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"Estamos no limiar de uma transição"

Raimundo Santos - Abril 2016
 

Colaborador regular de Gramsci e o Brasil e de Esquerda Democr√°tica, Raimundo Santos destaca-se em estudos agr√°rios, com vi√©s hist√≥rico, e tamb√©m em temas da redemocratiza√ß√£o, como a participa√ß√£o neste processo do antigo Partido Comunista Brasileiro. Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e organizador (e autor do ensaio introdut√≥rio) da colet√Ęnea O marxismo pol√≠tico de Arm√™nio Guedes (Bras√≠lia: Funda√ß√£o Astrojildo Pereira, 2012), Raimundo Santos, aqui, d√° uma entrevista de largo f√īlego sobre a crise pol√≠tica brasileira, publicada originalmente em Rural Semanal,¬†abr.¬†2016.¬†

Como o senhor avalia o atual momento político do país, com a polarização entre grupos pró e contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff?

Raimundo Santos ¬Ė Vivemos num tempo de √°guas turvas que transformaram a pol√≠tica, de pr√°xis intelig√≠vel e terreno para a busca de entendimentos e solu√ß√Ķes, em um lugar de exposi√ß√£o de obscuridades que ora amea√ßam conduzir nossos passos. H√° uma polariza√ß√£o criada por Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) para separar uns de outros, impondo que se tome um dos lados contrapostos,¬†segundo seu lema "n√≥s e eles". A larga difus√£o, por mais de uma d√©cada, desse tipo polariza√ß√£o tornou-se fonte de um sentimento de confronto desconhecido entre n√≥s nas dimens√Ķes que vem assumindo. Ele se espalhou em √°reas do tecido social, inclusive se estendeu nas mobiliza√ß√Ķes contra o governo.

Lula e o PT fazem de tudo para converter a pregação do "nós e eles" em tensão principal do país, como se o Brasil não fosse um país moderno. Os protestos de junho de 2013 vieram interditar essa visão simplificadora da vida nacional. Chamaram a atenção para o grande distanciamento existente entre a sociedade complexa que somos e o sistema político democrático. Esta é a questão fundamental que continua posta.

A polarização se repetiu na campanha eleitoral de 2014?

Ela não deixou prosperar tendências despolarizantes, como a de Marina Silva. Dilma e Aécio convergiram no trabalho pesado da sua desconstrução, com isso esvaziando o espaço de pluralização que a terceira candidatura competitiva tentava abrir.

De 2015 para c√°, Lula e o PT enrijeceram sua mentalidade simplificadora, recusando-se a ver o alcance do que ocorria na sociedade em rela√ß√£o ao sistema pol√≠tico e o sentido geral renovador das manifesta√ß√Ķes de milh√Ķes de pessoas que sa√≠ram √†s ruas. Lamentavelmente, conseguiram levar movimentos sociais, partidos e correntes de esquerda para dentro da prega√ß√£o do lema "n√≥s e eles".

Movimentos favoráveis ao governo acusam os opositores de "golpismo". O senhor, que é testemunha desses dois momentos históricos, acha que é razoável a comparação entre hoje e o contexto do golpe civil-militar de 1964?

Lembrar 1964 estimula a discuss√£o autocr√≠tica a tempo de o PT se portar, neste instante conturbado, sobretudo no futuro pr√≥ximo, como "esquerda positiva" -¬†termo com o qual, no tempo de Jango, o l√≠der trabalhista Santiago Dantas cobrava responsabilidade pol√≠tica das esquerdas de ent√£o. O governo Jango era um governo nascido, ap√≥s a ren√ļncia de J√Ęnio Quadros e os acontecimentos da posse, em meio a compromissos firmados no quadro pol√≠tico da √©poca. As esquerdas n√£o s√≥ se radicalizaram, tensionando uma conjuntura muito inst√°vel, como combateram o pr√≥prio Jango. Elas denunciaram o que chamavam de "concilia√ß√£o", contribuindo, e muito, para o isolamento pol√≠tico do presidente √†s v√©speras da sua destitui√ß√£o. N√£o se concentraram na den√ļncia e luta contra a conspira√ß√£o golpista que avan√ßava √† luz do dia (ver a autocr√≠tica do PCB feita, em 1967, nestes termos).

O outro ponto que a alusão oficialista ao passado destaca é a presença das classes médias no imediato pré-64. Esta referência pretende associar as camadas médias de agora a um conservadorismo que lhes seria próprio.

Nesta quest√£o, √© √ļtil ir a 1964 para refletir sobre a pretens√£o das esquerdas de ent√£o de construir no Brasil uma sociedade homog√™nea. Esta vis√£o definia a natureza do agir das esquerdas n√£o dirigido ao conjunto da popula√ß√£o, pois se orientava pela busca de uma ordem social hegemonizada. Ela exerceu papel negativo na quest√£o das classes m√©dias naquela √©poca de Jango. Depois, durante a resist√™ncia pol√≠tica √† ditadura, v√°rios setores das esquerdas atuaram com a perspectiva da recupera√ß√£o das liberdades democr√°ticas. Neste contexto, a mobiliza√ß√£o de segmentos das camadas m√©dias, principalmente os do mundo da cultura e da intelectualidade, foi decisiva para generalizar no pa√≠s o movimento de opini√£o p√ļblica contra o regime de 1964.

H√° v√°rias d√©cadas os pecebistas, considerados como cultura que sobrevive ao velho partid√£o, abandonaram todo projeto de mudan√ßas que implique simplifica√ß√£o social e pol√≠tica da vida nacional por consider√°-lo contr√°rio √† complexidade da sociedade brasileira, moderna, de alta diferencia√ß√£o social e econ√īmica, possuidora de uma diversidade cultural que enriquece, d√° vida e colorido √† pluralidade e ao padr√£o de vida dos brasileiros na democracia pol√≠tica.

Em caso de a presidente conseguir se livrar do impedimento, que rumos deveriam ser tomados por ela e sua equipe?

A situa√ß√£o √© incerta nesta sexta-feira (8/4). N√£o se sabe o quanto vai durar esta situa√ß√£o e como ela se desdobrar√°. Aprovado ou n√£o o impeachment, o PT est√° colocado diante de um fato que ter√° de equacionar: n√£o tem como levar adiante o seu projeto de poder, o que o obriga a realizar reflex√£o autocr√≠tica sobre todo o per√≠odo dos seus governos, na qual encontrar√° ra√≠zes do fracasso nas suas pr√≥prias concep√ß√Ķes.

O sr. acha que a sociedade brasileira est√° mais conservadora agora?

H√° car√™ncia de atores e l√≠deres pol√≠ticos l√ļcidos. Somos conduzidos pelos fatos. Mas nunca se discutiu tanta pol√≠tica como agora.

E qual o papel dos heterog√™neos grupos da chamada esquerda ¬Ė desde partidos at√© sindicatos, passando por movimentos sociais aut√īnomos que atuam nas esferas extraparlamentares (e que tiveram papel de destaque nas Jornadas de 2013, como o Movimento Passe Livre)?

√Č preciso insistir neste ponto dos protagonistas l√ļcidos: as esquerdas foram chamadas a posicionar-se como "esquerda positiva" em situa√ß√Ķes complexas. Citemos exemplos: elas atuaram responsavelmente ap√≥s o suic√≠dio de Get√ļlio, durante o governo de JK, na posse do vice-presidente Jo√£o Goulart, embora durante o seu governo tivessem postura ambivalente em rela√ß√£o ao processo de reformismo pol√≠tico sob o regime democr√°tico proposto nesse tempo. Mesmo em meio a divis√Ķes internas, parte das esquerdas militantes, mais especificamente o PCB, foi resoluta ao colocar no centro da resist√™ncia ao regime de 1964 a luta pelas liberdades democr√°ticas, retificando a indecis√£o dos anos de Goulart. Estas esquerdas tiveram papel decisivo na frente democr√°tica contra a ditadura liderada pelo MDB.

Hoje, estamos no limiar de uma transição para seguir adiante no caminho da Constituição de 1988 e seus marcos programáticos. As esquerdas estão chamadas, neste momento, a darem contribuição construtiva.

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1964: a luta política pela democracia



Fonte: Rural Semanal, 8 abr. 2016.

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