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Friedrich Engels, o marxismo e a sociedade contempor√Ęnea

George Gurgel de Oliveira - Dezembro 2020
 



Estamos comemorando o bicentenário de nascimento de Friedrich Engels, um dos maiores pensadores do século XIX, junto com seu amigo e irmão siamês Karl Marx.

Engels nasceu em Barmen, na Alemanha, em 28 de novembro de 1820. Teve uma formação cosmopolita. Fez o serviço militar em Berlim, em 1841, quando passou a conhecer as ideias de Hegel, e integrou-se ao grupo dos Jovens Hegelianos, sob a liderança de Bruno Bauer. Após o serviço militar, retornou a Barmen e, por imposição paterna, foi para a Inglaterra, em 1842, para a cidade de Manchester, berço da Revolução Industrial.

A paix√£o revolucion√°ria tomou conta dele, desde jovem. Quando chegou √† Inglaterra, sob a influ√™ncia de Moses Hess, que conheceu em Berlim, suas ideias j√° eram socialistas. Em Manchester, foi trabalhar na ind√ļstria t√™xtil, em uma f√°brica que o pai tinha em sociedade com ingleses. Sua perman√™ncia em territ√≥rio brit√Ęnico, o contato permanente com trabalhadores industriais, com o pr√≥prio movimento owenista e cartista, bem como os seus pr√≥prios estudos sobre a situa√ß√£o dos oper√°rios naquele pa√≠s levaram √† an√°lise e √† publica√ß√£o, em 1845, do seu primeiro livro: A condi√ß√£o da classe trabalhadora na Inglaterra, quando tinha 24 anos incompletos. Trata-se de um cl√°ssico sobre a situa√ß√£o prec√°ria das atividades laborais nas f√°bricas inglesas, no s√©culo XIX, envolvendo tamb√©m o trabalho infantil, da mulher e as desumanas jornadas laborais.

Foi quando conheceu a operária irlandesa Mary Burns, que se tornou sua companheira e muito o ajudou no conhecimento da realidade dos trabalhadores ingleses, irlandeses e do movimento operário na Inglaterra. Assim, além da atividade fabril, viveu plenamente o mundo dos trabalhadores, o que foi fundamental para seu trabalho intelectual e revolucionário.

Então, Engels chegou à conclusão de que a classe operária, surgida com a Revolução Industrial, era o ator decisivo para a construção da sociedade futura, a sociedade comunista.

Depois de Manchester, viveu na Bélgica e na França, onde teve o primeiro efetivo encontro com Karl Marx, no outono de 1944, no Café La Regence, em Paris. Desde então, iniciou uma parceria intelectual e uma amizade que se estenderam por toda a vida, tendo participado ativamente do processo político-revolucionário de construção dos fundamentos, na maioria das vezes em parceria com o próprio Marx, daquilo que, a partir da morte deste e dele próprio, passou a ser conhecido como marxismo.

A Sagrada Família foi o primeiro livro escrito junto por eles e publicado ainda em 1845. Nesse período, afastaram-se do materialismo de Feuerbach e dos Jovens Hegelianos, construindo uma original concepção materialista, dialética, da história. Na Ideologia alemã, trabalho realizado no período 1845-1847, eles fazem uma síntese desta concepção. Ainda desse período são os trabalhos de Engels sobre a economia política e a relação entre a Revolução Industrial e o desenvolvimento de uma consciência dos trabalhadores como classe na Inglaterra, contribuição que foi muito valorizada por Marx.

Desafiados pela internacionaliza√ß√£o do movimento dos trabalhadores, os dois come√ßaram a participar da Liga dos Justos, na se√ß√£o alem√£ posteriormente Liga dos Comunistas. No ano em que lan√ßaram o Manifesto comunista, ocorreu a Revolu√ß√£o de 1848, na Fran√ßa, que se estendeu por boa parte da Europa. Eles retornaram √† Alemanha, onde participaram do movimento revolucion√°rio at√© √† vit√≥ria da contrarrevolu√ß√£o. Trabalharam no jornal Nova Gazeta Renana, per√≠odo em que Engels come√ßou a se interessar pela quest√£o militar, objeto de sua pesquisa por toda a vida. Suas impress√Ķes sobre a revolu√ß√£o e a contrarrevolu√ß√£o na Alemanha est√£o registradas em artigos para o New York Daily Tribune (1851-1852), assinados por Marx.

Depois da derrota da Revolução de 1848, saíram da Alemanha, viveram na Suíça e, posteriormente, foram para a Inglaterra. Engels, em 1850, voltou a viver em Manchester, voltando a trabalhar na fábrica de copropriedade da família durante 20 anos. Além do trabalho fabril, deu continuidade ao trabalho intelectual e político, na divulgação das suas ideias, sempre em parceria com Marx. Desta época, registre-se o interesse de Engels em relação às ciências naturais. Começou a fazer uma conexão entre a dialética e a concepção materialista da natureza, aprofundando seus estudos sobre as ciências naturais. Este trabalho inacabado, Dialética da natureza, foi publicado posteriormente em Moscou, em 1925.

Neste per√≠odo, Marx e Engels j√° divulgavam seus trabalhos e suas ideias nas organiza√ß√Ķes e nos movimentos dos trabalhadores, nos jornais e peri√≥dicos revolucion√°rios na Europa e nos Estados Unidos. A luta pol√≠tica se intensificava. O "fantasma do comunismo" rondava a Europa, materializado em Marx e Engels, cujas ideias j√° eram criticadas e proibidas de circular nos grandes jornais da √©poca.

Ap√≥s 20 anos de trabalho, em Manchester, e acumular um razo√°vel patrim√īnio, Engels, em 1870, foi finalmente viver em Londres, muito pr√≥ximo √† casa de Marx. Desde ent√£o, com a sa√ļde de Marx ficando cada vez mais debilitada, Engels foi assumindo a lideran√ßa do movimento revolucion√°rio, passando a ser uma das principais lideran√ßas da Internacional, influenciando o trabalho pol√≠tico e de organiza√ß√£o dos trabalhadores na Europa e nos EUA.

Ent√£o, fez um enfrentamento pol√≠tico e ideol√≥gico contra as correntes positivistas do Partido Social-Democrata da Alemanha. S√£o importantes contribui√ß√Ķes desta √©poca o Anti-D√ľhring, publicado em 1878, considerado a primeira tentativa de uma exposi√ß√£o geral das ideias de Marx, reafirmando os princ√≠pios do materialismo hist√≥rico-dial√©tico na luta interna travada contra o positivismo da social-democracia alem√£, e Do socialismo ut√≥pico ao socialismo cient√≠fico.

Nesta altura, Engels foi se tornando a principal liderança da Internacional junto aos novos movimentos socialistas, surgidos a partir de 1880, inclusive já com a participação dos revolucionários russos exilados. Publicou, em 1884, A origem da família, da propriedade e do Estado e Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, em 1886. Após a morte de Marx, em 1883, Engels dedicou-se à organização e à publicação do segundo e terceiro volumes de O capital, ocorrida nos anos de 1885 e 1894. Foi um trabalho fundamental para o conhecimento e a publicação da obra seminal de Marx. Há um reconhecimento muito grande deste trabalho realizado por Engels, inclusive o volume 3, por muitos reconhecido como uma coautoria.

Participou também ativamente da formação da Segunda Internacional, considerando o melhor caminho dos trabalhadores para evitar uma guerra entre a Alemanha e a França. Vislumbrara a tragédia que aconteceria com a I Guerra Mundial!

Finalmente, nos √ļltimos anos de sua vida, Engels identificou importantes mudan√ßas no capitalismo do final do s√©culo XIX, inclusive o papel que o Parlamento j√° desempenhava na sociedade europeia. Na "Introdu√ß√£o" feita para a republica√ß√£o do livro de Marx, As lutas de classe na Fran√ßa, ele chama a aten√ß√£o para a possibilidade de novas maneiras de os trabalhadores chegarem ao poder. Considerava que n√£o deveriam mais pensar na vit√≥ria da Revolu√ß√£o como uma √ļnica batalha e, sim, que deveriam progredir, de posi√ß√£o em posi√ß√£o, com uma luta dura e tenaz. Apontava, assim, alternativas de chegada dos trabalhadores ao poder, sinalizando novas poss√≠veis formas de hegemonia a serem conquistadas pelo proletariado no caminho de supera√ß√£o da sociedade capitalista.

Trabalhava na edição do volume 4 de O capital, quando morreu no ano de 1895.

Ideias excepcionais

Foi desta forma que Marx e Engels constru√≠ram um m√©todo de an√°lise - o do materialismo hist√≥rico-dial√©tico -, para compreender as rela√ß√Ķes pol√≠ticas, econ√īmicas e sociais, bem como as rela√ß√Ķes da sociedade com a pr√≥pria natureza. A partir desta √ļltima a humanidade constr√≥i a realidade social, uma segunda natureza, por assim dizer.

Nesta perspectiva constru√≠ram uma interpreta√ß√£o materialista e dial√©tica dos fen√īmenos pol√≠ticos, econ√īmicos e sociais, particularmente do capitalismo industrial e agr√°rio do s√©culo XIX, fazendo uma cr√≠tica contundente ao funcionamento deste sistema na sua totalidade, dos seus meios de produ√ß√£o, do seu processo de acumula√ß√£o, da natureza e da origem do trabalho, do capital e dos conflitos e contradi√ß√Ķes inerentes √† sociedade capitalista.

Uma das características principais do pensamento tanto de Engels quanto de Marx é a indissociabilidade entre a teoria e a prática. Precisavam da filosofia e das ciências em geral não apenas para conhecer melhor a realidade e, sim, principalmente, para transformá-la. Na sociedade capitalista, identificaram nos trabalhadores assalariados, particularmente no proletariado industrial e na sua organização, os agentes de realização da revolução mundial, que deveria começar nos países capitalistas da Europa industrial, no caminho da construção de uma nova sociedade, a sociedade comunista.

A sociedade futura, a ser constru√≠da, teria a hegemonia e a valoriza√ß√£o dos que trabalham, o trabalho liberto, em coopera√ß√£o, sem exploradores e explorados. Desde ent√£o, as deriva√ß√Ķes e as tend√™ncias mais diversas, originadas do pensamento e da atua√ß√£o revolucion√°ria de Marx e de Engels, constru√≠ram, ainda no s√©culo XIX, durante suas vidas, uma hegemonia no movimento pol√≠tico e de organiza√ß√£o dos trabalhadores a n√≠vel mundial. Nos s√©culos XIX e XX, as ideias dos dois constru√≠ram, nas mentes e nos cora√ß√Ķes de trabalhadores do mundo inteiro, a possibilidade da revolu√ß√£o socialista.

A partir da vit√≥ria, em 1917, da Revolu√ß√£o de Outubro, liderada por Lenin, legat√°ria das concep√ß√Ķes de Marx e de Engels, as ideias e as obras destes dois excepcionais pensadores e ativistas alem√£es passaram a ter uma ampla divulga√ß√£o em todo o planeta. Ap√≥s a morte de Lenin, como "marxismo-leninismo", eram ideias e obras apropriadas de acordo com a conveni√™ncia oficial, inclusive no pr√≥prio movimento comunista internacional, que tinha uma forte subordina√ß√£o √† Uni√£o Sovi√©tica.

A revolu√ß√£o russa abriu o caminho das revolu√ß√Ķes socialistas vitoriosas. Posteriormente, a China, os pa√≠ses do Leste europeu e Cuba herdaram este mesmo modelo sovi√©tico, que se esgotou como refer√™ncia com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o t√©rmino da URSS, em 1991.

Ainda no s√©culo XX, tais ideias foram apropriadas por muitos movimentos de luta contra o colonialismo e de independ√™ncia dos povos da √Āfrica, da √Āsia e da Am√©rica Latina. Fora do "marxismo-leninismo", nos pa√≠ses da Europa Ocidental e, particularmente na It√°lia, com a contribui√ß√£o original de Gramsci, buscou-se um caminho original para a revolu√ß√£o no Ocidente, diferente do modelo sovi√©tico.

Assim, as ideias de Marx e Engels foram e continuam sendo discutidas na atualidade, principalmente nos per√≠odos das crises recorrentes do capitalismo. Os mundos da cultura e do trabalho continuam desafiados √† constru√ß√£o de um humanismo que incorpore os novos desafios e a complexidade da sociedade atual, que funciona em rede, sob a press√£o permanente das ruas, dos movimentos pol√≠ticos, econ√īmicos, sociais, ambientais, religiosos, feminista e LGBT+. Tudo isso sempre respeitando a diversidade humana e a natureza, na perspectiva de constru√ß√£o de uma outra forma√ß√£o hist√≥rica com a hegemonia dos que trabalham e produzem a riqueza material e cultural da humanidade.

Por fim, queremos falar do ser humano Engels. Ele tinha, na sua vida cotidiana, a generosidade da proposta revolucion√°ria que vislumbrava para a humanidade. O humanismo de Engels era categ√≥rico. Al√©m da atitude muito conhecida de apoiar financeiramente a fam√≠lia de Marx por muitos anos, at√© e depois da morte do amigo, fez muito mais: deixou no seu testamento a determina√ß√£o de que os seus bens materiais e financeiros deveriam ser divididos em tr√™s partes: a primeira, para as filhas de Marx; a segunda, para os velhos companheiros de luta; e a terceira e √ļltima, para o Partido Social-Democrata da Alemanha, do qual foi fundador, junto com Marx. Ainda, com destaque, observou: quando todos recebessem os recursos do testamento, que tomassem um bom vinho branco, de que gostava muito, de prefer√™ncia um Chateau Margot, safra 1848.

Assim, Engels viveu plenamente a vida: revolucion√°rio nas mudan√ßas que queria para a constru√ß√£o de um mundo melhor; revolucion√°rio na vida cotidiana, nas rela√ß√Ķes pol√≠ticas, econ√īmicas, sociais e afetivas, com senso refinado de bom humor e com bons vinhos...

Por tudo isso, precisamos lembrar e comemorar os 200 anos de nascimento de Friedrich Engels, humanista do século XIX, da sociedade presente e da futura.

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Professor da UFBA e da Oficina da C√°tedra da UNESCO-Sustentabilidade

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil

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