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Bolsonaro, o sapo e o escorpi√£o

Fausto Matto Grosso - Setembro 2021
 

A fábula é bastante conhecida. Um escorpião pede a um sapo que o leve através de um rio. O sapo tem medo de ser picado durante a viagem, mas o escorpião argumenta que, se picá-lo, os dois iriam se afogar. O sapo concorda e começa a carregar o escorpião, mas, no meio do caminho, o escorpião acaba por ferroar o sapo, condenando ambos à morte. Quando perguntado pelo sapo por que o havia picado, o escorpião respondeu que esta é a sua natureza e que nada poderia ser feito para mudar o destino.

Essa f√°bula tem sido lembrada a prop√≥sito da "Declara√ß√£o √† Na√ß√£o" escrita pelo Presidente, sob a inspira√ß√£o de Michel Temer, ap√≥s o desastroso discurso feito em 7 de setembro na Avenida Paulista. Do alto do palanque, Bolsonaro havia esbravejado que n√£o iria mais cumprir as decis√Ķes do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Com tal declara√ß√£o o Presidente habilitou-se ao impeachment e teve que recuar de maneira humilhante para escapar de cassa√ß√£o. Foi salvo por Michel Temer com uma carta elegante de perfil intelectual e pol√≠tico muito acima da linguagem rastaquera da caserna conhecida por Bolsonaro.

Mas, mesmo antes da publicação da sua carta de desculpas, Bolsonaro já ultrajou os seus propósitos, inserindo o rodapé "Deus, Pátria e Família", numa regressão ultranacionalista, corporativista, conservadora, tradicionalista católica e de extrema direita que nos leva a uma réplica do fascismo brasileiro dos anos 1930 do século passado. Foi uma primeira picada em Michel Temer, que o ajudara a safar-se da encrenca onde se metera.

A segunda estocada foi no Ministro Barroso a respeito da quest√£o j√° vencida das urnas eletr√īnicas. "As urnas s√£o penetr√°veis, as pessoas podem penetrar nelas", disse em insinua√ß√Ķes de cunho homof√≥bico sobre o presidente do TSE. Foi a p√° de cal na credibilidade do Presidente quanto ao compromisso com a carta rec√©m-publicada.

O Presidente está cada vez mais isolado; recentes pesquisas apontam que ele perderia a eleição em 2022 para todos os seus contendores. De um obscuro deputado de sete mandatos, caminha para passar para a história como o pior presidente que o país já teve. Seu destino está preso por um fio ao pouco confiável Centrão, cujas dependências frequentou como parlamentar durante 27 anos de mandato.

A crise vivida pelo pa√≠s contribui para aprofundar o seu isolamento. A estagna√ß√£o e a infla√ß√£o, o pre√ßo dos combust√≠veis e dos servi√ßos p√ļblicos, a crise social decorrente do desemprego e da fome, a j√° anunciada crise de energia e de abastecimento, bem como o isolamento internacional decorrente da pol√≠tica ambiental s√£o marcas da nossa realidade. A CPI da Covid-19 avan√ßa desnudando negacionismo, crime contra a humanidade, incompet√™ncia gerencial, corrup√ß√£o e at√©, coisa nunca vista, venda de cargos p√ļblicos por lobistas de quinta categoria. Enquanto isso, o Presidente n√£o trabalha, vive de criar crises institucionais que amea√ßam a democracia e aprofundam o seu isolamento. Fera ferida, ainda pode encontrar energias, cada vez mais escassas, para sua resist√™ncia, mas agora j√° desarmada.

Fato auspicioso vem da cria√ß√£o de uma ampla frente partid√°ria que envolve partidos de centro, esquerda e direita que se unem para a√ß√Ķes conjuntas pelo impeachment. As manifesta√ß√Ķes de rua, j√° marcadas para os dias 2 de outubro e 15 de novembro, ser√£o uma medida da for√ßa dessa articula√ß√£o, que pode vir a viabilizar o impedimento do Presidente. Pesquisas recentes de opini√£o p√ļblica j√° indicam que, hoje, 56% dos brasileiros querem o seu afastamento.

Enfim, no √ļltimo 7 de setembro, Bolsonaro apostou alto, desafiou a democracia brasileira e suas institui√ß√Ķes, e perdeu. Entre a independ√™ncia e a morte, optou pela √ļltima. Resta esperar que se cumpra sua sina de escorpi√£o.

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Engenheiro e professor aposentado da UFMS, membro da coordenação da Frente Ampla pela Democracia.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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