Busca:     


ZeroZeroZero, segundo Roberto Saviano

Luiz Eduardo Soares - Março 2015
 

Cada um de n√≥s tem suas admira√ß√Ķes particulares. Roberto Saviano √© um dos meus her√≥is, desde que li Gomorra e soube de sua saga pessoal. Agora, em ZeroZeroZero (Cia. das Letras, 2014), seu livro mais recente, ele foi ainda mais longe. Saviano atua em um g√™nero que pin√ßa o nervo de nosso tempo: convencionou-se denomin√°-lo jornalismo liter√°rio. Para os c√©ticos, esse t√≠tulo significa nem literatura nem jornalismo. Uma esp√©cie de dupla trai√ß√£o: √† autonomia est√©tica do discurso liter√°rio e √† objetividade neutra do jornalismo, supostamente desapaixonado, livre da for√ßa po√©tica das palavras e refrat√°rio √† imagina√ß√£o. Prefiro virar esses argumentos pelo avesso: sem o encantamento da linguagem, que requer ourivesaria est√©tica, os relatos, por mais comprometidos que fossem com a descri√ß√£o fiel da experi√™ncia, perderiam a voz, consumidos numa aridez opaca. Sem o toque da imagina√ß√£o, o que seria das narrativas? Sem fantasia, o que seria do realismo? Sem a arquitetura formal que d√° √† literatura a dignidade da arte, o que seria da verossimilhan√ßa documental? Sem afeto, sedu√ß√£o, empatia e compaix√£o, como celebrar o pacto da objetividade com o leitor? E sem o cascalho do cotidiano, e seus odores, o que seria da fic√ß√£o? Al√©m disso, Saviano √© um desses exemplos raros e comoventes de bravura c√≠vica que o cinismo militante da opini√£o p√ļblica costuma recusar-se a reconhecer, depois de uma salva de palmas protocolar n¬íalguma premia√ß√£o para apaziguar nossa consci√™ncia. Afinal, reconhecer suas op√ß√Ķes, sua trajet√≥ria e os riscos que algu√©m assim aceita correr em nome do que um dia chamamos "bem comum" nos envolveria a todos, nos mobilizaria, nos obrigaria moralmente a dar-lhe as m√£os, cham√°-lo irm√£o, abrir-lhe nossas casas, engajando-nos na mesma cruzada cidad√£. Melhor tocar a vida. J√° s√£o muitos os nossos problemas privados. Vamos ent√£o √† obra.

ZeroZeroZero, de Roberto Saviano, √© um grande livro cuja leitura ser√° indispens√°vel para quem tiver coragem de olhar nos olhos a barb√°rie contempor√Ęnea e de repensar o que supomos saber sobre nosso tempo - e talvez sobre n√≥s mesmos. Parece exagero? Explico meu entusiasmo. Os grandes livros, em minha opini√£o, s√£o os que nos transformam, incidindo sobre a vis√£o de mundo e os sentimentos dos leitores. Iria mais longe: s√£o aqueles que tamb√©m transformaram seus autores.

Impacto dessa magnitude existe quando se l√™ Gomorra, a obra sobre m√°fias italianas que tornou seu autor mundialmente conhecido e respeitado - menos pelos criminosos, que reagiram fazendo de sua vida um inferno, obrigando-o a exilar-se e a cercar-se de escolta, dia e noite. Esse mesmo efeito transformador, em voltagem ainda mais intensa, √© provocado por seu livro mais recente, que a Companhia das Letras acaba de lan√ßar no Brasil, em excelente tradu√ß√£o (de Frederico Carotti, Joana Ang√©lica d¬íAvila Melo, Marcello Lino e Maur√≠cio Santana Dias). Entre os dois, Roberto Saviano explorou o universo liter√°rio, dialogando de outra forma com seus fantasmas. Em Zerozerozero, apelido da coca√≠na pura, Saviano deixa a fic√ß√£o de lado, mergulha no osso do real, e retoma o fio da meada maldita, seguindo o rastro de sangue e p√≥lvora mundo afora, identificando os vest√≠gios da crueldade mais assombrosa e desnudando o processo econ√īmico e pol√≠tico que fez da coca√≠na o segundo neg√≥cio mais lucrativo do planeta, abaixo apenas do petr√≥leo.

"Ah! Eu sei, eu sei, mais um livro sobre drogas e viol√™ncia, dinheiro sujo, corrup√ß√£o, essas coisas...", talvez voc√™ resmungue, atribuindo √† obra de Saviano a redund√Ęncia que h√° tempos o afastaram das tediosas p√°ginas policiais dos jornais, que lhe servem a ra√ß√£o di√°ria de mis√©ria humana. Mas antes que voc√™ desista desta resenha e do livro, pergunto-lhe o seguinte: voc√™ estaria disposto a suspender sua cren√ßa de que as pr√°ticas comerciais ilegais de subst√Ęncias il√≠citas constituem apenas o lado B da economia global, uma esp√©cie de margem ou sombra da qual n√£o h√° como livrar-se inteiramente, mas que n√£o participa das decis√Ķes que defninem nosso destino coletivo? E se eu lhe disser que n√£o √© assim que as coisas funcionam, que o lado B j√° se fundiu ao lado A, e que o poder que a margem mobiliza anula essa topografia antiquada e ing√™nua? E se eu lhe afirmar que suas no√ß√Ķes de Estado, soberania, justi√ßa, legitimidade democr√°tica, monop√≥lio do uso da for√ßa, institui√ß√Ķes da ordem e valores republicanos talvez precisem de um banho de realidade, um mergulho no √°cido da evid√™ncia que as deformar√°?

Pronto, agora que conquistei sua aten√ß√£o e suspendi sua expectativa a respeito do que provavelmente seria um livro sobre coca√≠na e suas tramas transnacionais, compartilho com voc√™ alguns dados que abalam qualquer pessoa sensata e inteligente. Em 2009, como sabemos, o mundo entrou em colapso. As d√≠vidas eram negociadas em fluxo cont√≠nuo e a moeda eram outras d√≠vidas, numa cadeia infinita, cuja confiabilidade residia no suposto poder inabal√°vel das institui√ß√Ķes financeiras. Pois a hora da verdade chegou: n√£o havia terra firme sob as vaporosas expectativas de pagamento. A bolha revelou-se o que era, e desmanchou no ar. Ou o governo americano (e logo os demais) emitia moeda e tra√≠a o dogma do livre mercado, ou outras torres tombariam: os bancos quebrariam, drenando para o ralo a economia global. O buraco inicial representava algo em torno de U$ 1 trilh√£o. Naquele momento, s√≥ um setor da economia continuava a girar sem problema de liquidez: o tr√°fico de coca√≠na, que lavou de imediato 352 bilh√Ķes de d√≥lares, injetando-os nas institui√ß√Ķes financeiras desidratadas. Cerca de um ter√ßo da liquidez mundial era dinheiro sujo de sangue. A crise demonstrou a pujan√ßa da coca√≠na e a vulnerabilidade do capitalismo financeiro desregulado.

S√£o produzidas, anualmente, entre 788 e 1060 toneladas de coca√≠na, segundo dados do World Drug Report, de 2012. A maior fonte de exporta√ß√£o continua sendo a Col√īmbia, respons√°vel por cerca de 60% da coca que circula no mundo, a despeito do desmantelamento dos cart√©is de Medellin e Cali, e tamb√©m das FARC, que se tornaram agentes do narcotr√°fico. A pol√≠tica de erradica√ß√£o das planta√ß√Ķes aplicada por sucessivos governos colombianos, em alian√ßa com os EUA, solapou as bases tradicionais da economia camponesa e devastou o meio ambiente, o que promoveu a dispers√£o de comunidades rurais e o fracionamento da produ√ß√£o, tornando os pequenos produtores mais vulner√°veis aos bar√Ķes da droga, os quais intensificaram a explora√ß√£o, investiram nas intermediac√Ķes e elevaram a margem de lucro. O resultado tem sido o √™xito de centenas de microcart√©is e o fortalecimento de um deles, o Norte del Vale. A crise colombiana n√£o eliminou a produ√ß√£o, mas deslocou as disputas por media√ß√Ķes comerciais para o M√©xico, onde mais de 70 mil pessoas j√° foram assassinadas na guerra interna ao narcotr√°fico. Aproximadamente 20 milh√Ķes de cidad√£os cruzam todo ano os tr√™s mil quil√īmetros de fronteiras que separam o pa√≠s dos Estados Unidos, principal consumidor. Imposs√≠vel conter os fluxos que se adaptam a todas as circunst√Ęncias e driblam as tentativas de controle. A situa√ß√£o do M√©xico √© particularmente dram√°tica, porque a prolifera√ß√£o de grupos criminosos ampliou e agravou a disputa por dom√≠nio territorial, que corresponde ao poder sobre canais de exporta√ß√£o para o formid√°vel mercado norteamericano. A partir de determinado ponto, o dinheiro n√£o √© mais contado, mas pesado, e se desloca com tanta rapidez e facilidade que as narcom√°fias mexicanas n√£o t√™m tido dificuldade em recrutar mercen√°rios e cooptar militares, policiais e pol√≠ticos, ou em armar-se com tecnologia sofisticada e equipamentos de √ļltima gera√ß√£o. Essa, ali√°s, √© a marca que se generaliza no universo da coca√≠na: grana e armas, poder para corromper, chantagear e matar. Em meados dos anos 1980, Pablo Escobar, l√≠der do cartel de Medellin, lucrava meio milh√£o de d√≥lares por dia. O capo foi morto, seu cartel liquidado, mas os neg√≥cios s√≥ prosperaram, em escala global, envolvendo empreendedores das mais distintas nacionalidades e organiza√ß√Ķes criminosas de todos os continentes.

Entre 2005 e 2007, a Marinha colombiana apreendeu 18 submarinos, identificou 30 e estimou que outros 100 estivessem em opera√ß√£o, transportando a droga pela costa do Pac√≠fico at√© a Calif√≥rnia. O narcotr√°fico transnacional j√° acumulou capacidade t√©cnica, acesso a componentes e capital suficientes para produzir seus pr√≥prios submarinos, muitos dos quais em fibra de vidro. Seu arsenal inclui helic√≥pteros M18, do ex√©rcito sovi√©tico, aeronaves mais novas, avi√Ķes de todas as dimens√Ķes, inclusive boeings, e embarca√ß√Ķes dos mais variados tipos.

Falamos em armas e guerras com a superficialidade dos que n√£o as vivenciam, diretamente, ainda que no Rio de Janeiro esta seja uma experi√™ncia di√°ria para muita gente. A narrativa forte de Saviano n√£o admite a indiferen√ßa e o tom blas√©. O autor nos leva pela m√£o aos mais variados cen√°rios da tortura perpetrada por narcotraficantes em todo o mundo, ao longo do livro. Faz quest√£o de nos conduzir aos escombros da modernidade, o outro lado da moeda, a face perversa da economia civilizadora: a crueldade extrema. O leitor talvez tente virar os olhos, como eu fiz tantas vezes, mas h√° ali, em cada cap√≠tulo, uma esp√©cie de imperativo √©tico que nos impele a n√£o abandonar a v√≠tima, a acompanhar o relato com os olhos bem abertos. As cenas se prolongam al√©m da leitura, eu lhe asseguro. A crueldade n√£o √© regida pelo c√°lculo utilit√°rio ou pelas paix√Ķes ordin√°rias. H√° algo mais, ou menos, um excesso, ou uma falta. N√£o se trata de atavismo animal ou apego √† natureza selvagem. Os animais matam para sobreviver. O universo selvagem busca a vida, e por isso elimina o concorrente que amea√ßa. N√£o se compraz com a dor alheia. A crueldade √© c√≥digo exclusivamente humano. Saviano nesse ponto nos d√° uma li√ß√£o preciosa: n√£o procurem na natureza humana essa brutalidade assombrosa. Ela se ensina e se aprende. Por isso, o crime organizado em todo o mundo, das m√°fias ao terrorismo, quando adota a viol√™ncia como linguagem, inventa assinaturas em seus assassinatos, disputa com grupos rivais a intensidade dos tormentos a que submete suas v√≠timas e se mede pela habilidade em transformar seu poder em dor, medo e humilha√ß√£o. Na verdade, os grupos imitam-se uns aos outros para diferenciar-se e qu√£o mais se esfor√ßam por distinguir-se e afirmar suas marcas singulares, mais se constituem em espelhos de seus inimigos. Esta a l√≥gica mim√©tica e paradoxal que rege a cultura da viol√™ncia. A intensifica√ß√£o da brutalidade √© o reconhecimento pr√°tico da pr√≥pria impot√™ncia: gira-se em falso e a energia deposita-se no mesmo, por isso s√≥ resta elevar a voltagem at√© o limite da pr√≥pria for√ßa, atestando sua subordina√ß√£o √† √≥rbita do outro - do qual procurava afastar-se e distinguir-se para o suplantar.

E o Brasil com isso? Nosso pa√≠s √© o segundo maior consumidor mundial, atr√°s apenas dos Estados Unidos. Passam por aqui, anualmente, entre 80 e 110 toneladas de p√≥. Metade cheira-se aqui mesmo - estima-se em 2,8 milh√Ķes o n√ļmero de consumidores brasileiros. O resto segue para a Europa e outros destinos. O aumento do consumo de coca√≠na verificado na sociedade brasileira tem as mesmas causas do crescimento das vendas de autom√≥veis, cosm√©ticos, pacotes tur√≠sticos, cerveja, carne, smartphones e viagra: a eleva√ß√£o da renda m√©dia. O mercado europeu tamb√©m tem crescido bastante, ainda que por l√°, de um modo geral, a situa√ß√£o econ√īmica n√£o favore√ßa a eleva√ß√£o do consumo. Este o paradoxal milagre dessa mercadoria √ļnica: ela d√° lucro quando tudo vai bem, porque, afinal, tudo vai bem, e h√° mais dinheiro para saciar os desejos individuais. E ela vai bem quando tudo vai mal, porque ningu√©m √© de ferro e √© preciso turbinar o √Ęnimo para compensar o baixo astral ambiente e enfrentar mais horas de trabalho ou mais tempo ocioso - e angustiante, deprimente. Observe que n√£o se paga um papelote de coca√≠na a prazo, com cheque ou cart√£o de cr√©dito. Essa economia gira velozmente porque seu combust√≠vel √© a liquidez imediata e sempre dispon√≠vel. Se a demanda aumenta, nenhum problema: a oferta √© el√°stica. Um quilo pode facilmente converter-se em dois ou tr√™s ou quatro. A m√°gica est√° na mistura. Cheira-se pouqu√≠ssima coca√≠na no p√≥ que se inala em Londres, Nova York, Paris, Moscou, Roma, Rio ou S√£o Paulo. Salvo nos sal√Ķes abastados, que recebem o petr√≥leo branco em condi√ß√Ķes especiais, e pagam por isso. A pureza m√©dia da coca√≠na na Europa varia entre 25% e 43%. Em minha pesquisa pessoal, da qual resultou o livro, Tudo ou nada: a hist√≥ria do brasileiro preso em Londres por associa√ß√£o ao tr√°fico de duas toneladas de coca√≠na (Nova Fronteira, 2012), constatei que a coca sai da Amaz√īnia colombiana com 85% de pureza (n√£o pode ser 100% porque √© necess√°ria a adi√ß√£o de produtos qu√≠micos para proteger a coca da umidade e dos efeitos de algumas condi√ß√Ķes extremas) e √© vendida no varejo, na Inglaterra, com apenas 15% de pureza. Ou seja, o ganho √© de 600%, considerando-se o pre√ßo da mercadoria no atacado, adquirida na matriz. Claro que h√° os custos do transporte, da corrup√ß√£o de agentes, a taxa m√©dia de perda, etc. Ainda assim, a margem de lucro √© consider√°vel. Registre-se que a sa√ļde dos consumidores abusivos √© afetada muito mais pelos componentes misturados √† coca do que pela pr√≥pria subst√Ęncia que d√° nome √† mercadoria.

Em todo lugar, o consumo de coca√≠na democratizou-se. Enquanto as Am√©ricas ficam com 450 toneladas a cada ano, a Europa consome 300 toneladas, anualmente. 13 milh√Ķes de europeus j√° usaram a droga, 7,5 milh√Ķes entre 15 e 34 anos. No Reino Unido, o n√ļmero de usu√°rios quadruplicou, na √ļltima d√©cada. Na Fran√ßa, dobrou, entre 2002 e 2006. Estima-se que entre 20% e 30% da produ√ß√£o de coca√≠na pura destinam-se ao mercado europeu.

As multinacionais da coca√≠na ramificaram-se por todas as regi√Ķes, aproveitando cada oportunidade para explorar a demanda potencial e imiscuir-se nas redes pol√≠ticas, sociais e econ√īmicas institucionalizadas. A promiscuidade com o mundo legal √© seu m√©todo de autoprote√ß√£o, torna-se t√°tica de reprodu√ß√£o e fortalecimento, at√© converter-se em sua pr√≥pria natureza, porque, a partir de determinado ponto, n√£o √© mais poss√≠vel distinguir os elos legais dos ilegais, as din√Ęmicas l√≠citas das criminosas. Os narcoempres√°rios cercam-se de PhDs, gestores tarimbados que trabalham com metas e esquemas meritocr√°ticos, operadores financeiros de primeira qualidade, s√≥cios bem situados na arena transnacional, conselheiros econ√īmicos e pol√≠ticos refinados, com tr√Ęnsito irrestrito no universo empresarial, jur√≠dico-pol√≠tico e na grande m√≠dia. O capital errante lava-se na aquisi√ß√£o de hot√©is, restaurantes, redes de supermercados e shopping centers, revendedoras de autom√≥veis, institui√ß√Ķes financeiras e ind√ļstrias, ou associando-se a empreiteiras e megaempreendimentos, inclusive nas √°reas de energia, em especial petr√≥leo e g√°s. No passado, o p√≥ corria atr√°s do dinheiro, dos circuitos do capital para parasit√°-lo e fertilizar a fortuna dos cart√©is, ainda insulados e territorialmente circunscritos, falando sobretudo espanhol. Hoje, s√£o os mercados que buscam atrair a fortuna dos cart√©is e acercar-se dos narconeg√≥cios, falando todas as l√≠nguas da babel capitalista. Agora, √© o dinheiro que gravita em torno do p√≥. D√©cadas atr√°s, o narcotr√°fico precisava de para√≠sos fiscais para lavar seus lucros milion√°rios. Hoje, Nova York e Londres, Wall Street e a City s√£o as grandes lavanderias globais, e os lucros s√£o bilion√°rios. O sistema banc√°rio na matriz do capitalismo j√° deu mostras de que n√£o tem grande interesse em investigar a origem de dep√≥sitos, transfer√™ncias, trocas de pap√©is e t√≠tulos, d√≠vidas e cr√©ditos em fluxos financeiros das mais diversas modalidades. Mesmo quando essa identifica√ß√£o, digamos, arqueol√≥gica √© vi√°vel, hip√≥tese cada vez menos prov√°vel. A an√°lise de Saviano √© penetrante e conclusiva. N√£o autoriza ilus√Ķes.

O exemplo russo talvez seja o mais eloquente e dram√°tico. Enquanto a Uni√£o Sovi√©tica agonizava, m√°fias preparavam-se para o dia seguinte. Grupos criminosos durante muito tempo abasteceram a dispensa dos membros da Nomenklatura com o contrabando de todo tipo de produto e saciaram o apetite generalizado na popula√ß√£o por mercadorias ocidentais inacess√≠veis. Essa pr√°tica duradoura lhes permitiu acumular contatos estrat√©gicos na alta hierarquia do partido comunista e informa√ß√Ķes confidenciais comprometedoras sobre funcion√°rios poderosos. Contatos e informa√ß√Ķes, naqueles tempos sombrios, valiam mais que rublos decadentes. Quando o muro finalmente ruiu e a Uni√£o Sovi√©tica desmembrou-se, os empreendedores mafiosos estavam prontos para agir. A riqueza estatal foi rapidamente apropriada por lobos vorazes que monopolizavam o conhecimento relativo a processos decis√≥rios, modos de opera√ß√£o, quais atores estariam dispostos a assumir iniciativa e que regras do jogo seriam aplicadas. Assim, agentes empreendedores da Nomenklatura em alian√ßa com m√°fias locais herdaram parte expressiva do patrim√īnio estatal sovi√©tico e legaram √† etapa capitalista que se instalava um padr√£o violento e despudoradamente refrat√°rio aos princ√≠pios supostamente equitativos do mercado.

O neg√≥cio da coca√≠na, que j√° era pr√≥spero no per√≠odo anterior, mostrou-se extraordinariamente promissor. N√£o por acaso articulou-se com empreendimentos bilion√°rios nas √°reas de petr√≥leo e g√°s. Tal promiscuidade chegou a constituir-se no eixo de conflitos entre R√ļssia, Ucr√Ęnia e Europa, relativos √† distribui√ß√£o de g√°s, cuja import√Ęncia √© vital para os pa√≠ses europeus. Tampouco √© arbitr√°rio o fato de que um agente chave nessa rede estrat√©gica, o megamafioso Mogilevich, antes de ser desmascarado, tenha assumido o controle de um banco russo de prest√≠gio internacional, o Inkombank, entre 1994 e 1998. Sua rede de contas envolvia o Bank of New York, o Bank of China, o sui√ßo UBS e o Deutsche Bank. Outras hist√≥rias est√£o em curso, furando bloqueios e contando com parcerias insuspeitadas. Reitero o ponto: dadas a magnitude, a escala e a complexidade dos fluxos financeiros provenientes do narcotr√°fico, tornou-se imposs√≠vel separar o joio do trigo, mesmo quando h√° interesse em faz√™-lo por parte de agentes financeiros, policiais, jur√≠dicos e pol√≠ticos. A din√Ęmica do capitalismo financeiro globalizado e a agilidade dos narconeg√≥cios, turbinados pela instant√Ęnea liquidez de suas opera√ß√Ķes, gestaram um novelo inextric√°vel. Qu√£o mais desenvolver-se a economia, mais se potencializar√° o narcotr√°fico, seja na ponta do consumo, seja por sua articula√ß√£o org√Ęnica com a economia legal. Na escala multibilion√°ria dos mercados globais, a diferen√ßa legal-ilegal foi condenada √† obsolesc√™ncia, o que nos deixa diante de um dilema do tamanho do planeta: ou legalizamos as drogas e purgamos o veneno letal que infecciona e intoxica governos, institui√ß√Ķes e sociedades, ou vamos continuar pavimentando o caminho para a destrui√ß√£o de governos, institui√ß√Ķes e sociedades, crescentemente destro√ßados pela corrup√ß√£o e a viol√™ncia.

----------

Luiz Eduardo Soares é antropólogo e escritor.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

  •