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#15M e o retorno da política às ruas. Algumas análises

L.W. Vianna, B.T. César, C. Buzzato, B.L. Rocha - Maio 2019
 



As manifesta√ß√Ķes estudantis da √ļltima quarta-feira, 15-05-2019, contra o contingenciamento dos gastos na √°rea da educa√ß√£o, revelam que a pauta do ensino "est√° sendo posta na rua" e que "a educa√ß√£o tornou-se parte da agenda dos jovens. Isso √© novo e √© bom", diz o soci√≥logo Luiz Werneck Vianna √† IHU On-Line. Na avalia√ß√£o do pesquisador, os protestos da semana passada s√£o marcados por uma "diferen√ßa fundamental" das mobiliza√ß√Ķes de Junho de 2013. "Junho de 2013 tinha uma conota√ß√£o antipol√≠tica, que a manifesta√ß√£o de agora n√£o tem. Ao contr√°rio, o que se v√™ - e eu como professor universit√°rio vejo com os estudantes iniciantes na universidade - √© uma grande atra√ß√£o pelos partidos pol√≠ticos; n√£o pelos que existem, mas a necessidade de se ter partidos est√° muito presente entre eles".

O professor Benedito Tadeu C√©sar observa que "o governo acendeu o estopim de uma bomba que vai explodir contra ele pr√≥prio". Ele se refere aos ataques e cortes de recursos para universidades, o que, na sua opini√£o, funcionou como uma esp√©cie de catalisador para todas as insatisfa√ß√Ķes contra o atual governo. Entretanto, pontua que √© cedo para associa√ß√Ķes com 2013, quando houve o que chama de um processo de "politiza√ß√£o" que se voltou contra o governo de Dilma Rousseff. Agora, a imprensa endossa o clamor das ruas, mas com um objetivo muito claro. "H√° uma estrat√©gia que √© bem tra√ßada em que tudo deve se dirigir para possibilitar a aprova√ß√£o da reforma da Previd√™ncia", observa. "N√£o sei at√© onde eles ir√£o nisso, pois querem tirar tudo da frente para aprovar essa medida, nem que seja o pr√≥prio presidente, por isso √© preciso ficar atento", acrescenta.

Na avalia√ß√£o de Cl√©ber Buzatto,"as mobiliza√ß√Ķes criam um campo pol√≠tico muito adverso" e poder√£o influenciar "significativamente na base parlamentar que poderia dar sustenta√ß√£o ao governo e √†s suas proposi√ß√Ķes", criando "dificuldades para que o governo mantenha as atitudes extremamente agressivas contra os direitos da popula√ß√£o brasileira".

De acordo com Bruno Lima Rocha, as manifesta√ß√Ķes ocorridas em 15 de maio ilustram de forma surpreendente a primeira grande cruzada contra as pol√≠ticas de austeridade que se iniciaram ainda no governo anterior. "No meio urbano e de forma nacionalizada foi a primeira grande jornada de luta contra as pol√≠ticas do governo Bolsonaro, incluindo tamb√©m a pol√≠tica herdada do governo Temer, que √© o ¬Ďteto dos gastos¬í e essa aberra√ß√£o inconstitucional e imbecilidade macroecon√īmica dizendo que ¬Ďacabou o dinheiro¬í", pondera. Ao analisar o fen√īmeno em perspectiva com Junho de 2013, Rocha avalia que as mobiliza√ß√Ķes operam em "linha de continuidade na rebeli√£o secundarista de 2015 em S√£o Paulo - contra o fechamento de escolas p√ļblicas por parte do ent√£o governo Alckmin - e a ocupa√ß√£o de escolas p√ļblicas no in√≠cio de 2016 - em Goi√°s e no Rio Grande do Sul, por exemplo - e na sequ√™ncia, no final de 2016 - j√° no governo Temer - na ocupa√ß√£o dos campi universit√°rios contra a aprova√ß√£o da PEC 95 no Senado", complementa.

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Luiz Werneck Vianna √© professor-pesquisador na Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica ¬Ė PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de S√£o Paulo ¬Ė USP, √© autor de, entre outras obras, A revolu√ß√£o passiva: iberismo e americanismo no Brasil¬†(Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicializa√ß√£o da pol√≠tica e das rela√ß√Ķes sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os tr√™s poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Di√°logos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012). Destacamos tamb√©m seu novo livro intitulado Di√°logos gramscianos sobre o Brasil atual (FAP e Verbena Editora, 2018), que √© composto de uma colet√Ęnea de entrevistas que analisam a conjuntura brasileira nos √ļltimos anos, entre elas, algumas concedidas e publicadas na p√°gina do Instituto Humanitas Unisinos ¬Ė IHU.

Benedito Tadeu C√©sar √© graduado em Ci√™ncias Sociais pela Faculdade de Filosofia, Ci√™ncias e Letras de Rio Claro, mestre em Antropologia Social e Doutor em Ci√™ncias Sociais com √™nfase em Estrutura Social Brasileira, ambos pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. √Č professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ¬Ė UFRGS. Seu depoimento foi concedido por telefone.

Cleber C√©sar Buzatto √© graduado em Filosofia. Atualmente trabalha como secret√°rio executivo do Conselho Indigenista Mission√°rio ¬Ė Cimi.

Bruno Lima Rocha √© p√≥s-doutorando em Economia Pol√≠tica, doutor e mestre em Ci√™ncia Pol√≠tica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul ¬Ė UFRGS e graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro ¬Ė UFRJ. Atua como docente de Ci√™ncia Pol√≠tica e Rela√ß√Ķes Internacionais e tamb√©m como analista de conjuntura nacional e internacional. √Č editor do portal Estrat√©gia & An√°lise, onde concentra o conjunto de sua produ√ß√£o midi√°tica, anal√≠tica e acad√™mica. √Č professor de gradua√ß√£o na Unisinos, nos cursos de Rela√ß√Ķes Internacionais e Jornalismo, e de Direito na Unifin.

Confira as entrevistas realizadas por Patricia Fachin, João Vitor Santos e Ricardo Machado.

Que avalia√ß√£o faz das manifesta√ß√Ķes de quarta-feira, levando em conta que essa foi a primeira grande mobiliza√ß√£o no pa√≠s depois de quatro meses de governo Bolsonaro?

Luiz Werneck Vianna - Foi uma manifesta√ß√£o extraordin√°ria. A lembran√ßa que me veio foi a de 1956, quando aconteceu outra manifesta√ß√£o de car√°ter nacional dos estudantes secundaristas por causa do aumento da passagem de √īnibus no Rio de Janeiro. Chegou a um ponto tal que o presidente da Rep√ļblica da √©poca, Juscelino Kubitschek, chamou os estudantes para conversar e a partir dessa negocia√ß√£o a coisa se resolveu. Tenho uma mem√≥ria muito forte disso porque eu era secundarista na √©poca e participei de algum modo dessa manifesta√ß√£o como massa dos estudantes que estavam protestando. Foi um movimento que incendiou a imagina√ß√£o dos estudantes na √©poca. Vi uma cena das manifesta√ß√Ķes em Manaus na televis√£o, que me impressionou muito, porque era uma manifesta√ß√£o de estudantes secundaristas, muito jovens, uniformizados. Se chegou em Manaus nessa for√ßa e nessa idade, √© porque isso vai ficar.

Benedito Tadeu C√©sar - Foram se acumulando a√ß√Ķes inconsequentes, impensadas que atingiram diversos segmentos da sociedade. Todo o governo tem um per√≠odo de cr√©dito, tem a legitimidade das urnas que lhe foi conferida e as pessoas ficam na expectativa. Mas, nesse governo, certas coisas foram se acumulando e atingiram um segmento que √© formador de opini√£o e que hoje est√° ramificado em todo o Brasil. S√≥ no Governo Lula foram criadas 18 novas universidades federais. Hoje, as grandes cidades brasileiras, e at√© as de porte m√©dio, t√™m estudantes em universidades p√ļblicas.

E ainda mais: esse √© um segmento de jovens, que pela pr√≥pria condi√ß√£o de juventude tem um √≠mpeto maior de expor suas opini√Ķes. Assim, quando esse segmento foi atingido, deu o troco. Fiz alguns coment√°rios, logo que come√ßaram os cortes, as agress√Ķes a universidades, e disse: o governo acendeu o estopim de uma bomba que vai explodir contra ele pr√≥prio. E acho que n√£o deu outra. O estopim foi aceso e as bombas est√£o explodindo.

Cleber Buzatto - Considero que as manifesta√ß√Ķes da √ļltima quarta-feira, 15-05-2019, foram de grande import√Ęncia pela amplitude de participa√ß√£o e abrang√™ncia, considerando todas as regi√Ķes do pa√≠s em que elas aconteceram. Foi um momento especial que aponta para uma nova fase no processo de rela√ß√£o dos cidad√£os brasileiros com este governo. N√≥s passamos por um per√≠odo conturbado em que as for√ßas populares estiveram retra√≠das do ponto de vista da mobiliza√ß√£o social, mas as a√ß√Ķes agressivas e antissociais por parte do governo Bolsonaro contribu√≠ram para acelerar um processo de articula√ß√£o e mobiliza√ß√£o das organiza√ß√Ķes, movimentos, sindicatos e tamb√©m das pessoas que n√£o t√™m tanta articula√ß√£o com movimentos. Acredito que as manifesta√ß√Ķes de quarta-feira servir√£o como um movimento de encorajamento para que outras manifesta√ß√Ķes possam acontecer nos pr√≥ximos meses, seja acerca do tema da educa√ß√£o, da defesa da educa√ß√£o p√ļblica de qualidade, seja do ensino b√°sico, superior e da pesquisa, ou relativamente a outras quest√Ķes, como a da previd√™ncia.

Considero tamb√©m de grande import√Ęncia a participa√ß√£o de representantes de povos ind√≠genas em diversas mobiliza√ß√Ķes no Brasil. Isso demonstra que os povos est√£o mobilizados em rela√ß√£o ao tema da quest√£o fundi√°ria, como eles j√° mostraram em outras ocasi√Ķes, como durante o Acampamento Terra Livre recentemente, que reuniu cerca de quatro mil ind√≠genas em Bras√≠lia. Eles tamb√©m est√£o mobilizados em rela√ß√£o ao tema da sa√ļde, como mostraram as mobiliza√ß√Ķes que fizeram no m√™s de mar√ßo em todas as regi√Ķes do Brasil. Isso demonstra que os povos est√£o muito atentos e est√£o tentando se articular com outras for√ßas sociais. A participa√ß√£o dos povos ind√≠genas nasmanifesta√ß√Ķes do dia 15 demonstrou mais uma vez a aten√ß√£o e a disponibilidade deles de se manifestarem e se mobilizarem em defesa dos seus direitos e dos direitos coletivos da popula√ß√£o brasileira.

Bruno Lima Rocha - Foram positivamente surpreendentes. A convocat√≥ria ultrapassou a estimativa dos mais otimistas defensores da agenda da educa√ß√£o p√ļblica no Brasil. O fato do Minist√©rio da Educa√ß√£o - MEC sob o governo Bolsonaro j√° estar no segundo titular da pasta, somado ao estilo do ministro Weintraub - acirrando os √Ęnimos e mantendo o grau de provoca√ß√£o tipo bate boca nas redes sociais - e a tentativa de enquadramento que amea√ßava a autonomia universit√°ria (alegando "punir por balb√ļrdia") motivou a unidade dentro do meio universit√°rio e das vastas rela√ß√Ķes que esse ambiente tem com a educa√ß√£o brasileira. Diria que no meio urbano e de forma nacionalizada foi a primeira grande jornada de luta contra as pol√≠ticas do governo Bolsonaro, incluindo tamb√©m a pol√≠tica herdada do governo Temer, que √© o "teto dos gastos" e essa aberra√ß√£o inconstitucional e imbecilidade macroecon√īmica dizendo que "acabou o dinheiro". √Č preciso reconhecer que o grande motivador da jornada de protesto foi o pr√≥prio governo Bolsonaro, causador de suas pr√≥prias crises e gerando unidades poss√≠veis: unidade da agenda universit√°ria (liderada pelas federais, mas seguida pelas demais); tentativa de uma unidade da direita que se alega l√ļcida (ex. defendendo o austeric√≠dio mas contra a cruzada olavista); uma unidade que vai das posturas nacionalistas de defesa do patrim√īnio p√ļblico at√© o protagonismo dos movimentos sociais da primeira linha (como o dos povos ind√≠genas e movimentos afro). Enfim, 15 de maio foi um momento importante, atrav√©s de uma pauta unificadora, onde at√© a direita n√£o olavista-bolsonarista se viu na obriga√ß√£o de reconhecer o m√©rito e a justi√ßa da causa. A pesquisa cient√≠fica e a capacidade instalada no meio universit√°rio brasileiro t√™m capilaridade maior do que se imaginava no in√≠cio do s√©culo XXI.

As manifesta√ß√Ķes podem produzir algum impacto no governo?

Luiz Werneck Vianna - √Č insond√°vel; esse governo √© imprevis√≠vel e n√£o tenho como responsavelmente prever o que o governo vai fazer. Imagino que ele deva ter ficado sensibilizado com a propor√ß√£o e a envergadura dessa movimenta√ß√£o, que foi uma movimenta√ß√£o estudantil de verdade, com o tema dos estudantes, o tema da universidade, do ensino. A quest√£o do ensino est√° sendo posta na rua; isso √© para ser saudado. A educa√ß√£o tornou-se parte da agenda dos jovens; isso √© novo e √© bom.

N√£o sei direito quem √© o governo; temos que ver quem √© o governo de verdade. √Č claro que os setores mais atentos e mais l√ļcidos est√£o fazendo a leitura correta dentro do governo sobre essa movimenta√ß√£o. Agora, h√° os que querem um antagonismo a todo pre√ßo, porque na verdade o que eles visam √© instabilizar institui√ß√Ķes: √© fechar o Congresso, √© fechar o STF. Essa √© que √© a ideia de fundo desses grupos mais "tresloucados", como os "olavetes". Eles querem essa mudan√ßa, mas isso n√£o √© o governo inteiro. O governo inteiro √© outra coisa. H√° uma disputa permanente de setores que sabem interpretar direito o que est√° se passando. Imagino que esses setores v√£o pressionar no sentido de mudan√ßas na pol√≠tica educacional.

Benedito Tadeu C√©sar - √Č muito cedo para fazermos qualquer avalia√ß√£o nesse sentido. Vai depender de como isso ser√° conduzido daqui para frente. Eu falei do estopim, mas se isso se torna um rastilho, como um rastilho de p√≥lvora, vai ligando a outras bombas e acho que isso pode tomar um volume muito grande e realmente abalarem o governo.

Faria aqui uma previs√£o: n√£o sei se esse governo chega ao seu final, podendo terminar muito rapidamente. N√£o sei se em decorr√™ncia dessas manifesta√ß√Ķes, mas desse ac√ļmulo de a√ß√Ķes que s√£o, em √ļltima an√°lise, inconsequentes, para reduzirmos tudo a uma express√£o. Esse √© o governo da inconsequ√™ncia.

Cleber Buzatto - Considero o governo Bolsonaro autocrata e autorit√°rio, de modo que as mobiliza√ß√Ķes ter√£o dificuldade de incidir e influir sobre os rumos do governo. Mas, evidentemente, as mobiliza√ß√Ķes criam um campo pol√≠tico muito adverso, o que certamente influir√° significativamente na base parlamentar que poderia dar sustenta√ß√£o ao governo e √†s suas proposi√ß√Ķes. Isso certamente criar√° ainda mais dificuldades para que o governo mantenha as atitudes extremamente agressivas contra os direitos da popula√ß√£o brasileira e, de modo especial, neste caso, relativo √† tem√°tica da educa√ß√£o.

Relativamente √† mobiliza√ß√£o da quarta-feira, as manifesta√ß√Ķes p√ļblicas do presidente Bolsonaro foram extremamente desrespeitosas para com a popula√ß√£o brasileira que se mobilizou, se manifestou, e isso √© um indicativo de que o governo buscar√° desqualific√°-las e deslegitim√°-las. Mas, de qualquer maneira, as manifesta√ß√Ķes provocam um campo pol√≠tico que certamente criar√° ainda mais dificuldades para a condu√ß√£o dessas pautas antipopulares por parte do governo Bolsonaro.

Bruno Lima Rocha - Insisto que se fossem apenas manifesta√ß√Ķes estudantis, o efeito seria menor. Mas como se trata da defesa da educa√ß√£o p√ļblica brasileira, chegando ao ponto da defesa da diversidade, da ci√™ncia e pesquisa nacionais al√©m de uma posi√ß√£o p√≥s-iluminista, a dimens√£o √© muito maior. O presidente foi eleito em cima de uma agenda tamb√©m ideol√≥gica, e manifesta convic√ß√£o na hostilidade como m√©todo de governar e arregimenta√ß√£o de sua pr√≥pria base. Esta forma de "agradar sua base" mira na educa√ß√£o, na pedagogia libertadora, nos √≠cones de Paulo Freire e An√≠sio Teixeira como seus alvos permanentes. Dentro dessa l√≥gica, de pressionar a pesquisa e a autonomia universit√°ria como uma forma de reduzir a amplitude de pensamento, a resposta foi inicialmente muito boa e coloca o governo contra a parede. Ocorre que n√£o se trata apenas do n√ļcleo da presid√™ncia, mas seguidas vezes vemos t√≠tulos de teses e de disserta√ß√Ķes sendo ridicularizados em grupos de m√≠dia - incluindo as tradicionais - como se os recursos da universidade fossem apenas para gerar discurso ideol√≥gico mais √† esquerda, ou "globalista". O impacto pode se dar em pol√≠ticas localizadas, como o MEC de portas abertas para reitores, mas deve manter a tentativa de ocupar o Minist√©rio como uma for√ßa conservadora e que vai de encontro aos consensos da √°rea, como por exemplo, o respeito √†s elei√ß√Ķes (n√£o parit√°rias!) para as reitorias.

O sistema educacional brasileiro √© complexo e bastante integrado e n√£o se nota reorienta√ß√£o de verbas que seriam do n√≠vel universit√°rio para a educa√ß√£o infantil ou fundamental. Isso √© balela e o governo n√£o vai rever sequer a pr√≥pria balela. Em termos gerais posso afirmar que o governo foi abalado - parcialmente - pelos atos coincidentemente no mesmo dia da convocat√≥ria do ministro Weintraub na C√Ęmara, contando com a assinatura de 307 deputados - faltaria um voto apenas para emplacar uma PEC, 308 votos. Dentro das batalhas simb√≥licas e de aus√™ncia de pol√≠ticas positivas do governo Bolsonaro, 15 de maio foi uma demonstra√ß√£o de for√ßa da sociedade contra a posi√ß√£o assumidamente retr√≥grada e reacion√°ria, anti-iluminista eu diria, do presidente e seus aliados ideol√≥gicos e de ocasi√£o.

Que aproxima√ß√Ķes e distanciamentos podemos fazer entre as manifesta√ß√Ķes de ontem e Junho de 2013?

Luiz Werneck Vianna - Vejo uma diferença fundamental, porque Junho de 2013 tinha uma conotação antipolítica, que a manifestação de agora não tem. Ao contrário, o que se vê - e eu como professor universitário vejo com os estudantes iniciantes na universidade - é uma grande atração pelos partidos políticos; não pelos que existem, mas a necessidade de se ter partidos está muito presente entre eles. A discussão, inclusive, sobre a participação nessa movimentação de protesto contra os cortes teve uma presença forte dos partidos que têm trabalho juvenil. Vejo aí uma diferença muito grande e positiva em relação ao tema de 2013, que era aquele clima contra os partidos e antipolítica em geral. Essa coisa não está posta agora; ao contrário.

Benedito Tadeu C√©sar - Tem algumas pessoas fazendo rela√ß√Ķes com 2013, mas acho que √© cedo ainda para fazermos esse paralelo. As grandes m√≠dias, principalmente a Globo, deu uma cobertura razo√°vel ao que aconteceu na semana passada, mas n√£o podemos esquecer que, em 2013, toda grande m√≠dia nacional ficou incentivando, durante semanas, para que as pessoas sa√≠ssem √†s ruas. Se acontecer algo parecido, acho que podemos chegar a uma dimens√£o similar √†quela de 2013. Sen√£o, acho que isso vai se mantendo e, √† medida que isso for se politizando mais, pode ser que atinja realmente o governo.

Uma semelhan√ßa com 2013 √© que foi uma rea√ß√£o mais ou menos espont√Ęnea, porque transcendeu as universidades. Teve uma origem dentro das universidades p√ļblicas, mas isso j√° chegou, inclusive, aos estudantes das escolas particulares. Pudemos ver muitas escolas particulares nas manifesta√ß√Ķes, em muitas escolas os alunos suspenderam as aulas, aderiram √† greve, ades√£o que chegou at√© mesmo aos professores da rede privada. E muitas pessoas que estavam nas ruas n√£o eram estudantes nem professores universit√°rios. Eu mesmo participei da manifesta√ß√£o e vi muita gente ali que necessariamente n√£o era p√ļblico universit√°rio, mas populares que est√£o aderindo.

Por todos esses fatores considero que isso est√° transcendendo o movimento corporativo. Um primeiro impulso √© corporativo, de rea√ß√£o, de defesa a uma agress√£o que foi feita. Ent√£o, os integrantes das corpora√ß√Ķes universit√°rias reagem, mas isso acaba atingindo segmentos muito mais amplos. Tem uma nova paralisa√ß√£o, n√£o sei se est√° confirmada, para o dia 30 de maio, que √© um chamamento da Uni√£o Nacional dos Estudantes - UNE, e h√° uma greve geral convocada para o in√≠cio de junho. Isso tudo pode demonstrar que as manifesta√ß√Ķes da √ļltima quarta-feira foram o estopim de uma grande revolta.

Politização e ação da mídia

Entretanto, para que isso ocorra, o movimento precisa ser politizado. Em 2013, a grande m√≠dia se encarregou de dar um direcionamento pol√≠tico para uma rea√ß√£o que era de uma situa√ß√£o de insatisfa√ß√£o difusa e acabou direcionando aquilo contra o governo de Dilma Rousseff. A ex-presidente Dilma tinha uma aprova√ß√£o alt√≠ssima e, depois de dois meses de manifesta√ß√Ķes, os √≠ndices de aprova√ß√£o do governo dela ca√≠ram para menos da metade.

O atual governo j√° tem uma aprova√ß√£o muito baixa, cerca de 30%, e a Dilma, na √©poca que come√ßaram as manifesta√ß√Ķes, tinha mais do que o dobro disso. Assim, as manifesta√ß√Ķes de agora come√ßam num percentual de insatisfa√ß√£o parecido com aquele que Dilma tinha como piso no momento das manifesta√ß√Ķes, depois esse percentual caiu ainda mais. Por isso digo que tudo isso pode causar um estrago grande. Acho precipitado dizer que tudo vai evoluir na mesma dire√ß√£o de 2013, mas destaco: as grandes m√≠dias se encarregaram de dar a dimens√£o pol√≠tica para as manifesta√ß√Ķes de 2013.

A mídia e o trabalho pela reforma da Previdência

N√£o acredito que a m√≠dia deva exercer o mesmo papel agora, na mesma propor√ß√£o. A cobertura da Rede Globo, por exemplo, deu bastante espa√ßo para as manifesta√ß√Ķes, inclusive eu n√£o imaginava que ela fosse dar todo aquele espa√ßo. Fiquei em d√ļvida e, depois de meses sem assistir televis√£o, liguei para acompanhar e me surpreendi. Agora, ela bateu o tempo todo no seguinte: "esse governo est√° criando a impossibilidade de aprovar aquilo que √© a grande necessidade, que √© a reforma da Previd√™ncia".

Na realidade, h√° uma estrat√©gia bem tra√ßada de que tudo deve se dirigir para possibilitar a aprova√ß√£o da reforma da Previd√™ncia. O que, c√° entre n√≥s, √© um grande caos. N√£o sei at√© onde eles ir√£o nisso, pois querem tirar tudo da frente para aprovar essa medida, nem que seja o pr√≥prio presidente, por isso √© preciso ficar atento. Vejo algumas pessoas dizendo que √© preciso derrubar o [Jair] Bolsonaro, mas se isso acontecer, entra o [Hamilton] Mour√£o. E a√≠? A√≠, n√£o tem mais, eles fazem o que quiserem. Essas bate√ß√Ķes de cabe√ßa v√£o desaparecer.

Expressar insatisfação, mas nos marcos institucionais

Realmente n√£o sei qual √© o melhor cen√°rio. Outro dia algu√©m comentou: "se correr o bicho pega e se ficar o bicho come". √Č mais ou menos isso, as perspectivas n√£o s√£o boas. Mas isso n√£o quer dizer que tenhamos que desistir. A sociedade civil tem que expressar as suas insatisfa√ß√Ķes e o ideal √© que possamos agir dentro do marcos institucionais. Cada vez que se rompe com algo sem ter de fato algo mais s√≥lido para colocar no lugar, d√° no que deu. Quando come√ßou o processo do impeachment e a Lava Jato, eu dizia que estavam abrindo a Caixa de Pandora e, depois, o que vai acontecer e como vai se fechar ningu√©m sabe. E foi o que aconteceu, pois quando se enfraquecem as institui√ß√Ķes democr√°ticas, abre-se espa√ßo para a tirania.

E a√≠ demora muito tempo para fazer uma recomposi√ß√£o. O melhor seria mesmo agirmos dentro dos marcos institucionais. Essa coisa de interromper mandato de presidente n√£o √© bom, temos que ter uma certa estabilidade. Agora, se criou um caos t√£o grande que se possibilitou a elei√ß√£o dessa chapa; se n√£o tivessem sido criadas todas aquelas situa√ß√Ķes que viabilizaram, que criaram aquele caos pr√©-eleitoral, essa chapa n√£o seria eleita nunca. Ela seria motivo de chacota. Agora o mal est√° feito, como vamos superar √© a quest√£o. √Č preciso apostar na capacidade de resist√™ncia da sociedade, da na√ß√£o brasileira. N√≥s vamos amargar, pelo menos, quatro anos de loucuras e do desmonte do Estado de bem-estar social prec√°rio que j√° t√≠nhamos, de desmonte das empresas p√ļblicas.

Reflexos nos estados

√Č um absurdo o que estamos vivendo. Estamos entregando as nossas riquezas, estamos desmontando uma estrutura tanto do plano estadual como do federal. Recebi ontem um v√≠deo do governador [do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB)] dizendo: "estou aqui nos Estados Unidos, conversando com investidores e tal". N√£o me contive e disse: isso √© crime de lesa-p√°tria. Ele est√° oferecendo, dizendo para virem para o Rio Grande do Sul, pois temos aqui um parque energ√©tico instalado no valor de tantos milh√Ķes de d√≥lares, temos uma rede rodovi√°ria no valor de tantos milh√Ķes, e vai setor por setor dizendo o quanto aquilo custou para os cofres p√ļblicos, quanto se tem de investimento p√ļblico em cima daquilo e dizendo para os investidores que tudo isso est√° √† venda. Veja, se quer promover desenvolvimento, n√£o √© dessa maneira que se faz, porque esse investimento est√° feito. Desta forma est√° se entregando investimento p√ļblico j√° realizado e somente trocando a titularidade, est√° entregando para outros.

Para promover crescimento é preciso novos investimentos. Se essa é a estratégia governamental, é preciso destacar as potencialidades do Estado e propor que os investidores coloquem novas empresas aqui. Agora, não transferir titularidade, pois isso não agrega nada, não gera emprego, pelo contrário.

Cleber Buzatto - As manifesta√ß√Ķes de 2013 iniciaram uma pauta propositiva e progressista de amplia√ß√£o de direitos coletivos, especialmente no que tange √† quest√£o do passe livre, mas n√£o s√≥. Na sequ√™ncia houve um empoderamento das for√ßas reacion√°rias antissociais, antipopulares, que acabaram ocupando as ruas com pautas conservadoras e at√© reacion√°rias e que, infelizmente, contribu√≠ram para o fortalecimento da candidatura do ent√£o candidato Bolsonaro. Uma s√©rie de outras quest√Ķes, mas de maneira especial a pris√£o do ex-presidente Lula, levaram-no √† presid√™ncia da Rep√ļblica.

Agora viveremos um novo momento em que a direita vencedora das elei√ß√Ķes est√° testando seu governo e tem se mostrado extremamente incompetente, autorit√°ria e tem perdido recorrentemente a ades√£o popular. Bolsonaro tem se mostrado uma ant√≠tese daquilo para o que se acreditou que seria eleito, inclusive no tema da corrup√ß√£o: hoje se visibiliza uma s√©rie de situa√ß√Ķes extremamente comprometedoras por parte do presidente e de seus familiares. Portanto, o contexto √© bastante diferente do de junho de 2013 e tende a favorecer a amplia√ß√£o das mobiliza√ß√Ķes por parte de setores progressistas da sociedade. O grande desafio √© manter a hegemonia nas ruas por parte dos setores progressistas, populares, e, por isso, √© importante que as pessoas se mantenham mobilizadas para que se evite qualquer tipo de mobiliza√ß√£o por parte dos setores reacion√°rios em rela√ß√£o √† disputa das ruas. Ganhar a disputa das ruas √© um elemento pol√≠tico fundamental tanto na defesa dos direitos da popula√ß√£o brasileira, especialmente daqueles mais pobres, explorados, quanto para que a tempestade desse governo reacion√°rio possa passar o mais breve poss√≠vel.

Bruno Lima Rocha - Eu sinceramente n√£o vejo grau de compara√ß√£o com 2013. As jornadas de 2013 n√£o iniciaram em junho e tampouco terminaram em 2013. Os atos de 2013 t√™m rela√ß√£o direta com os Comit√™s Populares da Copa e dos setores que em algumas capitais e regi√Ķes metropolitanas lutavam pela execu√ß√£o do Estatuto da Cidade e do direito √† mobilidade urbana. Em termos de polariza√ß√£o ideol√≥gica, no come√ßo ao menos, se deu um embate entre os setores √† esquerda do lulismo e a centro-esquerda governista. Houve "sequestro da pauta" atrav√©s da interven√ß√£o dos grupos de m√≠dia - especialmente em S√£o Paulo capital - e depois os "estudiosos" que em geral n√£o estavam na rua e n√£o conheciam quem se organizava fisicamente afirmam um "conflito de narrativas". O del√≠rio p√≥s-moderno d√° conta das interpreta√ß√Ķes narcisistas do p√≥s-2013. Mas, os efeitos concretos se deram, e a√≠ t√™m rela√ß√£o direta com os atos de 15 de maio. Vejo uma linha de continuidade na rebeli√£o secundarista de 2015 em S√£o Paulo - contra o fechamento de escolas p√ļblicas por parte do ent√£o governo Alckmin - e a ocupa√ß√£o de escolas p√ļblicas no in√≠cio de 2016 - em Goi√°s e no Rio Grande do Sul, por exemplo - e na sequ√™ncia, no final de 2016 - j√° no governo Temer - na ocupa√ß√£o dos campi universit√°rios contra a aprova√ß√£o da PEC 95 no Senado. Neste sentido, na dimens√£o socialmente organizada e √† esquerda do governo deposto pelo golpe jur√≠dico-parlamentar, observo alguma continuidade. Outro marco de continuidade, agora mais pr√≥ximo do p√≥s-2016, foi certa unidade por esquerda, mais pr√≥ximo de uma pauta de defesa do patrim√īnio p√ļblico e abertamente antifascista. Creio que esse ser√° o marco das manifesta√ß√Ķes deste ano, especificamente ainda neste primeiro semestre.

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Luiz Werneck Vianna - Sim. Queria dizer o quanto esses profetas do absurdo, que nessa hora preconizam o fim dos partidos, est√£o equivocados. Os partidos n√£o est√£o vivendo momentos finais nem aqui nem no mundo; eles est√£o vivendo crises que s√£o crises de crescimento. Os partidos v√£o sair melhor do que eram. √Č preciso dar tempo ao tempo, especialmente no nosso caso. Percebe-se, entre a juventude estudantil, um interesse pela pol√≠tica e pelos partidos muito grande. N√£o √© verdade que essa √© a hora dos movimentos sociais e que os partidos n√£o t√™m mais lugar no mundo. Isso √© coisa desses pol√≠ticos que se orientam pelos modismos, que vivem mudando de roupa para dizer sempre a mesma coisa, que n√£o h√° sa√≠da, especialmente os da esquerda, os que na esquerda preconizam essa posi√ß√£o de dissolu√ß√£o dos partidos. Portugal est√° l√° com seu sistema partid√°rio indo muito bem. Era um pa√≠s pobre e sem esperan√ßa ontem e est√° l√°, √© lugar de atra√ß√£o, despertou. ¬†









Fonte: IHU On-Line, maio 2019.

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