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O fator Simone ajuda mais a Lula: quem tem medo de ser feliz?

Paulo F√°bio Dantas Neto - Maio 2022
 




A coluna de hoje é dedicada à memória de Eliana Kertész, artista essencial e política ocasional que nos deixou há 5 anos e que faria aniversário nesse sábado. Ela sempre quis muito, mesmo sendo modesta. Faz falta em tempos sombrios.

At√© aqui, maio de 2022, a pr√©-campanha do ex-presidente de Rep√ļblica, Luiz Ign√°cio Lula da Silva, resolveu emular duas das suas cinco campanhas presidenciais anteriores. A primeira, de 1989, desponta atrav√©s do jingle da estrela, que emociona pessoas maduras e jovens em shows de MPB (e as reuniria tamb√©m em com√≠cios e atos de rua, se j√° estivessem ocorrendo ou se ainda puderem ocorrer) e atrav√©s de clipes que circulam em redes e outros ambientes jovens e/ou "progressistas", em universidades, no mundo da cultura e do trabalho tradicionalmente organizado. A emula√ß√£o da √ļltima, de 2006 ¬Ė em que a esperan√ßa se reelegeu j√° como promessa oficial, livre do medo conservador ao PT, vencido em 2002 e durante o mandato cumpridor de contratos com o mundo da economia, embora n√£o t√£o zeloso no trato com a Rep√ļblica ¬Ė, mira p√ļblicos mais populares e menos descolados. Enquanto o partido, animado, faz seu l√≠der recordar a gl√≥ria ideol√≥gica da derrota de 1989, seu atual vice recorda-lhe, em carne e osso, a vit√≥ria de 2006, obtida j√° no manejo da pequena pol√≠tica e do script do n√≥s x eles.

Nesse tom, fica em boa hora esquecido o tempo das oposi√ß√Ķes ranzinzas de 1994 e 1998, mas, tamb√©m, o da "Carta aos Brasileiros" de 2002, momento √≠mpar na trajet√≥ria do l√≠der em que ele, de fato, se retratou na moldura plural do Brasil. Na feliz express√£o da jornalista Dora Kramer, o centrismo fake de Lula √© um dado concreto a ser considerado para se bem entender o atual contexto e n√£o se viajar na maionese ou exagerar no alho, por mais que seja intrag√°vel o bugalho que a extrema-direita nos serve.

Nada a objetar quanto ao direito legítimo do PT e de Lula fazerem a escolha política que estão fazendo. A ampla e sustentada liderança nas pesquisas autoriza a ambição de vencer a eleição com uma frente de esquerda, que é o que até aqui existe. Para se viabilizar a chapa com uma piscada simbólica ao centro, Geraldo Alckmin precisou se filiar ao Partido Socialista. Basta olhar para o que está acontecendo, por exemplo, em Minas Gerais, com as tratativas entre PT e PSD, para se ter ideia do problema que haveria se Alckmin, ao escolher seu novo P, juntasse ao S um D, em vez do B.

O impasse n√£o seria culpa de Alckmin, do PT ou do PSD. Nesses assuntos n√£o cabe buscar culpados. Cabe, no caso, entender o fato de que, no momento, o PT e partidos fora da esquerda n√£o est√£o se sentindo reciprocamente √† vontade para celebrar alian√ßas em prol da candidatura de Lula. Nenhuma trag√©dia h√° nisso (a elei√ß√£o √© em dois turnos) e o fato em si n√£o merece censura alguma. O que se deve cobrar do l√≠der das pesquisas n√£o √© que mude seu filme. √Č que n√£o tente nos vender uma vers√£o pirata.

Pautas incontorn√°veis

Se "defesa da soberania nacional" √© um eixo relevante da campanha e se a esse eixo se vincula "defesa das estatais" n√£o se pode esperar apoio autom√°tico de liberais ou mesmo de social-democratas fora da esquerda imantada pelo PT, quando esse discurso causa inc√īmodos at√© em petistas e socialistas n√£o alinhados com a atitude antiliberal predominante em seu campo. Do mesmo modo ocorre se diretrizes econ√īmicas para "reconstru√ß√£o do Brasil" implicam "n√£o haver teto de gastos" e questionar a reforma trabalhista. O que se quer com isso √© legitimar eleitoralmente antigos postulados da esquerda do s√©culo XX, abra√ßados por muitos dos seus mais relevantes atores de hoje no Brasil. A esquerda ¬Ė ainda mais estando razoavelmente unida, como est√° ¬Ė tem direito democr√°tico de submeter essa agenda ao eleitorado. E deve reconhecer o mesmo direito a quem discorda dela e pretende propor uma agenda liberal em economia, assim como o de quem defende come√ßar j√° ¬Ė pela estrada principal da pol√≠tica e n√£o por uma vicinal ¬Ė um trajeto que nos leve, em futuro aprazado, a uma economia de baixo carbono.

Naturalmente o ex-presidente Lula, por vezes, veicula vers√Ķes nuan√ßadas das diretrizes anunciadas. Isso posto, √© razo√°vel supor que ele n√£o coloque todas as estatais no mesmo patamar, que n√£o pense em governar sem algum controle de gastos e que n√£o queira atirar no lixo a reforma trabalhista, mas revis√°-la, negociando, como deve, com associa√ß√Ķes empresariais e sindicatos de trabalhadores. Tudo isso √© sensato e acalma, al√©m do fato de que todas as propostas que impliquem em legisla√ß√£o dever√£o ir ao Congresso, a inst√Ęncia que dar√° as √ļltimas palavras. Por√©m, numa democracia que fa√ßa jus ao nome, essas ressalvas n√£o bastam para permitir que um candidato receba pr√©vio apoio eleitoral de uma ampla frente democr√°tica. Se Lula quer fazer essa frente j√° no primeiro turno, √© preciso um script adequado. E se entender com advers√°rios para ganhar aliados firmes e n√£o aderentes c√©ticos, alinhados por suc√ß√£o.

O argumento em contr√°rio √† necessidade desse tipo de concerta√ß√£o √© quase sempre o da pouca relev√Ęncia eleitoral das obje√ß√Ķes, feitas por liberais e centristas, √† pauta econ√īmica da esquerda. Quem n√£o tem voto n√£o precisaria ser ouvido pois a hora √© de elei√ß√£o. Ok, se assim √© que fa√ßam a farta colheita eleitoral, sem precisar se preocupar com candidatos presidenciais eleitoralmente nanicos, nem cooptar parlamentares e quadros dirigentes dos seus partidos. Os apoios vir√£o naturalmente, basta esperar. Ouso cogitar, na contram√£o das pesquisas e na m√£o das buscas de coopta√ß√£o que se tem visto por a√≠, que Lula sabe que √© uma imprud√™ncia descansar diante do novo perfil "liberal" do eleitorado brasileiro, detectado, ap√≥s a derrota ingl√≥ria de 2018, por pesquisas de entidades assessoras do pr√≥prio PT.

Racioc√≠nio an√°logo ao feito para a pauta econ√īmica vale para a chamada pauta de costumes. Assim como liberais em economia, partidos e eleitores conservadores naquele terreno ter√£o dificuldades em apoiar, logo no primeiro turno, um candidato que abrace pautas consideradas progressistas. A analogia para por a√≠, porque, nesse caso, as obje√ß√Ķes t√™m peso eleitoral relevant√≠ssimo, como demonstrado em recente pesquisa do Genial Quaest, seja pela capta√ß√£o do deslocamento do voto evang√©lico na dire√ß√£o de Bolsonaro, seja na mensura√ß√£o direta do potencial impacto negativo da posi√ß√£o de Lula sobre o aborto. O fato de a quest√£o n√£o ser da compet√™ncia da Presid√™ncia da Rep√ļblica n√£o deixa de ser um √°libi para que o candidato da esquerda evite ser colocado em situa√ß√Ķes de aperto. Por√©m, nem sempre s√£o as devidas atribui√ß√Ķes constitucionais que ditam o grau de prioridade de um tema no debate eleitoral. A possibilidade de temas como aborto, ao qual o voto religioso √© sens√≠vel, serem inseridos na polariza√ß√£o √© real e s√£o limitados os movimentos de Lula para evit√°-los. A hip√≥tese de o voto conservador, nesse terreno de religi√£o e fam√≠lia, ter Bolsonaro como sua √ļnica op√ß√£o deve preocupar seriamente o rival e √© uma raz√£o a mais para que ele reflita melhor sobre sua estrat√©gia de ajudar a interditar terceiras vias.

Ademais, o "Lula l√°" de h√° quase um quarto de s√©culo era toque de reunir para boa parte do mundo da cultura universit√°ria e art√≠stica e para atores ideol√≥gicos esquerdistas, que respiravam democracia direta num pa√≠s rec√©m-democratizado. Chamados pela energia que emanava da figura de Lula, estavam dispostos a resgatar um Brasil profundo. Esse estaria pulsando em atores sociais irredentos do campo e das favelas urbanas, a serem atra√≠dos para a √≥rbita do Brasil oper√°rio mobilizado pelo l√≠der emergente que, a ju√≠zo daquela vanguarda que se queria horizontal, era a melhor express√£o do nosso moderno. Naquele momento, as pautas identit√°rias progressistas habitavam os rodap√©s das p√°ginas dos programas de esquerda, ao contr√°rio do que ocorria em democracias avan√ßadas, especialmente a norte-americana. Hoje √© bem outro o Brasil profundo que emerge do poente rural para outro moderno, nas franjas do agroneg√≥cio e ao som da nova m√ļsica sertaneja, conectando-se a metr√≥poles por evangelhos pentecostais. Suas convic√ß√Ķes identit√°rias e religiosas soldam a pauta pol√≠tica de Bolsonaro. Na outra ponta, pautas identit√°rias progressistas pedem passagem, pressionam o candidato da esquerda, assim como pressionaram e penetraram nos partidos. Esse √© mais um complicador para se formar uma frente que atraia, no primeiro turno, desde eleitores do PSOL at√© os de setores mais √† direita da terceira via.

Nas circunst√Ęncias de sociedade civil e sociedade pol√≠tica mais plurais do que as do tempo da campanha de 1989 e num pa√≠s que viveu a experi√™ncia de quase 14 anos de governos petistas em Bras√≠lia, al√©m de governos subnacionais, a quem Lula se dirige mesmo quando sugere n√£o se ter medo de ser feliz? Nenhum espanto deve causar a exist√™ncia de ouvidos moucos entre tantos quantos olham para tr√°s e avaliam que foram infelizes durante aqueles anos que, para a campanha de Lula, foram anos dourados. In√ļtil estigmatiz√°-los como estranhos ao Brasil porque foram 57 milh√Ķes em 2018 e seja a marca de hoje a mesma, maior, ou menor, ser√£o, de todo o modo, muitos em 2022, o suficiente para prolongar, para al√©m dos resultados das urnas, os conflitos que vivemos hoje. Se n√£o se quer que toda essa multid√£o de eleitores retorne ao colo do Bonaparte das mil√≠cias √© preciso haver quem lhes diga palavras democr√°ticas que escutem. Precisamente porque Lula n√£o pode diz√™-las, por raz√Ķes j√° expostas, n√£o sai de pauta a quebra (ao menos a atenua√ß√£o), da polariza√ß√£o atual por uma terceira via, jocosamente tratada, h√° meses, como uma "tal", por engenheiros de obras prontas e at√© por respeit√°veis analistas.

Est√° mais do que evidente que os horrores desses tr√™s anos e meio n√£o foram bastantes para vacinar o eleitorado brasileiro contra o perigo de sua cont√≠nua reitera√ß√£o, seja pela improv√°vel reelei√ß√£o do seu promotor, seja pela sua prov√°vel legitima√ß√£o, nas urnas, como principal chefe e for√ßa de oposi√ß√£o. A hip√≥tese do seu impedimento n√£o teve apoio no Congresso e tudo at√© aqui indica que sua exclus√£o do segundo turno n√£o tem apoio no povo. √Č essa, a meu ver, a leitura mais contundentemente realista que se poder√° fazer do fracasso de uma agrega√ß√£o de for√ßas centristas para disputarem as elei√ß√Ķes, caso esse fracasso, de fato, se consume. Ele roubar√° do Brasil a chance de optar entre duas sa√≠das democr√°ticas distintas, ou de fazer, no segundo turno, uma converg√™ncia republicana consistente. Fora a extrema-direita, ningu√©m mais deveria ser feliz com a perda dessa chance, porque ela significa grave adiamento de qualquer futuro comum. Sair-se da elei√ß√£o como nela entramos, polarizados entre o que seja o bem e o mal para cada qual, √©, no m√≠nimo, condenar a democracia brasileira a quatro anos de UTI.

Diante da majestade de um perigo manifesto como fato, s√£o dois os caminhos que se colocam para a converg√™ncia republicana e democr√°tica que ¬Ė tamb√©m de fato ¬Ė existe no Brasil e precisa se ampliar em dire√ß√£o ao maci√ßo biombo conservador que Bolsonaro usa como escudo para sua aventura destrutiva. Essa converg√™ncia n√£o pode nem deve ser eleitoral no primeiro turno, mas tem sido (e precisa ser cada vez mais) uma barragem institucional e pol√≠tica ampla e efetiva nos momentos de maior risco para a democracia. Dos seus dois caminhos tratarei a seguir, com a aten√ß√£o e o respeito que ambos merecem.

Entre evitar o segundo turno ou fazer dele um caminho

Pesos pesados do seleto rol de pol√≠ticos l√ļcidos e merecedores de respeito tomam o primeiro caminho. O mais recente foi o ex-senador e ex-ministro Alo√≠sio Nunes Ferreira. O argumento √© cristalino: s√≥ restam, hoje, duas vias, a democracia e o fascismo. Imposs√≠vel que democratas respons√°veis discordem disso, ainda que possam discutir o uso do termo fascismo para nomear a arrua√ßa em curso. Afinal, nove entre dez estrelas do nosso teto d√£o luz √† vis√£o de Bolsonaro presente no segundo turno e a d√©cima, que ainda poderia iluminar uma esperan√ßa de nos aliviar dessa sina, est√° escondida entre nuvens densas.

O argumento persuasivo leva, no caso de Ferreira e de outros pol√≠ticos igualmente dignos de cr√©dito, a concluir que um segundo turno mais sangrento pode e deve ser evitado e que, para tanto, uma frente democr√°tica √ļnica pode e deve ser antecipada para o primeiro turno, reconhecendo assim que um segundo turno j√° se d√° na pr√°tica, pela consolida√ß√£o irrevers√≠vel da polariza√ß√£o entre Lula e Bolsonaro. A avalia√ß√£o de que essa antecipa√ß√£o √© poss√≠vel e a prescri√ß√£o de caminho de a√ß√£o que dessa avalia√ß√£o decorre n√£o permitem que a conclus√£o provoque o mesmo consenso firmado em torno da premissa.

A possibilidade de formar essa frente de modo politicamente consistente esbarra em leg√≠timos problemas de pauta pol√≠tica, aqui j√° discutidos e tamb√©m na intricada teia federativa, que faz de arranjos pol√≠ticos regionais um jogo complexo. Essa complexidade n√£o pode ser desqualificada, ou vista como patol√≥gica, porque est√°, de fato, tamb√©m em jogo, nessas elei√ß√Ķes, o destino da pol√≠tica subnacional, cuja import√Ęncia e dignidade n√£o devem ser subestimadas, como ficou patente no combate que estados e munic√≠pios travaram contra a pandemia, sob sabotagem aberta do governo federal.

Quanto √† conveni√™ncia da antecipa√ß√£o, o n√£o-consenso verifica-se em dois pontos. Primeiro sobre se ser√° mesmo a melhor t√°tica contra a extrema-direita apostar num confronto direto e bin√°rio entre ela e uma candidatura de esquerda, mesmo a de um pol√≠tico de ineg√°vel popularidade, com experi√™ncia de Estado e mesmo que esse l√≠der esteja sinceramente disposto a caminhar em dire√ß√£o ao centro. H√° quem argumente, tamb√©m sinceramente, que a mem√≥ria simb√≥lica do eleitorado √© mais forte para conservar o antipetismo como fator relevante do que movimentos racionais pela sua revers√£o, ainda mais quando se sabe das dificuldades de Lula para abandonar a narrativa de que o impeachment de Dilma Rousseff foi um golpe. Essa renit√™ncia provoca coes√£o, em vez de distens√£o, no voto antipetista. O receio n√£o chega a ser que isso custe a elei√ß√£o de Lula (as pesquisas tendem a tranquilizar quanto a esse ponto) mas a estabilidade pol√≠tica do seu governo e que facilite, antes disso, maior apoio social √† mais que prov√°vel atitude de Bolsonaro de questionar o resultado eleitoral. A ideia de resolver tudo no primeiro turno implica em renunciar √† possibilidade de uma vit√≥ria folgada, mai√ļscula e irrefut√°vel, num segundo turno antecedido por um amplo entendimento entre as distintas for√ßas democr√°ticas, balizado pelos seus respectivos pesos eleitorais auferidos num primeiro turno em que ocorra debate e n√£o duelo.

Chego assim ao segundo ponto que √© legitimamente levantado pelos c√©ticos em rela√ß√£o √† conveni√™ncia do primeiro caminho. A ades√£o a Lula agora, por parte de partidos de diferentes zonas do centro democr√°tico, tende a padecer, ou de insuficiente amplitude ou de baixa sustentabilidade pol√≠tica. No primeiro caso Bolsonaro ser√° o √≥bvio benefici√°rio, como desaguadouro dos votos dos que n√£o se sentirem inclu√≠dos ou representados no desenho de uma frente democr√°tica de raio limitado. No segundo caso, pode-se cair no quadro desmobilizador a que levam apoios compuls√≥rios e altamente cr√≠ticos. Grassa perigosamente, no centro democr√°tico, a ideia ¬Ė tamb√©m circulante em ambientes psolistas ¬Ė de apoiar Lula agora "porque n√£o h√° outro jeito", surgindo, como corol√°rio dessa resigna√ß√£o, uma predisposi√ß√£o consoladora a, passado o perigo fascista, organizar durante os pr√≥ximos quatro anos, a oposi√ß√£o ao PT. Mas como se realizaria essa fantasia? O lugar de oposi√ß√£o principal estar√° ocupado pela extrema-direita, como est√° ocupado, desde 2019, pelo PT. O chamado √† unidade democr√°tica ser√° cotidiano para defender o governo democr√°tico de amea√ßas golpistas.

A l√≥gica bin√°ria n√£o se extinguir√° com a vit√≥ria de Lula, menos ainda se ele contar com apoio do centro por mera for√ßa de gravidade. Apoiar e relaxar √© a pior coisa a se fazer no momento, inclusive do ponto de vista de quem teme ¬Ė e me incluo entre esses ¬Ė uma grande ofensiva golpista antes, durante ou ap√≥s as elei√ß√Ķes. Que ela ocorrer√° √© quase certeza, embora seu √™xito final seja improv√°vel. Enfrentar essa amea√ßa seria mais complicado se restasse, na cena eleitoral, apenas a campanha da esquerda, com apoio recuado ou t√°cito, quando n√£o sil√™ncio obsequioso, do restante do campo democr√°tico. A desmobiliza√ß√£o das demais campanhas traria limita√ß√£o, n√£o expans√£o da resist√™ncia a um golpe.

Todas essas incertezas legitimam a defesa do segundo caminho, qual seja a insist√™ncia na busca de uma nova hip√≥tese de terceira via, entre MDB, PSDB e Cidadania que, a essa altura dos acontecimentos, como opinei nesta coluna h√° tr√™s semanas, tem em Simone Tebet o √ļnico nome de unidade poss√≠vel. Al√©m desse hipot√©tico n√ļcleo, o segundo caminho nutre-se da hip√≥tese j√° posta da candidatura de Ciro Gomes. J√° a hip√≥tese de jun√ß√£o imediata desses dois focos aspirantes a mitigar e moderar a polariza√ß√£o principal, n√£o se coloca, por motivos an√°logos aos que inviabilizam a forma√ß√£o de uma frente √ļnica das oposi√ß√Ķes no primeiro turno. H√° pelo menos duas pedras, no caminho do entendimento imediato entre Ciro e Simone, que s√£o dif√≠ceis de remover. Uma √© a agenda econ√īmica, outra a manuten√ß√£o, no discurso de Ciro, do an√°tema que ele dirige ¬Ė em coro com o PT e de modo at√© mais enf√°tico que o de Lula ¬Ė aos pol√≠ticos e partidos centristas, por terem dado um suposto golpe em 2016. A rela√ß√£o entre ele e Tebet n√£o pode ser de coopta√ß√£o. Mas nada impede, salvo se neles houver desejos em contr√°rio, que seja de coopera√ß√£o em alto n√≠vel. √Č uma coopera√ß√£o recomendada n√£o s√≥ por valores democr√°ticos e pluralistas, tamb√©m por m√ļtuo interesse, pois nenhum dos dois chegar√° a lugar algum sem se beneficiar de virtuais efeitos da campanha do outro. Simone atuando junto ao campo liberal para conter votos que est√£o indo para Bolsonaro e Ciro fincando estaca na centro esquerda como alternativa a Lula exercer√£o um duplo efeito moderador da polariza√ß√£o sem limites que tende a se cristalizar num cen√°rio bin√°rio. Se houver uma hora das duas candidaturas fundirem-se com base em pesquisas ser√° no tempo das conven√ß√Ķes ou at√© depois disso, caso alguma delas, ou ambas, adquiram alguma relev√Ęncia quantitativa. Il√≥gico ser agora quando, embora Ciro esteja √† frente de Simone nesse quesito importante, a polariza√ß√£o entre os principais √© extrema e nenhum dos dois do "centro" saiu de um d√≠gito nas inten√ß√Ķes de voto.

Falando especificamente do trio de partidos que se entende atualmente, ele compartilha com o conjunto dos que em algum momento se declararam dispostos a constituir uma terceira via, duas defici√™ncias b√°sicas, que s√£o a um s√≥ tempo causa e consequ√™ncia de sua falta de unidade. Primeiro falta-lhe, como √© √≥bvio, votos, n√£o tendo surgido, nesse campo, ningu√©m que possa sequer fazer c√≥cegas na popularidade de Lula. Mas faltou-lhe tamb√©m, durante todo o governo Bolsonaro at√© aqui, articula√ß√£o fluente "por cima". Ela faltou, por exemplo, com a c√ļpula do Congresso, tanto para fazer prosperar um impeachment quanto para, no m√≠nimo, dissuadir parte do centr√£o da ades√£o ao governo, atrav√©s de entendimentos em torno de mat√©rias congressuais e/ou antecipando arranjos pol√≠ticos regionais. Faltou tamb√©m com militares da ativa, para interditar a propaga√ß√£o do golpismo, uma vez que a sua politiza√ß√£o √© uma realidade imposta pelo recrutamento de quadros seus para o governo de Bolsonaro. Insuficiente tamb√©m com o empresariado, para escutar e propor alternativas de futuro superiores √† rela√ß√£o inst√°vel, cativa do curto prazo, que lhe oferece Bolsonaro. E insuficiente ainda com a imprensa, que aos poucos foi percebendo a inconsist√™ncia do agrupamento e assim deixando de levar a terceira via a s√©rio. Em suma os partidos centristas al√©m de n√£o se qualificarem eleitoralmente, tamb√©m n√£o lograram interagir de modo consequente com a pr√≥pria elite pol√≠tica que comp√Ķem e com as demais elites do pa√≠s.

Deixo de lado a busca dos por qu√™s. A hora n√£o √© de balan√ßo das circunst√Ęncias objetivas determinantes, nem dos erros, porque o processo n√£o terminou e h√° uma elei√ß√£o no horizonte, tenta√ß√£o irresist√≠vel para qualquer democrata. A realidade cobra a√ß√£o dessas for√ßas e tal n√£o pode se dar por mera vontade.

Os centristas n√£o podem brigar com a polariza√ß√£o que se firmou. Se a pergunta √© se ainda podem evit√°-la a resposta √© n√£o. Se √© sobre a possibilidade de influ√≠rem para que ela seja manos danosa para eles mesmos e para a democracia, a resposta √© sim e o meio √© a frente democr√°tica, n√£o para disputar, mas para garantir as elei√ß√Ķes e defender a Constitui√ß√£o. Tamb√©m √© sim a resposta sobre se podem contribuir para que a polariza√ß√£o seja menos excludente do ponto de vista pol√≠tico e, nesse caso, a contribui√ß√£o do centro √© diversificar e qualificar o card√°pio eleitoral lan√ßando de fato a candidatura de Simone Tebet. Fazendo isso qualificar melhor tamb√©m o discurso da campanha de Lula, levando a que as nuances do candidato favorito prevale√ßam sobre os dogmas dos seus interlocutores favoritos. No limite, at√© mesmo Bolsonaro tenderia a domar suas febres, pela presen√ßa de uma candidata assertiva em seus calcanhares.

Em adi√ß√£o a tudo isso, a de Simone Tebet poder√° ser uma candidatura resgatadora das trajet√≥rias recentes dos tr√™s partidos. Em 2016 o centro liberal-democr√°tico criou uma polariza√ß√£o pol√≠tica com o PT ao liderar o processo do impeachment num Congresso agitado √† direita, mas sem norte pol√≠tico positivo. Na sequ√™ncia, por√©m (j√° bati nessa tecla aqui algumas vezes), contraiu uma d√≠vida abissal com a sociedade e o eleitorado brasileiros ao se eximir de se apresentar igualmente unificado nas elei√ß√Ķes de 2018. Era o m√≠nimo que lhe cabia ap√≥s processo t√£o traum√°tico. No entanto, cada parte daquela alian√ßa que promoveu uma solu√ß√£o institucional e constitucional para o impasse paralisante do governo Dilma foi cuidar da pr√≥pria vida. Negaram apoio consistente ao governo de transi√ß√£o que criaram e cederam √†s press√Ķes de uma polariza√ß√£o entre o PT e a lava-jato. Enquanto a candidatura de Ciro Gomes, a alternativa de centro-esquerda, era pautada, como at√© hoje, pelo discurso petista do golpe, os partidos do centro deixarem-se pautar pela lava-Jato e largaram de m√£o o governo, na esperan√ßa de escapar dos artilheiros de Curitiba e suas ramifica√ß√Ķes Brasil afora, com simpatias estabelecidas no STF. Dois desses partidos (PSDB e Cidadania, hoje federados) pagam o pre√ßo de um momento de pusilanimidade pol√≠tica. Uma reincid√™ncia n√£o ter√° perd√£o. O Cidadania d√° passos decisivos para reverter aquela atitude, reaprendendo aos poucos a pedagogia unit√°ria da pol√≠tica do antigo PCB, do qual descende. O PSDB tem mais problemas, mas possui relev√Ęncia para se decidir um pouco mais adiante e ser acolhido com a rever√™ncia compat√≠vel com os servi√ßos que j√° prestou ao pa√≠s. J√° o MDB est√° com a bola e precisa dar o passe inicial abrindo para sua candidata as portas da publicidade que for poss√≠vel.

Uma candidatura feminina de uma senadora democrata e respeit√°vel, que conta com apoio razo√°vel na c√ļpula de um MDB sobrevivente √†s condena√ß√Ķes de Eduardo Cunha, Sergio Cabral, Geddel Viera Lima e Henrique Eduardo Alves e p√≥stero ao decl√≠nio pol√≠tico de Romero Juc√°, Eun√≠cio Oliveira e Eliseu Padilha, √© algo que desperta mais curiosidade e interroga√ß√Ķes do que rejei√ß√£o e vatic√≠nios. A renova√ß√£o compuls√≥ria desse partido foi mais extensa do que a que se deu no PT. Ainda n√£o se apresentou ao eleitorado nacional para que se saiba se nele os epis√≥dios mais recentes calam os ecos democr√°ticos da sua hist√≥ria. Simone Tebet √© uma chance de refazer seu caminho por uma linha reta. Sem ela o processo corre o risco de acabar em mix√≥rdia. Partido que veste bem a carapu√ßa do slogan que o PT pretende estender a todos, mas √© antes de tudo seu, o MDB tamb√©m pode encarar a elei√ß√£o sem medo de ser feliz.

Militantes intransigentes e analistas angustiados por vezes desqualificam moralmente a realidade do n√£o-consenso eleitoral, jogando sobre os ombros de quem n√£o est√° convencido da possibilidade e da conveni√™ncia da antecipa√ß√£o pol√≠tica do segundo turno o peso da responsabilidade sobre um eventual fortalecimento de Bolsonaro durante as quatro semanas de outubro. Ancorados nesse argumento, operadores pol√≠ticos do campo lulista esfor√ßam-se para acelerar o esfarelamento de partidos do centro como meio de interditar at√© a modesta rua em que ainda se pode converter "a tal" da terceira via. Ao mesmo tempo movem, nas redes sociais e em outros espa√ßos, uma campanha de desestabiliza√ß√£o da candidatura de Ciro Gomes que, combinada com o ass√©dio de Lula ao PDT, antecipa, cinco meses antes das elei√ß√Ķes, uma alta press√£o pelo voto √ļtil. √Č de import√Ęncia capital que esses passos sejam revistos. Se uma das caras da terceira via for a de Simone Tebet, penso que haver√° motivos de inquieta√ß√£o nas hostes de Bolsonaro, enquanto nas de Lula haver√° apenas o risco saud√°vel de ter que calibrar o discurso para travar, n√£o s√≥ o bom combate contra um autocrata como tamb√©m o bom debate com uma advers√°ria democr√°tica. J√° que Bolsonaro parece impor sua presen√ßa na hora decisiva, se surpresas n√£o ocorrerem ¬Ė e surpresas aqui ser√£o tamb√©m sinais de vida ¬Ė o processo pol√≠tico tocado com prud√™ncia reunir√° ambos, solidaria e ativamente, num palanque vitorioso e mais sustent√°vel, no segundo turno.

Recorro ao livro inesquec√≠vel de Maria Alice Rezende de Carvalho sobre Andr√© Rebou√ßas (O quinto s√©culo: Andr√© Rebou√ßas e a constru√ß√£o do Brasil) para comparar, sem licen√ßa da autora, a frustra√ß√£o da alma do seu protagonista ¬Ė indo da resigna√ß√£o apenas racionalizada (sem aceita√ß√£o emocional) com a queda da monarquia e ascens√£o de uma rep√ļblica incivil, at√© o suic√≠dio ¬Ė com o "moderatismo" de Joaquim Nabuco, que o leva a uma racionaliza√ß√£o de outro tipo, conciliada com seu sentimento e percep√ß√£o da pol√≠tica como m√©dia e n√£o como catarse. Da vis√£o da monarquia finda como rep√ļblica at√© a possibilidade de republicaniza√ß√£o da rep√ļblica emp√≠rica, ele chegaria ao panamericanismo como forma de manter viva, pela diplomacia, as possibilidades da pol√≠tica. Est√° em aberto aonde chegaremos n√≥s, mas h√° boa chance de se chegar a um bom porto pelo caminho surpreendente da grande pol√≠tica.

J√° conclu√≠mos o primeiro quinto do nosso sexto s√©culo e merecemos futuro. O que ser√° imposs√≠vel se n√£o vivermos o presente inteiro, sem atalhos. O presente demora, a lei da gravidade tem pressa e vale, mas n√£o √© a √ļnica que nele vigora. Nada desaparece antes da hora. Prazo de validade esgotado √© o dos fantasmas ideol√≥gicos, inclusive fantasminhas camaradas (essa imagem, sexagen√°rios entender√£o, a turma jovem vai precisar do tio Google). Passou da hora de sa√≠rem da nossa vida e entrarem na Hist√≥ria.

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Cientista político e professor da UFBa

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Pandemia e endemia: a volta do tema da corrupção
Sinal amarelo na C√Ęmara dos Deputados




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil

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