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Togliatti e o PCI

Gianluca Fiocco - Março 2021
 


No quadro das comemora√ß√Ķes do centen√°rio de funda√ß√£o do PCI (Congresso de Livorno, 1921), com a palavra Gianluca Fiocco, organizador, com Maria Luisa Righi, da correspond√™ncia togliattiana entre 1944 e 1964 sob o t√≠tulo La guerra di posizione in Italia (Einaudi, 2014). Mais recentemente, Fiocco escreveu a biografia Togliatti, il realismo della politica (Carocci, 2018), ainda n√£o traduzida para o portugu√™s.

Entrevista originalmente publicada no blog Storia e politica (storiapolitica.altervista.org), em 28 de fevereiro de 2021.

O PSI inicialmente aderiu √† Terceira Internacional. Quais foram as principais motiva√ß√Ķes? Quais ideias tinham o grupo de L¬íOrdine Nuovo e Togliatti nesta primeira fase?

O PSI n√£o aderiu √† Uni√£o Sagrada de 1914, contrariamente a outros partidos socialistas, e com a guerra em andamento sustentou iniciativas para relan√ßar um projeto internacionalista depois do colapso da Segunda Internacional [1]. As turbul√™ncias russas de 1917 foram saudadas pelos socialistas italianos como grande evento libertador, mesmo com diferen√ßas entre o componente reformista e o maximalista. A clara predomin√Ęncia deste √ļltimo no Congresso de Bolonha (outubro de 1919) coincide com a ades√£o √† neoconstitu√≠da Terceira Internacional. Mas o PSI do bi√™nio vermelho, como se sabe, n√£o escolhe coerentemente nem uma linha revolucion√°ria nem uma linha reformadora. Fala-se muito de revolu√ß√£o, projetando uma onda subversora em toda a Europa, mas n√£o h√° nenhuma atividade preparat√≥ria neste sentido.

Em Turim, ponta avan√ßada da classe oper√°ria italiana, os jovens dirigentes de L¬íOrdine Nuovo d√£o vida √† experi√™ncia original dos conselhos de f√°brica, nestes percebendo o correspondente italiano dos sovietes. Os ordinovistas, entre cujos dirigentes fundadores est√° Togliatti, operam ativamente pela revolu√ß√£o, considerando que no pa√≠s existem as condi√ß√Ķes para uma tomada do poder. Chega-se assim ao teste de for√ßa da ocupa√ß√£o das f√°bricas em setembro de 1920. Em Turim se nutre a esperan√ßa de poder dar um golpe decisivo na classe patronal, mas na realidade a contraofensiva de classe est√° √†s portas. Togliatti, enviado a Mil√£o para estimular uma amplia√ß√£o em sentido revolucion√°rio da luta em curso, se choca com as ideias bem diferentes das dire√ß√Ķes do PSI e da CGIL. Com amargo sarcasmo, Togliatti recordaria nas notas biogr√°ficas recolhidas por Marcella e Maurizio Ferrara as obje√ß√Ķes bizantinas que lhe foram dirigidas no Conselho Nacional socialista: "Quem autorizou a Se√ß√£o Socialista de Turim, √≥rg√£o pol√≠tico, a desencadear um movimento de natureza sindical? E quais eram as reivindica√ß√Ķes? Elas foram apresentadas tempestivamente aos √≥rg√£os superiores de dire√ß√£o? E por que se deveria ampliar o movimento? Estes conselhos de f√°brica, pelos quais se fazia a greve, eram algo ortodoxo, que havia nos estatutos, ou eram uma inven√ß√£o de intelectuais?". A Togliatti s√≥ restou voltar melancolicamente para Turim, onde participou das negocia√ß√Ķes com as autoridades para estabelecer formas e tempos da retomada do trabalho.

De que modo o grupo de L’Ordine Nuovo e Togliatti contribuíram para a criação do PCd’I? Quais eram as diferenças em relação às ideias de Bordiga?

No outono de 1920, tanto os ordinovistas quanto os bordiguianos j√° estavam determinados a romper com os reformistas, considerados traidores e inimigos dos reais interesses do proletariado. Mas tamb√©m com os maximalistas a conviv√™ncia se tornou dific√≠lima, uma vez que n√£o pretendiam se separar dos reformistas. Esta separa√ß√£o havia sido pedida por Lenin no II Congresso da Internacional (julho de 1920), mas o l√≠der maximalista Giacinto Menotti Serrati n√£o acolheu a solicita√ß√£o, inclu√≠da nas chamadas "vinte e uma condi√ß√Ķes" ditadas para a filia√ß√£o √† Internacional. Entre elas, a mudan√ßa de denomina√ß√£o de partido socialista para partido comunista. Era precisamente do centro do nascente movimento comunista que vinha a ordem de assumir uma posi√ß√£o inequivocamente revolucion√°ria. O nascimento do PCd¬íI ocorreu a partir da converg√™ncia do grupo de Bordiga e do turinense, com o primeiro em posi√ß√£o predominante, mesmo porque possu√≠a maior ramifica√ß√£o nacional. Entre os dois grupos n√£o faltavam diferen√ßas at√© relevantes: os ordinovistas se caracterizavam por um costume de s√≠ntese pol√≠tico-cultural inteiramente peculiar; al√©m disso, sua concep√ß√£o da rela√ß√£o entre partido e classe oper√°ria era distante da de Bordiga. Mas nesta fase prevaleceu a ideia comum da necessidade de constituir um partido novo, que devia ser disciplinado e imperme√°vel a qualquer influ√™ncia do reformismo e do pacifismo burgu√™s. Isto fez com que pusessem de lado todas as potenciais diverg√™ncias, que ressurgiriam mais √† frente.

Que posi√ß√Ķes Togliatti expressou no Congresso de Livorno?

Togliatti seguiu de Turim a evolu√ß√£o congressual e compartilhou plenamente a decis√£o de separar-se do PSI e fundar o novo partido comunista. Esteve certamente entre os que n√£o cumpriram este passo com otimismo superficial. Nos seus escritos daqueles dias surge a consci√™ncia de que se iniciava um caminho necess√°rio, mas tamb√©m marcado por grandes problemas e inc√≥gnitas. A perspectiva revolucion√°ria, que parecera ao jovem dirigente concreta durante a ocupa√ß√£o das f√°bricas, agora parece algo a ser constru√≠do com um trabalho dif√≠cil e paciente. As derrotas ensinaram a todo o grupo turinense, que empreende uma reflex√£o sobre as diferen√ßas entre as v√°rias zonas do pa√≠s, entre oper√°rios e camponeses, entre Norte e Sul. Iniciavam-se as expedi√ß√Ķes punitivas do esquadrismo fascista. Togliatti come√ßar√° a dedicar grande aten√ß√£o ao seu estudo, enquanto os bordiguianos negar√£o a especificidade do fascismo.

De que modo o exílio na União Soviética influenciou Togliatti no segundo pós-guerra?

Togliatti viveu toda a dureza e todos os dramas da "guerra civil europeia". Depois da sua volta √† It√°lia, √© provavelmente o dirigente do comunismo ocidental que mais se esfor√ßa e aposta na possibilidade de deixar para tr√°s esta fase terr√≠vel e iniciar um novo caminho na constru√ß√£o do socialismo. Um caminho que n√£o passe por novas cat√°strofes b√©licas. Certamente a sua √© uma gera√ß√£o comunista que com a URSS estabelece uma "liga√ß√£o de ferro" - a defini√ß√£o, como se sabe, pertence ao pr√≥prio Togliatti -, consolidada pelas persegui√ß√Ķes, pelo esfor√ßo de moderniza√ß√£o empreendido pelo colosso sovi√©tico, pela difus√£o dos fascismos na Europa at√© a agress√£o nazista de 1941. Togliatti adere aos tra√ßos fundamentais do stalinismo: a URSS √© o baluarte do socialismo e sua defesa √© a tarefa primeira de todo comunista. Ao mesmo tempo, nos anos do ex√≠lio Togliatti v√°rias vezes se prop√Ķe o problema da nacionaliza√ß√£o dos partidos comunistas, da import√Ęncia do seu enraizamento e do estudo de programas e formas de luta calibrados segundo os contextos espec√≠ficos em que os comunistas se veem agindo. Trata-se de uma experi√™ncia que determina em Togliatti uma aten√ß√£o sistem√°tica ao nexo nacional-internacional: os partidos comunistas devem agir sempre como parte de um movimento global, mas nenhuma estrat√©gia global pode ser imposta a cada partido, sem levar em conta as tradi√ß√Ķes locais e o contexto em que operam.

Quais ideias de Togliatti do primeiro pós-guerra sobre a ideia de partido encontramos no segundo pós-guerra com o "partido novo"?

A p√°gina do segundo p√≥s-guerra √© uma p√°gina nova. O PCd¬íI nasceu e se desenvolveu como pequena forma√ß√£o de militantes temperados e disciplinados, em luta contra viol√™ncias e persegui√ß√Ķes. A refunda√ß√£o na metade dos anos vinte, com Gramsci secret√°rio, mudou programas, m√©todos e perspectivas, mas o partido continuava a ser de "revolucion√°rios profissionais", entre ex√≠lio e conspira√ß√£o interna. Costumes e mecanismos sever√≠ssimos de ades√£o ao partido s√£o abalados por Togliatti quando chega a N√°poles em 1944. V√°rios testemunhos da √©poca nos referem o desconcerto dos dirigentes com o modelo do partido de massas que √© adotado. Togliatti refletiu sobre as caracter√≠sticas inovadoras introduzidas pelo partido fascista, sobre as caracter√≠sticas de massa que a pol√≠tica dever√° necessariamente manter e refor√ßar, agora num contexto pluralista. Inicia-se um desafio com os cat√≥licos para conquistar ades√Ķes na sociedade. Uma se√ß√£o do PCI para cada campan√°rio: esta √© a meta indicada por Togliatti. Certamente, dentro do partido de massas se conserva e atua um n√ļcleo "leninista" selecionado pelo ex√≠lio e pela Resist√™ncia. A este n√ļcleo mais duro cabe a tarefa de cerrar as fileiras do partido durante o inverno da guerra fria.

O partido novo, pois, como descontinuidade fundamental possibilitada pela Hist√≥ria e pelas suas reviravoltas. Podemos, no entanto, observar que h√° uma li√ß√£o do primeiro p√≥s-guerra que permanece em Togliatti: o fato de que os movimentos, por mais avan√ßados que sejam (pensemos nos conselhos de f√°brica), necessitam de um partido que organize a luta pol√≠tica e cultural, servindo de articula√ß√£o com a sociedade. Esta vis√£o se refor√ßa ainda mais a partir de 1944, quando os comunistas aceitam o horizonte da democracia. "Os partidos - observa Togliatti na Constituinte de julho de 1946 - s√£o a democracia que se organiza. Os grandes partidos de massa s√£o a democracia que se afirma, que conquista posi√ß√Ķes decisivas, as quais nunca mais ser√£o perdidas".

Que papel teve Togliatti na fase constituinte e como mudou depois de 1947?

Ao lado da edifica√ß√£o do partido novo, os esfor√ßos principais de Togliatti foram destinados √† conquista da Rep√ļblica e √† sua caracteriza√ß√£o no sentido mais progressista poss√≠vel. Entre os principais l√≠deres pol√≠ticos, foi o que mais participou dos trabalhos da Constituinte, na qual operou ativamente na Comiss√£o dos 75 e, em seguida, no Comit√™ dos 18, encarregado de costurar num texto √ļnico os artigos formulados pelas diversas subcomiss√Ķes. Na primeira reuni√£o dos deputados comunistas disse que toda concep√ß√£o agitat√≥ria e ret√≥rica do parlamentarismo devia ser abandonada: aquela era a Assembleia conquistada pelo povo, que devia tra√ßar o caminho para um inser√ß√£o cada vez mais plena das massas populares na vida do pa√≠s e nos seus centros de dire√ß√£o.

Togliatti considerou o terreno da Constituinte como um encontro de culturas diversas, chamadas a buscar elementos originais de converg√™ncia, sem erigir muros ou cair em disputas ideol√≥gicas. S√≥ atrav√©s de um esfor√ßo rigoroso se chegaria a uma Constitui√ß√£o duradoura, capaz de acompanhar o povo italiano num caminho de paz e progresso. A Constitui√ß√£o n√£o devia se limitar a registrar as condi√ß√Ķes do tempo presente: representava tamb√©m um programa para o futuro. Esta posi√ß√£o togliattiana foi bem percebida na √©poca por Piero Calamandrei.

Podemos dizer que em Togliatti, como em tantos outros pais da Rep√ļblica, operou naquele per√≠odo um esp√≠rito risorgimentale. Ao Estado unit√°rio surgido em 1861 se devia conferir nova linfa, reorganizando-o e abrindo-o definitivamente em sentido democr√°tico. Este era o papel hist√≥rico que reca√≠a em primeiro lugar sobre os partidos de massa. Togliatti atribuiu particular import√Ęncia ao di√°logo com a DC, por ele considerada como o eixo do sistema pol√≠tico. Com os "professorezinhos" democrata-crist√£os da primeira subcomiss√£o houve uma negocia√ß√£o muito intensa, de modo que as esperan√ßas comuns permitiam declinar positivamente as diferen√ßas.

O gelo da guerra fria que recrudesceu no correr de 1947 n√£o fez com que Togliatti recuasse dos seus prop√≥sitos. O esp√≠rito constituinte foi preservado ¬Ė mesmo depois da exclus√£o dos comunistas do governo ¬Ė e na Constitui√ß√£o ap√īs sua assinatura Umberto Terracini, presidente comunista da Assembleia por cuja nomea√ß√£o Togliatti se batera depois da demiss√£o de Saragat. Foi um desfecho destinado a se revelar importante para a manuten√ß√£o do sistema republicano, bem diferente do que aconteceu na Fran√ßa, onde o PCF decidiu n√£o aprovar a Carta constitucional, mesmo tendo contribu√≠do fortemente para sua reda√ß√£o.

O ano de 1948 foi ainda mais duro - com o "choque de civiliza√ß√Ķes" de 18 de abril e os dias dram√°ticos do atentado de Pallante [2] -, mas o limiar que podia conduzir a um banho de sangue n√£o foi ultrapassado. Para este resultado contribu√≠ram a modera√ß√£o e o realismo de Togliatti, mas tamb√©m sua fidelidade √† aposta democr√°tica que fora feita. Por certo, √† expectativa de democracia progressiva sucedeu o cen√°rio de uma guerra de posi√ß√£o de dura√ß√£o provavelmente longa e com mil incertezas, em que se fazia sentir o perigo de uma ilegaliza√ß√£o do PCI.

Quais foram as críticas de Togliatti ao centrismo e à centro-esquerda? Que críticas dirigiu ao PSI durante a centro-esquerda?

Para Togliatti, o centrismo tinha uma dupla e grav√≠ssima culpa: em pol√≠tica externa ligava a It√°lia intimamente ao bloco ocidental e √† batalha contra o comunismo; em pol√≠tica interna negava as dimens√Ķes progressistas de 1944-1947 e permitia, ao contr√°rio, a "restaura√ß√£o capitalista", no sentido da reproposi√ß√£o do modelo de baixos sal√°rios e baixo consumo que sempre marginalizara as massas. Togliatti amadurece um fort√≠ssimo ressentimento em rela√ß√£o a De Gasperi, sente-se tra√≠do pelas suas escolhas. Ao mesmo tempo, tenta sempre aproveitar a oportunidade de sair da trincheira da guerra fria, de demonstrar que os comunistas podem oferecer uma contribui√ß√£o √† evolu√ß√£o democr√°tica do pa√≠s. Mesmo julgando limitadas e insuficientes as reformas do centrismo, reivindica o papel do PCI ao favorecer sua ado√ß√£o. Em outras palavras, para ele o centrismo freou e desvirtuou o caminho prefigurado na Constituinte, mas n√£o fechou todas as portas. Na DC permanecem for√ßas progressistas e sens√≠veis √†s inst√Ęncias populares, que se deve aproveitar. Tamb√©m daqui nasce o conhecido apelo de 1954 "por um acordo entre comunistas e cat√≥licos para salvar a civiliza√ß√£o humana".

Em relação à centro-esquerda, distinguimos em Togliatti diversas fases, ligadas à evolução do quadro político. Depois da derrota da "lei trapaça" [3], bate-se para que se concretize a "abertura à esquerda", que permita superar as barreiras do centrismo. Para o PCI existe o perigo de que esta abertura redunde em afrouxamento dos laços com o PSI, mas num certo ponto Togliatti aceita que os socialistas adquiram maior liberdade de movimento (depois dos abalos de 1956 a coisa se torna inevitável). O que para Togliatti não é aceitável é que um acordo de governo entre DC e PSI se torne uma operação transformista que perpetue o sistema de poder democrata-cristão. Sobre isso se inflama periodicamente o choque com Nenni.

Para Togliatti, o PCI deve aproveitar toda brecha para levar adiante, em sentido progressista, a dial√©tica da luta pol√≠tica. Em 1962 anuncia uma oposi√ß√£o construtiva √† centro-esquerda "program√°tica" e apoia suas reformas, ainda que observando nelas uma s√©rie de limites. Togliatti reconhece as transforma√ß√Ķes sociais e econ√īmicas em curso - s√£o os anos do "milagre" - e se abre para a possibilidade de que se estivessem criando na It√°lia as condi√ß√Ķes para uma pol√≠tica reformadora em linha com a dos pa√≠ses europeus mais avan√ßados: diante desta possibilidade o PCI dever√° fazer sua parte no debate das ideias, no Parlamento, no corpo da sociedade. Mas a seguir, depois das elei√ß√Ķes de 1963, quando a centro-esquerda recua e as resist√™ncias tradicionais √† mudan√ßa surgem fort√≠ssimas, Togliatti se torna bastante mais pessimista. Aos seus olhos, a burguesia italiana volta a mostrar a face reacion√°ria e a DC continua a ser sua fiadora. No seu √ļltimo editorial em Rinascita antes da morte, se perguntar√° angustiado: "Em que medida os grupos dirigentes da grande burguesia italiana, industrial e agr√°ria, est√£o dispostos a aceitar nem que seja s√≥ um conjunto de modestas propostas de reformismo burgu√™s? Isto √©, em que medida √© poss√≠vel, na It√°lia, um reformismo burgu√™s?". Por tr√°s destas interroga√ß√Ķes se reprop√Ķe a tarefa hist√≥rica do proletariado italiano de compensar os limites da burguesia nacional. Estas interroga√ß√Ķes tamb√©m nos fazem compreender a m√°xima togliattiana segundo a qual na It√°lia, para fazer as reformas, √© preciso ser revolucion√°rio.

Que aspectos, segundo o senhor, deveriam ser aprofundados por ocasi√£o deste centen√°rio do PCI?

Creio que a tarefa principal para a investiga√ß√£o hist√≥rica √©, hoje, aprofundar o modo pelo qual terminou o PCI, at√© porque seria uma contribui√ß√£o fundamental para reconstruir o fim da primeira fase da Rep√ļblica. Trata-se de um epis√≥dio em que os fatores internacionais s√£o fundamentais. Com a grande transforma√ß√£o dos anos setenta, produz-se a crise fatal dos sistemas comunistas, e o PCI, que apostava na possibilidade de reformar estes sistemas, sofre um golpe terr√≠vel. Inicia para Botteghe Oscure [4] uma navega√ß√£o solit√°ria: n√£o mais inserido no movimento comunista como antes, o PCI permanece, ao mesmo tempo, fora do mundo da social-democracia. Com o final da guerra fria e o advento da globaliza√ß√£o, ambas as fam√≠lias hist√≥ricas do movimento oper√°rio europeu restam sob os escombros do muro de Berlim. Deste ponto de vista, podemos inserir o fim do PCI no ocaso geral da esquerda do s√©culo XX. Mas tamb√©m existem especificidades italianas sobre as quais se dever√° continuar a indagar e a refletir. √Č uma reflex√£o necess√°ria: passaram-se trinta anos, mas o sistema pol√≠tico italiano n√£o conseguiu se dotar de instrumentos sequer compar√°veis ao papel de cimento que desempenhavam os t√£o vituperados partidos da "primeira Rep√ļblica". Voltar √† raz√£o por que, num certo momento, n√£o foram mais capazes de desempenh√°-lo pode ser √ļtil em rela√ß√£o aos desafios do tempo presente.

Gostaria de encerrar com duas observa√ß√Ķes. A primeira (negativa) √© que a inevit√°vel transforma√ß√£o do PCI poderia e deveria ter sido gerida de modo mais razo√°vel, realista e respeitoso da sua tradi√ß√£o pol√≠tica e cultural. Por que isso n√£o ocorreu? Eis a pergunta crucial e reveladora de problemas mais gerais da hist√≥ria do nosso pa√≠s. A segunda (positiva) √© que a batalha do PCI para transformar os s√ļditos em cidad√£os, emancipar as massas e inseri-las na vida p√ļblica, foi um componente fundamental do esfor√ßo, coroado de sucesso, realizado pelo povo italiano para deixar para tr√°s as ru√≠nas da ditadura e da guerra, e empreender um novo caminho de progresso. Enquanto o PCI cumpriu estas tarefas, necess√°rias para o desenvolvimento da na√ß√£o, foi um partido vital, que extra√≠a linfa dos pr√≥prios efeitos da sua a√ß√£o. Em certo ponto, por√©m, quando se tratou de repensar este papel √† luz das transforma√ß√Ķes da It√°lia e do mundo, n√£o conseguiu faz√™-lo adequadamente. Refletir sobre o decl√≠nio e o fim do PCI representa, pois, uma chave importante para raciocinar sobre tais transforma√ß√Ķes que produziram o mundo em que vivemos hoje.

Notas

[1] A Union Sacré, na França, garantiu o apoio de boa parte dos socialistas franceses ao esforço de guerra do seu governo contra a Alemanha, na Primeira Guerra Mundial. Implicava naturalmente o abandono da tradição pacifista e internacionalista dos socialistas.

[2] Em 18 de abril de 1948, realizaram-se as elei√ß√Ķes parlamentares que garantiriam √† Democracia Crist√£, apoiada pelo Ocidente, seu prolongado dom√≠nio na vida do pa√≠s, quebrando a unidade antifascista que havia caracterizado o imediato p√≥s-guerra.

Antonio Pallante foi o autor, em 14 de julho de 1948, de grave atentado contra a vida de Palmiro Togliatti, abrindo no país até mesmo a possibilidade de guerra civil.

[3] Na hist√≥ria pol√≠tica italiana, a "lei-trapa√ßa", de 1953, pretendia dar um forte pr√™mio de maioria √†s for√ßas que conseguissem a metade dos votos v√°lidos. Desenhada em fun√ß√£o dos interesses democrata-crist√£os, a lei n√£o entrou em vigor: nas elei√ß√Ķes pol√≠ticas do mesmo ano, as for√ßas que a promoviam ficaram a poucos milhares de votos do limiar necess√°rio para imp√ī-la.

[4] Botteghe Oscure, a sede histórica do PCI na rua de mesmo nome, no centro de Roma.





Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil

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