilo que propusemos inicialmente no presente artigo.

H√° na literatura aqueles que trataram mais especificamente da rela√ß√£o de Gramsci com alguns dos autores aqui trabalhados. Podemos citar, para n√£o correr o risco de ser exaustivo, apenas dois casos. Em primeiro lugar √Ālvaro Bianchi, que em seu Pareto e Gramsci: itiner√°rios de uma ci√™ncia pol√≠tica italiana (2012) discute as aproxima√ß√Ķes e os distanciamentos dos dois autores, em especial no que diz respeito ao bin√īmio governantes-governados. Outro exemplo √© Sofiati (2009) que analisa Gramsci e Weber a partir do recorte da teoria sociol√≥gica da religi√£o.

Percebe-se ao longo dos Cadernos a predileção de Gramsci pela ciência política em detrimento da sociologia. Certamente por Gramsci ter observado na sociologia de seu tempo uma certa aproximação deletéria dessa disciplina com o positivismo, seja em sua vertente marxista - notoriamente em Bukharin -, seja na versão "burguesa" de Michels, Mosca, Pareto e Weber. Daí que em suas palavras o autor diga que

Se ci√™ncia pol√≠tica significa ci√™ncia do Estado e Estado √© todo o complexo de atividades pr√°ticas e te√≥ricas com as quais a classe dirigente n√£o s√≥ justifica e mant√©m seu dom√≠nio, mas consegue obter o consenso ativo dos governados, √© evidente que todas as quest√Ķes essenciais da sociologia n√£o passam de quest√Ķes da ci√™ncia pol√≠tica (GRAMSCI, 2007, p. 331).

No entanto, n√£o se trata de uma ci√™ncia pol√≠tica que reproduza os erros da sociologia de seu tempo, quais sejam, os estreitos v√≠nculos com o positivismo ou com as chamadas "leis dos grandes n√ļmeros" das disciplinas estat√≠sticas. Trata-se, antes de mais nada, da constru√ß√£o de uma ci√™ncia em permanente desenvolvimento, profundamente hist√≥rica e aberta para a compreens√£o da totalidade social.

A inova√ß√£o fundamental introduzida pela filosofia da pr√°xis na ci√™ncia da pol√≠tica e da hist√≥ria √© a demonstra√ß√£o de que n√£o existe uma "natureza humana" abstrata, fixa e imut√°vel (conceito que certamente deriva do pensamento religioso e da transcend√™ncia), mas que a natureza humana √© o conjunto das rela√ß√Ķes sociais historicamente determinadas, ou seja, um fato hist√≥rico verific√°vel, dentro de certos limites, com os m√©todos da filologia e da cr√≠tica. Portanto, a ci√™ncia pol√≠tica deve ser concebida em seu conte√ļdo concreto (e tamb√©m em sua formula√ß√£o l√≥gica) como um organismo em desenvolvimento (GRAMSCI, 2007, p. 56).

Por fim, parece-nos que uma pequena mensagem de Aléxis de Tocqueville permanece atual, embora em outras bases. Logo no início de sua Democracia na América, Tocqueville adverte ao mundo do século XIX ser "necessária uma nova ciência política para um mundo totalmente novo" (TOCQUEVILLE, 1998, p. 12). Talvez possamos dizer, com Gramsci, que essa nova ciência política iniciada no século XX e continuada no XXI passe de algum modo pela filosofia da práxis.

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Theófilo Codeço Machado Rodrigues é Mestre em Ciência Política pela UFF e Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-Rio.

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Notas

[1] "Filosofia da práxis" é o modo pelo qual Gramsci denomina o materialismo histórico de Marx. Gramsci absorveu o conceito de "filosofia da práxis" de Antonio Labriola.

[2] De fato, trata-se de título do livro do italiano Luciano Gruppi (1920-2003).

[3] Em sua carta testamento redigida em 1923, Lenin descreve algumas qualidades e defeitos dos principais dirigentes do partido, como Stalin, Trotski, Bukharin e Piatakov. Ver LENINE, 1979.

[4] Sobre o protagonismo de Bukharin ver o interessante trabalho de Stephen Cohen (1990).

[5] A crítica de Gramsci desferida contra Engels chegou a ser censurada na primeira edição dos Cadernos do cárcere, organizada por Felice Platone e Palmiro Togliatti, conforme nos indica Carlos Nelson Coutinho em sua introdução para a edição brasileira (GRAMSCI, 2011, p. 26).

[6] Sobre a mudança de opinião de Gramsci acerca de Bukharin, ver BUCI-GLUCKSMANN, 1980.

[7] No caso de Economia e sociedade, Carlos Nelson Coutinho nos informa que Gramsci conhecia o texto apenas indiretamente pelas referências contidas nos textos de Michels. Ver GRAMSCI, 2007, p. 388.

[8] Cabe observar que as referências a Weber estão presentes apenas nos cadernos posteriores à prisão. Nos escritos anteriores ao cárcere não há menção ao sociólogo.

[9] Semeraro (2006) discorda radicalmente dessa afirma√ß√£o. Para o autor, passa longe das reflex√Ķes de Gramsci "o dualismo estabelecido por M. Weber [...] entre a ¬Ď√©tica da convic√ß√£o¬í e a ¬Ď√©tica da responsabilidade¬í, t√£o caro aos liberais e √† maioria dos nossos pol√≠ticos".

Referências bibliográficas

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ENGELS, Friedrich. Anti-Duhring. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

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----------. Cadernos do cárcere. V. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

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GRUPPI, Luciano. O conceito de hegemonia em Gramsci. Rio de Janeiro: Graal, 1980.

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SEMERARO, Giovanni. Intelectuais "org√Ęnicos" em tempos de p√≥s-modernidade. Caderno Cedes, Campinas, v. 26, n. 70, dez. 2006.

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WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: LTC Editora, 2002.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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