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A ferida Marx, segundo Buey

Ricardo Rizzo - 2004
 

Francisco Fern√°ndez Buey. Marx (sem ismos). Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2004.

N√£o se sai da leitura de um livro como este Marx (sem ismos), sem se ferir. Trata-se, afinal, de uma biografia intelectual do "Mouro" dirigida a um "leitor do s√©culo XXI" (bem compreendido, um leitor de Marx), feita com o √Ęnimo pr√≥prio de um "restaurador" de afiados e modernos instrumentos cr√≠ticos, e bastante consciente dos riscos da sua profiss√£o, entre eles, aquele de imprimir ao quadro original cores vivas demais.

De certo modo, o programa de Buey nesta restauração pode ser resumido por um traço característico da tradição marxista - ou marxóloga - à qual ele imediatamente se filia (cuja referência mais imediata parece ser o também espanhol Manuel Sacristán), uma tradição declaradamente "não-evangelista": a ausência de qualquer "beatice" no enfrentamento dos textos de Marx, por oposição às mais diversas atitudes de cega reverência que constituíram os diferentes "Templos", os variados "ismos" que marcaram tão profundamente a história das esquerdas no breve século passado.

No seu of√≠cio, portanto, o restaurador assumidamente se revela. No incessante movimento de idas e vindas entre texto e contexto, que caracteriza a sua generosa filologia cr√≠tica, Francisco Buey se posiciona, argumenta, fala em primeira pessoa. Muitas vezes, para restaurar tamb√©m a atmosfera original de algumas das formula√ß√Ķes marxianas, ele convoca uma outra ordem de espectros, como quando uma jovem e encantadora Jenny von Westphalen √© chamada a criticar, com a eleg√Ęncia que lhe era pr√≥pria, os versos juvenis do arrebatado esposo, o seu amado "Karlenchen", e, a prop√≥sito da escrita do jovem poeta, prop√Ķe: "Por favor, n√£o escreva num estilo t√£o amargo e irritado. Escreva despretensiosamente e de modo preciso, com gra√ßa e humor [...]. Deixe que os partic√≠pios venham e que as palavras v√£o para onde quiserem. Uma tropa desse tipo n√£o deve marchar com regularidade excessiva."

Esse jovem Marx, cujos tra√ßos rom√Ęnticos Buey recolore de modo t√£o atencioso, mostra j√° muitas caracter√≠sticas que mais tarde poder√£o servir ao int√©rprete das suas obras maduras. A indefini√ß√£o de estilo, no jovem leitor de Goethe e Lessing que se forma no frescor da morte de Hegel, de certa forma revive na hesita√ß√£o entre "sistema" e "obra aberta" que caracterizar√° o monumental trabalho maduro de cr√≠tica econ√īmica, cuja parte mais elaborada, do ponto de vista da arquitetura expositiva, √© o primeiro livro de O Capital, composto, conforme saber√° o leitor de Buey, na grata companhia de Zeus e Leibniz. E talvez, de romantismo, baste a poesia: o jovem amigo de Heine, advers√°rio do absolutismo e do atraso prussiano, preferir√° rosnar com acidez contra todo recesso da raz√£o, tendo como alvo "as representa√ß√Ķes invertidas da realidade" em que foi dar o idealismo rom√Ęntico.

Dono de uma mente renascentista, esse iluminista crepuscular é um devorador de livros desde a juventude, transita entre variados campos do conhecimento, sempre com espírito polêmico, crítico. Destaca-se por um método de trabalho exigente (diríamos: transdisciplinar), que consiste em extrair conceitos de seus contextos originais e "relacionar tudo com tudo". Na madureza, um outro modo, talvez mais depurado, de se mover no terreno conceitual, assumirá a forma cética do mantra "é preciso duvidar de tudo".

O Marx de Buey, como se v√™, √© restaurado tamb√©m na sua humanidade, num drama rico de emo√ß√Ķes no qual o trabalho intelectual apaixonado assume naturalmente o papel de fio condutor. Pode-se at√© perguntar: toda biografia de Marx n√£o termina sendo uma biografia intelectual? A narrativa de sua vida √© tamb√©m uma narrativa de hist√≥ria das id√©ias e uma narrativa do convulsionado s√©culo XIX, esse dolorido "s√©culo de m√£os" a que aludira Rimbaud.

Mas √© sem d√ļvida na discuss√£o cerrada de alguns pontos mais pol√™micos de sua obra que o desvio cr√≠tico de Buey se coloca da forma mais oportuna. E sucessivas feridas v√£o sendo reabertas, sem piedade. No caso da quest√£o judia, por exemplo, enfrentada num dos mais importantes escritos da juventude, Buey consome importantes linhas com a ressalva de que n√£o √© poss√≠vel sustentar que Marx tenha sido "anti-semita", em qualquer sentido pr√≥ximo ao significado moderno da express√£o, sob pena de erro e anacronismo; mas reconhece, sem reservas, que o preconceito de Marx com rela√ß√£o a aspectos do juda√≠smo, associados √† redu√ß√£o mercantilista da vida, acabaram por interferir na an√°lise da condi√ß√£o judaica sob o Estado absolutista crist√£o. √Ä sombra do problema mais geral da emancipa√ß√£o pol√≠tica (migra√ß√£o da religi√£o do p√ļblico para o privado), Marx n√£o capta a especificidade do problema judeu. Por outro lado, esse preconceito n√£o o impediu de manifestar solidariedade √† causa judia na sua justa reivindica√ß√£o emancipat√≥ria.

Outra ferida refere-se ao autoritarismo de Marx. √Č a ferida da quest√£o democr√°tica. Embora sublinhe que por autoritarismo n√£o se deve entender totalitarismo, Buey reconhece em Marx o tra√ßo autorit√°rio, presente no aproveitamento do modelo jacobino franc√™s no encaminhamento pol√≠tico da luta social. Relembra que, embora Marx tenha admitido a possibilidade de conquista pac√≠fica do poder pelo proletariado (justamente nos pa√≠ses mais avan√ßados em emancipa√ß√£o pol√≠tica, via voto), n√£o cabe falar em um Marx democrata, mas em um Marx revolucion√°rio e, portanto, capaz de defender o "terrorismo revolucion√°rio", filho que foi de um s√©culo em que a guerra e as "revolu√ß√Ķes" compunham a regularidade do cotidiano.

Atento sempre ao "leitor contempor√Ęneo", Buey salienta a concep√ß√£o problem√°tica que Marx tinha de democracia, enquanto coordenada relativa √† forma pol√≠tica. Diante de certos ju√≠zos de Marx, como aquele de que "a luta de classes conduz necessariamente √† ditadura do proletariado", Buey concorda que "hoje em dia, quando algu√©m chega nesse ponto, fecha o livro". Um outro ponto no qual o leitor atual de Marx sentiria vontade de "fechar o livro" √© aquele em que ele defende a viol√™ncia como a c√©lebre parteira de "toda velha sociedade que est√° gr√°vida de uma sociedade nova". Buey recupera, no entanto, que o pr√≥prio Marx reconhece a exist√™ncia de diferentes formas de "gravidez" e que, para algumas delas, admite outra parteira, a via "pac√≠fica".

De qualquer forma, se n√£o for poss√≠vel (nem desej√°vel) fechar totalmente a ferida, talvez se possa trat√°-la. Basta lembrar, com Buey, que Marx fora chamado de reacion√°rio quando decidiu, no calor dos eventos revolucion√°rios de 1848, dissolver a Liga dos Comunistas para apoiar o "partido democr√°tico alem√£o". No in√≠cio daquele ano, a Liga chegou a firmar um documento contendo dezessete reivindica√ß√Ķes, entre as quais estavam a forma republicana para o Estado alem√£o, o sufr√°gio universal, a remunera√ß√£o dos representantes populares, a gratuidade da justi√ßa e a separa√ß√£o entre Igreja e Estado. Em suma, um programa de radicaliza√ß√£o dos objetivos democr√°ticos e republicanos. Mas tamb√©m √© certo que, anos depois, na Cr√≠tica ao Programa de Gotha, Marx se referiria a esses pontos como "a velha ladainha democr√°tica conhecida de toda a gente: sufr√°gio universal, legisla√ß√£o direta, direito do povo, mil√≠cia popular, etc. S√£o simplesmente o eco do Partido Popular burgu√™s, da Liga da Paz e da Liberdade". E seguimos sangrando.

Buey vai assim percorrendo chagas, mas sem crueldade excessiva. Indo do texto ao contexto, sustenta sem susto o forte componente moral que por vezes transparece na cr√≠tica da economia pol√≠tica. Mas o seu contr√°rio, uma recep√ß√£o dos estudos econ√īmicos de Marx sem nenhum "amor aos de baixo", resvala em cientificismo. De um modo geral, Buey deixa entrever um esquema cr√≠tico presente em Marx, que condena a "nostalgia rom√Ęntica" e ao mesmo tempo a mera den√ļncia cr√≠tica dos males existentes. Marx, que muito cedo se preocupou com o problema da "aliena√ß√£o", n√£o se det√©m em denunciar a ambival√™ncia do progresso industrial ("todos os nossos inventos e todo o nosso progresso parecem ter como resultado dotar as for√ßas materiais de vida espiritual e converter a vida em est√ļpida for√ßa material"), mas pretende, sem retorno nost√°lgico a um mundo de poucas necessidades, super√°-la. Essa for√ßa propositiva do argumento, esse vi√©s cr√≠tico-pr√°tico est√£o no fundamento de grande parte da cr√≠tica que Marx fez da ideologia de seu tempo.

A própria questão do método dialético é revista nesse quadro crítico geral. Encarada com a necessária "moderação", a lógica dialética é menos um "método" que uma "metódica", um estilo de pensamento e exposição, ele mesmo comprometido com uma perspectiva "de classe", propositiva. Seu status de chave mestra para desvendar os segredos do mundo, de abracadabra mágico do pensamento, como se vê, decai bastante, para desalento dos usuários de muitas de suas cartilhas e fórmulas retóricas.

Pela m√£o de Buey, acompanhamos um Marx que √© m√ļltiplo: colabora no New York Daily Tribune, interessa-se pela Turquia, Espanha, R√ļssia, Estados Unidos, China, √ćndia, procura compreender o problema colonial, interessa-se por pol√≠tica internacional, especula na bolsa (apesar de n√£o seguir o conselho da m√£e, para quem ele deveria juntar capital, ao inv√©s de escrever sobre o capital), atua na Primeira Internacional, preocupado com a particularidade dos problemas do mundo do trabalho nas diversas partes do globo, escreve uma hist√≥ria da diplomacia no s√©culo dezoito, aproxima-se de populistas russos exilados e estuda etnologia para compreender a propriedade comunal da terra na velha R√ļssia e orientar-se acerca das possibilidades pol√≠ticas que surgiam ali. √Č um Marx que s√≥ ao custo de muita mutila√ß√£o se deixa encerrar no compartimento do "Templo", na univocidade dos "ismos".

Em alguma medida, pode-se dizer que Marx aproxima-se de seu amigo dos tempos de Paris, o poeta alem√£o Heinrich Heine, porque, entre outras raz√Ķes, conserva como ele aquilo que Adorno chamou de "um conceito n√£o dilu√≠do de Iluminismo". Para Adorno, "a ferida Heine somente ser√° curada em uma sociedade que realize a reconcilia√ß√£o". Mas, para Buey, se existe "algo que valha a pena chamar de marxismo", √©, de outro modo, a ferida que resiste a fechar-se, que declina de "antecipar dogmaticamente o mundo". E a ferida Marx mant√©m-se vigorosamente aberta.

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Ricardo Rizzo é autor de Cavalo marinho e outros poemas. São Paulo/Juiz de Fora, Nankin Ed./Funalfa, 2002.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil

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