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O Gramsci que fala sobre nós

Silvio Pons - Agosto 2017
 


Dossiê Gramsci, oitenta anos depois

Dois mil e dezessete¬†√© um "ano gramsciano", por marcar o octog√©simo anivers√°rio da morte do pensador sardo, em 1937. N√£o √© de hoje sua presen√ßa no debate pol√≠tico e na produ√ß√£o acad√™mica brasileira. Uma presen√ßa que n√£o √© un√≠voca nem tem a mesma valora√ß√£o por parte de todos os que se inspiram em maior ou menor medida nos textos daquele pensador. Nossa perspectiva - democr√°tica e reformista - √© uma das formas de acolher seu complexo legado. Sem a menor pretens√£o de qualquer monop√≥lio ou ortodoxia, temos um objetivo "simples" e direto: p√īr Gramsci a servi√ßo da democracia brasileira.

Acolhemos a ideia de historicizar radicalmente os escritos do pensador, relacionando-os √†s diferentes circunst√Ęncias em que foram produzidos - circunst√Ęncias que inauguram nosso tempo, mas n√£o s√£o nem podem ser exatamente as mesmas aqui e agora. E tudo sem censuras, cortes ou embelezamentos. Certamente, este √© um pressuposto da apropria√ß√£o cr√≠tica, e n√£o doutrin√°ria, do autor, tornando-o apto a ajudar na compreens√£o de nossos problemas. Frases soltas ou conceitos descontextualizados t√™m assim validade muito restrita, ainda que possam ressaltar o brilho do escritor. Mas, como dissemos, nosso objetivo √© de outra natureza.

Aqui reunimos tr√™s refer√™ncias internacionais na √°rea. Na abertura, Silvio Pons, atual presidente da Funda√ß√£o Gramsci, em Roma, e sucessivamente Francesco Giasi e Giuseppe Vacca, diretores da mesma Funda√ß√£o. Um tema recorrente nestas entrevistas √© a monumental Edi√ß√£o Nacional dos Escritos, em curso de publica√ß√£o. Mas n√£o faltam alus√Ķes a quest√Ķes substantivas da atualidade: a globaliza√ß√£o e sua crise, para n√£o falar dos imensos dilemas da pr√≥pria esquerda.

A Fundação Astrojildo Pereira (FAP) e a Fundação Gramsci atuam conjuntamente no plano editorial, especialmente na coleção Brasil & Itália, acolhida e apresentada por Armênio Guedes, dirigente histórico do PCB associado entre nós às "ideias italianas". De Giuseppe Vacca, já publicamos Por um novo reformismo; Gramsci no seu tempo (com Alberto Aggio e Luiz Sérgio Henriques); Vida e pensamento de Antonio Gramsci, 1926-1937; e Modernidades alternativas. O século XX de Antonio Gramsci. De Silvio Pons, publicamos A revolução global. História do comunismo internacional, 1917-1991, densa narrativa do impacto do comunismo no século passado.

(Entrevista dada a Beatrice Rutiloni, Democratica, 14 jul. 2017)

Deve-se dizer que Antonio Gramsci se tornou um √≠cone pop. Como a Marilyn de Andy Warhol ou o Che nas camisetas dos sonhadores de todo o mundo, Gramsci, com aquela face de "intelectual org√Ęnico", tornou-se o rosto mais conhecido da pol√≠tica com P mai√ļsculo, a que mistura pensamento, estudo, seriedade, paix√£o. E sobriedade. Gramsci como o novo √≠dolo de uma gera√ß√£o um tanto nerd, que de todo canto do mundo encontra naquele olhar modern√≠ssimo a pr√≥pria fuga do presente. O √ļltimo dos utopistas, com os pequenos √≥culos redondos que passaram de John Lennon para Harry Potter, √© hoje mais celebrado do que Lenin: h√° quatro anos, no Bronx, o artista su√≠√ßo Thomas Hirschhorn criou a instala√ß√£o The Gramsci Monument, um lugar de agrega√ß√£o que deu lugar a leituras, aulas, cursos para crian√ßas, concertos e semin√°rios. Da casa-museu de Ghilarza, na Sardenha, onde Gramsci viveu sua inf√Ęncia, at√© Nova York, o tesouro gramsciano parece se enriquecer de ano em ano. A demonstrar o fato de que a heran√ßa cultural, quando √© viva, √© como um cl√°ssico: n√£o morre nunca - ao contr√°rio, renasce na mem√≥ria.

Oitenta anos depois da morte do político, definição que em sua máxima expressão é capaz de reunir todas as outras, a de filósofo, historiador, linguista, jornalista e escritor, resta muito de Gramsci: restam suas belíssimas cartas privadas, que expressam o homem, e restam os Cadernos, traduzidos em todo o mundo e abertos mil vezes na vida. Uma daquelas leituras que se fazem e refazem, porque sempre têm algo a dizer, um pouco como a Recherche de Proust. E permanece a impressão de Gramsci, o mesmo traço inquieto e ordenado de sua face está em sua página escrita, com aquela inesquecível grafia, muito pequena, precisa, de um homem que sabe que não se desperdiça e não se perde o tempo. Um dos maiores conhecedores da obra gramsciana é Silvio Pons, historiador da Europa Oriental, um dos maiores especialistas do comunismo internacional e presidente da Fundação Gramsci.

Ocorre-nos perguntar neste 14 de julho, aniversário da Revolução Francesa, quanto vale hoje a liberdade.

√Č um valor global e √© mais atual do que nunca. Vivemos uma √©poca de grande desordem mundial em que foram recolocados em discuss√£o os princ√≠pios fundamentais da democracia. O √ļltimo exemplo de revolu√ß√£o em nome da liberdade foram as primaveras √°rabes que agora cancelamos √† luz da cat√°strofe da S√≠ria e de todos os eventos violentos que se seguiram √† queda dos regimes. Poder√≠amos dizer que do final do s√©culo XX at√© o in√≠cio do s√©culo muitas comunidades se movimentaram para reivindicar liberdades. N√£o houve s√≥ 1989 na Europa, houve muitas outras revolu√ß√Ķes pac√≠ficas entre os B√°lc√£s, o sul da √Āfrica e at√© o Ir√£. Houve comunidades inteiras, destitu√≠das de nome, que impuseram √† agenda mundial uma exig√™ncia de liberdade que vai muito al√©m da tradi√ß√£o euroc√™ntrica da Revolu√ß√£o Francesa.

A egocêntrica Revolução Francesa.

Digo que os europeus monopolizaram alguns valores, entre os quais a liberdade. A Revolu√ß√£o Francesa foi a revolu√ß√£o pol√≠tica que gerou a modernidade pol√≠tica europeia, o evento gen√©tico do nacionalismo ocidental. Agora estamos numa √©poca em que Ocidente e americanismo parecem pertencer ao passado e est√£o superados, mas uma certa ideia de liberdade e at√© de igualdade que se podem relacionar √† nossa hist√≥ria moderna se globalizaram. Existem muitas revolu√ß√Ķes francesas, na frente das quais coloco a primavera √°rabe.

Mas ela fracassou.

As revolu√ß√Ķes podem fracassar, mas seu fracasso tamb√©m expressa significados importantes, sobretudo em rela√ß√£o √† parte do mundo em que se originam. At√© diria que justamente porque fracassaram devemos prestar ainda mais aten√ß√£o. O fantasma das liberdades modernas ainda est√° entre n√≥s.

E o da igualdade?

Muito menos. Vivemos num mundo desigual: por uma parte, h√° o crescimento da riqueza global - mas sou ferozmente contr√°rio a quem acusa a globaliza√ß√£o de ser portadora de pobreza - que semeou riquezas no mundo de modo desigual. A China ou a √ćndia s√£o as novas pot√™ncias, o Ocidente n√£o controla mais, n√£o influencia mais. A redistribui√ß√£o dos recursos deslocou o eixo da riqueza do Ocidente para o Oriente, trazendo como danosa consequ√™ncia que, entre n√≥s, o bem-estar est√° polarizado nas m√£os de poucos e assistimos a um tendencial empobrecimento das classes m√©dias, verdadeiro fulcro da democracia ocidental. Diante de tudo isto continua a me surpreender que a exig√™ncia de maior equidade ainda n√£o tenha suscitado protestos sociais que era leg√≠timo esperar.

Ser√° talvez ainda cedo?

A quest√£o √© que as sociedades hoje s√£o muito corporativas e, portanto, custa-nos imaginar um bloco social e pol√≠tico que levante a quest√£o de uma igualdade maior. Vejo um fen√īmeno que implica diminui√ß√£o de igualdade mas n√£o vejo os sentimentos de protesto e contesta√ß√£o, que permanecem limitados e marginais ou ent√£o se expressam sob a forma de populismos.

E que tipo de forma social s√£o os populismos?

Primitivos. Ilus√≥rios. A ideia de que seja suficiente conquistar parcelas de soberania nacional para melhorar a vida das pessoas √© uma miragem. No mundo de hoje, o primado dos Estados individuais est√° limitado por uma s√©rie de for√ßas que n√£o se deixam desafiar pelo poder de cada um deles. A √ļnica forma poss√≠vel de resist√™ncia e de reforma, a √ļnica resposta positiva aos processos de globaliza√ß√£o √© supranacional.

A √ļnica resposta √© a Europa?

O tema de uma governance global continua a ser um grande tema, mas muito distante de n√≥s. A Europa √© uma resposta, por certo. O processo de integra√ß√£o europeia nasce como recusa √†s guerras entre Estados-na√ß√£o que marcaram a hist√≥ria do s√©culo XX. A isto se soma a consci√™ncia de que s√≥ uma grande √°rea supranacional em termos econ√īmicos, democr√°ticos e produtivos, pode sustentar a globaliza√ß√£o.

O problema são os líderes?

Os l√≠deres s√£o o espelho da sociedade. A quest√£o √© que n√£o se criou um espa√ßo pol√≠tico legitimado e aceito por todos. O n√≠vel nacional continua a ser mais forte e isto determina tens√Ķes cont√≠nuas entre cada Estado e a Europa. Acrescentemos que, em tempos de crise, com a Europa fr√°gil, o populismo com sua carga de ilus√Ķes encontra uma porta aberta.

Gramsci, encerrado numa cela, entreviu nossos dias: nos Cadernos falou de mundializa√ß√£o da economia contraposta √† nacionaliza√ß√£o da pol√≠tica. √Č impressionante.

Na realidade, este processo estava particularmente visível já depois da Primeira Guerra Mundial: o tempo de Gramsci está ligado ao nosso. Observo duas coisas: que a globalização começa muito antes do fim da guerra fria, uma vez que uma crescente interdependência já se inicia no final do século XIX, e também que não existia uma forma de hegemonia evidente. Com a linguagem de hoje, poderíamos dizer que não havia nos anos vinte e trinta uma governance mundial, e esta também é uma tendência de nosso século.

Outra tendência de nosso século é a crise da esquerda praticamente por toda parte. Como explicá-la?

√Č um tema que nos atinge e preocupa h√° tempos. N√£o √© uma crise recente e devemos recuar uns passos, embora seja verdade que ningu√©m tem a receita. No entanto, existem muitas raz√Ķes para tal crise: houve a ideia segundo a qual, depois do fim do comunismo, fosse poss√≠vel fazer uma nova esquerda democr√°tica, era a √©poca da Terceira Via, dos Blairs e Clintons. Uma experi√™ncia de esquerda reformista e antitotalit√°ria que emperrou no final do s√©culo. Acredito que este foi o in√≠cio do decl√≠nio. Ainda estamos um pouco presos ali e penso que a esquerda, hoje, ainda n√£o ajustou as contas com o paradigma progressista segundo o qual o progresso √© sempre linear e irrefre√°vel. A esquerda √© uma das v√≠timas da globaliza√ß√£o e entrou em crise com o esgotamento do welfare state. E afinal, como se sabe, quando a pol√≠tica est√° em crise, com mais raz√£o est√° a esquerda.

A direita se ressente menos disso?

A direita √© mais capaz, desde sempre, de se valer dos sentimentos das pessoas, do medo. A esquerda n√£o tem este tipo de possibilidade e, portanto, na falta de Pol√≠tica, aquela com o famoso P mai√ļsculo, sofre mais.

Um conselho seu.

Estamos sempre naquele ponto: comecemos a rever o paradigma progressista. A esquerda deve viver e deve se contrapor à direita. Cometeremos um erro histórico se pensarmos que estes valores não mais existem.

Tem raz√£o. Basta ver as rea√ß√Ķes √† lei contra a apologia do fascismo. Disseram que √© liberticida. E foi a coisa mais gentil que disseram.

√Č um fato preocupante porque se baseia numa perda da mem√≥ria: devemos conservar a consci√™ncia de que o fascismo foi uma cat√°strofe. N√£o se trata de antifascismo banal, mas de reafirmar a n√£o neutralidade de nossa hist√≥ria. Tamb√©m os valores da Europa s√£o antitotalit√°rios e a perda de mem√≥ria √© vis√≠vel naquilo que acontece na Hungria ou na Pol√īnia. Dizer que √© liberticida uma lei que condena a apologia do fascismo √© contradit√≥rio, e o √© duas vezes se quem assim se expressa s√£o os que at√© alguns meses atr√°s se atribu√≠am a defesa de nossa Constitui√ß√£o.

A quem se refere?

Ao Movimento 5 Estrelas, que se entrincheirou por uma Carta que é profundamente antifascista e, ao mesmo tempo, afirma que uma lei que condene a exaltação do vintênio fascista é liberticida.

 


Fonte: Democratica, 14 jul. 2017 & Gramsci e o Brasil.

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