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A evolu√ß√£o da esquerda ¬Ė 1

Hamilton Garcia de Lima - Junho 2018
 


A esquerda moderna no Brasil, que compreende a organiza√ß√£o dos trabalhadores em movimentos de luta por direitos econ√īmico-sociais associados a correntes ideol√≥gicas de vi√©s socialista, nasce em meio √† conflu√™ncia, na passagem do s√©culo XIX ao XX, da industrializa√ß√£o propiciada pela acumula√ß√£o dos excedentes econ√īmicos da cafeicultura paulista, da urbaniza√ß√£o incrementada pelo fim da escravid√£o e do incentivo governamental √† imigra√ß√£o europeia, visando ao aumento da produtividade do trabalho.

√Č da√≠ que surgem as primeiras greves e organiza√ß√Ķes sindicais que iriam colocar em xeque a Primeira Rep√ļblica por meio de in√©ditas reivindica√ß√Ķes pol√≠tico-sociais, que abarcavam do direito de organiza√ß√£o pol√≠tica √† regulamenta√ß√£o da jornada de trabalho, passando por melhorias salariais e de condi√ß√Ķes de trabalho; reclamos inassimil√°veis pelo Estado liberal-olig√°rquico de ent√£o.

A rea√ß√£o conservadora-liberal a tais movimentos, com repress√£o violenta das greves, persegui√ß√£o aos l√≠deres e deporta√ß√£o de estrangeiros anarquistas, acabou, ao contr√°rio do que se esperava, impulsionando o ide√°rio revolucion√°rio entre os indiv√≠duos mais ativos das classes trabalhadoras e camadas m√©dias. A partir do bloqueio ao di√°logo e √† participa√ß√£o, emergem, de um lado, o anarcossindicalismo como for√ßa mobilizadora nos maiores centros industriais - cujo √°pice foram as greves de 1917-1918 - e, de outro, os tenentes, jovens oficiais subalternos do Ex√©rcito com capacidade de organiza√ß√£o e lideran√ßa para deflagrar rebeli√Ķes pol√≠ticas nos quart√©is, a partir de 1922, contra o dom√≠nio olig√°rquico-liberal.

O fracasso de ambas as vertentes propiciar√° a converg√™ncia de classe entre oper√°rios e setores m√©dios a partir da cria√ß√£o do PCB (1922) e das repercuss√Ķes da Coluna Miguel Costa-Prestes (1925-1927) dentro e fora da caserna. Os comunistas aparecem, ent√£o, em meio aos impactos da Revolu√ß√£o Sovi√©tica (1917) - que populariza o marxismo entre n√≥s pela chave russa do "marxismo-leninismo" -, deslocando a influ√™ncia anarcossindicalista para o segundo plano - influ√™ncia esta j√° abalada pela deporta√ß√£o de seus l√≠deres, a partir de 1921, e pelo isolamento pol√≠tico ocasionado por uma radicaliza√ß√£o que propunha destruir as institui√ß√Ķes vigentes por meio da a√ß√£o direta de indiv√≠duos de uma classe ainda em forma√ß√£o e que, ademais, era preponderantemente cat√≥lica e de engajamento sindical majoritariamente moderado.

Do lado dos tenentes, a situa√ß√£o n√£o era melhor, pois sua filosofia positivista, de car√°ter elitista, estabelecia uma rela√ß√£o vertical-civilizat√≥ria com a massa popular, a partir de sua submiss√£o aos c√Ęnones da sociedade industrial - vulgarmente traduzidos em termos de f√© (Religi√£o da Humanidade) -, que tornava o engajamento pol√≠tico da massa subalternizada n√£o s√≥ um contrassenso, mas uma temeridade.

Miguel Costa e Lu√≠s Carlos Prestes, engajados na Revolta Militar de 1924, √© verdade, rompem com essa perspectiva ao iniciarem sua marcha pelo interior do pa√≠s - maior em extens√£o e tempo de dura√ß√£o do que a famosa Grande Marcha dos comunistas chineses de 1934-1935 -, conscientizando os camponeses sobre as raz√Ķes pol√≠tico-econ√īmicas de sua pobreza e a necessidade da revolu√ß√£o para dar fim a esta opress√£o e √† domina√ß√£o das oligarquias agr√°rias sobre o pa√≠s. Todavia, sem serem derrotados militarmente, os revoltosos se dispersariam pelo pa√≠s e pelo exterior ap√≥s verem seus esfor√ßos frustrados pela ina√ß√£o pol√≠tica do campesinato e pelo temor das popula√ß√Ķes rurais diante dos saques e viol√™ncia que sua passagem provocava.

Enquanto as formas radicalizadas de a√ß√£o se viam prejudicadas por sua inspira√ß√£o ut√≥pica, permeada tanto por equ√≠vocos pol√≠tico-doutrin√°rios como t√°tico-estrat√©gicos, com seu consequente isolamento social, os comunistas, liderados por Astrojildo Pereira e Octavio Brand√£o, inauguravam uma nova radicalidade, ao romperem com a perspectiva antipol√≠tica dos anarquistas e estabelecerem alian√ßas pol√≠tico-eleitorais com segmentos moderados da esquerda para a explora√ß√£o dos (poucos) espa√ßos democr√°ticos existentes na Rep√ļblica Velha (1889-1930), ao mesmo tempo que procuravam atrair os tenentes para o partido ou uma alian√ßa democr√°tico-popular. Mas, por esses azares da hist√≥ria, perto de colherem os frutos de sua estrat√©gia mais consistente e colada √† realidade, os comunistas seriam atropelados por seus camaradas da Internacional Comunista (IC), que, sintonizados com a guinada stalinista ocorrida na Uni√£o Sovi√©tica ap√≥s a pris√£o de Trotski, em 1929, pressionaram o PCB a mudar sua dire√ß√£o, tida como excessivamente moderada (bukharinista).

Morto Lenin, em 1924, a russificação do comunismo internacional se completaria nos anos 1930, agora sob a égide do orientalismo despótico do cristianismo ortodoxo, em oposição ao ocidentalismo libertário do materialismo histórico, com reflexos também no Brasil, onde a IC iria iniciar um período de expurgo das lideranças "reformistas" em proveito daquelas que considerava aptas à "ação revolucionária" e mais diretamente ligadas à classe operária (obreirismo). Com isso, a interessante experiência comunista brasileira seria desperdiçada, impondo-se, a seguir, a filiação ao PCB dos tenentes convertidos ao comunismo. Estes, a partir daí, se empenhariam na preparação do terceiro levante tenentista (1935) sob a liderança de Prestes - filiado ao partido, por pressão de Moscou, em 1934 -, cuja derrota político-militar, então sofrida, marcará o recuo, mas não o abandono, do radicalismo pequeno-burguês no interior do PCB.

A substitui√ß√£o do novo radicalismo democr√°tico-popular pelo radicalismo militar-popular (prestismo) est√° na raiz da sinuosa trajet√≥ria da esquerda radical brasileira desde ent√£o, que se tornar√° hegem√īnica - confundindo-se com a pr√≥pria no√ß√£o de esquerda - dada a incapacidade do sistema pol√≠tico, reformado pela Revolu√ß√£o de 1930 e pela Constitui√ß√£o de 1946, de institucionalizar as organiza√ß√Ķes intersindicais e partid√°rias dos trabalhadores. Bloqueou-se, assim, a difus√£o da cultura democr√°tica em seu seio e refor√ßou-se a internaliza√ß√£o do putschismo em sua cultura pol√≠tica.

O blanquismo - que √© como o putschismo se propagou na tradi√ß√£o revolucion√°ria internacional - voltaria a jogar um papel fundamental entre n√≥s a partir da Revolu√ß√£o Cubana (1959), em especial depois do golpe de 1964, possibilitando o aparecimento de in√ļmeras dissid√™ncias comunistas "revolucion√°rias" que viriam, na fase da abertura geiselista - de intensa repress√£o ao PCB -, somar-se ao PT, mas isto √© assunto para um pr√≥ximo artigo.

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Hamilton Garcia de Lima √© cientista pol√≠tico e professor da Uenf¬ĖDarcy Ribeiro.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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