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A trincheira jornal√≠stica de L√ļcio Fl√°vio Pinto

Marco Aurélio Nogueira - Fevereiro 2019
 


L√ļcio Fl√°vio Pinto. Na trincheira da verdade. Meio s√©culo de jornalismo na Amaz√īnia. Bras√≠lia: Funda√ß√£o Astrojildo Pereira & Verbena Editora, 2017. 288p.

Quando conheci L√ļcio Fl√°vio Pinto, em 1969, ele trabalhava em O Estado de S. Paulo. Ficamos amigos durante a universidade, na Escola de Sociologia e Pol√≠tica da Universidade de S√£o Paulo.

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Fundação Astrojildo Pereira

L√ļcio vinha de Bel√©m e era um motor em termos de ideias e criatividade, al√©m de leitor voraz, que digeria tudo o que tivesse letras, s√≠labas e palavras, como se apreciasse seu som e o ritmo que seguiam. Passaria pelas reda√ß√Ķes de Veja, Isto√©, Realidade e outras publica√ß√Ķes. Mas n√£o parava de pensar na Amaz√īnia, sua causa apaixonada, sua raz√£o de ser como intelectual e jornalista.

Quando voltou para Bel√©m, como correspondente do Estad√£o, tornou-se rapidamente uma refer√™ncia internacional na √°rea, um dos mais importantes e consistentes - se n√£o o maior de todos - analistas das aventuras e desventuras amaz√īnicas. Permaneceu combativo, sem conceder aos poderosos. Seu jornalismo independente, de den√ļncia e opini√£o, s√≥ fez crescer. Quando as portas dos grandes jornais da regi√£o (O Liberal, A Prov√≠ncia do Par√°) come√ßaram a se fechar para ele, deu um basta e, em 1987, come√ßou a fazer o Jornal Pessoal, um quinzen√°rio sobre a Amaz√īnia, custeado, redigido e distribu√≠do a ferro e fogo por ele mesmo, quase sem interrup√ß√£o h√° 30 anos, com uma tiragem de dois mil exemplares - um dos jornais alternativos de mais longa dura√ß√£o da hist√≥ria da imprensa brasileira.

L√ļcio Fl√°vio escreveu e continua a escrever muito. Sua tribuna √© a imprensa, de onde lan√ßa sistematicamente artigos pontuais, contundentes, marcados pelo senso de oportunidade, pela preocupa√ß√£o de informar o p√ļblico e pela indigna√ß√£o c√≠vica. Publicou diversos livros, a maioria dos quais dedicados ao Par√° e √† Amaz√īnia, principal raz√£o de ser de seu Jornal Pessoal. Como ele mesmo observou certa vez, os livros re√ļnem "cap√≠tulos da hist√≥ria recente do Par√° que jamais teriam sido registrados se n√£o existisse este jornal". De sua pena sai um jornalismo investigativo da melhor qualidade, feito no calor da hora, carregado de causas nobres no momento mesmo em que os fatos aconteceram. Um exemplo de jornalismo verdadeiramente independente, que cumpre sua miss√£o mais nobre, a de auditar e fiscalizar o poder.

Lendo as reportagens e os textos vibrantes de L√ļcio Fl√°vio, fica f√°cil perceber por que ele incomoda tanto a elite da regi√£o, a ponto de ser v√≠tima constante de persegui√ß√Ķes e processos judici√°rios estapaf√ļrdios. Coisa que, de resto, jamais o abateu ou o intimidou. Ao contr√°rio, o animou a afiar e apurar sempre mais a pena, al√ßando voo para al√©m do Par√°.

Agora, com este Na trincheira da verdade: Meio s√©culo de jornalismo na Amaz√īnia, ele aproveita para comemorar 50 anos de atividade jornal√≠stica. O livro re√ļne artigos escritos especificamente sobre jornalismo ao longo de uma d√©cada. O painel oferece uma excelente oportunidade para se ver um profissional em plena atividade, esgrimindo temas que comp√Ķem seu leque de prefer√™ncias mas est√£o revestidos de interesse mais amplo.

A Amaz√īnia brasileira, a rigor, jamais saiu da agenda. Ora √© empurrada para as margens, ora volta ao centro, como acontece nos dias atuais, principalmente em fun√ß√£o das orienta√ß√Ķes pol√≠ticas do governo de Bras√≠lia, hostis √† preserva√ß√£o ambiental e indiferentes ao peso da regi√£o. Este entra-e-sai faz-se sempre por uma √ļnica porta, a que privilegia a espolia√ß√£o da Amaz√īnia, o menosprezo com que √© tratada, a for√ßa que nela t√™m os interesses econ√īmicos poderosos e as elites pouco conscientes do valor estrat√©gico daquela ampla e rica √°rea.

Como escreve L√ļcio Fl√°vio em um dos textos do livro, a Amaz√īnia "abriga 8% da √°gua superficial doce desse nosso maltratado planeta e um ter√ßo das florestas tropicais que nele ainda restam. Nestas matas, h√° a maior fonte de diversidade de vida, um volume de informa√ß√Ķes gen√©ticas que ainda somos incapazes de dimensionar - e mais incapazes ainda de preservar para o necess√°rio momento de estudo, revela√ß√£o, controle e respeito. Apesar dessas duas grandezas b√°sicas, em escala planet√°ria, temos nos notabilizado como predadores justamente destas que s√£o nossas maiores riquezas. Nenhum povo destruiu mais floresta, em t√£o curto prazo, como os colonizadores contempor√Ęneos da Amaz√īnia fizeram em apenas meio s√©culo. O desmatamento j√° consumado nessa regi√£o equivale a uma √°rea duas vezes e meia maior do que o Estado de S√£o Paulo, que concentra em seu territ√≥rio um ter√ßo da riqueza brasileira, ou 700 mil quil√īmetros quadrados. Na d√©cada de 1960, ela representava menos de 1% da Amaz√īnia. Hoje, est√° chegando a 20%. √Č uma devasta√ß√£o terr√≠vel e um desperd√≠cio criminoso de recursos naturais, muitos dos quais nem chegaram a ser inventariados".

√Č o momento mais que adequado, portanto, para que entre em cena a investiga√ß√£o e a reflex√£o cr√≠tica. Uma pol√≠tica democr√°tica e generosa para a Amaz√īnia √© a estrada que poder√° nos levar ao alcance deste "cap√≠tulo do G√™nesis que o criador n√£o escreveu, transferindo-o para a responsabilidade de sua criatura". Trata-se de algo revestido de grande urg√™ncia, para que os prop√≥sitos n√£o se distanciem demais da realidade.

Da "trincheira isolada" que montou em Bel√©m do Par√°, L√ļcio Fl√°vio sabe bem disso. Pelo combate jornal√≠stico que desenvolve h√° d√©cadas, sabe melhor que qualquer outro. Sabe, por exemplo, que todo trabalho de recria√ß√£o da Amaz√īnia s√≥ ter√° sucesso com a participa√ß√£o dos "homens de boa vontade do mundo inteiro".

Afinal, o capitalismo j√° descobriu que a Amaz√īnia √© um lugar excelente para se reproduzir, pois j√° faz parte do "circuito internacional do capital, fornecendo produtos como os min√©rios, a madeira, algumas outras mat√©rias-primas e, por meio de biombos, informa√ß√Ķes gen√©ticas valios√≠ssimas". Precisamente por isso, "√© hora de entrar em a√ß√£o o circuito do saber, da informa√ß√£o, da solidariedade do conhecimento".

A Trincheira da verdade √© um passo nessa dire√ß√£o. Firme, vibrante e corajoso como devem ser os passos decisivos. Mais que um convite √† reflex√£o, √© um livro que mobiliza a intelig√™ncia pol√≠tica e se abre por inteiro para uma nova Amaz√īnia, que ser√° parte integrante de um novo Brasil.

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Marco Aur√©lio Nogueira √© professor titular de teoria pol√≠tica e coordenador do N√ļcleo de Estudos e An√°lises Internacionais da Unesp

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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