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Gramsci vs. Turati: o drama original do comunismo italiano

Massimiliano Amato - Dezembro 2020
 



Ser√° poss√≠vel tirar a cis√£o de Livorno, cujo centen√°rio acontecer√° daqui a pouco mais de um m√™s, da trilha √ļnica da infinita discuss√£o - que na pr√°tica atravessou dois ter√ßos do s√©culo XX, digamos, do fatal 1921 at√© o igualmente fatal 1989 - sobre quem, entre Turati e Gramsci, tinha raz√£o? Em outras palavras, pode-se tentar reconstruir o evento mais traum√°tico da hist√≥ria da esquerda italiana, arrancando-o das leituras ideol√≥gicas que continuam a se suceder e a se sobrepor, evitando obstinadamente o problema principal que aquela dolorosa separa√ß√£o gerou, vale dizer, a vit√≥ria da rea√ß√£o, que desemboca 21 meses depois no golpe saboiano-fascista?¬†

Certamente, √© perigoso o terreno no qual se coloca Ezio Mauro em La dannazione. 1921. La sinistra divisa all¬íalba del fascismo (Mil√£o, Feltrinelli, 2020, 190p.). Porque tangencia a chamada "hist√≥ria contrafactual" que os historiadores profissionais rejeitam como a peste. De fato, n√£o se pode em absoluto demonstrar que os socialistas unidos teriam conseguido evitar a tomada de poder mussoliniana. Ao contr√°rio, √© altamente prov√°vel que, consideradas as circunst√Ęncias que a determinaram (in primis, o papel desempenhado por V√≠tor Emanuel III e a continuada agonia do Estado liberal), a Turati e a Gramsci n√£o se permiria - para usar uma met√°fora futebol√≠stica - tocar na bola. Ainda que tivessem continuado a jogar no mesmo time.

E, no entanto, a tese central do livro - que toca na carne viva de uma quest√£o crucial da hist√≥ria pol√≠tica italiana do s√©culo XX: em rela√ß√£o √† esquerda italiana, a impossibilidade, hoje comprovada e quase definitiva, de ser for√ßa hegem√īnica de governo, como o foram, para exemplificar, os trabalhistas ingleses, os social-democratas alem√£es e suecos, e tamb√©m os socialistas franceses - merece ser discutida e aprofundada. Quando menos porque a percep√ß√£o de que aquela divis√£o s√≥ faria o jogo do "inimigo" fora tida tamb√©m por dirigentes socialistas mais em sintonia com Moscou do que (ou seja, zero) o fosse Turati: "N√≥s nos devoraremos entre n√≥s e a burguesia acabar√° tendo um pouco de paz", escreve Giacinto Menotti Serrati em outubro de 1920.

Teatro Goldoni, 21 de janeiro de 1921

Com uma opera√ß√£o historiogr√°fica n√£o isenta de riscos (mas para que serve reconstruir os acontecimentos do passado sen√£o para fornecer os instrumentos para ler o presente?), Mauro estabelece o ponto inicial desta impot√™ncia, que teve a dura√ß√£o de um s√©culo, em tudo o que aconteceu no Teatro Goldoni, de Livorno, entre 15 e 21 de janeiro de 1921. Neste momento, um partido por ampl√≠ssima maioria controlado n√£o pelo velho le√£o Filippo Turati, que o fundara havia 29 anos em G√™nova, federando um universo m√ļltiplo e magm√°tico de movimentos de luta e liberta√ß√£o humana, mas pelos maximalistas de Serrati e Lazzari (que, de fato, no fim venceriam o congresso), explodiu em raz√£o do diktat - refor√ßado na tribuna num tom e numa linguagem de inusitada viol√™ncia pelo b√ļlgaro Kristo Kobakchev - do Komintern exclusivamente funcional √† exig√™ncia da R√ļssia dos sovietes de romper a camisa de for√ßa do isolamento internacional que as outras pot√™ncias imperialistas europeias lhe impuseram. Os socialistas italianos n√£o haviam votado os cr√©ditos de guerra: j√° esta particularidade (com muitas outras, na verdade) tornavam-no um unicum no panorama do socialismo europeu do tempo. E o PSI continuaria a ser um caso exemplar durante grande parte da sua hist√≥ria, ainda por muit√≠ssimos anos depois da guerra e da queda do fascismo. Em suma, a extrema dureza com que Kobakchev repetiu o ultimato dos bolcheviques, sintetizado pelos famosos 21 pontos (que partiam da quest√£o principal e decisiva da troca de nome do partido, de socialista para comunista), o desd√©m que Bordiga dedicou ao congresso ("Vamos embora, companheiros, e levaremos conosco tamb√©m o nobre passado do socialismo italiano"), a refinada, mas dur√≠ssima, catilin√°ria antirreformista pronunciada na tribuna pelo futuro pai da Rep√ļblica, Terracini (que poucos anos antes de morrer, em 1982, afirmaria solenemente, no microfone da RAI, que "em 1921 Turati tinha raz√£o"), seguido logo em seguida por outra fundadora do PC da It√°lia, Camilla Ravera, n√£o s√£o exagerados relidos hoje. J√° ent√£o o eram.

Os editoriais de L’Ordine nuovo

Precisamente, um dos grandes "focos" da narra√ß√£o de Mauro, que com este livro se confirma como um dos mais l√ļcidos e eficazes historiadores p√ļblicos em circula√ß√£o, √© a dolorida revisita√ß√£o do √≠ntimo tormento de Antonio Gramsci, o intelectual que em 1917 analisara criticamente no Avanti! a tomada do Pal√°cio de Inverno ("A revolu√ß√£o contra¬†O Capital") e que, a partir de 1919, preparara a cis√£o com flamejantes editoriais em L¬íOrdine nuovo, o jornal nascido em Turim de uma costela do Avanti!, fundado com Angelo Tasca e Palmiro Togliatti. Enquanto este √ļltimo permanece em Turim, oficialmente para garantir a sa√≠da do cotidiano, em Livorno, por toda a dura√ß√£o do congresso, Gramsci, que numa carta a Togliatti de Moscou, de agosto de 1923, chegar√° a dizer que "a cis√£o de Livorno (o afastamento da maioria do proletariado italiano em rela√ß√£o √† Internacional Comunista) foi sem d√ļvida o maior triunfo da rea√ß√£o", est√° sumido na sombra de um camarote do Goldoni. N√£o participa da discuss√£o apesar de t√™-la orientada por um bi√™nio. O clima inflamado da reuni√£o parece quase intimid√°-lo. Evita o confronto com seu antagonista Turati, o advers√°rio que Lenin indicara √† fac√ß√£o comunista, o renegado a expulsar do partido junto com toda a corrente dos gradualistas, culpado por haver repelido sem apela√ß√£o a solu√ß√£o revolucion√°ria. Em todo caso, n√£o teve fins de argumenta√ß√£o a confus√£o ensandecida em que subitamente se transforma o XVII Congresso do Partido Socialista Italiano, com Serrati a provocar Bombacci com um canivete e o futuro repubblichino de Sal√≤, que terminaria enforcado, e de cabe√ßa para baixo, na pra√ßa Loreto com Mussolini, a sacar no seu camarote uma pistola, mostrando-a √† plateia dos delegados.

Gramsci é Livorno e Turim

Mas, mesmo sem subir √† tribuna dos oradores, Gramsci "√©" Livorno, assim como Turim, a cidade da sua educa√ß√£o ideol√≥gica e pol√≠tica, com seu proletariado industrial, √© a principal "incubadora" da cis√£o. O cap√≠tulo que o piemont√™s Mauro dedica √† narrativa da ex-capital saboiana durante o bi√™nio vermelho √© uma esp√©cie de livro no livro, porque cont√©m uma an√°lise n√£o convencional dos fatores pelos quais, entre 1919 e 1921, na It√°lia - ou pelo menos na sua parte mais avan√ßada - o mito da revolu√ß√£o desarrumou todas as categorias, morais, pol√≠tica, ideol√≥gicas, civis, do compromisso moderado no qual se apoiava a It√°lia sa√≠da do Risorgimento. Um compromisso a que, contrariamente ao que sustentar√° a vulgata por quase um s√©culo, Turati - um marxista oitocentista, neopositivista, portanto, com todos os limites desta forma√ß√£o - jamais se resignara verdadeiramente. O sentido real do seu "gradualismo" podia ser encontrado diretamente no Capital, n√£o certamente no revisionismo bernsteiniano nem nos outros socialismos ut√≥picos do final do s√©culo XIX. Ainda que n√£o declarado explicitamente pelo autor, este √© o √ļltimo, fundamental "foco" do livro. Aquele que ajuda a explicar o conceito de "maldi√ß√£o" que o t√≠tulo traz.

Questão de método e de mérito

Turati n√£o era um reformista. N√£o o era pelo menos na acep√ß√£o negativa que o leninismo dava ao termo. A cis√£o de Livorno produz-se em torno de uma quest√£o de m√©todo que deixa entrever um gigantesco problema de m√©rito. A diverg√™ncia revolu√ß√£o vs. reformas n√£o se refere √† modalidade de conquista do Pal√°cio por parte do proletariado, ou pelo menos n√£o s√≥ a ela, mas ao tipo de sociedade socialista a ser constru√≠da. Eram vis√Ķes inconcili√°veis: burocr√°tica, estatol√°trica e centralizadora, como em seguida seria na definitiva estrutura√ß√£o staliniana, por uma parte (e Gramsci, na segunda parte da sua vida, dela se afastaria gradual, mas firmemente); democr√°tica, aberta e pluralista, por outra. A partir de 1944, mesmo aprisionado por muitos anos na rede da "dupla fidelidade", o PCI togliattiano - como argumentou Emanuele Macaluso num ensaio h√° alguns anos - assumia, sem o declarar, o gradualismo turatiano. Mas, na semana mais tr√°gica da hist√≥ria da esquerda italiana, tal plataforma foi criminalizada, vilipendiada, humilhada. A partir da√≠, de tal criminaliza√ß√£o, de tal vilip√™ndio, de tal humilha√ß√£o, Mauro deduz a "desventura" de um Pa√≠s "em que a esquerda n√£o pode chamar-se por seu nome". Ter√° raz√£o? N√£o ter√° raz√£o? A discuss√£o est√° aberta.

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Originalmente publicado com o título "Ezio Mauro e a desventura de uma esquerda que não pode chamar-se por seu nome", em strisciarossa, 12 dez 2020









Fonte: strisciarossa & Gramsci e o Brasil

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