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Insigths de Mark Lilla e chances de uma política democrática no Brasil

Paulo Fábio Dantas Neto - Março 2019
 


Circulando no Brasil, h√° meses, provocando coment√°rios elogiosos e indisposi√ß√Ķes, o livro de Mark Lilla, O progressista de ontem¬†e o do amanh√£, que agora li, animou-me a tocar em temas n√£o habituais para mim. O argumento liberal (mas n√£o tanto), norte-americano (mas n√£o s√≥), pegou-me pela veia, como discurso cr√≠tico vigoroso da onda identit√°ria que, segundo Lilla, teria capturado, h√° d√©cadas, as mentes da esquerda liberal do seu pa√≠s e feito o Partido Democrata capitular, face ao desafio de falar √† na√ß√£o.

Textos de Ant√īnio Ris√©rio j√° vinham me ajudando a entender o vi√©s pol√≠tico-cultural da argamassa identit√°ria que tem murado - h√° menos tempo, mas tamb√©m n√£o de hoje - parte relevante da esquerda brasileira. O livro de Lilla sugeriu-me uma analogia, que arrisco, mesmo ponderando a raz√£o de quem me alerta para uma distin√ß√£o: identit√°rios brasileiros n√£o refletem tanto o individualismo "pseudopol√≠tico" que Lilla v√™ nos movimentos que pautam seus correligion√°rios. O sotaque "anti", "p√≥s" ou "de"colonial, que movimentos brasileiros sustentam - mesclado, em curioso mix, com ret√≥ricas marxistas e perspectivas comunitaristas, religiosas e n√£o - faz com que a sua ancoragem pol√≠tico-partid√°ria d√™-se em (ou em torno de) partidos e parlamentares da esquerda iliberal, acentuando, nessa √ļltima, o seu pendor hist√≥rico a ser uma esquerda "negativa".

Al√©m dessa discuss√£o, √© interessante, no livro, a vis√£o reiterada de Trump como in√≠cio¬†de¬†nada, exacerba√ß√£o¬†degenerada¬†do ocaso da era Reagan. Interessante, tamb√©m, essa vis√£o n√£o levar o autor a um otimismo partidarista, que poderia parecer pragm√°tico, mas seria politicamente tolo. O seu racioc√≠nio √© outro: se o liberalismo norte- americano¬†est√° enredado na pol√≠tica identit√°ria, logo, desarma-se, politicamente, para ocupar o v√°cuo que se apresenta. E mais interessante ainda √© onde Lilla resgata cartas de navega√ß√£o para sair em busca de um discurso liberal "progressista", capaz, em tese, de fazer o Partido Democrata voltar a falar ao grande p√ļblico. √Č no repert√≥rio de m√©todos e valores de um conservadorismo pol√≠tico que em nada se confunde com a onda reacion√°ria mundial, da qual Trump √© a express√£o mais not√≥ria e Bolsonaro, um arremedo tropical.

Conservadorismo do bem, em primeiro lugar, porque o valor mais acenado no livro √© o de uma solidariedade associada √† ideia de bem comum. Lilla reivindica, com raz√£o, essa ideia como parte do patrim√īnio do liberalismo democr√°tico. Mas quando, no contexto da sua cr√≠tica √† pol√≠tica identit√°ria, ele prop√Ķe alterar a agenda dos democratas para n√£o deixar, na m√£o da direita, a bandeira do sentimento nacional americano, o bem comum surge como obra de uma cidadania pol√≠tica vivida atrav√©s de institui√ß√Ķes do Estado, n√£o de movimentos sociais. Desse modo, o valor da solidariedade tem tradu√ß√£o diretamente pol√≠tica, como ant√≠doto para um d√©ficit que √© mais de rep√ļblica do que de democracia. Nesse ponto pode-se chegar, tamb√©m, a uma analogia com o contexto brasileiro.

Em segundo lugar, conservadorismo moderado, pelo m√©todo pol√≠tico. A distin√ß√£o, at√© mesmo oposi√ß√£o, entre um esp√≠rito pol√≠tico conservador e a antipol√≠tica, populista e reacion√°ria, que se expande hoje, √© um n√≥ a desatar, para que o pensamento democr√°tico saia do aperto em que se encontra. Lilla ajuda a desat√°-lo, saltando por cima da dicotomia entre "nova" e "velha" pol√≠tica. Prop√Ķe prioridade √† pol√≠tica institucional (a "pol√≠tica dos pol√≠ticos") e a define como a mais aut√™ntica pol√≠tica dos cidad√£os. Contribui, assim, ao debate em que Marco Aur√©lio Nogueira tanto nos tem feito pensar.

Quanto mais come√ßo a conhecer (estimulado por alunos, √© bom assinalar) pensamento de gente conservadora como Russel Kirk, Oakeshott ou mesmo Roger Scruton, mais persuadido fico de que, em¬†suas reflex√Ķes, h√° afinidades, no modo de pensar a pol√≠tica como processo, com a esquerda positiva, que Gildo Brand√£o t√£o brilhantemente interpretou e em cuja tradi√ß√£o me reconhe√ßo. Por vezes vieram-me √† mente, ao ler algo daqueles conservadores, ou sobre eles, passagens de Arm√™nio Guedes ("politizar a ideologia, em vez de ideologizar a pol√≠tica") e coisas que escreveu Marco Ant√īnio Tavares Coelho, √† guisa de enquadramento imediatamente pol√≠tico de uma perspectiva program√°tica. Isso para ficar s√≥ em dois desbravadores de nexos entre socialismo, democracia e pol√≠tica, antes de 64, no antigo PCB. Vejo o rastro met√≥dico de Arm√™nio em¬†Luiz S√©rgio Henriques e, de outro modo,¬†em¬†Luiz Werneck Vianna. S√£o intelectuais que se sofisticaram estudando Gramsci, sem se conclu√≠rem como "gramscistas". Para justificar essa men√ß√£o, feita sem licen√ßa pr√©via deles, lembro dos belos usos que fazem, respectivamente, das obras de Giuseppe Vacca e Al√©xis de Tocqueville.

Mas, pelo que sei, em geral, os reformistas de matriz comunista nunca levamos essas afinidades muito a sério, a ponto de conferi-las. Já tensionados pela necessidade de avistar pontes com o campo reformista liberal para reelaborar "metas" (o que parece ser o caso, por exemplo, de alguns quadros históricos do PPS), deixamos de prestar atenção mais simpática a essa direita tradicional, quase virtual, não para pedir "filiação", mas como possível diálogo para aperfeiçoar um método que esse reformismo encontrou e adotou nos seus enfrentamentos críticos com esquerdas negativas, em variados tempos e países. Esse método, assimilado e curtido na política, parece ter mais parentesco com o da tradição política conservadora do que com o modus operandi da política liberal.

A cogita√ß√£o n√£o sai da cabe√ßa, por mais que seja √≥bvia - e ideologicamente inibidora - a oposi√ß√£o entre o conservadorismo pol√≠tico e o reformismo, esse que √©, hoje, talvez, nossa raz√£o de ser. Mas como fazer, nesse canto do mundo atual e nas circunst√Ęncias do Brasil, acontecerem reformas, num sentido "progressista", adjetivo que est√° no t√≠tulo do livro¬†de¬†Lilla? Vai e volta a ideia que ouvi, h√° mais de um ano, quase por acidente (ele talvez nem se lembre e aqui vai amistosa indiscri√ß√£o), de Rubem¬†Barboza Filho: devemos pensar¬†em reconstruir, pela esquerda, a ideia de na√ß√£o. Um tema conservador?

Parece-me imposs√≠vel fazer isso, democraticamente, sem¬†dormir com alguns dos que sempre vimos como aristocratas e, portanto, inimigos. Assim como ser√° imposs√≠vel, a pensadores conservadores brasileiros "do bem", seguir,¬†√† risca, a cartilha antirreformista (embora receptiva a reformas sem¬†ismos) de seus primos anglo-sax√Ķes. No passado foi Nabuco quem melhor compreendeu isso e, no entanto, seu "reformismo conservador" permanece at√© hoje como uma esp√©cie de elo perdido no pensamento pol√≠tico brasileiro. Talvez Lilla tenha me impressionado t√£o bem precisamente por ser - como foi Nabuco, em outro tempo e lugar - um autodeclarado liberal, ciente do valor que o m√©todo pol√≠tico conservador tem no embate que trava em¬†seu pr√≥prio campo reformista. Talvez devamos, os reformistas mesti√ßos de matriz comunista, fazer algo assim no nosso campo. E com isso, quem sabe, acharmos o elo perdido de uma boa tradi√ß√£o truncada.

A recep√ß√£o positiva¬†ao tipo de afinidade que Lilla explora, ao pensar, universalmente, sobre o seu pa√≠s, pode¬†ter, no m√≠nimo, entre n√≥s, o sentido pol√≠tico de propor uma sa√≠da de compromisso para evitar a alian√ßa do conservadorismo pol√≠tico esclarecido brasileiro (se √© que esse sujeito existe) com a impostura populista que venceu as √ļltimas elei√ß√Ķes. At√© certo ponto, √© bom que hoje o DEM¬†esteja l√°, se puder prevenir (mais) desatinos. Mas haver√° um ponto¬†em¬†que ser√°¬†desej√°vel¬†o¬†seu desembarque, para se juntar √† reconstru√ß√£o, como fez o embri√£o do PFL ao deixar o ninho da ditadura,¬†em¬†1984/85.

H√° um v√°cuo de op√ß√Ķes de di√°logo desse tipo no Brasil atual, porque o centro e a centro-direita liberais est√£o bloqueados pela tirania de um fundamentalismo econ√īmico que n√£o nos deixa esquecer o que Gramsci chamava de cosmopolitismo posti√ßo. Tamb√©m porque h√° algo de at√°vico no fato do PSDB n√£o conversar bem¬†com o MDB. O conv√≠vio no governo Temer (saudades daquele carnaval) foi a en√©sima demonstra√ß√£o disso. De outro lado, porque a esquerda n√£o petista (incluindo a nossa franja, autodefinida como reformista e democr√°tica) est√° rouca e de m√£os atadas, pelo √™xito do fundamentalismo resistencial do petismo,¬†em¬†ambientes onde ela atua. Por fim, porque parece quim√©rica a ideia de que o PT possa se reabilitar, no sentido democr√°tico e pluralista.

Isso tudo sinaliza que o resgate de uma política de compromisso talvez tenha que surgir de uma ligação direta entre direita e esquerda democráticas, sem a mediação, até aqui esperada, de um ex-centro político que é social-democrata na fala, liberal na meta e doutrinário no método. Se tiver futuro, essa ligação evocará a imagem arendtiana da política como um milagre de "nascimento", tornado possível pelos atos de prometer e perdoar. Virtualmente, começaria por um compromisso entre atores hoje invisíveis, sendo até provável que seja preciso criá-los. Mas, sem novos instrumentos políticos já nascidos, que tipo de ação pode ter lugar, hoje? Antes de tudo, há os instrumentos da "velha" política real, que podem ser operados com disposição nova, como recentemente argumentou, por exemplo, Eduardo Jorge, num encontro pós-eleitoral da Roda Democrática. Além disso, a ação do pensamento, como tem insistido Werneck Vianna.  

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Cientista político e professor da UFBA

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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