Busca:     


"√Č muito atraso. √Č preciso um novo despertar"

Luiz Werneck Vianna - Novembro 2020
 




Apesar de ainda n√£o ser predominante em termos de n√ļmeros, a "mensagem espiritual" do "aleluia, aleluia e a luta continua com Crivella" √© a que tem atra√≠do pessoas com in√ļmeras frustra√ß√Ķes para os "cultos materialistas dos neopentecostais". Numa sociedade "hedonista e consumista", cuja parcela significativa das pessoas vive para garantir a "sobreviv√™ncia material do cotidiano", n√£o √© de surpreender que a pol√≠tica seja exatamente o que √©: atrasada, e que a religi√£o, aos poucos, deturpe n√£o s√≥ o cristianismo, como a realidade para manter tudo como est√°.

Diante desse cen√°rio, o soci√≥logo Luiz Werneck Vianna, que da Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica do Rio de Janeiro ¬Ė PUC-Rio observa a realidade pol√≠tica brasileira, faz um alerta: "√Č preciso, sim, uma revis√£o profunda na orienta√ß√£o dos que cultuam valores mais permanentes, mais humanos, mais universais. √Č preciso encontrar algum espa√ßo". Nas elei√ß√Ķes municipais deste ano, destaca, n√£o vimos nada nesse sentido. Ao contr√°rio, "a elei√ß√£o foi a representa√ß√£o de um sentimento de inconformidade da popula√ß√£o com tudo o que a√≠ est√°".

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o sociólogo chama a atenção para o atraso da política brasileira, completamente alheia às urgências do país do ponto de vista social, ambiental e de saneamento. A superação do atraso político no país, adverte, virá somente se dermos um passo de cada vez e, nessa caminhada, sugere, "precisamos de uma jovem inteligência da qual se pode esperar alguma coisa nova, especialmente com origem nas universidades".

Confira a entrevista, feita por Patricia Fachin e Jo√£o Vitor Santos

O que o resultado das elei√ß√Ķes municipais deste ano revela sobre a pol√≠tica e a democracia de nossos tempos?

As elei√ß√Ķes foram um banho de sa√ļde na pol√≠tica brasileira. Revelam um pouco da verdade excessivamente existente no nosso mundo pol√≠tico, o que tamb√©m n√£o √© nada de espetacular. Num pa√≠s conservador, com voto conservador, o DEM aparece como um partido forte, com outras credenciais para a disputa presidencial mais √† frente, em 2022. A esquerda foi dividida, est√° sem programa. A elei√ß√£o foi a representa√ß√£o de um sentimento de inconformidade da popula√ß√£o com tudo o que a√≠ est√°. H√° uma esperan√ßa de que algo melhore com os candidatos de esquerda, mas eles n√£o t√™m programa, n√£o t√™m capacidade de articula√ß√£o, n√£o t√™m alian√ßas.

No Rio de Janeiro, se juntarmos os tr√™s candidatos de esquerda, cria-se um segundo turno, dada a divis√£o entre PT, PDT e PSOL. Essa divis√£o levou ao segundo turno, de modo que h√° alguns press√°gios no ar: nada de espetacular, mas terra √† vista. √Č poss√≠vel seguir nesta dire√ß√£o em que estamos e chegarmos a um porto, passo a passo. Essa elei√ß√£o foi mais um passo.

Ela tamb√©m precisa ser vista no contexto das elei√ß√Ķes americanas, que produz uma certa anima√ß√£o dos setores democr√°ticos a partir do que se passa na pot√™ncia hegem√īnica. A influ√™ncia do governo Trump no mundo embara√ßava as for√ßas democr√°ticas e impedia as possibilidades de avan√ßo. A remo√ß√£o [de Trump], que ocorrer√° em breve, abre uma bela janela de oportunidades.

O que tende a mudar nas rela√ß√Ķes do governo brasileiro com o novo governo americano de Joe Biden?

Abre uma janela de oportunidades imensa. Uma coisa interessante a ver nessa elei√ß√£o √© que, apesar de o tema ambiental ter tido um papel muito importante nas elei√ß√Ķes americanas e nas elei√ß√Ķes europeias recentes, essa quest√£o em particular n√£o ocupou papel relevante na agenda dos candidatos brasileiros. Nenhum partido levantou essa bandeira, em que pese a situa√ß√£o da Amaz√īnia e o que ocorre em mat√©ria de saneamento b√°sico.

Os partidos brasileiros ambientalistas se dissolveram, a pr√≥pria Marina est√° num lugar remoto nessa pol√≠tica. A aus√™ncia da agenda ambiental nessas elei√ß√Ķes √© um dado importante. A esquerda precisa descobrir temas, se comportar de forma inovadora. A esquerda est√° completamente defasada.

Vamos ver se receberemos algum alento a partir de agora para ver se avan√ßa e melhora. Mas n√£o h√° que se pensar numa esquerda exercendo um papel de protagonismo nas elei√ß√Ķes.

Qual a sua an√°lise quanto ao resultado das elei√ß√Ķes nas principais capitais do Norte, Nordeste, Sudeste e Sul?

Nesse diapasão, no caso de Pernambuco e Pará - que também é relevante -, venceram os candidatos de centro e em geral de centro-direita, com grande apoio eleitoral, como é o caso de Salvador, na Bahia.

A pandemia de 2020 refor√ßou uma s√©rie de quest√Ķes que est√£o em pauta na √ļltima d√©cada: a emerg√™ncia clim√°tica, a concep√ß√£o de uma outra l√≥gica econ√īmica, a necessidade de uma renda b√°sica universal e um redimensionamento do poder e das a√ß√Ķes estatais. Com base no resultado das elei√ß√Ķes, como devem evoluir essas propostas?

Esses debates se fizeram presentes, mas sem muita pot√™ncia. Seria fundamental que o tema da renda b√°sica tivesse mais relev√Ęncia nessa disputa, mas n√£o teve. Esse tema n√£o encontrou uma sustenta√ß√£o forte e n√£o creio que tenha amadurecido alguma coisa nessa dire√ß√£o.

Quais são as saídas para as mazelas sociais que temos no Brasil, para além da política como a conhecemos?

A sa√≠da para a popula√ß√£o brasileira √© pol√≠tica, mas o problema √© que a nossa pol√≠tica √© muito atrasada, primitiva, r√ļstica.

Houve um avan√ßo em rela√ß√£o √† √ļltima elei√ß√£o, que foi dominada pelo atraso e pela grosseria, pela "arminha" e esses s√≠mbolos idiotas que prevaleceram naquela √©poca e que agora foram banidos. Mas as quest√Ķes fundamentais, como renda b√°sica, quest√£o ambiental, n√£o foram discutidas em profundidade. Os portadores desses temas, quando apareceram, foram fracos, com baixa densidade eleitoral. Quem venceu essa elei√ß√£o foi o DEM.

H√° candidaturas de esquerda que ainda podem ter um desenlace melhor, como a Manuela [d¬í√Āvila], no Rio Grande do Sul. Mas a ver, tem que esperar. N√£o sei o que vai se passar.

N√£o h√° motivo para satisfa√ß√£o, mas, ao mesmo tempo, a satisfa√ß√£o tem que ser vista com olhos cr√≠ticos: n√£o se pode achar que agora Roma est√° diante de n√≥s. Foi um passo importante, mas ainda pequeno. Falta muito. Faltam personalidades pol√≠ticas relevantes, faltam partidos relevantes, faltam programas confi√°veis, falta muita coisa. √Č muito atraso.

A solu√ß√£o americana adotou uma postura muito bem-feita no interior do partido democr√°tico, com uma coaliz√£o que, apesar das diferen√ßas entre as correntes, levou √† vit√≥ria, em condi√ß√Ķes muito dif√≠ceis. Foi uma vit√≥ria importante, uma das mais importantes dos √ļltimos tempos. Mas eles tiveram personalidades pol√≠ticas maduras, respons√°veis, que souberam construir a frente que levou [Joe] Biden √† vit√≥ria. Aqui, quem aparece com esse papel?

No Rio de Janeiro, tr√™s candidatos de esquerda disputaram a elei√ß√£o. √Č claro que se abriu uma oportunidade ao Crivella, apesar de toda a rejei√ß√£o da cidade a essa figura. O PSOL apareceu como um esbo√ßo de um partido de esquerda de novo tipo, mas qual √© o programa do PSOL? Qual √© a experi√™ncia do socialismo real, por exemplo? Tudo √© muito prec√°rio. Mas agora avan√ßou-se, deu-se um passo importante, porque mostra a necessidade de novos passos √† frente.

Como v√™ a proposta de te√≥ricos, como o franc√™s Ga√ęl Giraud, que sugerem uma convers√£o espiritual e pol√≠tica para realmente transformar as institui√ß√Ķes sociais que precisam ser modificadas?

Se essa mudança está ocorrendo, não estou vendo. Vejo uma sociedade que ainda é hedonista, consumista, com a maioria da população empenhada na sobrevivência material do cotidiano. Não tem portador para uma visão profética, por ora.

Seria importante uma mudança espiritual nesse sentido?

Ah, seria. Claro que seria, mas a√≠ veja: a Igreja Cat√≥lica no Rio de Janeiro se deixou ultrapassar inteiramente por um culto materialista como o neopentecostalista. Ela se retirou da pol√≠tica e da Teologia da Liberta√ß√£o - deu um fim nisso - e deixou o campo aberto nas periferias para a penetra√ß√£o desses cultos hedonistas de economia da prosperidade e teologia da prosperidade. De modo que √© preciso, sim, uma revis√£o profunda na orienta√ß√£o dos que cultuam valores mais permanentes, mais humanos, mais universais. √Č preciso encontrar algum espa√ßo. Mas nessas elei√ß√Ķes, qual candidato poderia ser identificado com uma mensagem desse tipo? Nenhum. √Č "aleluia, aleluia e a luta continua com Crivella". Essa √© a mensagem espiritual que h√° por aqui.

O que a Igreja poderia fazer nesse sentido para contribuir a fim de alterar esse percurso?

A Igreja tinha instrumentos na Teologia da Libertação, mas ela a desarmou, expeliu seus quadros e abriu essa clareira para que esses cultos de fundo materialista preponderassem.

Como as universidades católicas podem contribuir para solucionar esta crise e o que elas podem oferecer à sociedade neste momento?

Isso depende das lideran√ßas, das personalidades, dos intelectuais cat√≥licos. Eles t√™m que ocupar o espa√ßo p√ļblico e se aproximar outra vez da vida das periferias. As periferias foram abandonadas. Quando voc√™ vai a uma favela, v√™ Assembleia de Deus por toda parte. Voc√™ n√£o v√™ mais Igrejas l√° dentro. Havia? Sim, havia.

Há anos o senhor é um dos intelectuais que chamam a atenção para a crise de pensamento na sociedade. Como alterar esse curso?

Precisamos de uma jovem intelig√™ncia da qual se pode esperar alguma coisa nova, especialmente com origem nas universidades. O Instituto Humanitas Unisinos ¬Ė IHU √© um exemplo disso, entre tantos outros lugares universit√°rios que t√™m sido portadores de uma nova mensagem, mais humana. Este ainda √© um processo muito embrion√°rio, um novo despertar.

Essas elei√ß√Ķes demonstram o come√ßo de um novo estado de coisas. √Č a sa√≠da de um pesadelo que vai se dissipando aos poucos e ainda nos assombra. Precisamos de paci√™ncia e tamb√©m de trabalho di√°rio, cotidiano.

A sociologia brasileira pode contribuir de que forma nesse processo?

Ela tem produzido interven√ß√Ķes interessantes, especialmente a chamada jovem e nova sociologia brasileira. Ela est√° muito atenta ao tema da desigualdade, ao tema da vida nas comunidades perif√©ricas; √© um despertar interessante cujos frutos come√ßam a aparecer. Inclusive com intelectuais sa√≠dos da pr√≥pria periferia, como foi o caso da Marielle Franco. Ela era soci√≥loga e saiu da PUC-Rio. A candidata do PSOL [Renata Souza] tamb√©m √© uma intelectual interessante. Da rela√ß√£o entre universidade e periferia est√£o come√ßando a brotar frutos, com a forma√ß√£o de intelectuais sa√≠dos dos pr√≥prios setores marginalizados. Estes s√£o capazes de ser portadores de novidades no que se refere a uma pol√≠tica social de novo tipo, mais avan√ßada.

A minha universidade, a PUC-Rio, cumpre um papel muito interessante nessa dire√ß√£o, especialmente na aproxima√ß√£o com os jovens da periferia que ela acolhe por meio de bolsas de estudo para os seus cursos, formando jovens cientistas sa√≠dos das classes subalternas e que t√™m escalada na esfera p√ļblica. Marielle √© um caso de evid√™ncia solar, mas h√° tantos outros. Mas √© numa escala muito reduzida. A rela√ß√£o da universidade, por exemplo, com a favela da Mar√© √© interessante. O candidato a vice-prefeito da Martha Rocha, do PDT [Anderson Quack], √© uma lideran√ßa da Central √önica das Favelas ¬Ė Cufa. √Č por a√≠ que a banda tem que tocar. √Č preciso come√ßar a trocar o ar. Vamos ver.

Como as Humanidades podem dialogar com as demais ciências nas universidades?

Essa √© uma quest√£o dif√≠cil. Ainda h√° muitas pontes a serem constru√≠das nessa dire√ß√£o. Mas eu tenho a impress√£o de que isso tem melhorado. Olhando para a minha universidade, vejo que a rela√ß√£o tem melhorado. Mas ainda n√£o tenho condi√ß√Ķes de falar com maior clareza sobre isso.

----------

Observador político 2020




Fonte: IHU On-Line & Gramsci e o Brasil

  •