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"Temer tem que limpar o terreno agora para quem chegar em 2018"

Luiz Werneck Vianna - Maio 2016
 

A chegada do governo interino de Michel Temer coincide com o desabrochar de uma sociedade com pretens√Ķes por autonomia, segundo o soci√≥logo Luiz Werneck Vianna. Essa nova organiza√ß√£o n√£o se v√™ t√£o representada politicamente, o que pode, segundo o professor da PUC-Rio, criar obst√°culos "quase intranspon√≠veis" para a nova conforma√ß√£o do Pal√°cio do Planalto. "O que Temer tem que fazer agora √© limpar o terreno para quem chegar em 2018", afirma. Para ele, a ocorr√™ncia de dois processos de impeachment em menos de 25 anos faz crescer na sociedade a desconfian√ßa com o regime presidencialista (Alexandra Martins).

Do ponto de vista de quem é contra o governo Temer, há o entendimento de que houve uma desvalorização do voto. Como o sr. vê essa questão?

O voto continua valendo o que vale. Est√° todo mundo interessado no voto em 2018. O Pa√≠s logo vai se mobilizar para as elei√ß√Ķes municipais. A democracia brasileira se consolidou, vem se consolidando, as institui√ß√Ķes v√™m demonstrando capacidade de resist√™ncia, ou seja, a arquitetura constitucional de 1988 est√° passando por testes muito duros e est√° indo muito bem. A democracia pol√≠tica foi refor√ßada pelo discurso de todos, dos perdedores e vencedores. A Constitui√ß√£o se tornou uma l√≠ngua geral da pol√≠tica brasileira. A quest√£o que tem que ser verificada √© como esse governo vai se encontrar com a opini√£o p√ļblica com t√£o pouco tempo para sanear as contas p√ļblicas. Esse minist√©rio apresentado pelo governo Temer √© um minist√©rio politicamente muito denso e treinado.

A resistência social ao governo Temer, representada pelo MST ou pela CUT, é um desafio para o presidente interino?

Uma coisa assustadora e terrificante √© imaginar que tipo de governo esse tipo de esquerda que voc√™ menciona poderia compor um governo neste Pa√≠s. Imagine um minist√©rio com o senador Roberto Requi√£o (PMDB-PR) na Fazenda. As cr√≠ticas v√™m de pessoas que n√£o se d√£o conta da natureza das coisas, dos processos novos que est√£o em curso no Pa√≠s e do mundo, que j√° n√£o √© mais o da Margareth Thatcher (primeira-ministra brit√Ęnica de 1979 a 1990), mas o do Barack Obama (presidente dos EUA), do papa, da Angela Merkel (premi√™ alem√£), da ONU. Essa esquerda que voc√™ citou ainda est√° no mundo de Ronald Reagan (presidente dos EUA de 1981 a 1989). O anacronismo √© uma marca da cultura pol√≠tica brasileira, mas ela persiste porque a pol√≠tica foi usurpada da sociedade. O PT, que nasceu com voca√ß√£o de simular a vida civil, associativa, da delibera√ß√£o, do assemble√≠smo, tornou-se um partido de Estado, aparelhou e deseducou a sociedade.

O que eu quero dizer é caso a resistência de movimentos sociais se imponha. Não pode ser um problema para o governo interino?

N√£o, o governo nasce com desafios muito fortes. A temperatura pode ser elevada, mas n√£o vai passar de nada que seja muito impactante. √Č s√≥ tomar como referencia esse processo das ruas desde que o movimento do impeachment surgiu. N√£o houve nenhum atropelo, os conflitos foram m√≠nimos, as ocorr√™ncias policiais praticamente foram inexistentes.

O novo lema do novo governo - ordem e progresso - parece dizer o contr√°rio.

N√£o me parece um lema feliz. Est√° carregado com o pensamento do republicanismo autorit√°rio da nossa tradi√ß√£o. √Č t√£o infeliz como p√°tria educadora (lema do segundo mandato do governo Dilma).

Com v√°rios implicados na Opera√ß√£o Lava Jato, o PMDB pode tentar silenciar as investiga√ß√Ķes?

As investiga√ß√Ķes v√£o se aprofundar porque o Judici√°rio e a Pol√≠cia Federal, a essa altura, ganharam uma autonomia irrevers√≠vel. Tentativa sempre poder√° haver, mas me parece que n√£o encontrar√£o sustenta√ß√£o, inclusive porque teremos uma opini√£o p√ļblica vigilante.

Como o sr. avalia a chegada do velho PMDB ao poder?

O momento é de enorme dificuldade para todos. Não se governa este País sem o PMDB, o Lula aprendeu isso. O partido tem capilaridade, é uma força da tradição. Como se governa esse País sem o centro político? Pela esquerda? A Dilma tentou. Tem que entender por que a Dilma perdeu capacidade de sustentação. Não foi um movimento político e social que fez emergir o governo Temer. Ele está emergindo porque caiu a política do governo, a economia e também no plano ético-moral. A saída institucional é o Temer assumir.

Como o governo interino de Michel Temer vai obter legitimidade?

Ele vai ter que se legitimar pelas pol√≠ticas, demonstrando capacidade de p√īr a economia nos eixos, de animar a sociedade com novos horizontes. √Č um cen√°rio muito dif√≠cil. Qual seria a alternativa? Novas elei√ß√Ķes? Voc√™ convocar elei√ß√Ķes a partir dessa ru√≠na, sem que a sociedade tenha tempo de se organizar, para criar espa√ßo para um her√≥i providencial, um cavaleiro da fortuna de sabe-se l√° onde? Quantos votos ter√° Bolsonaro (Jair, deputado do PSC-RJ)? De onde vem o cavaleiro da fortuna, sem apoio, com linguagem demag√≥gica? A Dilma n√£o est√° sendo derrubada.

Mas ela n√£o foi condenada.

Mas o governo dela derruiu. A acusação é de crime de responsabilidade fiscal.

Não está provado. Do contrário teremos que tirar vários governadores deste País, não?

Essa argumenta√ß√£o √© como se nada tivesse acontecido. Este Pa√≠s est√° sem governo. H√° quanto tempo a Dilma n√£o governa? Inclusive ela n√£o gosta e n√£o sabe governar. As lideran√ßas mais conscientes t√™m consci√™ncia disso, de que as coisas chegaram a esse ponto por incompet√™ncia pol√≠tica e administrativa dela, pelos erros dela. Derruiu. O que fica no lugar? Fica no lugar um vice e as institui√ß√Ķes. A pol√≠tica brasileira tem que ser pensada agora de forma absolutamente respons√°vel, sob pena de entrar numa conjun√ß√£o que vai fazer com que todas as nossas conquistas sejam perdidas. Retrocesso √© perder o que conquistamos do ponto de vista pol√≠tico institucional. Estamos numa situa√ß√£o revolucion√°ria? Certamente n√£o, inclusive porque os partidos revolucion√°rios n√£o est√£o a√≠. O que voc√™ tem √© uma ret√≥rica de alguns pouqu√≠ssimos revolucion√°rios. A quest√£o da terra se resolve com K√°tia Abreu no minist√©rio (da Agricultura)?

E resolve agora com Blairo Maggi (deputado PP-MT, novo ministro da Agricultura)?

Vai continuar igual porque a situação não te permite botar o Stédile (João Pedro, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) na Agricultura ou no Desenvolvimento Agrário. Aliás, não há partido agrário camponês no Brasil. Stédile podia ter montado um, mas não montou.

O PSDB está bem contemplado com três ministérios?

O novo governo está buscando sustentação no Parlamento. Ele conseguiria isso com um grupo de notáveis com um programa de esquerda na mão? Os partidos estão em ruínas. O PSDB só tem califa querendo o lugar do califa, é uma luta pelo poder desvairada. Não tem quadros, só nos vértices, mas estão todos envolvidos em projetos pessoais de grandeza. Tem o Fernando Henrique Cardozo, que já não tem ambição do califado e ainda mantém os pretendentes no equilíbrio. Mas o PSDB não é um partido político moderno porque não tem cabeça, troncos nem membros. A questão é como sair de uma barafunda dessa para um situação avançada, de enraizamento do governo na sociedade, criando uma agenda que possa ser produzida de uma forma que a sociedade entenda, legitime e aceite. Não é essa a situação atual.

Dilma pode voltar?

Acho dif√≠cil. Se o governo Temer fracassar, uma nova elei√ß√£o presidencial pode ocorrer no meio do caminho. √Č uma sa√≠da dif√≠cil do ponto de vista constitucional. Poder pode, mas a Dilma volta para governar com quem? Com que Parlamento?

E Lula se recupera?

Lula √© uma refer√™ncia poderosa dentro do PT. Dizer que ele n√£o est√° machucado seria uma ingenuidade. Deve estar sofrido. √Č um nome forte da pol√≠tica brasileira que n√£o vai sair dela assim facilmente. √Č uma refer√™ncia mais do que hist√≥rica, tem comando, lideran√ßa, talento pol√≠tico, mas malbaratado pela presidente que elegeu.

O semiparlamentarismo, regime defendido por Temer, teria respaldo social?

Sim porque o presidencialismo brasileiro saiu malquerido nesse segundo impeachment. Foram dois em 25 anos, √© muita coisa. E afora a hist√≥ria das crises politicas que t√™m sido a tradi√ß√£o do nosso presidencialismo, com J√Ęnio Quadros, Jo√£o Goulart e Get√ļlio Vargas. A sociedade brasileira est√° amadurecendo para o semipresidencialismo ou para formas de parlamentarismo mais presentes na vida das pessoas porque a sociedade est√° se organizando. N√£o tem como entender o per√≠odo de 2013 para c√° sem registrar que h√° um processo de auto-organiza√ß√£o social na vida brasileira. S√≥ que ela ainda n√£o se encontrou com os partidos, com a pol√≠tica, mas vem se encontrando. Preste aten√ß√£o no movimento dos adolescentes nas escolas p√ļblicas. Esse movimento tem a cara de 2013, de chamar aten√ß√£o para o tema da educa√ß√£o, para auto-organiza√ß√£o social. E logo que esse processo se aprofundar, essas lideran√ßas carism√°ticas ter√£o lugar. A sociedade est√° se educando, passando por um processo em que sua auto-organiza√ß√£o √© cada vez mais desejada por ela pr√≥pria. Ela n√£o est√° mais identificando a representa√ß√£o legislativa como resultado de sua vontade. √Č claro que um governo com as caracter√≠sticas do Temer, que n√£o saiu das urnas, vai ter uma dificuldade quase intranspon√≠vel para realizar a agenda de mudan√ßas necess√°rias. O que ele pode fazer agora √© limpar o terreno para aquele que vir√° em 2018 levar adiante a tarefa de aprofundamento da democracia pol√≠tica no Brasil. Ele o far√° com homens dispon√≠veis para essa tarefa, que n√£o sa√≠ram da soberania popular, mas de um processo de ru√≠nas. O capital pol√≠tico do Temer para agir agora √© pequeno.

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Observador político 2016



Fonte: O Estado de S. Paulo, 14 maio 2016.

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