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A quest√£o Gramsci-Togliatti em Moscou (1938-1941)

Silvio Pons - Janeiro 2015
Tradução: Luiz Sérgio Henriques
 

H√° dez anos Giuseppe Vacca escrevia que, sobre o tema da "linha de sombra" nas rela√ß√Ķes entre Gramsci, o Komintern e o partido, parte essencial de uma investiga√ß√£o ainda a ser feita era constitu√≠da pela "quest√£o Gramsci" post-mortem [1]. No per√≠odo subsequente, as possibilidades de acesso aos arquivos ex-sovi√©ticos se restringiram progressivamente, e esta investiga√ß√£o se revelou muito mais limitada, tortuosa e dif√≠cil do que ent√£o podia parecer. Todavia, hoje temos em¬†m√£os alguns documentos que nos permitem aprofundar nossos conhecimentos. √Č bom esclarecer que se trata de documenta√ß√£o circunscrita e seguramente incompleta. Ela prov√©m exclusivamente dos arquivos do Komintern, ao passo que √© extremamente problem√°tico o acesso ao Arquivo de Pol√≠tica Exterior da Federa√ß√£o Russa e continuam inacess√≠veis arquivos de crucial import√Ęncia, como o Arquivo do Presidente da Federa√ß√£o Russa (ex-Arquivo do Kremlin) e os Arquivos do Servi√ßo Federal para a Seguran√ßa (ex-KGB). Mas at√© nos arquivos do Komintern, dada a persistente indisponibilidade de uma s√©rie de fundos, √© bastante plaus√≠vel que a investiga√ß√£o esteja longe de ser conclu√≠da, mesmo depois destas descobertas recentes. Os documentos principais prov√™m dos pap√©is da secretaria de Georgi Dimitrov e daqueles produzidos pela Se√ß√£o de Quadros da IKKI [Comiss√£o Executiva do Komintern], referindo-se aos anos compreendidos entre 1938 e 1941. O presente ensaio se prop√Ķe apresent√°-los e fornecer uma primeira avalia√ß√£o de seu significado. Tal significado apresenta duplo aspecto: por um lado, a dimens√£o retrospectiva que se refere √†s percep√ß√Ķes e suspeitas de Gramsci quanto √†s tentativas fracassadas para sua liberta√ß√£o e ao comportamento tido por seus companheiros de partido, tais como foram levadas pelas irm√£s Schucht a Moscou depois da morte dele; por outro lado, as consequ√™ncias das den√ļncias apresentadas pelas irm√£s Schucht √†s autoridades sovi√©ticas contra os comunistas italianos e, em particular, contra Togliatti, que deram vida a uma aut√™ntica "quest√£o" de natureza pol√≠tica e policial. Estes dois aspectos nem sempre podem facilmente ser separados, mas √© oportuno distingui-los desde agora. Nossa reconstru√ß√£o se concentrar√° nos acontecimentos "moscovitas" e s√≥ se dirigir√° ao per√≠odo anterior quando isso for imposto pelo pr√≥prio car√°ter da documenta√ß√£o examinada.

Na crise do PCd’I

Sabe-se que, logo depois da morte de Gramsci, Tatiana Schucht solicitou a Piero Sraffa (o homem que representou o tr√Ęmite principal entre Gramsci e o partido) um esclarecimento sobre o epis√≥dio que esteve na origem da tormentosa suspeita de ter sido tra√≠do por seus pr√≥prios companheiros, nutrida pelo prisioneiro at√© o fim: a carta que lhe foi enviada por Ruggiero Grieco em 1928. Tatiana se fazia, assim, porta-voz das convic√ß√Ķes de Gramsci e indicava como principal elemento de apoio a carta que este lhe escrevera em 5 de dezembro de 1932. √Č oportuno recordar que nesta carta Gramsci n√£o se limitava a citar as palavras pronunciadas pelo juiz instrutor, evidentemente destinadas a gerar seu tormento ("Deputado Gramsci, o senhor tem alguns amigos que certamente querem que passe uma boa temporada na pris√£o"). Ele tamb√©m expressava a convic√ß√£o de que a "estranha" carta de 1928 (que continha afirma√ß√£o de seu papel de l√≠der justamente no momento em que as eventuais condi√ß√Ķes para uma liberta√ß√£o teriam aconselhado o contr√°rio) tivesse sido "um ato celerado" ou "uma leviandade irrespons√°vel", e formulava a hip√≥tese de que ambas as coisas fossem verdadeiras, caso em que a responsabilidade n√£o devia ser atribu√≠da s√≥ ao autor material ("pode ser que quem escreveu fosse s√≥ irresponsavelmente est√ļpido e um outro, menos est√ļpido, o tenha induzido a escrever") [2]. A tentativa de Tatiana deu em nada: as respostas de Sraffa foram elusivas, e sua insuficiente sugest√£o de que Tatiana se dirigisse a Paris para encontrar Grieco n√£o foi aceita por ela [3]. Provavelmente, Sraffa subestimou a determina√ß√£o de Tatiana, tal como transparecia na indigna√ß√£o, que ela manifestou ao economista, s√≥ com a ideia de ser a quest√£o abandonada. A troca de cartas entre os dois ocorreu entre julho e setembro de 1937. As primeiras not√≠cias sobre a quest√£o surgiram em Moscou, pelo que sabemos, na primavera de 1938: n√£o podemos excluir que antes ainda haja vest√≠gios dela nas cartas de Tatiana aos familiares, mas a este respeito n√£o temos nenhuma documenta√ß√£o.

Como se depreende de uma nota de 3 de junho de 1938, escrita e assinada por Stella Blagoeva, funcion√°ria da Se√ß√£o de Quadros da IKKI, e endere√ßada a Georgi Dimitrov, secret√°rio do Komintern, a quest√£o foi trazida ao conhecimento dos √≥rg√£os do Komintern pelo pr√≥prio Grieco, que dela fora informado por Sraffa (denominado no documento "o amigo"). Grieco protestava porque Tatiana Schucht, que ainda se encontrava na It√°lia, tornara-se art√≠fice de "um trabalho contra ele" que consistia em repetir "as palavras que, afirma, teriam sido pronunciadas por Gramsci a prop√≥sito das provoca√ß√Ķes por parte de Garlandi [Grieco], em rela√ß√£o ao fato de que Garlandi ent√£o enviara cart√Ķes de Moscou a ele e a outros dois prisioneiros". Grieco requeria que Tatiana fosse convocada assim que voltasse a Moscou a fim de se "investigar" a quest√£o, bem como aludia "ao fato de que √© suspeito que ela n√£o tenha voltado". Precisava-se que a declara√ß√£o de Grieco fora feita em 28 de abril de 1938 [4]. O documento √© conhecido [5].

A ele deve se somar outro, sem data e assinatura, mas que parece escrito com a mesma grafia e, por isso, pode ser atribuído a Blagoeva [6]. No final de uma série de pontos relativos aos comunistas italianos, o documento trazia o que se segue:

10. Em 1927, a mulher de [Umberto] Terracini chegou e disse que Umberto escreve queixas contra o partido, porque não escrevem. Garl[andi] escreveu 3 cartas (a Gramsci, Terracini, Scoccimarro), enviou-as a Germ[anetto] em Moscou, a fim de que fossem expedidas daqui. Em 1928-29, quando o irmão de Gramsci foi vê-lo [7], este disse, por que Garl[andi] me escreveu um tal [palavra ilegível]. Concluía com um até breve. Gramsci considerava que fosse uma leviandade. Em 1934, o Amigo viu Gramsci [8], ele de novo lembrou a carta, que seu juiz havia usado.

Depois da morte de Gramsci, sua cunhada disse ao Amigo que, em rela√ß√£o a esta carta, Gramsci declarou pensar que por ela fosse respons√°vel Grieco, mas que outro o havia obrigado a escrev√™-la. O Amigo prop√īs que fosse a Paris e esclarecesse, mas ela declarou que n√£o far√° isso com aqueles que fizeram [sic].

Schucht: a terceira irmã ainda não voltou da Itália, está ligada à embaixada soviética. Deve voltar depois da remessa de todas as coisas de Gramsci, mas ainda não está aqui. Este fato suscita suspeitas em Garl[andi] [9].

As outras anota√ß√Ķes contidas no documento n√£o ajudam a dat√°-lo mais precisamente. Mas um documento subsequente de 1939, da lavra de Blagoeva (que examinaremos mais adiante), refere-se a uma declara√ß√£o dada por Grieco em 27 de junho de 1938, na qual ele sustentava ter escrito a carta de 1928 em Paris, "sob a influ√™ncia da mulher de Terracini", que havia descrito o mau humor dos "companheiros na pris√£o" porque o partido n√£o lhes escrevia, e t√™-la mandado a Germanetto em Moscou [10]. Esta refer√™ncia, por isso, nos permite, segundo toda a evid√™ncia, identificar o texto supracitado e datar de 27 de junho de 1938 o documento an√īnimo que estamos examinando.

Deve-se observar que esta data√ß√£o nos leva a confirmar a substancial credibilidade do testemunho de Vincenzo Bianco a Paolo Spriano, segundo o qual os pap√©is gramscianos do c√°rcere teriam chegado a Moscou em junho-julho de 1938 [11]. Outro ponto (o primeiro) do documento se referia √† fam√≠lia Schucht, introduzindo novo motivo de tens√£o: "A fam√≠lia n√£o fornece os materiais de Gramsci ¬Ė fotografar ou requisitar" [12]. Encarregado de recolher os materiais de Gramsci, Bianco poderia at√© ser a fonte desta anota√ß√£o. Fica por isso desmentida a recorda√ß√£o de Giuliano Gramsci, da qual se depreende que os pap√©is de Gramsci s√≥ teriam chegado da It√°lia a Moscou depois da volta de Tatiana [13]. Tamb√©m a afirma√ß√£o contida no documento, pela qual Tatiana "deve voltar depois da remessa de todas as coisas de Gramsci, mas ainda n√£o est√° aqui", significa provavelmente que os pap√©is de Gramsci se encontravam em Moscou j√° antes de seu retorno, confirmando a recorda√ß√£o de Bianco (depurada, no entanto, da tens√£o existente entre a fam√≠lia Schucht e o partido). Como veremos, o mesmo documento escrito por Blagoeva em 1939, que nos permite atribuir a data de 27 de junho de 1938 ao documento an√īnimo supracitado, tamb√©m cont√©m indica√ß√£o que faz retroceder um pouco, at√© maio de 1938, a chegada a Moscou dos "manuscritos (rukopisi)" gramscianos do c√°rcere: por√©m, n√£o podemos afirmar com absoluta certeza de que tamb√©m se tratava dos Cadernos [14].

Os dois documentos at√© aqui examinados por n√≥s, o de 3 de junho e o de 27 de junho de 1938, parecem coerentes entre si: ambos se referiam √†s suspeitas de Gramsci acerca da carta de Grieco (no segundo n√£o se falava mais de "cart√Ķes", otkrytki, mas de "cartas", pisma) e registravam as supeitas (n√£o bem precisadas) apresentadas por este √ļltimo sobre a perman√™ncia de Tatiana na It√°lia. No entanto, n√£o pode escapar √† aten√ß√£o que o segundo documento cont√©m importante elemento que o diferencia do primeiro: de fato, precisava-se que Gramsci n√£o suspeitara s√≥ e nem mesmo predominantemente de Grieco. Isso ampliava efetivamente o caso para outras figuras do grupo dirigente do partido e implicava as rela√ß√Ķes pol√≠ticas e de confian√ßa entre Gramsci e o partido em seu conjunto. Portanto, podemos considerar que as palavras pronunciadas por Grieco em 28 de abril de 1938 n√£o tinham deixado indiferente a Se√ß√£o de Quadros da IKKI e que Blagoeva havia recolhido novas informa√ß√Ķes a respeito. Talvez precisamente a chegada dos pap√©is gramscianos do c√°rcere a Moscou e a atitude de n√£o colabora√ß√£o da fam√≠lia com o partido tenham representado um impulso neste sentido. O documento de 27 de junho de 1938 era evidentemente o resultado de um segundo interrogat√≥rio de Grieco: dele se deduz que a informa√ß√£o a ele prestada por Sraffa n√£o se referia s√≥ a sua pessoa (como se depreende da declara√ß√£o de 28 de abril), mas o advertia do fato de que as suspeitas de Gramsci que Tatiana pretendia investigar tamb√©m se relacionavam a outros. √Ä diferen√ßa daquele de 3 de junho, o segundo documento n√£o est√° conservado entre os pap√©is da secretaria de Dimitrov, mas entre os relativos aos quadros do partido italiano: isso faz supor uma aten√ß√£o colateral √† investiga√ß√£o que Blagoeva estava a instruir sobre o PCd¬íI.

Na primavera de 1938, a grave crise que acossava fazia tempo o grupo dirigente do PCd¬íI chegou ao √°pice. Posto sob tutela desde mar√ßo de 1937 pelos organismos dirigentes do Komintern, por meio do envio a Paris de Giuseppe Berti na qualidade de plenipotenci√°rio, o PCd¬íI enviou a Moscou uma delega√ß√£o composta de seus principais dirigentes em abril de 1938. Eles deviam responder a acusa√ß√Ķes muito semelhantes √†s que j√° haviam provocado nos meses anteriores a deten√ß√£o e a repress√£o violenta dos dirigentes de outros partidos comunistas: viola√ß√£o das regras de conspira√ß√£o, falta de "vigil√Ęncia revolucion√°ria" e inefic√°cia dolosa na luta contra o "trotskismo" [15]. A periculosidade de tais acusa√ß√Ķes na URSS do Grande Terror staliniano n√£o podia escapar a ningu√©m. Completando a pr√≥pria obra inquisit√≥ria, Berti apresentou relat√≥rio final que continha ju√≠zos extremamente pesados sobre a a√ß√£o de todo o grupo parisiense, em particular Grieco [16].

A primeira declara√ß√£o feita por Grieco a Blagoeva, aquela transcrita no documento de 3 de junho de 1938 e dada em 28 de abril, fora prestada, na presen√ßa tamb√©m de Furini (Dozza), no curso de uma das primeiras entrevistas destinadas a preparar o encontro da delega√ß√£o italiana com os dirigentes pol√≠ticos do Komintern. O conte√ļdo principal do documento se referia ao envio a Dimitrov de perfis preparados por funcion√°rios da se√ß√£o de quadros e de materiais de Berti, at√© ent√£o s√≥ conhecidos por Manuilski [17]. Consciente de se encontrar em situa√ß√£o j√°¬†bastante delicada, Grieco pretendeu evidentemente prevenir novas acusa√ß√Ķes. Um dos aspectos centrais da investiga√ß√£o j√° aberta em Moscou sobre os dirigentes italianos era constitu√≠do pela an√°lise de seu passado pol√≠tico, e qualquer aspecto duvidoso a respeito podia constituir um s√©rio t√≥pico de acusa√ß√£o [18]. Blagoeva era um tr√Ęmite inevit√°vel e significativo. Figura chave da Se√ß√£o de Quadros, respons√°vel pelos pa√≠ses latinos, teve nesta condi√ß√£o rela√ß√Ķes diretas com Dmitri Manuilski, chefe da "delega√ß√£o sovi√©tica" na IKKI e respons√°vel pol√≠tico pela atividade da Se√ß√£o de Quadros. Mas era tamb√©m colaboradora muito estreita de Dimitrov [19]. Pelo que se deduz dos pap√©is da secretaria de Dimitrov, foi ela quem escreveu materialmente parte essencial dos documentos que fundamentaram o ju√≠zo do l√≠der do Komintern sobre a "quest√£o italiana" na primavera-ver√£o de 1938. Assim, atrav√©s da primeira declara√ß√£o de Grieco, criou-se efetivamente um nexo entre o surgimento da "quest√£o Gramsci" em Moscou e a investiga√ß√£o sobre o PCd¬íI.

O requisit√≥rio pronunciado por Manuilski sobre as insufici√™ncias do partido italiano em 14 de junho de 1938 n√£o¬†prefigurava repress√£o violenta [20]. Grieco voltou a Paris no final de julho. Todavia, o grupo dirigente do PCd¬íI permaneceu no olho do furac√£o, inclusive por causa das duras divis√Ķes pessoais que explodiram rumorosamente em seu interior. A investiga√ß√£o de Blagoeva seguiu adiante. Em 4 de agosto de 1938, o PCd¬íI foi oficialmente acusado por uma resolu√ß√£o da IKKI [21]. Isso levou √† dissolu√ß√£o do Centro Exterior e √† constitui√ß√£o de novo grupo dirigente sob a tutela de Togliatti, que voltou temporariamente da Espanha a Moscou na segunda metade de agosto de 1938: uma medida dura, mas de alcance negligenci√°vel em face das poss√≠veis consequ√™ncias cruentas da crise do PCd¬íI. Diferentemente do que acontecera ao grupo dirigente do partido polon√™s, o grupo dirigente do partido italiano evitou a elimina√ß√£o: um desfecho que n√£o¬†correspondeu √† salva√ß√£o dos ambientes mais amplos da emigra√ß√£o italiana na URSS e que, antes, se verificou ao pre√ßo de agravar¬†o tr√°gico destino desta [22]. N√£o¬†est√° em nossos objetivos reconstruir os acontecimentos [23]. Interessa-nos, em vez disso, delinear o contexto no qual a "quest√£o Gramsci" emergiu em Moscou.

Mesmo partindo das limitadas informa√ß√Ķes em nosso poder, n√£o √© dif√≠cil ver que tal quest√£o se apresentou como um aspecto da pesada sombra que reca√≠a sobre o PCd¬íI. Um aspecto claramente secund√°rio no ver√£o de 1938, mas com potencialidades bastante s√©rias. O nome de Gramsci evocava, no clima da segunda metade dos anos 1930, perigosos motivos de ambiguidade em rela√ß√£o √† oposi√ß√£o trotskista dos anos 1920. Pesava como uma rocha a carta do bir√ī pol√≠tico do PCd¬íI com a qual Gramsci, em 1926, apoiara a maioria staliniana, exortando-a, no entanto, a evitar empregar contra os opositores medidas repressivas e persecut√≥rias, que a seu ju√≠zo implicavam o risco de comprometer a miss√£o e a pr√≥pria identidade do centro do comunismo internacional [24]. A tal precedente devia se acrescentar a circunst√Ęncia agravante das "oscila√ß√Ķes" conhecidas pelos comunistas italianos antes de aceitar a virada para o "social-fascismo" no final dos anos 1920: por sua vez, Gramsci manteve sobre a quest√£o s√©rias perplexidades inclusive ap√≥s o alinhamento do PCd¬íI, ganhando fama negativa adicional e tamb√©m impiedosa, cruel marginaliza√ß√£o por parte de seu pr√≥prio partido [23]. Ainda que aquela linha tivesse sido de fato renegada em nome da pol√≠tica antifascista promovida por Dimitrov a partir de 1934, a marca dos anos precedentes n√£o podia ser cancelada na liturgia comunista. As cr√≠ticas de fraqueza dirigidas por Manuilski ao PCd¬íI n√£o pouparam um severo olhar retrospectivo, at√© recordar, entre outras coisas, a carta de Gramsci de 1926 [26].

Na Moscou de 1938, assim, o giro do fantasma de Gramsci amea√ßava contamina√ß√Ķes com o dem√īnio do "trotskismo". Mas n√£o se deve esquecer que esta marca da inf√Ęmia j√° n√£o era mais usada simplesmente contra os ex-opositores, ou contra seus suspeitos simpatizantes dos anos 1920, e que o termo sofrera uma expans√£o sem√Ęntica extrema, arbitr√°ria e incontrol√°vel. Os mais d√≠spares itens de acusa√ß√£o, at√© contradit√≥rios entre si, podiam ser plasmados segundo as circunst√Ęncias, estigmatizando qualquer antecedente que abrisse o flanco √† suspeita de intriga, independentemente de suas presumidas ou reais finalidades pol√≠ticas. A "quest√£o Gramsci" apresentava f√°ceis possibilidades neste sentido. As declara√ß√Ķes feitas por Grieco a Blagoeva podia facilmente redundar em resultado oposto ao desejado pelo dirigente italiano: alimentar a suspeita, em vez de afast√°-la.

√Ä luz da documenta√ß√£o em nosso poder, a "quest√£o Gramsci" n√£o figurou nos interrogat√≥rios feitos a Togliatti em Moscou, em agosto de 1938, a prop√≥sito da crise do PCd¬íI [27]. As anota√ß√Ķes de Blagoeva relativas √† "opini√£o do comp. Ercoli", expressa em encontro de 26 de agosto de 1938, trazem seus¬†ju√≠zos pessoais e pol√≠ticos sobre os dirigentes do Centro Exterior. Em subst√Ęncia, Togliatti reconhecia que o Centro se mostrara incapaz de observar as regras de "vigil√Ęncia" e que as rela√ß√Ķes pessoais se deterioraram gravemente, mas (√† diferen√ßa de Berti) evitava extrair conclus√Ķes mais gerais, de car√°ter pol√≠tico e ideol√≥gico. Ao mesmo tempo, esquivava-se de passadas ou futuras responsabilidades, precisando que seus conselhos pol√≠ticos n√£o foram aceitos pelos dirigentes do PCd¬íI e exortando explicitamente a n√£o contar com ele [28]. Em outras palavras, Togliatti fez a defesa do grupo dirigente contra os perigos mais graves: deve-se notar que sua prote√ß√£o dirigiu-se, em particular, a Grieco, que, √† diferen√ßa de Dozza, foi confirmado em suas responsabilidades de dirigente, ao lado de Berti, Ciufoli e Roasio [29]. A linha desta defesa tamb√©m envolvia, ao mesmo tempo, a pessoa de Togliatti. Sabe-se que nos meses precedentes tinha havido pelo menos um sinistro sinal da possibilidade de que a crise entre Moscou e o PCd¬íI atingisse n√£o s√≥ o Centro parisiense, mas tamb√©m sua figura: a deten√ß√£o de seu cunhado, Paolo Robotti, ocorrida em mar√ßo de 1938. A tal circunst√Ęncia, entre outras coisas, acenavam, ainda que de passagem, dois documentos escritos por Blagoeva para Dimitrov, aquele, j√° citado, de 3 de junho [30], e uma nota de 21 de agosto, poucos dias antes do col√≥quio com Togliatti¬†em 26 de agosto [31]. Embora Togliatti estivesse envolvido nas vicissitudes do PCd¬íI mais como √°rbitro e dirigente do Komintern do que como parte em quest√£o, tal situa√ß√£o aconselhava extrema prud√™ncia at√© no plano pessoal.

Entre os aspectos que exigiam o exerc√≠cio da prud√™ncia, ainda que n√£o o principal, estavam sem d√ļvida as declara√ß√Ķes feitas por Grieco a Blagoeva sobre o estado de tens√£o que recentemente se havia criado entre ele e Tatiana Schucht a prop√≥sito da carta de 1928 e do encarceramento de Gramsci. √Č bastante prov√°vel que Togliatti tivesse sido informado disso quando chegou¬†a Moscou em agosto de 1938. P√īde encontrar Grieco antes de ir para Moscou: ele pr√≥prio contou o fato a Blagoeva [32]. Talvez tamb√©m sob esta luz deva ser considerada a atitude de Togliatti quando, ao voltar de Moscou, encontrou os dirigentes do partido em Paris para lhes comunicar as decis√Ķes tomadas. Tinha consci√™ncia de que a tempestade formada sobre os comunistas italianos fora, naquele momento, contida, mas n√£o ainda superada: antes, apresentou as decis√Ķes organizativas adotadas em Moscou como a √ļltima chance para evitar danos piores e exortou o grupo dirigente a agir de modo que "a situa√ß√£o mude rapidamente". Nesta circunst√Ęncia, Togliatti esfor√ßou-se por dirigir a aten√ß√£o para os n√≥s de natureza pol√≠tica, al√©m da "vigil√Ęncia revolucion√°ria", indicando substancialmente duas orienta√ß√Ķes caracter√≠sticas da inspira√ß√£o comunista antifascista: manter firmemente "a linha do VII C."; n√£o ignorar "as diferen√ßas no campo da burguesia em pol√≠tica externa" [33]. Vale a pena destacar, para n√£o perder o nexo com a "grande pol√≠tica" da √©poca, que estas posi√ß√Ķes expressavam muito mais a liga√ß√£o de Togliatti com Dimitrov do que com Manuilski, o qual havia ignorado os temas antifascistas em seu requisit√≥rio contra o PCd¬íI.

Em tal contexto, enfatizar as quest√Ķes do passado, ainda que em termos autocr√≠ticos, pareceu a Togliatti uma arma de dois gumes, que podia at√© complicar a situa√ß√£o dos comunistas italianos e tamb√©m a sua pessoal. A tend√™ncia dos comunistas italianos de expiar seu passado culminara na decis√£o, tomada em reuni√£o de 12 de agosto de 1938, de propor a Togliatti um documento p√ļblico, voltado para tomar posi√ß√£o sobre a carta de 1926. A proposta nascia do impacto p√ļblico provocado pela publica√ß√£o de extratos da carta de 1926, e em seguida de seu texto completo, por obra de Angelo Tasca [34]. A r√©plica de Togliatti, na reuni√£o de setembro, foi a seguinte: "N√£o √© aconselh√°vel continuar a falar de todas estas coisas do passado com este m√©todo. Seria um erro colocar a vida futura do partido sobre esta base. As coisas acontecidas n√£o se apagam, continuam. Mas n√£o se pode ligar a elas as coisas do futuro" [35]. Tais palavras expressavam uma sagacidade muito superior √†quela demonstrada at√© ent√£o pelos outros dirigentes do PCd¬íI. Todavia, as "coisas do passado" n√£o podiam ser facilmente canceladas na cultura pol√≠tica do movimento comunista no final dos anos 1930. Entre elas, a "quest√£o Gramsci" estava destinada a assumir dimens√£o inquietante em Moscou, justamente quando o pior momento dos comunistas italianos parecia ter ficado para tr√°s, atingindo Togliatti em pessoa.

"A quest√£o Gramsci-T."

Em 19 de mar√ßo de 1939, Blagoeva escreveu de pr√≥prio punho a Dimitrov as conclus√Ķes a que chegara em rela√ß√£o "a seu encargo de 16.II.39 sobre a quest√£o Gramsci-T." [36]. Infelizmente, n√£o conhecemos os detalhes do encargo dado por Dimitrov √† funcion√°ria da Se√ß√£o de Quadros da IKKI. A resposta de Blagoeva se articulava em tr√™s pontos:

1. As suspeitas da família Schucht têm evidente fundamento.

2. Para o fim de esclarecer o fundamento da acusa√ß√£o ou deix√°-la sem efeito, n√£o basta o testemunho daquele ao qual Gramsci confiou pessoalmente as pr√≥prias d√ļvidas, Sraffa, que vive no seguinte endere√ßo: Professor Piero Sraffa, King¬ís College, Cambridge. Proponho convoc√°-lo.

3. O pleno esclarecimento da quest√£o exige juntar todos os materiais sobre a quest√£o de Gramsci que est√£o conservados no NKID [Comissariado do Povo para Assuntos Externos] e no NKVD [Comissariado do Povo para Assuntos Internos] com aqueles que foram recolhidos por n√≥s, mas com a condi√ß√£o de tirar o caso das m√£os dos que at√© agora o seguiram no NKVD, √† luz da exist√™ncia de fatos que suscitam d√ļvidas na fam√≠lia e para garantir a objetividade [37].

A primeira considera√ß√£o a fazer √© que n√£o existem d√ļvidas sobre a identidade de "T.": trata-se, obviamente, de Togliatti. O uso da inicial do nome aut√™ntico, em lugar do mais conhecido pseud√īnimo "Ercoli", talvez constitu√≠sse uma medida de discri√ß√£o. A informa√ß√£o j√° chegada a Moscou em 1938, segundo a qual as suspeitas de Gramsci n√£o diziam respeito unicamente a Grieco, mas tamb√©m a algu√©m mais, levava agora a uma identifica√ß√£o rumorosa. Isso era o resultado de passos dados, neste meio-tempo, pelas irm√£s Schucht: a isso, por√©m, voltaremos mais adiante. Blagoeva estava fundamentando a necessidade de proceder a uma verdadeira investiga√ß√£o para a qual n√£o se consideravam suficientes os dados existentes na Se√ß√£o de Quadros da IKKI. Voltemo-nos agora aos elementos que a funcion√°ria fornecia a Dimitrov para basear a pr√≥pria conclus√£o.

A comunica√ß√£o de Blagoeva a Dimitrov est√° acompanhada de outro documento, que, com toda a probabilidade, constitu√≠a um anexo. Trata-se de duas laudas datilografadas assinadas pela mesma Blagoeva, datadas de 17 de mar√ßo de 1939 e intituladas "O fundamento da quest√£o T." [38]. Como a supracitada comunica√ß√£o a Dimitrov, este documento tamb√©m traz como data do protocolo de entrada na secretaria de Dimitrov o dia 20 de mar√ßo de 1939. Blagoeva alistava os argumentos que lhe pareciam "o fundamento para acusar T. por parte das tr√™s irm√£s Schucht". Estes argumentos tinham diferente peso e significado, mas eram submetidos ao destinat√°rio sem nenhuma escala hier√°rquica. A autora indicava, por ordem: "a declara√ß√£o de Sraffa de que Gramsci, em suas suspeitas em rela√ß√£o aos companheiros italianos, pensava em T."; "a carta de Garl[andi] de 1928 n√£o podia ter sido escrita sem a aprova√ß√£o de T."; T. tinha estado "sempre a par das negocia√ß√Ķes sobre a troca, que fracassaram todas", assim como tamb√©m sabia que, "assim que se mencionou o nome de Gramsci [...], as negocia√ß√Ķes foram interrompidas"; "o pr√≥prio T. reconheceu que o rumor suscitado em 1933 em torno da transfer√™ncia de Gramsci para a cl√≠nica foi um erro" [39]; "fazia tempo Gramsci n√£o confiava em T."; este demonstrou frieza sobre a quest√£o de "tratar da heran√ßa liter√°ria de Gramsci, das cartas, dos cadernos" e at√© sobre a quest√£o "da salva√ß√£o de Gramsci, falando com outros italianos, por exemplo, com Bibolotti" [40].

Como se v√™, Blagoeva n√£o apresentava acusa√ß√Ķes concretas contra Togliatti. Limitava-se a amealhar uma s√©rie de suspeitas e de circunst√Ęncias amb√≠guas, sem sequer especificar qual fosse a formula√ß√£o da acusa√ß√£o. As refer√™ncias ao fato de que a carta de 1928 n√£o podia ter sido iniciativa pessoal de Grieco e, sobretudo, √† exist√™ncia de uma "declara√ß√£o" de Sraffa que indicava Togliatti como a figura no centro das suspeitas de Gramsci eram os √ļnicos t√≥picos relevantes, por trazerem uma preocupa√ß√£o deste √ļltimo que devia ser tida em s√©ria considera√ß√£o: isso bastava para suscitar perguntas e requerer explica√ß√Ķes. Em torno destes ind√≠cios, no entanto, erguia-se um cen√°rio que sustentava a constru√ß√£o de uma "quest√£o" e parecia constituir o reflexo da mentalidade policial reinante na URSS. Inconfund√≠vel sinal desta mentalidade eram os outros argumentos aduzidos por Blagoeva, que desenterravam supostos precedentes hist√≥ricos e biogr√°ficos. Em particular, citava-se uma declara√ß√£o de Maggi [Gennari], segundo a qual Gramsci teria tido opini√£o negativa sobre Togliatti desde o in√≠cio dos anos 1920, e este √ļltimo teria se mantido, diferentemente de Gramsci, "indeciso sobre a quest√£o das a√ß√Ķes contra Bordiga". Uma conduta que, sempre segundo a funcion√°ria do Komintern, repetira-se a prop√≥sito da pol√≠tica do VKP(b) e do Komintern em 1926, quando ele e os delegados italianos "pediram ao comp. Stalin que explicasse a situa√ß√£o partid√°ria interna no VKP(b) [Partido Comunista da Uni√£o (bolchevique)] em rela√ß√£o √†s decis√Ķes contra a oposi√ß√£o unificada", e em 1929, quando novamente se verificara "indecis√£o" [41]. Na realidade, Blagoeva misturava alhos com bugalhos. Em fevereiro de 1926, com efeito, a delega√ß√£o italiana no VI Pleno da IKKI conseguira um encontro com Stalin, a fim de receber indica√ß√Ķes sobre o m√©rito do conflito com a oposi√ß√£o surgido no XIV Congresso do partido sovi√©tico [42]. Mas em outubro de 1926 Togliatti havia come√ßado com Gramsci um s√©rio conflito pol√≠tico sobre a carta deste √ļltimo ao CC do VKP(b), que se referia exatamente ao ju√≠zo sobre a evolu√ß√£o da URSS. Do ponto de vista sovi√©tico, a atitude de Togliatti em 1926 fora de total lealdade e n√£o tinha nada a ver com a de 1929, quando foi acusado, com outros dirigentes italianos, no X Pleno da IKKI, por n√£o se alinhar com convic√ß√£o √† virada radical do Komintern relativa ao "social-fascismo" [43]. Mas, evidentemente, tudo isso eram detalhes secund√°rios para Blagoeva.

O documento terminava com um breve tópico que trazia os argumentos que o próprio Togliatti teria aduzido em sua defesa:

Contra as acusa√ß√Ķes T. diz o que se segue: a declara√ß√£o de Garlandi, que escreveu a carta de 1928 sob a influ√™ncia da mulher de Terracini, que naquele tempo estava ligada a elementos fascistas suspeitos, carta escrita com a trotskista Fanny Jezierska; a quest√£o da troca de Gramsci nos anos 1928-1937 foi conduzida por inimigos e espi√Ķes, como Kretinski, Vizner e, evidentemente, uma s√©rie de outros que trabalhavam naqueles anos no NKID e no NKVD; verossimilmente tamb√©m sabiam da quest√£o na IKKI Piatnitski e Abramov [44].

√Č imposs√≠vel estabelecer o grau de credibilidade que se deve dar a estas palavras que Blagoeva atribu√≠a a Togliatti. Acima de tudo, n√£o est√° claro quando ele as teria pronunciado, encontrando-se ainda na Espanha em meados de mar√ßo de 1939. √Č bastante oportuno guardar reservas, dada a natureza inquisit√≥ria do documento e dado o fato de que Blagoeva estava empenhada em mostrar o "fundamento" das acusa√ß√Ķes, n√£o certamente em atenuar a posi√ß√£o de Togliatti. Limitamo-nos a observar que, sobre a carta de 1928, ele teria simplesmente confirmado a vers√£o de Grieco, por este dada em Moscou com a declara√ß√£o de 27 de junho de 1938; ao mesmo tempo, sobre a quest√£o da liberta√ß√£o de Gramsci, Togliatti n√£o teria negado a exist√™ncia de conduta duvidosa, quando n√£o de "sabotagem", mas a teria atribu√≠do aos funcion√°rios sovi√©ticos e kominternianos expurgados nos anos anteriores, protegendo-se assim com o Leitmotiv do "trotskismo" e indicando respons√°veis que n√£o mais estavam em condi√ß√Ķes de desmentir ningu√©m.

Sobre o momento em que Togliatti teria pronunciado essas palavras, parece improv√°vel que se possa remontar a sua visita a Moscou¬†em agosto-setembro de 1938: como vimos, n√£o est√° documentada nenhuma refer√™ncia √† quest√£o em seu encontro com Blagoeva de 26 de agosto, e nada faz pensar que nessa data a quest√£o tivesse assumido aspecto t√£o avan√ßado e que ele ent√£o se encontrasse no banco dos r√©us. A n√£o ser que Blagoeva se referisse a palavras ent√£o pronunciadas por Togliatti em defesa de Grieco e n√£o documentadas em seu encontro: mas a funcion√°ria da IKKI escrevia aqui sobre "acusa√ß√Ķes" dirigidas a Togliatti, n√£o a Grieco. Por outro lado, n√£o consta que Togliatti tenha voltado √† Uni√£o Sovi√©tica no inverno de 1938-1939: sabemos que ele deixou a Espanha em 24 de mar√ßo [45] e s√≥ retornou √† URSS em 12 de maio de 1939 [46]. Por isso, devemos considerar ou que Togliatti tenha realizado uma visita a Moscou (por n√≥s desconhecida) no inverno de 1938-1939, ou que haja sido interpelado atrav√©s de canais reservados enquanto ainda se encontrava na Espanha. Em todo caso, o pr√≥prio fato de se transcreverem aquelas palavras atribu√≠das a Togliatti enfatiza o salto de qualidade que a "quest√£o Gramsci" fizera em Moscou.

A reação de Dimitrov à comunicação de Blagoeva de 19 de março de 1939 foi imediata. De fato, neste documento está escrita uma anotação de seu punho datada de 21 de março de 1939 e assim formulada: "ao c. Manuilski. Peço que dê atenção a este material" [47]. Uma referência deste gênero parecia prenunciar a continuação da investigação segundo o que propusera Blagoeva, ainda que não implicasse nenhum juízo de mérito. Ao contrário, como veremos, não seria assim.

Mas, antes de nos voltarmos para os desdobramentos subsequentes, √© preciso perguntar qual a origem do encargo dado por Dimitrov a Blagoeva em 16 de fevereiro de 1939 em rela√ß√£o √† "quest√£o Gramsci-T.", que levou a funcion√°ria da Se√ß√£o de Quadros a produzir a documenta√ß√£o at√© aqui examinada. De um documento sucessivo, uma carta enviada em dezembro de 1940 por Eugenia e Julia a Stalin, tomamos conhecimento de que uma das duas irm√£s Schucht escrevera sobre as suspeitas de Gramsci uma carta a Nikolai Ejov, na secretaria do VKP(b), e que este a transmitira ao Komintern [48]. Al√©m disso, numa "nota" de Blagoeva sobre Togliatti de setembro de 1940, mencionavam-se uma "acusa√ß√£o da vi√ļva" que, em 1939, "chegou √† IKKI" e uma "carta da vi√ļva de Gramsci" que conteria acusa√ß√Ķes expl√≠citas contra Togliatti: na realidade, trata-se, com toda a probabilidade, do mesmo documento, que podemos identificar com a carta a Ejov supramencionada [49]. Sobre ambos os documentos de 1940, nos deteremos mais adiante.

Portanto, em fevereiro de 1939 Dimitrov agiu com base¬†em press√£o¬†bastante poderosa. Naquela data Ejov n√£o era mais o chefe do NKVD, fun√ß√£o que desempenhou de novembro de 1936 at√© novembro de 1938 e que o elevou ao papel de sanguin√°rio executor do Grande Terror. Mantinha, por√©m, o pr√≥prio cargo na secretaria do VKP(b): sua desgra√ßa estava no ar, mas s√≥ se tornaria fato consumado por ocasi√£o do XVIII Congresso do VKP(b) (10-11 de mar√ßo de 1939), quando sua¬†remo√ß√£o tamb√©m das fun√ß√Ķes partid√°rias mostrou que Stalin decidira definitivamente se livrar dele [50]. √Č l√≠cito considerar que a carta de Julia a Ejov tenha sido escrita ap√≥s o retorno de Tatiana a Moscou e que, inclusive, tenha sido justamente este evento, verificado entre o final de novembro e os √ļltimos dez dias de dezembro de 1938 [51], a verdadeira virada destinada a dar vida √† den√ļncia e, em seguida, √† "quest√£o". Neste caso, Schucht se dirigiu a Ejov em sua qualidade de secret√°rio do VKP(b) e n√£o de chefe do NKVD: ele se demitira do NKVD em 23 de novembro de 1938, data na qual Tatiana ainda se encontrava na It√°lia [52]. Em outras palavras, a iniciativa da fam√≠lia n√£o envolvia, no plano formal, os √≥rg√£os de seguran√ßa sovi√©ticos: tinha, antes, o significado de ignorar o Komintern e envolver diretamente o partido comunista da URSS. Mas n√£o se deve esquecer que Eugenia e Julia mantiveram no passado colabora√ß√£o com os organismos de seguran√ßa sovi√©ticos, e a figura de Ejov n√£o podia deixar de evocar esta liga√ß√£o [53]. Por outro lado, Ejov fora ligado aos ambientes do Komintern, como membro da "delega√ß√£o do VKP(b)" nomeada para a IKKI, no VII Congresso, em 1935 [54]. A quest√£o, pois, foi submetida ao Komintern, com o resultado imediato da abertura de investiga√ß√£o. Infelizmente, n√£o conhecemos o conte√ļdo da carta de Julia a Ejov. No entanto, estamos em condi√ß√Ķes de reconstruir o pensamento das Schucht, ainda que indiretamente, por meio de outro documento redigido por Blagoeva.

Trata-se de um documento intitulado "Material sobre a quest√£o Gramsci-T.", assinado por Blagoeva e datado de 19 de mar√ßo de 1939. Esta data √© a mesma da resposta de Blagoeva a Dimitrov, supracitada, e o protocolo de entrada na secretaria de Dimitrov traz, tamb√©m neste caso, a data de 20 de mar√ßo de 1939: isso faz pensar que o documento constitu√≠a um segundo anexo [55]. O documento √© composto de uma s√©rie de extratos, selecionados e transcritos por Blagoeva, cuja proveni√™ncia se apontava, alternadamente, nas "cartas" (evidentemente as cartas trocadas entre Gramsci, Julia e Tatiana nos anos do c√°rcere), em informa√ß√Ķes e comunica√ß√Ķes prestadas por Tatiana ou por Eugenia (provavelmente, pelo menos em grande parte, entre 16 de fevereiro e 19 de mar√ßo de 1939) e num "texto da Se√ß√£o de Quadros da IKKI" (zapis v OK IKKI), cujo conte√ļdo talvez fosse constitu√≠do pelo documento que datamos de 27 de junho de 1938. √Č necess√°rio levar em conta que a sele√ß√£o das anota√ß√Ķes era obra de Blagoeva e que n√£o sabemos quais fossem os crit√©rios¬†adotados para selecion√°-las nem em que medida fossem completas. Por certo, eram incompletas, √† luz daquilo que a pr√≥pria Blagoeva afirmou¬†em documento sucessivo (a j√° citada "nota" de setembro de 1940), no qual se afirmava que, entre as comunica√ß√Ķes das irm√£s Schucht √† Se√ß√£o de Quadros, figuravam tamb√©m as de Julia [56], as quais, no entanto, n√£o s√£o citadas no documento que estamos prestes a examinar. Dada a fragmentariedade do documento em quest√£o, √© oportuno analis√°-lo reagrupando as informa√ß√Ķes com base em algumas quest√Ķes chave.

A primeira destas era a carta de 1928. √Ä luz das "palavras de Schucht T." e das "cartas", o documento punha em sequ√™ncia (implicitamente, de causa-efeito) a expedi√ß√£o da carta, sua inclus√£o no "ato de acusa√ß√£o" contra Gramsci, a interrup√ß√£o das tratativas sobre a liberta√ß√£o de Gramsci que teriam sido entabuladas entre Litvinov e Grandi [respons√°veis pelas rela√ß√Ķes exteriores de URSS e It√°lia], o processo e a condena√ß√£o de Gramsci. Na realidade, a sequ√™ncia n√£o correspondia ao andamento das coisas (sabemos que¬†a condi√ß√£o de re√ļ¬†j√° fora¬†determinada antes da chegada da carta de Grieco), mas refletia uma persuas√£o que se fixou na correspond√™ncia do c√°rcere [57]. Precisava-se que Gramsci n√£o considerava Grieco o verdadeiro respons√°vel pela iniciativa, mas que esta "lhe foi aconselhada" e que ele "teria escrito por ditado". Registrava-se a declara√ß√£o de Grieco sobre a influ√™ncia exercida pela mulher de Terracini e sobre o envio da carta a Moscou, para Germanetto, declara√ß√£o que se afirmava remontar (como antecipamos acima) a 27 de junho de 1938 [58].

A segunda quest√£o tratada no documento era a hist√≥ria das tentativas de libertar Gramsci nos anos 1930. Uma "comunica√ß√£o de Schucht Eug." precisava a import√Ęncia da figura de Sraffa ("com ele Gramsci conversou por longo tempo e mais abertamente lhe expressou suas preocupa√ß√Ķes e conjecturas"). Al√©m disso, estigmatizava a "provoca√ß√£o" constitu√≠da pela publicidade dada em 1933 √† indica√ß√£o dos m√©dicos acerca da interna√ß√£o de Gramsci [59]. Mas a aten√ß√£o estava dirigida sobretudo aos anos compreendidos entre 1934 e 1937: como se as suspeitas acumuladas nos √ļltimos anos, os mais sofridos, tivessem a fun√ß√£o de corroborar retrospectivamente a suspeita original de 1928. Os elementos mais destacados eram dois: a desconfian√ßa extrema nutrida por Gramsci em rela√ß√£o a seus companheiros de partido; a amb√≠gua conduta mantida por alguns funcion√°rios sovi√©ticos.

Blagoeva anotava que Gramsci protestou, "de 1935 at√© o fim", contra a lentid√£o das negocia√ß√Ķes sobre sua troca, e extra√≠a das "cartas dos anos 1934-1937" a seguinte anota√ß√£o [60]: "Gramsci insistentemente diz a Moscou que conduza toda a quest√£o de sua troca sem informar os companheiros italianos e que n√£o lhes d√™ not√≠cia sobre sua situa√ß√£o. Pede ao NKVD que pro√≠ba os companheiros italianos de fazer estardalha√ßo em torno dele" [61]. Gramsci teria considerado "provoca√ß√£o" o fato de os comunistas italianos passarem a lhe escrever depois de seu internamento na cl√≠nica de Formia ("comunica√ß√£o de Schucht Eug.") [62]. E avaliara como "provoca√ß√£o", pedindo que se informasse ao NKVD, a diretriz do PCd¬íI, a ele contada por Sraffa em 1935, segundo a qual ent√£o podia "fazer o que quer, escrever para onde e para quem quer" ("informa√ß√£o de Schucht T.") [63]. At√© em rela√ß√£o √† poss√≠vel evas√£o, que fora considerada a partir de 1934, a atitude do partido teria sido equ√≠voca. De uma "comunica√ß√£o de Schucht Eug." se extra√≠a o seguinte: "no in√≠cio de 1936 Bibolotti chegou a Moscou, Togliatti o p√īs em contato com Schucht, com a qual¬†ele come√ßou uma conversa sobre o sequestro de Gramsci, o que demonstra que sobre este problema se¬†tagarelava entre os companheiros italianos" [64]. Ao contr√°rio, Gramsci continuava a depositar todas as pr√≥prias esperan√ßas na a√ß√£o dos organismos sovi√©ticos, segundo o que ainda anotava Blagoeva a partir de "cartas" de 1937 que n√£o conhecemos: "naquela √©poca Gramsci repetiu algumas vezes que as comunica√ß√Ķes do NKVD sobre o fato de que as tratativas sobre a troca seguem adiante, e que h√° esperan√ßas de realiz√°-la, definiam toda a sua linha de conduta, de outro modo esta teria sido diferente" [65].

Mas, ao mesmo tempo, a a√ß√£o dos funcion√°rios do NKVD tamb√©m era apresentada sob luz suspeita, sempre a partir de 1934. A figura no centro destas suspeitas era o c√īnsul sovi√©tico em Roma, P.M. Dneprov, que n√£o pertencia ao NKID, mas ao NKVD. As outras figuras envolvidas eram Kretinski e Vejnberg (NKID), Ioffe (NKVD), Vizner (SNK, Conselho dos Comiss√°rios do Povo). Segundo uma "comunica√ß√£o de Schucht Eug.", desde 1934 Dneprov¬†sabotou "a reexpedi√ß√£o de cartas recebidas de Gramsci na pris√£o". Al√©m disso, tanto Dneprov quanto o embaixador Stein mostraram comportamento amb√≠guo em rela√ß√£o √† carta de 1928: "Stein recusou o pedido de T. Schucht de enviar por correio reservado a carta de fevereiro de 1928 que Garlandi escreveu a Gramsci. Ela foi expedida por correio diplom√°tico comum, mas Dneprov n√£o a deu √† fam√≠lia, declarando que tinha sido recebida s√≥ uma c√≥pia e que seu conte√ļdo n√£o causava esp√©cie. Em rela√ß√£o a isso, T. Schucht enviou um relat√≥rio ao NKVD" [66]. Segundo outra "informa√ß√£o de Schucht Eug.", reproduzida por Blagoeva, Dneprov concentrou em seguida nas pr√≥prias m√£os a quest√£o da liberta√ß√£o de Gramsci depois de voltar para Moscou em 1936 [67]. Uma "comunica√ß√£o de Schucht T." revelava o que se segue: "seja no final de 1936, seja no in√≠cio de 1937, representantes do NKVD por dois meses propuseram a Gramsci que comunicasse tudo aquilo que sabia sobre os trotskistas italianos. A resposta de Gramsci foi: estabele√ßam boas rela√ß√Ķes com os funcion√°rios italianos na embaixada e saber√£o tudo. Gramsci suspeitava de nova provoca√ß√£o" [68]. As suspeitas das Schucht se estendiam ao per√≠odo subsequente √† morte de Gramsci. Em maio de 1938, "o NKVD, na pessoa de Dneprov e de seu secret√°rio Zarki, fez uma tentativa de tirar da fam√≠lia todos os manuscritos de Gramsci. Mas a declara√ß√£o de Eug. Schucht, pela qual ela s√≥¬†os daria¬†por ordem do CC do VKP(b), interrompeu estas tentativas" ("comunica√ß√£o de Schucht Eug.") [69]. Ao mesmo tempo, "Dneprov¬†dirigiu a Eug. Schucht, em Moscou, estranhas perguntas¬†sobre sua irm√£ T. Schucht, que se encontrava na It√°lia, e fez estranhas observa√ß√Ķes" ("comunica√ß√£o de Schucht Eug.") [70].

O documento tamb√©m confirmava que a identifica√ß√£o de Togliatti como a figura sobre a qual se concentraram as suspeitas de Gramsci devia ser atribu√≠da a Gramsci. Para tal fim, citava-se uma "informa√ß√£o de Schucht T.": "em sua viagem √† It√°lia depois da morte de Gramsci, Sraffa disse a T. Schucht que Gramsci considerava T. culpado das provoca√ß√Ķes: ¬Ďele pensava em T.¬í. Mas, quando ela lhe escreveu que era necess√°rio fazer alguma coisa, ele aconselhou que, saindo da It√°lia, passasse por Paris e perguntasse a Garlandi sobre esta carta. Ela ficou desconcertada com este conselho e n√£o foi a Paris" [71].

Comecemos aqui nossas considera√ß√Ķes sobre o documento. Na comunica√ß√£o de Blagoeva a Dimitrov de 19 de mar√ßo de 1939, falava-se de um "testemunho" de Sraffa; no documento de 17 de mar√ßo de 1939, citava-se, em vez disso, uma "declara√ß√£o" de Sraffa; no documento ora examinado se transcreviam palavras de Sraffa referidas numa "informa√ß√£o" de Tatiana. As diferen√ßas, como se v√™, s√£o significativas e nos p√Ķem diante de um enigma. N√£o temos condi√ß√Ķes de estabelecer se o "testemunho" de Sraffa a que Blagoeva se referia na comunica√ß√£o a Dimitrov, considerando-o de todo modo insuficiente para os fins da investiga√ß√£o, tinha car√°ter direto (e estava registrado em documento que n√£o conhecemos), ou se com este termo se indicavam simplesmente as palavras referidas por Tatiana, supracitadas. O termo russo empregado por Blagoeva (pokazanie, que significa "testemunho", mas tamb√©m "depoimento", e n√£o svedenie, "informa√ß√£o", que foi, em vez disso, o termo empregado para as palavras de Tatiana) levaria a tender pela primeira hip√≥tese. Mas nos documentos em anexo n√£o se fazia refer√™ncia a nenhum documento que contivesse um "testemunho" de Sraffa.

Se nos ativermos √† anota√ß√£o de Blagoeva supracitada, parecem ser duas as alternativas poss√≠veis. Sraffa poderia ter ido at√© o ponto, em col√≥quio ocorrido depois da morte de Gramsci, de fazer Tatiana saber da exist√™ncia da suspeita de Gramsci dirigida contra Togliatti, e depois recuado, surpreso com a insist√™ncia epistolar dela no sentido de fazer aflorar a verdade e temeroso das implica√ß√Ķes de tal possibilidade. Ou, ent√£o, Tatiana agora atribu√≠a a Sraffa palavras que este na realidade n√£o pronunciara e que eram s√≥ fruto de interpreta√ß√£o, servindo-se de sua respeitabilidade para dar cr√©dito a suspeita nutrida por ela. No estado de nossos conhecimentos, a segunda das duas hip√≥teses parece a menos convincente: Sraffa poderia ter facilmente desmascarado tal manobra, especialmente se convocado a Moscou, como Blagoeva pretendia. √Č fato que as Schucht n√£o afirmaram ter ouvido diretamente de Gramsci a suspeita¬†contra Togliatti, mas t√™-la ouvido de Sraffa: evidentemente da√≠ a √™nfase no fato de que Gramsci "mais abertamente lhe expressou suas preocupa√ß√Ķes e conjecturas". De resto, era plaus√≠vel que Gramsci tivesse evitado explicitar todas as pr√≥prias d√ļvidas a Tatiana, que n√£o tinha o perfil pol√≠tico para delas ser deposit√°ria, confessando-as, ao contr√°rio, a um homem como Sraffa, encruzilhada de suas rela√ß√Ķes pol√≠ticas restantes [72].

Com base nos apontamentos de Blagoeva, somos levados a pensar que a correspond√™ncia entre Tatiana e Sraffa nos meses do ver√£o de 1937, que j√° recordamos, deva ser lida √† luz do surgimento da suspeita contra Togliatti nas conversas havidas entre os dois ap√≥s a morte de Gramsci [73]. Tatiana escreveu mostrando evidente expectativa de apoio que devia advir daqueles encontros, e suas palavras parecem v√°rias vezes aludir a seu conte√ļdo. Em 7 de julho, exortou Sraffa a esclarecer "o que pretende fazer ou dizer a prop√≥sito da carta famosa", a de Grieco [74]. Irritada pelo fato de que tal apelo tivesse ca√≠do no vazio, acusou-o em 16 de setembro de assumir a atitude de quem, por "amor ao quieto viver", abandona "quest√Ķes de m√°xima import√Ęncia", e manifestou a inten√ß√£o de, uma vez retornada a Moscou, "tomar os passos necess√°rios para conseguir apurar a verdade" com a necess√°ria discri√ß√£o, na eventualidade de haver "realmente algo s√©rio a descobrir" [75]. Depois da resposta de Sraffa, que minimizava o significado da carta de 1928, Tatiana n√£o escondeu uma profunda decep√ß√£o em sua r√©plica de 28 de setembro de 1937, que n√£o nos parece simples consequ√™ncia do pr√≥prio imagin√°rio desiludido: insinuou que o racioc√≠nio de Sraffa era um modo de "deixar de lado deliberadamente a quest√£o", talvez "para n√£o se ver √†s voltas com problemas" ou "porque n√£o se quer admiti-la no caso espec√≠fico", malgrado o fato de que "n√£o seria de se espantar, de modo algum, com a explicita√ß√£o de uma atividade quase diab√≥lica". Sobre o conselho de ir a Paris, lembrou-lhe que "Nino sustentava que a inten√ß√£o n√£o partia de quem escreveu, mas de quem mandou escrever a carta", e acrescentou que "o argumento sobre uma interpreta√ß√£o errada minha de uma alus√£o sua [de Sraffa], para querer sustentar a possibilidade de uma interpreta√ß√£o¬†igualmente errada de Nino, tamb√©m n√£o fica de p√© em absoluto". Em vez disso, o cerne do problema ¬Ė destacava Tatiana com uma afirma√ß√£o que parece tamb√©m uma profecia do que ocorreria mais de um ano mais tarde, depois de sua volta a Moscou ¬Ė consistia em "verificar com paci√™ncia a atividade passada e presente daquele que inspirou a carta". Na mesma carta, Tatiana se despediu de Sraffa dizendo: "n√£o quero crer que, no fundo, n√£o tenha pensado na coisa de modo muito mais s√©rio do que pretende fazer crer" [76]. De onde podia vir tal convic√ß√£o sen√£o do fato de que havia uma diferen√ßa entre o que Sraffa escrevia e o que deve lhe ter dito?

O papel desempenhado por Sraffa parece bastante opaco e amb√≠guo. Como sabemos, depois de ter exortado Tatiana a uma conversa esclarecedora com Grieco que era bastante improv√°vel (e que, na realidade, fora inspirada pelo Centro Externo do partido) [77], Sraffa informou¬†o dirigente¬†das suspeitas de Schucht sobre ele e sobre outros. Al√©m disso, considerando o documento que identificamos como a declara√ß√£o de Grieco de 27 de junho de 1938, Sraffa teria atribu√≠do a Tatiana a suspeita de que outra pessoa havia "obrigado" Grieco a escrever a carta [78]: uma vers√£o contr√°ria √† que Tatiana sustentava, isto √©, que fora o pr√≥prio Sraffa a indicar em Togliatti a pessoa posta sob suspei√ß√£o por Gramsci. No entanto, √© dif√≠cil pensar que as irm√£s Schucht se empenhassem numa den√ļncia ao VKP(b) e ao Komintern levadas s√≥ por um gen√©rico rancor¬†contra Togliatti e sem amadurecer uma convic√ß√£o suficientemente s√≥lida. Seu conhecimento das altas esferas do poder sovi√©tico (revelado pelo epis√≥dio do telefonema de Eugenia √† secretaria de Ejov), proveniente de sua hist√≥ria familiar, da experi√™ncia de milit√Ęncia de Eugenia e Julia, bem como de sua colabora√ß√£o com¬†a OGPU [Administra√ß√£o Pol√≠tica do Estado Unificada junto ao Conselho dos Comiss√°rios do Povo], que remontava aos anos vinte, tornava-as bem sabedoras de terem iniciado um jogo muito s√©rio e perigoso. Deve-se pensar, ali√°s, que a convoca√ß√£o de Sraffa a Moscou, sugerida por Blagoeva a Dimitrov, fosse um dos objetivos das Schucht.

Outro aspecto do documento intitulado "Material sobre a quest√£o Gramsci-T." que suscita aten√ß√£o √© a aparente contradi√ß√£o entre o que se reportava sobre a atitude de Gramsci voltada para privilegiar as rela√ß√Ķes com os √≥rg√£os sovi√©ticos, inclusive os de seguran√ßa, eludindo os comunistas italianos, e as suspeitas formuladas tamb√©m em rela√ß√£o √† atividade do NKVD. Vale a pena destacar que estas suspeitas foram, em ampla medida, avalizadas pela pr√≥pria Blagoeva em sua comunica√ß√£o a Dimitrov de 19 de mar√ßo: de fato, a funcion√°ria sugeriu "tirar a quest√£o das m√£os daqueles que at√© agora a seguiram no NKVD", como "condi√ß√£o" para efetivar o necess√°rio "esclarecimento" [79]. √Č prov√°vel que a quest√£o fosse suscitada √† luz dos expurgos em curso na equipe de Ejov. Mas √© tamb√©m poss√≠vel que se quisesse aludir √† exist√™ncia de cumplicidade entre funcion√°rios ou setores do NKVD e alguns dirigentes do PCd¬íI. A este prop√≥sito assumiam papel central as acusa√ß√Ķes relativas √† tentativa de subtrair da fam√≠lia os materiais gramscianos do c√°rcere. Vimos que as tens√Ķes emergiram justamente sobre isso entre a fam√≠lia e o partido em 1938, quando os materiais de Gramsci chegaram a Moscou. Na realidade, sua origem pode ser retrodatada ao per√≠odo imediatamente subsequente √† morte de Gramsci. A carta escrita por Togliatti a Manuilski em 11 de junho de 1937, para assinalar o problema da recupera√ß√£o dos manuscritos do c√°rcere, n√£o √© s√≥ not√°vel pela tempestiva aten√ß√£o √† "heran√ßa liter√°ria" do falecido, mas tamb√©m porque ignorava completamente a fam√≠lia e indicava o PCd¬íI e o Komintern como os sujeitos que deviam se tornar os deposit√°rios [80]. O¬†movimento de Togliatti n√£o parece voltado para coadjuvar, mas, antes, sobrepujar aqueles j√° dados pela fam√≠lia, dos quais tinha conhecimento: Julia j√° se dirigira ao NKVD em 3 de maio e, em 11 de maio, recebera garantias de Vejnberg acerca do envolvimento do vice-comiss√°rio de Assuntos Exteriores, Vladimir Potemkin [81]. A transforma√ß√£o de Gramsci em √≠cone do comunismo italiano, realizada pelos dirigentes do PCd¬íI logo depois de sua morte, deve ter acirrado a irrita√ß√£o da fam√≠lia, obrigada a constatar a dist√Ęncia entre comportamentos reservados e p√ļblicos.

√Ä luz de tudo isso, devemos considerar que, entre os objetivos das Schucht em seu ato de den√ļncia, estava o de controlar e, de seu ponto de vista, salvaguardar a gest√£o do legado intelectual de Gramsci. Sobre isso, obtiveram resultado imediato, a institui√ß√£o de uma comiss√£o dedicada √† "heran√ßa liter√°ria do comp. Gramsci", composta por Bevz, Blagoeva, Maggi, Tuti [Martini], Tatiana Schucht. Deve-se observar que ela se reuniu em 25 de fevereiro de 1939 (poucos dias depois do encargo de Dimitrov a Blagoeva sobre "a quest√£o Gramsci-T."). Blagoeva indicou como tarefa da comiss√£o "apresentar ao comp. Dimitrov as pr√≥prias propostas sobre como usar no futuro a heran√ßa liter√°ria do comp. Gramsci". No entanto, s√≥ se discutiu o destino da biblioteca de Gramsci [82]. S√≥ mais tarde, em 7 de agosto de 1939, a comiss√£o (na qual Eugenia e Julia substitu√≠ram Tatiana) reuniu-se pela segunda vez e examinou tamb√©m a quest√£o dos manuscritos. Eugenia reconheceu a oportunidade de conserv√°-los no arquivo da IKKI. Foi o que se decidiu, inclusive em rela√ß√£o √† biblioteca [83].

O documento intitulado "Material sobre a quest√£o Gramsci-T." n√£o continha s√≥ as anota√ß√Ķes que Blagoeva extra√≠ra das cartas, dos materiais da Se√ß√£o de Quadros e dos interrogat√≥rios das Schucht. Uma interven√ß√£o direta de Blagoeva parece constitu√≠da pela observa√ß√£o de que, logo ap√≥s a morte de Gramsci, Angelo Tasca publicou em Nuovo Avanti extratos da carta de 1926 e de que esta teria mostrado "algumas oscila√ß√Ķes de Gramsci naquela √©poca em face da oposi√ß√£o unificada". Acrescentava-se que o PCd¬íI replicara com os escritos de Gramsci contra Tasca, "mas contra a quest√£o das oscila√ß√Ķes n√£o se escreveu nada" [84]. No arquivo, junto com o documento intitulado "Material sobre a quest√£o Gramsci-T.", encontra-se uma tradu√ß√£o do italiano para o russo do artigo de Tasca, tamb√©m datada de 19 de mar√ßo de 1939 [85]. Em outras palavras, a espada de D√Ęmocles do "trotskismo" continuava a pender sobre o PCd¬íI¬†em fun√ß√£o¬†da "quest√£o Gramsci". Um post-scriptum lavrado de pr√≥prio punho por Blagoeva precisava que, "sobre o problema da atitude de Gramsci quanto ao trotskismo, Schucht Eug. respondeu citando suas palavras conhecidas de todo o partido e das massas: ¬Ďo trokskismo √© a prostituta do fascismo¬í" [86]. Se esta afirma√ß√£o servia para afastar da figura de Gramsci a sombra, todo o conte√ļdo do documento, indiretamente, fazia-a projetar-se sobre os comunistas italianos. Pode-se apreender tamb√©m neste caso, como naquele do documento intitulado "O fundamento da quest√£o T.", uma acentuada tend√™ncia de Blagoeva a se servir dos motivos oferecidos pelas den√ļncias das Schucht para construir uma "quest√£o" de contornos mais bem inseridos na tradi√ß√£o inquisit√≥ria dos anos precedentes.

O documento se conclu√≠a com as opini√Ķes de Blagoeva sobre as Schucht. A autora observava que contra as irm√£s Schucht havia "uma s√©rie de avalia√ß√Ķes negativas por parte dos companheiros dirigentes italianos, como pessoas estranhas, doentes, que n√£o querem dar ao partido a heran√ßa liter√°ria de Gramsci a ele pertencente". Blagoeva desmentia tais afirma√ß√Ķes, apresentando Eugenia e Julia (que foram verdadeiras militantes do partido sovi√©tico) como pessoas politicamente confi√°veis e Tatiana (que o fora bem menos) como pessoa respeit√°vel. Tal ju√≠zo era refor√ßado pela circunst√Ęncia de que o velho bolchevique Korotkov e, sobretudo, Krupskaia, mulher de Lenin, apoiaram Eugenia e Julia "em sua inten√ß√£o de defender a causa de Gramsci contra os companheiros italianos" [87].

Com o documento que acabamos de examinar, esgota-se a documenta√ß√£o por n√≥s encontrada e datada de 1939. O √ļltimo vest√≠gio da "quest√£o Gramsci" que temos √© a reuni√£o da comiss√£o em agosto de 1939, supracitada. A "quest√£o Gramsci-T.", da qual Dimitrov encarregou Blagoeva em 16 de fevereiro de 1939, que esta reafirmou em 19 de mar√ßo, ao exortar Dimitrov a continuar a investiga√ß√£o, e que este transmitiu a Manuilski em 21 de mar√ßo, parece patinar. Ser√° a consequ√™ncia de uma lacuna de nossos conhecimentos arquiv√≠sticos ou efetivamente a "quest√£o" se deteve, em vez de avan√ßar, por motivos que n√£o conhecemos? Talvez sejam verdadeiras ambas as coisas. Um dado a ter presente √© que a den√ļncia dos "excessos" dos expurgos feita por Stalin no XVIII Congresso (que significou a definitiva liquida√ß√£o de Ejov) criava ambiente menos prop√≠cio do que aquele de 1938 √† investiga√ß√£o instru√≠da por Blagoeva. O fato de que¬†a press√£o¬†origin√°ria tivesse vindo de Ejov provocava agora, objetivamente, um enfraquecimento de sua efic√°cia. O PCd¬íI continuava desorientado e alvejado pelas cr√≠ticas de Manuilski [88], mas a repress√£o maci√ßa contra os partidos comunistas n√£o estava mais na ordem do dia.

No entanto, estas considera√ß√Ķes n√£o s√£o suficientes. O clima do Komintern permanecia o de uma organiza√ß√£o permeada por esp√≠ritos conspirativos e criminosos. Mesmo os dirigentes de primeiro plano continuavam a se sentir inseguros: prova disso √© a clamorosa desgra√ßa conhecida por Manuilski junto a Stallin em abril de 1939 [89]. Precisamente Manuilski, talvez tamb√©m com a inten√ß√£o de recuperar credibilidade, escreveu uma carta a Stalin em 29 de maio de 1939, acusando Togliatti (rec√©m-chegado a Moscou) de ter ocultado o extravio dos arquivos do partido espanhol: acusa√ß√£o grave, que equivalia a p√īr em d√ļvida a capacidade de "vigil√Ęncia" de Ercoli em momento delicado como a desmobiliza√ß√£o que se seguiu ao fim da guerra civil na Espanha [90]. Assim, um novo item de acusa√ß√£o, n√£o menos relevante do que a "quest√£o Gramsci", veio a pender sobre a cabe√ßa de Togliatti. Depois de seu retorno a Moscou, ele foi provavelmente interrogado sobre o m√©rito de ambas as acusa√ß√Ķes, mas nos arquivos n√£o foi poss√≠vel encontrar documentos a este prop√≥sito [91]. Pode n√£o ser irrelevante observar que, justamente entre abril e junho de 1939, Robotti, detido um ano antes, foi reiteradamente interrogado pelo NKVD [92].

Pouco depois Togliatti viajou para a Fran√ßa em miss√£o¬†confiada por¬†Dimitrov, ficando distante da URSS por quase um ano, predominantemente por causa da deten√ß√£o em c√°rceres franceses entre setembro de 1939 e mar√ßo de 1940. A aus√™ncia de Togliatti de Moscou n√£o impedira que se instru√≠sse "a quest√£o Gramsci-T." na Se√ß√£o de Quadros do Komintern: sua aus√™ncia sucessiva, ao contr√°rio, parece ter correspondido a um bloqueio da quest√£o. Apesar disso, as acusa√ß√Ķes feitas a ele permaneceram e deixaram marca bastante significativa.

A den√ļncia a Stalin

Em 21 de setembro de 1940, Blagoeva assinou uma "nota" (spravka) bastante dura contra Togliatti. O documento é conhecido e foi empregado por Aldo Agosti em sua biografia de Togliatti [93]. Ele é aqui relevante porque nos permite compreender, substancialmente, a evolução da "questão Gramsci" em Moscou. Blagoeva a expunha nos seguintes termos:

Em 1939 chegou √† IKKI uma acusa√ß√£o da vi√ļva do falecido chefe do PC da It√°lia, Gramsci, contra T. Consiste no fato de que Gramsci considerava T. um traidor que n√£o merecia confian√ßa. O fundamento disso √© que T. n√£o expressava jamais sua opini√£o antes da decis√£o sobre um problema e no passado se mostrou indeciso nos momentos mais agudos da luta interna de partido e, al√©m disso, fez fracassar as tentativas de libertar Gramsci mediante troca, e uma s√©rie de outros fatos em rela√ß√£o a Gramsci, quando este se encontrava na pris√£o, que Gramsci avaliou como provoca√ß√Ķes por parte da dire√ß√£o do PC da It√°lia com o objetivo de impedir sua liberta√ß√£o. Outro fundamento desta acusa√ß√£o √© a falta de a√ß√£o para o aproveitamento da heran√ßa liter√°ria de Gramsci e a populariza√ß√£o de seu nome (carta da vi√ļva de Gramsci, carta de Gramsci a sua mulher, comunica√ß√Ķes da vi√ļva de Gramsci e de suas irm√£s √† Se√ß√£o de Quadros da IKKI [94].

A conclus√£o de Blagoeva era que "se deve considerar n√£o esclarecido cabalmente o problema de sua atitude sobre a quest√£o Gramsci, √© preciso um novo exame" [95]. Em outras palavras, a funcion√°ria do Komintern voltava a propor a subst√Ęncia das notas por ela mesma escritas em mar√ßo de 1939 e apresentava a mesma conclus√£o j√° transmitida a Dimitrov em 19 de mar√ßo de 1939, ainda que expressa em termos mais moderados. Isso nos faz considerar que "a quest√£o Gramsci-T." tivesse sido bloqueada por mais de um ano. A "nota" n√£o continha nenhuma novidade em rela√ß√£o ao conjunto de informa√ß√Ķes amealhado na Se√ß√£o de Quadros em fevereiro-mar√ßo de 1939, tal como acima reconstru√≠mos. Nem as fontes indicadas por Blagoeva mostravam qualquer elemento novo: de fato, citavam-se a "carta da vi√ļva de Gramsci" (que n√£o conhecemos) com a qual se dera o impulso original √† "quest√£o"; "cartas de Gramsci a sua mulher"; e as comunica√ß√Ķes das Schucht √† Se√ß√£o de Quadros (que conhecemos em parte atrav√©s da colagem composta por Blagoeva no documento de 19 de mar√ßo de 1939 intitulado "Material sobre a quest√£o Gramsci-T.").

Por isso, a "nota" escrita por Blagoeva parece se originar n√£o de novos desdobramentos da "quest√£o Gramsci" em Moscou, mas da decis√£o de reunir informa√ß√Ķes sobre Togliatti que pusessem sua figura sob luz negativa. A "nota" n√£o omitia refer√™ncias √† carta de Gramsci de 1926 e √†s "incertezas" de Togliatti em 1929. N√£o se citavam as acusa√ß√Ķes de Manuilski a prop√≥sito dos arquivos do PC espanhol, mas havia refer√™ncia √† deten√ß√£o sofrida por Togliatti na Fran√ßa em 1939, observando-se que, em torno das circunst√Ęncias da deten√ß√£o e mesmo da liberta√ß√£o, restavam "muitas coisas a esclarecer" [96]. Talvez precisamente estas √ļltimas circunst√Ęncias foram motivo de suspeita suficiente para gerar a "nota": em setembro de 1940, Togliatti voltara a Moscou fazia poucos meses e sabe-se que, nesta sua volta, lhe fora reservada acolhida nada entusi√°stica [97]. Por outro lado, sabemos que a sombra da suspeita alcan√ßara Togliatti havia tempo, precisamente por causa da "quest√£o Gramsci". Esta √ļltima tinha claramente fun√ß√£o central no documento, mesmo sendo s√≥ parte de um dossi√™ mais amplo. Todavia, a "nota" sobre Togliatti, de Blagoeva, era o testemunho de paralisia da "quest√£o Gramsci", n√£o de avan√ßo. A √ļnica evolu√ß√£o sens√≠vel referia-se √† posi√ß√£o geral de Togliatti na URSS, que ent√£o parecia conhecer o pren√ļncio de verdadeira desgra√ßa. Por certo, sua liga√ß√£o pessoal com a tradi√ß√£o do antifascismo antes de 1939, renegada pelo Komintern na trilha do pacto Molotov-Ribbentrop, n√£o constitu√≠a motivo de for√ßa no ver√£o de 1940, em plena alian√ßa entre Stalin e Hitler.

Em 8 de dezembro de 1940, chegou √† secretaria de Stalin (Osobyj Sektor CK VKP(b)) uma carta a ele endere√ßada por Eugenia e Julia Schucht [98]. A c√≥pia em nossas m√£os traz apenas a data de entrada da carta na secretaria de Stalin: mas, √† luz de nossos conhecimentos atuais, n√£o h√° motivo para considerar que tal data seja muito distante daquela em que materialmente foi escrita. De qualquer modo, a carta segue-se √† "nota" de Blagoeva sobre Togliatti, na qual, como vimos, n√£o se aludia √† exist√™ncia de tal documento. A carta de Eugenia e Julia a Stalin era um duro ato de acusa√ß√£o contra os comunistas italianos e, indiretamente, mas n√£o muito veladamente, contra Togliatti. Os t√≥picos de acusa√ß√£o eram dois. O primeiro era constitu√≠do pelo uso dos manuscritos do c√°rcere. As duas irm√£s declaravam ter "muitas vezes" levantado a quest√£o no Komintern e protestavam contra a "posi√ß√£o dos italianos", que sempre fora a de considerar os materiais de Gramsci "propriedade do partido comunista italiano" e sustentar que, neste partido, "s√≥ o comp. Togliatti seria capaz e saberia prepar√°-los para publica√ß√£o". A opini√£o das Schucht era que "s√≥ um grupo de companheiros n√£o s√≥ do partido comunista italiano, mas possivelmente tamb√©m de outros partidos irm√£os e, em particular, do VKP(b) saber√°, sem trair o trabalho de Gramsci, dar-lhe toda a vivacidade, sufocada pelo fato de ter escrito na pris√£o". Para tal fim, baseavam-se na autoridade de Krupskaia, que, como sabemos pelas notas de Blagoeva intituladas "Material sobre a quest√£o Gramsci-T.", apoiara as Schucht em sua defesa da "causa de Gramsci contra a a√ß√£o dos comunistas italianos": lembrava-se que ela, interpelada a prop√≥sito, "condenou decididamente" o ponto de vista dos comunistas italianos. √Č evidente que nestas palavras estava impl√≠cito um ju√≠zo retrospectivo extremamente negativo tanto sobre as rela√ß√Ķes entre a fam√≠lia e o partido, quanto sobre os trabalhos das duas comiss√Ķes encarregadas, em 1939, da "heran√ßa liter√°ria" de Gramsci. As Schucht consideravam, em subst√Ęncia, que s√≥ se havia perdido tempo ¬Ė e dolosamente: "os anos passam, anos que subtraem Gramsci √† vida de modo muito mais ofensivo do que os onze anos que passou na pris√£o" [99].

O segundo ato de acusa√ß√£o remetia, nas palavras das pr√≥prias autoras, √† "coisa mais grave", vale dizer, √† quest√£o do encarceramento de Gramsci e das tentativas fracassadas¬†de liberta√ß√£o. Agora, as Schucht (segundo sabemos, pela primeira vez) falavam abertamente da "m√£o de um traidor", que, a seu ju√≠zo, seguira Gramsci, odiado pelos "trotskistas de todo tipo", desde o momento da deten√ß√£o. As duas irm√£s pediam uma entrevista com Stalin ou, pelo menos, a possibilidade de lhe escrever a respeito. Evidentemente, com o objetivo de justificar este pedido e de destacar a seriedade da quest√£o, descreviam sumariamente seus precedentes: informavam ao ditador que o NKVD tinha "em parte" conhecimento do assunto; que "escrevi [sic] sobre isso √† secretaria do VKP(b), a Ejov"; e que "da√≠ a carta foi enviada ao Komintern, onde por longo tempo discutiram comigo e, como me disseram, a impress√£o causada por esta quest√£o foi muito forte" [100]. Apesar de n√£o fazer acusa√ß√Ķes nominais, a carta esclarecia suficientemente quem eram os destinat√°rios das suspeitas de Gramsci e da den√ļncia apresentada por sua fam√≠lia:

Até que ponto Gramsci suspeitava que a traição era profunda está atestado pelo fato de que, no curso dos onze anos de seu encarceramento, toda vez que ele levantava o problema das tentativas para salvá-lo, invariavelmente nos dava a indicação de se dirigir ao VKP(b) de modo que nenhum dos italianos ficasse a par do que se tentaria, senão considerava que tudo iria se perder. Não conseguimos fazê-lo e, talvez por isso, Gramsci está morto [101].

A carta das Schucht a Stalin suscita v√°rias perguntas e considera√ß√Ķes, antes de mais nada a respeito de suas motiva√ß√Ķes. N√£o sabemos at√© onde as irm√£s sabiam dos desdobramentos havidos por sua den√ļncia origin√°ria, aquela feita a Ejov, e em particular dos resultados da investiga√ß√£o instru√≠da por Blagoeva a mando de Dimitrov em fevereiro-mar√ßo de 1939. Em parte deviam saber, como demonstra a alus√£o, contida na carta a Stalin, √† impress√£o "muito forte" suscitada no Komintern por sua den√ļncia. De resto, vimos como Blagoeva havia dado a elas cr√©dito inicial, al√©m da n√≠tida inclina√ß√£o para investigar a "quest√£o Gramsci" (confirmada na "nota" de setembro de 1940) e at√© gerar um verdadeiro "caso": n√£o se pode excluir que entre Blagoeva e as Schucht tenha havido contatos mesmo depois dos interrogat√≥rios de fevereiro-mar√ßo de 1939.¬†De todo modo, √© evidente que a den√ļncia origin√°ria das Schucht n√£o dera resultados relevantes e muito menos correspondentes a suas expectativas. Ao contr√°rio, pelo que sabemos, a investiga√ß√£o estava substancialmente parada.

Por isso, a carta das Schucht a Stalin deve ser interpretada como rea√ß√£o a este estado de coisas e como tentativa de reabrir uma quest√£o que a primeira den√ļncia pusera, de seu ponto de vista, sem sucesso. Deve ser notado, a prop√≥sito, a refer√™ncia, certamente n√£o ritual, ao nome de Ejov, que em dezembro de 1940 j√° fora silenciosamente liquidado (detido em junho de 1939, foi condenado √† norte em fevereiro de 1940). Conscientes da circunst√Ęncia, as Schucht n√£o qualificavam Ejov com o apelativo de "companheiro", como, ao contr√°rio, teria sido indispens√°vel em circunst√Ęncias normais: mas, mesmo assim, consideravam necess√°rio mencionar o nome do renegado (ato arriscado, mas permitido pela aus√™ncia de condena√ß√£o p√ļblica), com toda a probabilidade visando a justificar agora seu pr√≥prio apelo a Stalin, aludindo √† exist√™ncia de poss√≠veis responsabilidades e cumplicidades no fato de n√£o ter ido adiante sua den√ļncia origin√°ria. Esta insinua√ß√£o tamb√©m se estendia ao Komintern, como parece mostrar a frase sibilina (que podia se referir tanto a Grieco quanto a Togliatti) que seguia as palavras relativas √† impress√£o "muito forte" suscitada neste organismo pela den√ļncia origin√°ria: "A partir de qual fonte estas suspeitas chegaram at√© um dos italianos sob suspeita n√£o sei, mas que chegaram √© tamb√©m fato" [102].

Desde o in√≠cio, as Schucht revelaram a vontade de se dirigirem a uma autoridade superior ao Komintern: este tamb√©m era o sentido de sua decis√£o de apresentar a den√ļncia ao VKP(b) e n√£o √† IKKI. Com o apelo a Stalin, as irm√£s repetiam a mesma opera√ß√£o, desta vez voltada para envolver a m√°xima autoridade do comunismo sovi√©tico, como a varrer qualquer surda resist√™ncia e obscura cumplicidade. A carta talvez contivesse alus√£o ao risco de interrup√ß√£o da investiga√ß√£o, quando sustentava, tamb√©m neste caso de modo sibilino, que:

Gramsci podia se equivocar sobre os nomes, mas, se só isso for estabelecido pelo Komintern (mas também é possível que isso não seja estabelecido), não será suficiente: se mataram Gramsci, foi com o objetivo de matar a causa do comunismo, e, enquanto este não triunfar em toda a Terra, é preciso conhecer os próprios inimigos e combatê-los. E dessa luta Gramsci ainda pode tomar parte [103].

Em outras palavras, não bastava tomar ciência da existência de culpados, porque estes eram automaticamente inimigos a aniquilar: e, de modo verossímil, o Komintern não era sequer capaz de identificá-los. Se tal leitura estiver correta, ela envolvia diretamente Dimitrov. Podemo-nos perguntar se as Schucht não atribuíam exatamente a ele o não andamento da "questão Gramsci-T.". O objetivo principal de sua carta a Stalin era claramente forçar Dimitrov a reabrir a "questão Gramsci".

Em 12 de dezembro de 1940, o secret√°rio de Stalin, Poskrebisev, enviava a Dimitrov c√≥pia da carta de Eugenia e Julia [104]. Em 21 de dezembro, Dimitrov escreveu de pr√≥prio punho, sobre a comunica√ß√£o recebida do secret√°rio de Stalin, a seguinte anota√ß√£o: "Examinado com a participa√ß√£o dos cc. E. Schucht, Ercoli, Bianco, Blagoeva. Preparar¬†ata para mandar ao c. Poskrebisev" [102].¬†A¬†ata a que Dimitrov se referia eram¬†a da reuni√£o da secretaria da IKKI, realizada naquele mesmo dia. As decis√Ķes tomadas pela secretaria "sobre o fundo arquiv√≠stico e a heran√ßa liter√°ria de Gramsci", com a data de 23 de dezembro, mostram que as medidas previstas pela comiss√£o de 1939 tinham permanecido, em subst√Ęncia, letra morta, como as Schucht agora de fato denunciavam. Tais decis√Ķes previam, em particular, transferir para "fundo especial" do arquivo da IKKI todos os materiais, inclusive os manuscritos, que ainda se encontravam com a fam√≠lia; criar uma comiss√£o (composta por Bianco, Eugenia Schucht e Blagoeva) para o¬†exame da biblioteca de Gramsci, uma "parte" da qual seria inclu√≠da no "fundo" supramencionado (enquanto a outra parte restava, evidentemente, com a fam√≠lia, como Eugenia e Julia pediram a Stalin) [106]; colocar a "m√°scara de gesso de Gramsci" no Museu Lenin (tamb√©m neste caso acedendo a um pedido das irm√£s Schucht a Stalin) [107]; encarregar uma comiss√£o (composta por Kolarov, Togliatti, Bianco, Schucht [sic], Stepanov) de "elaborar propostas concretas sobre o uso da heran√ßa liter√°ria de Gramsci" at√© 20 de janeiro de 1941 [108]. Na mesma data da ata que registrava as decis√Ķes da secretaria, em 23 de dezembro, Dimitrov escreveu de pr√≥prio punho o que se segue, na primeira p√°gina da c√≥pia em seu poder da carta de Eugenia e Tatiana a Stalin: "Voltei a falar com a c. Schucht. O problema foi resolvido" [109]. Em 24 de dezembro, Dimitrov enviou a Poskrebisev a decis√£o da secretaria da IKKI "sobre a carta das cc. Schucht E. e Schucht Ju." [110].

Devemos deduzir da√≠ que as decis√Ķes tomadas pela secretaria da IKKI sobre a "heran√ßa liter√°ria" de Gramsci representaram uma solu√ß√£o de compromisso, embora n√£o se fizesse nenhuma refer√™ncia √† quest√£o principal por elas levantada, a "trai√ß√£o" de Gramsci por parte dos comunistas italianos. Talvez sobre tal quest√£o se tenha decidido n√£o deixar nada escrito e talvez o pr√≥prio procedimento adotado por Poskrebysev induzisse a coloc√°-la em segundo plano. Se a decis√£o de Stalin de remeter a carta a Dimitrov era sob muitos aspectos √≥bvia, ela tamb√©m podia significar uma negativa do ditador ao pedido de receber as irm√£s e ouvir pessoalmente sua vers√£o da "hist√≥ria do encarceramento de Gramsci" [111]. Isso implicava, de fato, recuo e minimiza√ß√£o da den√ļncia de Eugenia e Julia.

A "quest√£o Gramsci" foi assim reaberta, embora s√≥ parcialmente. A √ļnica via para manter o compromisso aparentemente alcan√ßado sob o patroc√≠nio de Dimitrov, em dezembro de 1940, era a de encetar efetivamente o trabalho sobre a "heran√ßa liter√°ria" de Gramsci. Desta vez a quest√£o foi mantida sob estrito controle exercido pelo pr√≥prio Dimitrov. Em 19 de fevereiro de 1941, Blagoeva o informou de que a fam√≠lia Schucht manifestara descontentamento a Bianco, porque a comiss√£o para a "heran√ßa liter√°ria" de Gramsci instaurada pela decis√£o de 23 de dezembro de 1940 ainda n√£o se reunira. Dimitrov pediu ao pr√≥prio secret√°rio pol√≠tico, Sergeev, que fizesse o controle [112]. Isso for√ßou Togliatti, que era seu respons√°vel, a apresentar uma justifica√ß√£o. Em 25 de fevereiro, explicou a Dimitrov, atrav√©s de Sergeev, que n√£o pudera convocar a comiss√£o por causa da aus√™ncia de um de seus membros (Kolarov) e porque era necess√°rio esperar que a primeira comiss√£o terminasse os trabalhos, mas prometeu efetuar a convoca√ß√£o o quanto antes e informar a fam√≠lia atrav√©s de Bianco. Dimitrov enviou a comunica√ß√£o de Togliatti a Blagoeva [113].

Em 25 de abril de 1941, Togliatti escreveu a Dimitrov uma carta que prestava conta dos trabalhos da comiss√£o e expressava suas opini√Ķes pessoais [114]. Togliatti informava a Dimitrov ter "estudado cuidadosamente quase todos" os Cadernos. Ele se dizia contr√°rio a deixar com a fam√≠lia uma c√≥pia dos manuscritos de Gramsci, porque estes "cont√™m materiais que s√≥ podem ser utilizados depois de acurada elabora√ß√£o", em cuja aus√™ncia "o material n√£o pode ser utilizado e, ao contr√°rio, algumas partes, se fossem utilizadas na forma em que se encontram atualmente, poderiam n√£o ser √ļteis ao partido". Posta no contexto dos documentos que ora conhecemos, e em particular da carta de Eugenia e Julia a Stalin, esta carta de Togliatti a Dimitrov nos aparece sob luz em boa parte diversa daquela do momento em que foi¬†encontrada [115]. A reserva acerca da oportunidade de dar a conhecer sem "elabora√ß√£o" algumas passagens dos Cadernos soava como justificativa para o atraso acumulado at√© ent√£o e era √≠ndice de preocupa√ß√£o com a margem de toler√Ęncia muito ex√≠gua do ambiente sovi√©tico, que Togliatti mostrava observar diligentemente.

Sob este aspecto, a carta das Schucht a Stalin teve evidentemente resultado. As acusa√ß√Ķes de premeditada sabotagem do legado gramsciano, por elas dirigidas a Togliatti, parecem amplamente infundadas, at√© mesmo simplesmente √† luz do dado de que este s√≥ havia se estabelecido estavelmente na URSS cerca de tr√™s anos depois da morte de Gramsci. Deve-se perguntar, por√©m, se as irm√£s n√£o haviam agigantado uma atitude efetivamente presente em Togliatti em rela√ß√£o ao legado gramsciano: uma extrema circunspec√ß√£o pol√≠tica que podia derivar tanto das suspeitas de "trotskismo" que pesavam sobre o grupo dirigente do PCd¬íI, quanto da consci√™ncia do car√°ter heterodoxo dos Cadernos na cultura comunista da √©poca (que ele podia ter percebido tempestivamente, at√© pela leitura parcial de extratos fotocopiados) [116]. O fato √© que o primeiro sinal de significativa elabora√ß√£o da "heran√ßa liter√°ria" de Gramsci s√≥ foi fornecido por Togliatti em observ√Ęncia a uma decis√£o da secretaria da IKKI, depois da den√ļncia apresentada pelas Schucht a Stalin.

As consequ√™ncias do conflito entre a fam√≠lia Schucht e Togliatti n√£o podiam ser sanadas facilmente e estavam for√ßosamente destinadas a deixar sequelas humanas e pol√≠ticas. Infelizmente, no entanto, nossos conhecimentos sobre o impacto da carta de Eugenia e Julia a Stalin est√£o limitados aos documentos at√© aqui examinados. O que sabemos √© que a desgra√ßa de Togliatti, atestada pela "nota" de Blagoeva de setembro de 1940, continuou¬†mesmo na¬†primeira metade de 1941. Demonstra-o uma fonte importante como o Di√°rio de Dimitrov. Em 19 de julho de 1941, pouco depois do in√≠cio da guerra entre a Alemanha nazista e a Uni√£o Sovi√©tica, Dimitrov anotou no pr√≥prio Di√°rio ter acertado com Dolores Ibarruri excluir Togliatti "das quest√Ķes estritamente secretas" por causa de sua inconfiabilidade pol√≠tica, denunciada pelos comunistas espanh√≥is. Na mesma anota√ß√£o, Dimitrov escreveu que "um sinal neste sentido", vale dizer, no sentido da inconfiabilidade pol√≠tica, tamb√©m provinha da fam√≠lia de Gramsci [117]. Se Dimitrov, que conduzira at√© ent√£o, verossimilmente, discreta defesa de Togliatti, considerou oportuno registrar este apontamento em seu Di√°rio, isso significa que a quest√£o era bastante s√©ria. O secret√°rio do Komintern bem sabia que pelo menos a suspeita¬†contra Togliatti gerada pelas den√ļncias das irm√£s Schucht chegara at√© Stalin. Assim, a "quest√£o Gramsci" nos parece no centro da desgra√ßa sofrida por Togliatti entre 1939 e 1941. Mas o apontamento de Dimitrov √© o √ļltimo vest√≠gio que conhecemos. Nos anos da guerra, a "quest√£o Gramsci" submergiria e se modificaria irreversivelmente.

Conclus√Ķes

Nossas considera√ß√Ķes devem se articular em dois aspectos: quais s√£o os elementos de conhecimento que os documentos por n√≥s examinados nos trazem sobre as vicissitudes carcer√°rias de Gramsci e, em particular, suas rela√ß√Ķes com Togliatti e o partido; qual foi a din√Ęmica e o significado da "quest√£o Gramsci" post-mortem na Uni√£o Sovi√©tica. Sobre o primeiro dos dois aspectos, deve-se antes de mais nada observar que a documenta√ß√£o de 1938-1941 at√© agora surgida n√£o cont√©m elementos concretos que modifiquem sensivelmente nossos conhecimentos sobre a carta de 1928 e as tentativas de libertar Gramsci. O que cont√©m, no entanto, n√£o deve ser subestimado: ela nos permite ver muito melhor qu√£o grave era a suspeita amadurecida por Gramsci contra o partido e qu√£o desgastada, e mesmo comprometida, era a rela√ß√£o entre Gramsci e sua fam√≠lia, por uma parte, e os comunistas italianos, por outra. Isso corrobora a hip√≥tese formulada por Aldo Natoli, que intuiu dirigir-se a suspeita de Gramsci contra Togliatti [118]. J√° n√£o h√° mais sentido em falar, segundo a express√£o cunhada por Paolo Spriano, sobre uma "linha de sombra" nas rela√ß√Ķes entre Gramsci e o partido ou entre Gramsci e Togliatti. A documenta√ß√£o em nosso poder, ao contr√°rio, nos leva a afirmar que,¬†por parte de Gramsci, consumou-se uma fratura insan√°vel. Vimos que a identifica√ß√£o de Togliatti como o alvo principal da suspeita de Gramsci, da parte da fam√≠lia, se baseava em fonte indireta e controvertida, mas tamb√©m a mais respeitada, Piero Sraffa. Toda a documenta√ß√£o da "quest√£o" moscovita remete √† profundidade de uma ruptura pessoal entre os dois l√≠deres do comunismo italiano.

√Č evidente que algumas das suspeitas de Gramsci e de sua fam√≠lia n√£o se baseavam em dados verific√°veis. √Č o caso, que j√° destacamos, do nexo causal estabelecido de modo arbitr√°rio pelo pr√≥prio Gramsci e pelas Schucht entre a carta de 1928, a interrup√ß√£o das negocia√ß√Ķes para a liberta√ß√£o e a condena√ß√£o: nexo que j√° se¬†estabelece na correspond√™ncia de 1932, 1933 e 1934 [119]. N√£o temos nenhuma prova sequer sobre o fato de que tenha efetivamente acontecido uma conversa entre Litvinov e Grandi sobre Gramsci [120]. Restam, de fato, a "estranheza" da carta e as interroga√ß√Ķes que ela nos coloca. Mas h√° uma observa√ß√£o a fazer a prop√≥sito. N√£o pode ser esquecido que, de acordo com os documentos por n√≥s examinados, nenhum dos protagonistas em Moscou, a uma dist√Ęncia de dez anos ou mais, formulou a hip√≥tese de manipula√ß√£o da carta por parte da pol√≠cia fascista, que teria constitu√≠do um argumento de defesa e autoabsolvi√ß√£o bastante forte [121]. √Č evidente que sobre esta considera√ß√£o pesa uma reserva ligada √† natureza mesma da documenta√ß√£o aqui empregada: de fato, trata-se de documentos destinados a acusar ou a inquirir. J√° observamos como os argumentos referidos por Blagoeva, que Togliatti teria apresentado em sua defesa, devem ser vistos com extrema cautela. Devemos assinalar, por√©m, que n√£o consta terem Grieco ou Togliatti apresentado a d√ļvida da manipula√ß√£o contra Blagoeva.

A documenta√ß√£o por n√≥s examinada sugere, sobretudo, que o problema n√£o pode ser circunscrito √† carta de 1928. Certamente, este foi o epis√≥dio desencadeador da suspeita de Gramsci, tendo permanecido um ponto firme at√© o fim. As irm√£s Schucht consideravam sua carta a Tatiana de 5 de dezembro de 1932 como a prova decisiva da suspeita de Gramsci. Esta carta foi elemento constante na "quest√£o" de Moscou e restou entre os pap√©is de Dimitrov, provavelmente junto com a carta de Eugenia e Julia a Stalin [122]. A centralidade atribu√≠da pelas Schucht √† carta de Gramsci a Tatiana de 5 de dezembro de 1932 mostra-se coerente com sua insist√™ncia no agravamento da suspeita de Gramsci nos √ļltimos anos de vida, em particular no per√≠odo 1934-1937. Em outras palavras, a carta de 5 de dezembro de 1932 n√£o parece s√≥ um documento voltado para comprovar o ju√≠zo de Gramsci sobre a carta de Grieco de 1928, mas tamb√©m para mostrar a persist√™ncia de sua suspeita.

Tal suspeita, pelo contr√°rio, se agravou no curso do tempo. Provavelmente teve papel decisivo o isolamento pol√≠tico ao qual Gramsci, em odor de "trotskismo", foi reduzido pelo partido depois da "virada" de 1929. A partir de 1930, suas rela√ß√Ķes com o partido sofreram um eclipse e ele conheceu uma marginaliza√ß√£o at√© entre os companheiros de c√°rcere. Foi esta grav√≠ssima situa√ß√£o que alimentou seja as d√ļvidas mais fundamentadas, seja, tamb√©m, os piores fantasmas que deviam habitar a mente de Gramsci. No ver√£o de 1930, durante a visita a Turi do irm√£o Gennaro, manifestou a ideia de que "a estranha carta" de Grieco havia constitu√≠do, para ele, "o mais grave t√≥pico de acusa√ß√£o" [123].

Os documentos agora em nosso poder nos permitem sustentar que as a√ß√Ķes empreendidas pelos comunistas italianos, a partir de 1933, para fins de sua liberta√ß√£o, ou mesmo s√≥ para recuperar uma rela√ß√£o com ele depois da virada antifascista, n√£o tiveram para Gramsci nenhum significado. Ele provavelmente via a campanha para sua liberta√ß√£o, em 1933-1934, como instrumento que visava muito mais ao aspecto propagand√≠stico do que ao resultado concreto: este √ļltimo podia ser at√© comprometido por tais campanhas. A decis√£o de Gramsci de excluir os comunistas de suas tentativas de liberta√ß√£o, depois de 1933, j√° era conhecida [124]. Mas agora ela nos aparece sob luz diversa: n√£o mais a de inoportunidade, mas a de desconfian√ßa e hostilidade. Por isso, parece fundamentada a tese, formulada por Vacca, de que a suspeita de Gramsci contra¬†Togliatti tenha amadurecido nesses anos [125].

Antes de tudo, Gramsci foi "tra√≠do" por um costume e uma mentalidade que se desenvolviam na cultura pol√≠tica comunista e cujas ra√≠zes certamente n√£o lhe eram desconhecidas. Mas as Schucht n√£o puseram o problema nestes termos, porque isso teria colocado em quest√£o a pol√≠tica do Komintern e a liturgia do movimento comunista: a pr√≥pria cultura pol√≠tica das irm√£s tornava imposs√≠vel ver assim as coisas. Por isso, seu ato de acusa√ß√£o terminou por apresentar a quest√£o da "trai√ß√£o" na chave conspirat√≥ria do compl√ī: e, se bem que os elementos indici√°rios em seu poder fossem fr√°geis, n√£o era isso que contava no mundo comunista da √©poca. Sob este aspecto, a passagem da busca de justi√ßa para a vingan√ßa n√£o era longa e podia ser instrumentalizada para outros fins, de chantagem e repress√£o, na URSS do Grande Terror. Voltamo-nos, assim, ao segundo aspecto de nossas conclus√Ķes, o das din√Ęmicas e do significado da "quest√£o".

Em que medida a a√ß√£o das irm√£s Schucht, na Moscou de 1939-1940, deve ser vista √† luz de motiva√ß√£o aut√īnoma, rea√ß√£o √† dor e ao dilaceramento conhecidos na d√©cada transcorrida, levados ao √°pice pelo desfecho fatal da morte de Gramsci? N√£o √© f√°cil responder a esta pergunta. Certamente, por√©m, tal a√ß√£o tamb√©m apresentou um lado obscuro. Pode-se seriamente duvidar de que Julia, doente, e Tatina, havia muito tempo na It√°lia, estivessem plenamente conscientes das consequ√™ncias de uma den√ļncia de trai√ß√£o apresentada, na URSS da √©poca, primeiro a Ejov e depois a Stalin. √Č mais dif√≠cil pensar o mesmo de Eugenia, que, no √Ęmbito da fam√≠lia, parece ter assumido o papel de lideran√ßa depois de fevereiro-mar√ßo de 1939: foi ela, junto com Julia, quem substituiu Tatiana na comiss√£o sobre a "heran√ßa liter√°ria" de Gramsci e, sobretudo, foi ela quem participou da reuni√£o com Dimitrov, Togliatti, Bianco e Blagoeva em 21 de dezembro de 1940. Uma segunda pergunta √© representada pelos motivos por que a protagonista inicial, Tatiana, desaparece de nossa documenta√ß√£o depois de fevereiro-mar√ßo de 1939 [126]. Em todo caso, mesmo independentemente das inten√ß√Ķes das Schucht, a instru√ß√£o de Blagoeva se deu segundo as linhas do Grande Terror, no sentido de uso indiscriminado do passado para recolher os elementos necess√°rios a dossi√™s policiais.

Todas as vicissitudes por nós reconstruídas, por isso, remetem à desgraça conhecida por Togliatti após o fim da guerra da Espanha, constituindo um de seus elementos essenciais. Como sabemos, motivos de preocupação pessoal surgiram, para ele, já em 1938, em paralelo com a crise do PCd’I. Todavia, não temos elementos para fazer remontar a desgraça de Togliatti a 1938. Ele foi até nomeado responsável pelo "centro dirigente de reserva" do Komintern no exterior, criado por Dimitrov em agosto de 1938, talvez na previsão de possível deflagração da guerra na Europa por causa da crise tcheco-eslovaca [127]. O primeiro verdadeiro sinal de declínio sofrido por Togliatti no Komintern esteve representado precisamente pela "questão Gramsci-T.", em fevereiro-março de 1939. Surgida no contexto da crise do PCd’I, mas destinada a assumir dimensão específica, a "questão Gramsci" nos parece, hoje, ter revestido papel muito mais importante do que nos parecia até há pouco. Em 1940, ela chegou até Stalin, em momento que já registrava o aumento da desgraça de Togliatti.

Provavelmente, a guerra entre a Uni√£o Sovi√©tica e a Alemanha nazista √© que p√īs uma pedra sobre toda a quest√£o. Os pr√≥prios abalos da mudan√ßa de √©poca relegaram-na ao passado. A volta do antifascismo contribuiu para a retomada do papel dirigente de Togliatti no comunismo italiano e no internacional. Os resultados pol√≠ticos do conflito abriram o caminho para uma solu√ß√£o da "quest√£o Gramsci" que os protagonistas de 1938-1941 sequer podiam imaginar. Todas as vicissitudes pr√©-b√©licas que se resumem naquela f√≥rmula permanecem, tanto em suas caracter√≠sticas humanas dilacedoras e penosas, quanto em suas caracter√≠sticas pol√≠ticas amb√≠guas e dram√°ticas, como uma hist√≥ria paradigm√°tica do comunismo da √©poca staliniana.

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Silvio Pons, professor da Universidade Tor Vergara, em Roma, e vice-diretor da Fondazione Istituto Gramsci, é autor, entre outros, de A revolução global. História do comunismo internacional, 1917-1991 (Contraponto & Fundação Astrojildo Pereira, 2014). 

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Notas

[1] G. Vacca. Togliatti sconosciuto. Roma: l’Unità, 1994, p. 55. Cf., além disso, G. Vacca. Appuntamenti con Gramsci. Roma: Carocci, 1999, p. 103.

[2] Cf. A. Gramsci-T. Schucht. Lettere 1926-1935. Org. A. Natoli e C. Daniele. Turim: Einaudi, 1997, p. 1137. Para uma reconstrução do debate histórico em torno da carta de Grieco de 1928, remetemos a Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit. Adotamos no presente ensaio a transliteração de uso dominante (Schucht) em lugar da que seria correto usar (Sucht).

[3] Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 97-101.

[4] Rossijskij Gosudarstvennyj Archiv Socialno-Politiceskoj Istorii (RGASPI), fond 495, opis 74, delo 250, listy 96, 96ob.

[5] Cf. Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 101-2.

[6] RGASPI, f. 495, op. 137, d. 8, ll. 14-5.

[7] Provavelmente, referência à visita do irmão de Gramsci, Gennaro, ao cárcere de Turi, ocorrida na realidade em julho de 1930: RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1826.

[8] Evidentemente, referência à visita de Sraffa a Gramsci ocorrida em Formia, na realidade, em 2 de janeiro de 1935. As datas constam das agendas de Sraffa conservadas em Piero Sraffa papers, Diaries, Cambridge, Trinity College, Wren Library. Agradeço a Chiara Daniele e Giuseppe Vacca por me terem gentilmente fornecido esta informação.

[9] RGASPI, f. 495, op. 137, d. 8, ll. 14ob.-15. O destaque est√° no original.

[10] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 16.

[11] P. Spriano. Storia del Partito comunista italiano. III. I fronti popolari, Stalin, la guerra. Turim: Einaudi, 1970, p. 156.

[12] RGASPI, f. 495, op. 137, d. 8, l. 14.

[13] Cf. G. Gramsci. "Ricordo di Tatiana". Prefácio de T. Schucht. Lettere ai familiari. Introdução e organização de M. Paulesu Quercioli. Roma: Riuniti, p. XIX. O testemunho de Giuliano Gramsci é aceito com reservas por Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 123.

[14] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 21.

[15] Cf. W. J. Chase. Enemies Within the Gates? The Comintern and the Stalinist Repression, 1934-1939. New Haven e Londres: Yale University Press, 2001.

[16] RGASPI, f. 495, op. 74, d. 250.

[17] Estes materiais est√£o conservados em RGASPI, f. 495, op. 74, d. 250.

[18] Cf. E. Dundovich. Tra esilio e castigo. Il Komintern, il Pci e la repressione degli antifascisti italiani in URSS (1936-38) . Roma: Carocci, 1998, p. 84.

[19] Sobre a Se√ß√£o de Quadros da IKKI nos anos trinta, veja-se P. Hubner. "The Cadre Department, the OMS and the ¬ĎDimitrov¬í and ¬ĎManuil¬ísky¬í Secretariats during the Phase of the Terror". In: M. Narinsky e J. Rojahn (eds.). Centre and Periphery. The History of the Comintern in the Light of New Documents. Amsterd√£: International Institute of Social History, 1996, p. 122-45.

[20] RGASPI, f. 495, op. 10a, d. 182.

[21] Cf. Komintern protiv fasizma. Dokumenty. Moscou: Nauka, 1999, doc. 120, p. 461-3.

[22] Cf. E. Dundovich, F. Gori, E. Guercetti (eds.). "Italian Emigration in the USSR: History of a Repression". In: Id. Reflections on the Gulag. With a Documentary Appendix on the Italian Victims of Repression in the USSR. Mil√£o: Fondazione Feltrinelli, Annali, XXXVII (2001), 2003.

[23] A melhor reconstrução é a de Dundovich, Tra esilio e castigo, cit.

[24] Cf. C. Daniele (Org.). Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca. Il carteggio del 1926, com ensaio de G. Vacca. Turim: Einaudi, 1999, doc. 42. Os principais dirigentes do partido sovi√©tico e alguns dirigentes do Komintern ent√£o tiveram conhecimento da carta. Apesar de exprimir desacordo com o conte√ļdo da carta, Togliatti dela deu not√≠cia a Bukharin, Manuilski e Kuusinen: cf. ib., doc. 44. Como observou Vacca, com base em testemunho prestado por Togliatti muitos anos depois, √© prov√°vel que, por meio de Bukharin, Stalin tamb√©m tenha tido conhecimento: cf. ib., p. 6. Agora sabemos que Stalin foi informado da exist√™ncia da carta tamb√©m por outra fonte, o embaixador sovi√©tico em Roma, por solicita√ß√£o de Gramsci. Isso se deduz da seguinte carta, enviada por P.M. Kerzentchev em 6 de outubro de 1926: "Caro companheiro, o c. Gramsci, membro do CC e do bir√ī pol√≠tico do partido italiano, me comunicou hoje que o CC enviar√° a nossa confer√™ncia de partido uma carta que cont√©m a indica√ß√£o de todo o dano causado pela oposi√ß√£o ao trabalho comunista no exterior. Ele pediu minha opini√£o (na forma de uma conversa privada, amig√°vel). Como membro do VKP(b), disse a ele que o envio de tal carta traria apoio a nosso partido, uma vez que, efetivamente, a oposi√ß√£o destr√≥i a causa do comunismo n√£o s√≥ entre n√≥s, mas por toda parte. Gramsci disse que a carta ser√° enviada nos pr√≥ximos dias. Comunico-lhe para seu conhecimento. Sauda√ß√Ķes comunistas, Kerzentchev". A carta est√° conservada entre os pap√©is pessoais de Stalin: RGASPI, f. 558, op. 11, d. 753, ll. 104 recto e verso.

[25] P. Spriano. Gramsci in carcere e il partito. Roma: Riuniti, 1977.

[26] RGASPI, f. 495, op. 10a, d. 182.

[27] No Di√°rio de Dimitrov, a presen√ßa de Togliatti em Moscou, entre meados de agosto e o in√≠cio de setembro de 1938, s√≥ √© citada a prop√≥sito de seus encontros com o pr√≥prio Dimitrov e outros dirigentes do Komintern para discutir as quest√Ķes da guerra da Espanha. Cf. G. Dimitrov. Diario. Gli anni di Mosca. Org. Silvio Pons. Turim: Einaudi, 2002, p. 90-5.

[28] RGASPI, f. 495, op. 74, d. 250, ll. 130-40.

[29] Ib., l. 135.

[30] Ib., l. 96.

[31] Ib., ll. 109-10.

[32] Ib., l. 133.

[33] Fondazione Istituto Gramsci, APC, f. 513, fasc. 1494, Ata da Secretaria, 16 set. 1938.

[34] P. Spriano. Gramsci in carcere e il partito, cit., p. 120.

[35] APC, f. 513, fasc. 1494, Ata da Secretaria, 16 set. 1938.

[36] Originalmente conservado entre os papéis da secretaria de Georgi Dimitrov, o documento foi recentemente recolocado pelos arquivistas no fundo pessoal de Antonio Gramsci: RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 13. Na colocação original, o documento (assim como outros documentos que serão citados em seguida) fazia parte de uma pasta que continha materiais relativos à atividade do PCd’I nos anos 1940 e 1941: RGASPI, f. 495, op. 74, d. 253.

[37] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 13.

[38] "Obosnovanie dela T.", RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 14-15. Veja-se a nota 36.

[39] Sobre a campanha para a libertação de Gramsci em 1933, veja-se C. Natoli, "Gramsci in carcere: le campagne per la liberazione, il partito, l’Internazionale (1932-1933)". Studi storici, 1995 (36), n. 2, p. 295-352.

[40] "Obosnovanie dela T.", RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 14.

[41] Ib., l. 15.

[42] Cf. Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca, cit., doc. 1.

[43] Cf. P. Spriano. Storia del Partito comunista italiano. II. Gli anni della clandestinità. Turim: Einaudi, 1969, p. 210 s.

[44] "Obosnovanie dela T.", RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 15. Sobre a figura de Fanny Jezierska, veja-se Spriano, Gramsci in carcere e il partito, cit., p. 31-2, e Vacca, Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca, cit., p. 155. Nikolai Kretinski, vice-comiss√°rio de Rela√ß√Ķes Exteriores de 1934 a 1936, foi detido em 1937 e condenado √† morte no processo de Moscou de mar√ßo de 1938. Iosif Piatnitski, at√© 1935 um dos principais dirigentes do Komintern, foi expurgado em 1937. A.L. Abramov, um dos principais colaboradores de Piatnitski como respons√°vel pela Se√ß√£o para as Rela√ß√Ķes Internacionais (OMS) da IKKI, foi expurgado em 1936.

[45] Dimitrov, Diario, cit., p. 176.

[46] Ib., p. 174.

[47] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 13. O destaque est√° no original.

[48] Ib., l. 29.

[49] RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1, ll. 258-61.

[50] Cf. O. Khlevnjuk. Politbjuro. Mechanizmy politiceskoj vlasti v 1930-e gody. Moscou: Rosspen, 1996, p. 215.

[51] O retorno de Tatiana Schucht a Moscou aconteceu entre 25 de novembro de 1938 (Cf. Vacca, Stalin sconosciuto, cit. P. 140) e 21 de dezembro de 1938, quando Manuilski comunicou a Dimitrov que, já se encontrando em Moscou "a irmã da mulher de Gramsci", não havia mais a necessidade de repassar-lhe dinheiro (RGASPI, f. 495, op. 74, d. 250, l. 155). A data de retorno de Tatiana a Moscou é indicada em dezembro de 1938 numa breve notícia biográfica sobre ela escrita por Blagoeva em outubro de 1940: RGASPI, f. 495, op. 65a, d. 13883.

[52] Cf. Chlevnjuk, Politbjuro, cit., p. 214.

[53] C. Daniele e G. Vacca. Le donne di Gramsci. Turim: Einaudi.

[54] Cf. K. McDermott e J. Agnew. The Comintern. A History of International Communism from Lenin to Stalin. Londres: Macmillan, 1996, p. 150.

[55] "Material po delu Gramsci-T.", RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 16-22. Veja-se a nota 36.

[56] RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1, l. 260.

[57] Cf. G. Fiori. Gramsci Togliatti Stalin. Roma-Bari: Laterza, 1991, p. 10 s. Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 73. Veja-se também Daniele e Vacca, Le donne di Gramsci, cit.

[58] "Material po delu Gramsci-T.", RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 16.

[59] Ib., l. 17.

[60] N√£o est√° claro se se referia a cartas de Gramsci, de Tatiana ou de Julia.

[61] "Material po delu Gramsci-T.", RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 18.

[62] Ib., ll. 17-18. O episódio do discurso de Germanetto no Congresso dos Escritores em Moscou, em 1934, imediatamente registrado nos ambientes diplomáticos italianos como confirmação do papel de líder de Gramsci, corrobora suas suspeitas sobre a conduta irresponsável dos comunistas italianos. Cf. L’ultima ricerca di Paolo Spriano, p. 29-30.

[63] "Material po delu Gramsci-T.", RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 19.

[64] Ib.

[65] Ib.

[66] Ib., l. 21. B. E. Stein foi embaixador da URSS na It√°lia de novembro de 1934 a setembro de 1939.

[67] Ib., ll. 18-9.

[68] Ib., l. 20.

[69] Ib., l. 21.

[70] Ib., l. 22.

[71] Ib., l. 20.

[72] Sobre o papel de Sraffa nas rela√ß√Ķes entre Gramsci, Togliatti e o partido, veja-se agora Daniele e Vacca, Le donne di Gramsci, cit.

[73] Sraffa esteve na Itália antes da morte de Gramsci, de 17 de março a 18 de abril de 1937, e depois, novamente, de 25 de junho a 11 de julho de 1937. As datas constam das agendas de Sraffa conservadas em Piero Sraffa papers, Diaries, Cambridge, Trinity College, Wren Library. Agradeço a Chiara Daniele e Giuseppe Vacca por me terem gentilmente fornecido esta informação.

[74] A. Gramsci-T. Schucht, Lettere, cit., Apêndice I, p. 1468.

[75] Ib., p. 1469.

[76] Ib., p. 1471-2.

[77] Cf. Daniele e Vacca, Le donne di Gramsci, cit.

[78] RGASPI, f. 495, op. 137, d. 8, l. 15.

[79] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 13.

[80] RGASPI, f. 495, op. 12, d. 152. Cf. Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 122.

[81] Cf. L¬íultima ricerca di Paolo Spriano. Roma: l¬íUnit√†, 1988, p. 32-3. Em 1937, F.S. Veinberg era respons√°vel pelo terceiro departamento ocidental do Comissariado de Rela√ß√Ķes Exteriores da URSS; no in√≠cio dos anos trinta, fora funcion√°rio da embaixada sovi√©tica em Roma. V.P. Potemkin foi embaixador da URSS na It√°lia de 1932 a novembro de 1934.

[82] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 1.

[83] Ib., ll. 2-6.

[84] "Material po delu Gramsci-T.", ib., l. 21.

[85] Ib., ll. 23-5.

[86] Ib., l. 22.

[87] Ib.

[88] Cf. Spriano, Storia del Partito comunista italiano, III, cit., p. 261.

[89] Dimitrov, Diario, cit., p. 170-1.

[90] RGASPI, f. 495, op. 10a, d. 409a, ll. 49-50.

[91] No Diario de Dimitrov, o nome de Togliatti s√≥ aparece em maio-junho de 1939 relacionado √†s quest√Ķes pol√≠ticas espanholas: cf. Dimitrov, Diario, cit., p. 174 s. Seja como for, deve-se observar que, tamb√©m a este prop√≥sito, a situa√ß√£o de Togliatti n√£o era nada brilhante: depois da queda de Madri, em conversa com Dimitrov, Manuilski e Diaz, em 7 de abril de 1939, Stalin pessoalmente formulou graves reservas sobre a condu√ß√£o da √ļltima fase da guerra civil: cf. ib., p. 166-7.

[92] Veja-se Reflections on the Gulag, cit., Apêndice, p. 528-52.

[93] Cf. A. Agosti. Togliatti. Turim: UTET, 1995, p. 109-10.

[94] RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1, l. 260.

[95] Ib., l. 261.

[96] Ib.

[97] Agosti, Togliatti, cit., p. 256-57.

[98] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 28-31. Veja-se a nota 36. Em rela√ß√£o √† coloca√ß√£o original do documento (os pap√©is da secretaria de Dimitrov), deve-se observar, como √© poss√≠vel reconstruir a partir da sucess√£o num√©rica do protocolo de entrada, que, enquanto os documentos da "quest√£o" relativos a 1939 (segundo a nova coloca√ß√£o, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 13-25) se encontravam no in√≠cio da pasta (f. 495, op. 74, d. 253), a carta de Eugenia e Julia Schucht a Stalin se encontrava quase no final e era o √ļltimo dos documentos relativos ao ano de 1940.

[99] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 28-9.

[100] Ib., l. 29.

[101] Ib., ll. 29-30.

[102] Ib., l. 29.

[103] Ib., l. 30. Os destaques est√£o no original.

[104] Ib., l. 27. A cópia da carta enviada a Dimitrov é o exemplar de que dispomos.

[105] Ib. O destaque est√° no original.

[106] Ib., l. 30.

[107] Ib.

[108] Ib., ll. 7-8.

[109] Ib., l. 28.

[110] Ib., l. 26.

[111] A julgar pelo registro das audiências no gabinete de Stalin, não consta que ele tenha alguma vez recebido as irmãs Schucht. Cf. Istoriceskij Archiv, 1998, n. 4.

[112] RGASPI, f. 495, op. 73, d. 104, l. 13g. Aleksandr P. Sergeev (Kolev) desempenhou a função de secretário político de Dimitrov de 1935 até 1941.

[113] Ib., l. 13v.

[114] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 9-10.

[115] Cf. Vacca, Togliatti sconosciuto, cit., p. 143-5.

[116] Togliatti teria podido ler extratos fotocopiados dos escritos carcer√°rios de Gramsci desde os √ļltimos meses de sua estada na Espanha. Cf. Spriano, Storia del Partito comunista italiano, III, cit., p. 156.

[117] Dimitrov, Diario, cit., p. 333.

[118] A. Natoli. "Antigone e il prigioniero". Introdução a A. Gramsci-T. Schucht, Lettere, cit., p. XXXIV.

[119] Cf. Daniele e Vacca, Le donne di Gramsci, cit.

[120] Cf. Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 75.

[121] A tese é de L. Canfora, Togliatti e i dilemmi della politica. Roma-Bari: Laterza, 1989.

[122] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 32-6. Veja-se a nota 36.

[123] RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1826.

[124] Cf. Spriano, Gramsci in carcere e il partito, cit., p. 65.

[125] Cf. G. Vacca. "Elementi per una biografia". Comunica√ß√£o apresentada √† jornada de estudos por ocasi√£o da publica√ß√£o do verbete Gramsci no 58¬į. volume do Dizionario Biografico degli italiani, Roma, 21 nov. 2002.

[126] A este respeito, o √ļnico ind√≠cio em nosso poder √© o que Tatiana afirmou em autobiografia escrita de pr√≥prio punho e datada de 2 de outubro de 1940, vale dizer, que depois da volta a Moscou uma doen√ßa a impedira de trabalhar: RGASPI, f. 495, op. 65a, d. 13883.

[127] Dimitrov, Diario, cit., p. 94.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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