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Que história?

Adelson Vidal Alves - Dezembro 2022
 


O rei Francisco I sai da cama de sua amante direto para seu castelo. Ao passar em frente a uma igreja e ouvir o barulho dos sinos, cai imediatamente em oração emocionada.

O acontecido aqui narrado é trazido por Philippe Ariès, recuperando Lucien Febvre. O historiador francês nos apresenta duas interpretações para o fato. A primeira vem de um olhar comum dos homens do nosso tempo: o monarca, ao deixar o leito de perdição, se encontra com a sinalização do divino e logo se arrepende do pecado, implorando perdão dos céus. Uma segunda interpretação indicaria mudança de mentalidade temporal. Se hoje não conseguimos enxergar o rei simultaneamente piedoso e devasso, naquele momento era possível partilhar devoção religiosa e perversão sexual, como defenderia um historiador das mentalidades.

A história das mentalidades é parte integrante de uma revolução historiográfica que se inicia na primeira metade do século XX. A historiografia deixa o apelo puramente político, dos grandes personagens e eventos, e abandona o olhar exclusivo para as fontes documentais, para se tornar problema, interdisciplinar e com protagonismo de sujeitos marginais. Era o advento da chamada Escola dos Annales, que triunfava sobre a antiga história positivista. (Peter Burke prefere falar em movimento dos Annales, já que entre os principais nomes havia diferenças de abordagem e análise.)

Segundo Marc Bloch, a história “é a ciência dos homens no tempo”. De fato, como nos alertava o autor de O ofício do historiador, o objeto do estudo da história não pode ser o passado, como muitos pensam. É o ser humano o alvo do olhar atento do historiador, este elevado à categoria de cientista. Não uma ciência do tipo das ciências naturais, como fez Durkheim, fazendo do homem uma coisa, algo mecanicamente preso às estruturas. Como ciência social, a história responde ao rigor da objetividade científica, mas em outro campo metodológico, a exemplo da sociologia, da geografia e da economia.

A citada Escola dos Annales, ao romper com a historiografia tradicional, abre perspectivas da ação do profissional de história sobre seu estudo. Neste aspecto, é oportuno comparar esse novo movimento, de DNA francês, com outras formas interpretativas. Entre as várias correntes historiográficas, vale avaliar os Annales ao lado do materialismo histórico marxista, o que torna visíveis aspectos complementares e antagônicos.

Do ponto de vista da complementaridade, como bem analisa Ciro Flamarion Cardoso, em ambos percebe-se o olhar interessado sobre o coletivo, uma síntese global, o apreço pela interdisciplinaridade e algum grau de observação determinista sob o aspecto econômico. Mas há também diferenças. No que toca à temporalidade histórica, as escolas de Marx e Febvre divergem, com a primeira pensando na “perspectiva de mudança, da desestruturação-reconstrução, do conflito e luta entre os homens”, para usar as palavras de José Carlos Reis. Ainda segundo o historiador brasileiro, “a tese iluminista de que a Razão governa o mundo continua em vigor entre os marxistas”. Reis entende que os Annales “estudam e produzem a conservação do modo de produção capitalista”. Além disso, a historiografia marxista clássica considera o tempo a partir de uma teleologia revolucionária, buscando horizontes a serem alcançados de forma abrupta. Na historiografia dos Annales prevalece a observação do tempo de longa duração.

Poderíamos falar de uma historiografia liberal ou conservadora, focada em indivíduos e na atenção favorável às instituições do passado que persistem no presente. Tudo depende do quadro teórico que irá mover o profissional, responsável pela narrativa derivada da análise das fontes. Um historiador materialista porá o foco no modo de produção, analisando a superestrutura em relação à estrutura, enquanto outros podem dar absoluta autonomia para consciência, mentalidade e instituições. Alguns podem compreender a história como um progresso permanente do espírito, enquanto outros a compreenderão como formada por ciclos imprevisíveis.

Ao falar do estudo da história, estamos tratando de uma ciência — uma ciência humana. Não há exatidões definitivas, ainda que seja possível estabelecer consensos, sempre renováveis, é claro.

O ideal é sempre perguntar: que história?

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Historiador, pós-graduado em História Contemporânea

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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