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"Você me ajuda, que eu te ajudo"

Fausto Matto Grosso - Abril 2022
 


A revela√ß√£o recente da exist√™ncia de um esquema de pastores dentro do minist√©rio da Educa√ß√£o exp√Ķe uma maneira de ser do bolsonarismo. Revela uma rela√ß√£o prom√≠scua entre o governo e algumas igrejas e pastores evang√©licos que acontece em v√°rias outras √°reas da administra√ß√£o. √Č preciso lembrar que tivemos outra manifesta√ß√£o desse problema no minist√©rio da Sa√ļde, com a a√ß√£o de pastores lobistas que influenciavam a compra de vacinas pelo Governo. Parece que estamos diante de um grande esc√Ęndalo que j√° tem sido chamado de bolsol√£o.

O lema do lobista, como j√° foi gravado no caso do Minist√©rio da Educa√ß√£o, √© "voc√™ me ajuda, que eu te ajudo", ou seja, uma troca de favores √† custa de verbas p√ļblicas, o que n√£o √© novidade no caso brasileiro. O governo ajuda os pastores, os pastores ajudam os prefeitos e estes devolvem votos e barras de ouro, que n√£o se sabe onde ir√£o parar.

Esse sistema √© muito parecido com o da rela√ß√£o governo e deputados federais, atrav√©s das famigeradas emendas parlamentares. Os parlamentares que ajudam o governo nas vota√ß√Ķes recebem verbas para levar √†s prefeituras que pretendem cooptar. Essa maneira clientelista de fazer pol√≠tica destr√≥i a efic√°cia das pol√≠ticas p√ļblicas e forma a base para a corrup√ß√£o. No atual or√ßamento esse sistema de privatiza√ß√£o do dinheiro p√ļblico vem acobertado pela absoluta falta de transpar√™ncia de uma parte substancial que forma o or√ßamento secreto: n√£o se sabe quem fez a emenda e quem √© o beneficiado.

Esse sistema de troca de favores tem raízes profundas na sociedade brasileira desde o tempo do coronelismo. O sistema coronelista juntava coerção com cooptação. Era o coronel quem permitia o acesso a certos benefícios sociais. Esta era a sua moeda de troca, por isso era odiado, mas também amado.

O esc√Ęndalo dos pastores est√° motivando uma iniciativa de senadores para a cria√ß√£o de uma CPI sobre assunto, mas o governo joga pesado na sua inviabiliza√ß√£o, conseguindo inclusive que tr√™s senadores retirassem as suas assinaturas da peti√ß√£o inicial. Outra frente de resist√™ncia do governo √© a negativa de transpar√™ncia na agenda presidencial, com o que se procura esconder o intenso acesso de pastores diretamente ao Presidente. A agenda presidencial passou a ser tratada como assunto de seguran√ßa nacional, protegida pelo sigilo.

Naturalmente, nem todas as igrejas evang√©licas est√£o envolvidas nessas falcatruas. Trata-se de alguns maus pastores, espertalh√Ķes que tentam aproveitar da situa√ß√£o de termos um presidente e um governo com quatro ministros declaradamente evang√©licos e um juiz do Supremo Tribunal Federal indicado por ser "tremendamente evang√©lico". H√° resist√™ncia a esse tipo de pr√°tica em amplos setores da igreja, e isto tem motivado a manifesta√ß√£o de outros pastores denunciando o jogo esp√ļrio, o que deve ser saudado. O eleitorado evang√©lico tamb√©m se manifesta criticamente, como mostram as pesquisas. Segundo o Poder Data, 40% dos evang√©licos acham o governo Bolsonaro ruim e p√©ssimo.

Se Bolsonaro for reeleito, ele terá o direito de indicar mais três ministros do Supremo e estaríamos caminhando para uma situação de controle da Justiça, semelhante ao da Venezuela de Chávez e Maduro.

Enquanto isso, Deus tudo vê. Hebreus 4:13

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Engenheiro Civil, professor aposentado da UFMS e membro do Grupo Conjuntura MS

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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