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Oitenta anos depois, um Gramsci para todos

Francesco Giasi - Agosto 2017
 


Dossiê Gramsci, oitenta anos depois  

Dois mil e dezessete¬†√© um "ano gramsciano", por marcar o octog√©simo anivers√°rio da morte do pensador sardo, em 1937. N√£o √© de hoje sua presen√ßa no debate pol√≠tico e na produ√ß√£o acad√™mica brasileira. Uma presen√ßa que n√£o √© un√≠voca nem tem a mesma valora√ß√£o por parte de todos os que se inspiram em maior ou menor medida nos textos daquele pensador. Nossa perspectiva - democr√°tica e reformista - √© uma das formas de acolher seu complexo legado. Sem a menor pretens√£o de qualquer monop√≥lio ou ortodoxia, temos um objetivo "simples" e direto: p√īr Gramsci a servi√ßo da democracia brasileira.

Acolhemos a ideia de historicizar radicalmente os escritos do pensador, relacionando-os √†s diferentes circunst√Ęncias em que foram produzidos - circunst√Ęncias que inauguram nosso tempo, mas n√£o s√£o nem podem ser exatamente as mesmas aqui e agora. E tudo sem censuras, cortes ou embelezamentos. Certamente, este √© um pressuposto da apropria√ß√£o cr√≠tica, e n√£o doutrin√°ria, do autor, tornando-o apto a ajudar na compreens√£o de nossos problemas. Frases soltas ou conceitos descontextualizados t√™m assim validade muito restrita, ainda que possam ressaltar o brilho do escritor. Mas, como dissemos, nosso objetivo √© de outra natureza.

Aqui reunimos tr√™s refer√™ncias internacionais na √°rea. Na abertura, Silvio Pons, atual presidente da Funda√ß√£o Gramsci, em Roma, e sucessivamente Francesco Giasi e Giuseppe Vacca, diretores da mesma Funda√ß√£o. Um tema recorrente nestas entrevistas √© a monumental Edi√ß√£o Nacional dos Escritos, em curso de publica√ß√£o. Mas n√£o faltam alus√Ķes a quest√Ķes substantivas da atualidade: a globaliza√ß√£o e sua crise, para n√£o falar dos imensos dilemas da pr√≥pria esquerda.

A Fundação Astrojildo Pereira (FAP) e a Fundação Gramsci atuam conjuntamente no plano editorial, especialmente na coleção Brasil & Itália, acolhida e apresentada por Armênio Guedes, dirigente histórico do PCB associado entre nós às "ideias italianas". De Giuseppe Vacca, já publicamos Por um novo reformismo; Gramsci no seu tempo (com Alberto Aggio e Luiz Sérgio Henriques); Vida e pensamento de Antonio Gramsci, 1926-1937; e Modernidades alternativas. O século XX de Antonio Gramsci. De Silvio Pons, publicamos A revolução global. História do comunismo internacional, 1917-1991, densa narrativa do impacto do comunismo no século passado.

(Entrevista dada a Massimo Franchi, L’Unità, 26 abr. 2017)

O que significa para os senhores, da Fundação, o aniversário amanhã, dia 27 de abril, dos 80 anos da morte do fundador de nosso jornal?

Significa, antes de mais nada, homenage√°-lo. O dia 27 de abril prev√™ todos os ritos da festa celebrativa. Como em todos os anos, iremos a seu t√ļmulo no cemit√©rio de Testaccio, a Via Morgagni, o lugar em que foi detido em 8 de novembro de 1926. Iremos celebr√°-lo no Parlamento, em presen√ßa do presidente da Rep√ļblica, onde ser√° inaugurada uma mostra dos Cadernos e dos livros do c√°rcere. Haver√° manifesta√ß√Ķes na Sardenha, em Ghilarza, onde se realizar√° um encontro promovido pela renascida "Casa Gramsci". Em Turi, onde Gramsci transcorreu o per√≠odo mais longo de sua deten√ß√£o. As iniciativas da Funda√ß√£o se desenvolver√£o junto com uma mir√≠ade de encontros organizados por iniciativa espont√Ęnea de associa√ß√Ķes locais. Durante este ano gramsciano, tentaremos divulgar os resultados das recentes investiga√ß√Ķes sobre a biografia e os escritos, bem como fazer o balan√ßo da recep√ß√£o de seu pensamento nesta primeira d√©cada e meia do novo s√©culo. Tentaremos divulgar os resultados obtidos atrav√©s do trabalho que desenvolvemos para a Edi√ß√£o Nacional dos Escritos. Um trabalho que segue h√° tempos e continuar√° nos pr√≥ximos anos, confiado a dezenas de estudiosos √†s voltas com complexos problemas de edi√ß√£o.

A quais problemas se refere?

Problemas que derivam do fato de que se trata de uma edi√ß√£o integral e cr√≠tica de textos de um autor que n√£o nos deixou obras completas. Os Cadernos foram escritos no c√°rcere e nenhum deles constitui uma obra conclu√≠da. As cartas n√£o eram destinadas √† publica√ß√£o e ainda hoje temos de nos haver com sua dif√≠cil recupera√ß√£o. Os escritos jornal√≠sticos est√£o espalhados por jornais e revistas dos anos 1910 e 1920 e foram publicados em grande parte sem sua assinatura: antes de mais nada, trata-se de identific√°-los e atribu√≠-los a Gramsci. Certamente, n√£o partimos do zero. Mas a necessidade de uma nova edi√ß√£o integral e cr√≠tica surgiu do estado insatisfat√≥rio das edi√ß√Ķes precedentes. Os textos precisam de notas hist√≥ricas e bibliogr√°ficas (n√£o de coment√°rio) indispens√°veis √† sua contextualiza√ß√£o. Pode-se ver isto ao ler, no volume da Edi√ß√£o Nacional que re√ļne os escritos de 1917, o c√©lebre artigo "Indiferentes" e todos aqueles publicados em Citt√† futura, acompanhados de notas hist√≥ricas e cr√≠ticas que os tornam hoje mais compreens√≠veis.

Quais as novidades em relação à edição de 1975 [Gerratana]? Neste meio-tempo caducaram os direitos editoriais antes exclusivos da Fundação.

Os Cadernos tiveram sua edi√ß√£o cr√≠tica h√° mais de quarenta anos. Uma edi√ß√£o que assinalou uma etapa importante nos estudos sobre Gramsci. A Edi√ß√£o Nacional j√° ofereceu uma significativa novidade, publicando os Cadernos de tradu√ß√Ķes, exclu√≠dos da edi√ß√£o organizada por Valentino Gerratana. Resta o problema de data√ß√£o e ordenamento. Em rela√ß√£o √† edi√ß√£o de 1975, h√° uma subdivis√£o em cadernos de tradu√ß√£o, miscel√Ęneos e especiais, estes √ļltimos assim denominados por Gramsci porque cont√™m na maior parte das vezes uma nova reda√ß√£o das notas esbo√ßadas nos miscel√Ęneos. Depois do ver√£o ser√£o publicados os primeiros Cadernos miscel√Ęneos. Toda a edi√ß√£o cr√≠tica dos Cadernos estar√° pronta em 2020. O fim dos direitos viu uma prolifera√ß√£o de antologias que, no entanto, baseiam-se nas velhas edi√ß√Ķes. Gradualmente poder√£o vir √† luz colet√Ęneas tem√°ticas e antologias baseadas na Edi√ß√£o Nacional. Algumas j√° sa√≠ram no curso do ano. Por certo, n√£o pensamos que os volumes da Edi√ß√£o Nacional possam circular fora do c√≠rculo dos estudiosos. Ser√° importante tirar partido do principal objetivo da edi√ß√£o, que √© o de restabelecer os textos conferidos com os originais, utilizando as respectivas anota√ß√Ķes.

Al√©m da mostra em Montecitorio [sede da C√Ęmara dos Deputados], prev√™-se tamb√©m uma s√©rie de quatro palestras abertas ao p√ļblico. Pode nos explicar como foram subdivididas?

Sim, visamos a um p√ļblico de n√£o especialistas. A primeira palestra, em 10 de maio, estar√° a cargo de nosso presidente, Silvio Pons, sobre Gramsci e a Revolu√ß√£o Russa. A segunda, de 17 de maio, ser√° dada por Claudia Mancina, que nos falar√° de Gramsci e a cultura do s√©culo XX. Em 24 de maio, Gianni Francioni explicar√° como foram escritos os Cadernos do c√°rcere. Enfim, em 7 de junho, me caber√° falar sobre Gramsci e seus editores.

Pode nos antecipar alguma coisa?

Gramsci recusou-se v√°rias vezes a publicar colet√Ęneas de seus textos jornal√≠sticos. O primeiro a propor-lhe uma foi Giuseppe Prezzolini, em 1921, que havia combinado com Piero Gobetti na esperan√ßa de convenc√™-lo a dar sua concord√Ęncia. Poucos anos depois quem tentou foi Franco Ciarlantini, propriet√°rio da Ed. Alpes que em seguida publicar√° os discursos de Mussolini. Dois editores n√£o comunistas, portanto. Gramsci n√£o aceitou antes de mais nada porque sustentava que seus artigos "eram escritos no dia a dia e deviam morrer no fim do dia". E assim o primeiro editor de Gramsci foi Togliatti, que come√ßou a republicar alguns textos j√° nos meses seguintes √† sua deten√ß√£o.

Uma afirmação que diverge da linha conspirativa em voga até algum tempo atrás: Togliatti contra Gramsci.

N√£o se pode facilmente contestar a contribui√ß√£o do Togliatti editor. Foi Togliatti quem quis a publica√ß√£o do famoso ensaio sobre a quest√£o meridional, em 1930, quando Gramsci j√° era malquisto por Stalin. E n√£o h√° d√ļvida de que a descoberta de Gramsci no p√≥s-guerra se deveu √† h√°bil dire√ß√£o de Togliatti, que quis primeiro publicar as Cartas e, em seguida, ao cabo de poucos anos, uma edi√ß√£o dos Cadernos em seis volumes. Trata-se de escritos que podiam restar nos arquivos familiares e de partido sabe-se l√° quantos anos. Certamente, publicou-os segundo crit√©rios que hoje n√£o mais podem ser adotados, censurando Bordiga, Trotski e seus seguidores, com cortes m√≠nimos, mas significativos.

De 18 a 20 de maio, no Instituto da Enciclopédia Italiana, os senhores realizarão um seminário internacional com muita participação.

Pretendemos documentar amplamente de que modo Gramsci √© hoje estudado na It√°lia e no exterior. N√£o √© mais preciso desmentir a ideia, estabelecida em anos anteriores, de que Gramsci √© um autor mais estudado no estrangeiro do que em seu pa√≠s. Apresentaremos as investiga√ß√Ķes dos √ļltimos anos e os usos de algumas categorias hist√≥rico-pol√≠ticas, a partir dos conceitos de hegemonia, revolu√ß√£o passiva e cosmopolitismo. Vir√£o estudiosos de v√°rios pa√≠ses europeus, da Am√©rica Latina, dos Estados Unidos, da √Āsia. Tamb√©m convidamos o tradutor de Gramsci na China. J√° publicou as Cartas e agora est√° traduzindo integralmente os Cadernos.

A prop√≥sito de hegemonia, deve-se dizer que o conceito prov√©m de Lenin, que Gramsci encontrou em 1922. O que sabemos sobre um col√≥quio que p√īs frente a frente estes dois grandes personagens?

O conceito de hegemonia parte dos escritos de Lenin, mas em Gramsci se v√™ desenvolvido de maneira muito mais rica. Gramsci encontrou-o pelo menos duas vezes. A primeira em outubro de 1922, poucos dias antes da Marcha sobre Roma. Temos a ordem do dia do encontro registrada na agenda oficial de Lenin. Falaram de Mussolini, da necessidade de fundir o partido socialista com o comunista, dos problemas do Mezzogiorno italiano. Os √ļltimos dois temas est√£o ligados ao surgimento de L¬íUnit√† e √† escolha do nome do jornal. O segundo encontro aconteceu poucos dias depois, com a delega√ß√£o dos comunistas italianos que chegara em Moscou para participar de um congresso da Internacional.

O que espera vá surgir de todos estes encontros pelo octogésimo aniversário da morte?

Aprofundamentos, novos est√≠mulos para os estudos e as investiga√ß√Ķes. Vontade de reler e reinterpretar.

A este prop√≥sito, os senhores nunca intervieram no caso de interpreta√ß√Ķes distorcidas do pensamento de Gramsci?

N√£o temos e n√£o queremos o monop√≥lio da interpreta√ß√£o do pensamento de Gramsci. Nosso primeiro dever √© recuperar e tornar acess√≠veis seus pap√©is, editar seus escritos, favorecer as investiga√ß√Ķes, dar apoio aos estudiosos que se esfor√ßam em todo o mundo com tradu√ß√Ķes e ensaios de car√°ter cient√≠fico. Gerimos uma bibliografia internacional que cont√©m mais de vinte mil t√≠tulos em 41 l√≠nguas. Quanto aos usos distorcidos de seu pensamento, Gramsci √© um autor t√£o lido e citado que, como ocorre com Maquiavel, Hobbes ou Nietzsche, √© inevit√°vel que se extrapolem algumas de suas frases ou se enfatizem aspectos de seu pensamento em detrimento de outros. √Č um destino que cabe a todos os cl√°ssicos. Algo inevit√°vel. Gramsci n√£o √© patrim√īnio de elites restritas de estudiosos. √Č patrim√īnio de bloggers, de jornalistas que se valem cotidianamente de seus escritos, de simples leitores que muitas vezes se aventuram em interpreta√ß√Ķes temer√°rias. √Äs vezes, surpreende-nos a desenvoltura de int√©rpretes que deveriam ter a compet√™ncia para evitar grandes disparates. Al√©m disso, continuam a ter peso velhas pol√™micas e vulgatas das d√©cadas passadas. Mas, se f√īssemos intervir em todas as interpreta√ß√Ķes extravagantes e infundadas, dever√≠amos empregar grande parte de nossas energias em r√©plicas que n√£o nos cabem. N√£o somos os guardi√£es do pensamento de Gramsci, mas sim de seus manuscritos. Em termos de cust√≥dia, isto nos basta.





Fonte: L’Unità & Gramsci e o Brasil.

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