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Americanismo, fordismo e subjetividade

Roberto Finelli - 1997
Tradução: Luiz Sérgio Henriques
 

1. Uma subjetividade em devir

Penso que uma das conquistas mais originais e fecundas do pensamento de Gramsci consiste na defini√ß√£o daquilo que ele entende por subjetividade na sociedade e na hist√≥ria dos seres humanos. A subjetividade que √© capaz de a√ß√£o na hist√≥ria - pensa Gramsci - √© s√≥ resultado, nunca princ√≠pio. E √©, como se sabe, o resultado da passagem de um grupo ou de uma classe social desde uma condi√ß√£o desagregada e subalterna a uma condi√ß√£o de iniciativa primeiramente apenas econ√īmico-corporativa, em seguida cultural-pol√≠tica, at√© o estabelecimento intelectual e moral de uma hegemonia. De fato, na vis√£o gramsciana, uma classe, ou grupo social, tem seu primeiro n√≠vel de exist√™ncia como agente econ√īmico e, como tal, coincide com sua parcialidade de classe ou de grupo, limitando-se √† reprodu√ß√£o dos pr√≥prios interesses particulares. Num primeiro momento, ali√°s, cada membro do grupo est√° de tal modo encerrado em sua particularidade que n√£o alcan√ßa sequer uma consci√™ncia corporativa da comunh√£o de interesses que o liga aos outros membros de seu pr√≥prio agrupamento. Num tal primeiro n√≠vel, por isto, vigora a aus√™ncia completa de um sujeito coletivo e se produz um √Ęmbito apenas naturalista, no qual as a√ß√Ķes humanas, fragmentadas e enrijecidas em sua particularidade, n√£o s√£o redut√≠veis a uma vontade humana que possa orient√°-las segundo seu projeto. De fato, elas aqui possuem o car√°ter de fatos objetivos - mais do que de atos - e, como tais, s√£o objeto e mat√©ria de an√°lise apenas das ci√™ncias objetivas da natureza [1].

Quando, no entanto, os membros de um grupo social n√£o mais se identificam com sua singularidade atomista e adquirem, primeiro, a consci√™ncia de sua homogeneidade de grupo e, depois, a consci√™ncia de que seu interesse corporativo pode, e deve, incluir e representar os interesses dos outros grupos sociais, at√© se combinarem com o interesse de toda a sociedade, ent√£o o grupo social inaugura o √Ęmbito de exist√™ncia mais propriamente pol√≠tico, como esfera da vontade que assume como escopo n√£o a mera reprodu√ß√£o naturalista, mas uma a√ß√£o intrinsecamente humana e hist√≥rica, porque gera sempre alguma coisa nova e jamais acontecida. E esta √© a esfera da sociedade civil e da superestrutura, na qual o grupo social, na fase da consci√™ncia corporativa, luta contra os grupos j√° dominantes para ter sua participa√ß√£o admitida na gest√£o do Estado; mas na qual, sobretudo, bem al√©m deste momento, combate sua luta cultural e moral pela hegemonia. Noutras palavras, para que seja reconhecido por todos e, como tal, para que seu interesse de parte valha como interesse universal, unificando e dirigindo deste ponto a sociedade em seu conjunto.

Tudo isto significa que uma classe n√£o existe como sujeito hist√≥rico se n√£o escapa de sua coloca√ß√£o passiva no interior das rela√ß√Ķes econ√īmicas e se n√£o adquire uma representa√ß√£o de si e do mundo aut√īnoma e independente das id√©ias dominantes. Isto √©, a conquista da hegemonia e o nascimento de um grupo social para a hist√≥ria est√£o ligados a uma dial√©tica que atravessa essencialmente a auto-representa√ß√£o que aquele grupo social possui de si: passando da ideologia em sentido negativo (como falsa consci√™ncia que deforma a realidade representada) √† ideologia em sentido positivo, e em sentido propriamente gramsciano, a qual identifica verazmente, ou seja, complementa e consolida a natureza da realidade tomada em exame. De outro modo, aquele grupo social n√£o nasce para a hist√≥ria mas permanece confinado numa a√ß√£o apenas mec√Ęnica e naturalista, tal como a econ√īmica, tendo cedido sua vontade √†quela mais-valia de vontade, constitu√≠da pela ideologia dominante enriquecida com a acumula√ß√£o de consenso das camadas subalternas.

Eis por que uma subjetividade, para Gramsci, não pode nunca ser pressuposta, mas apenas produzida, posta. Porque ela é sempre o fruto de um longo e complexo processo de crítica e de elaboração de formas de consciência ingênuas e desagregadas e de sua superação com formas representativas adequadas e coerentes.

Ora, √© justamente por esta concep√ß√£o que atribui √† ideologia uma fun√ß√£o fundamental de consci√™ncia e de verdade, em vez de mistifica√ß√£o - justamente por esta concep√ß√£o que n√£o faz da ideologia o mero reflexo superestrutural de uma estrutura econ√īmica, mas a fun√ß√£o constitutiva, "transcendental" (para usar a express√£o de Kant), da subjetividade hist√≥rico-pol√≠tica -, que Gramsci inova profundamente a tradi√ß√£o do marxismo e teoriza o pr√≥prio conceito de "sociedade civil" como √Ęmbito de encontro/confronto de hegemonias ideol√≥gicas.

A luta de classes n√£o √© apenas luta econ√īmica; ali√°s, mais do que esta, √© sobretudo luta no plano das vis√Ķes do mundo. E, por isto, a luta pelo socialismo n√£o pode ser confiada apenas √†s contradi√ß√Ķes objetivas e mec√Ęnicas da economia. Acredito, de fato, que a dial√©tica que mais interessa a Gramsci seja, ao lado daquela das oposi√ß√Ķes e das contradi√ß√Ķes no plano econ√īmico, a dial√©tica que uma classe subalterna deve atravessar e desenvolver at√© chegar a sua autonomia pol√≠tica: a dial√©tica de oposi√ß√£o entre o pr√≥prio ser social, a pr√≥pria pr√°xis real, e o saber deste ser, a dial√©tica de oposi√ß√£o, que vive em primeiro lugar internamente, entre sua determina√ß√£o econ√īmico-social de classe e sua auto-representa√ß√£o te√≥rica.

Atrav√©s de sua pr√≥pria experi√™ncia biogr√°fica, Gramsci conhece o processo de variadas formas de consci√™ncia e de saber que um sardo de Ghilarza, na Sardenha, deve atravessar para obter uma vis√£o adequada e cosmopolita-internacional da pr√≥pria realidade colocada num contexto de rela√ß√Ķes nacional e internacional. Certamente, √© tamb√©m da√≠, tamb√©m de sua experi√™ncia pessoal, da participa√ß√£o quotidiana nos problemas de vida e de cultura, primeiro, da dura realidade sarda e, depois, da sociedade industrial e oper√°ria de Turim, que deduz esta sua convic√ß√£o de que a dial√©tica que envolve o proletariado √© essencialmente a da expropria√ß√£o das formas de consci√™ncia atrav√©s das quais este n√£o reconhece a pr√≥pria identidade espec√≠fica de classe. √Č um modo, o de Gramsci, de reescrever em sentido oper√°rio e do ponto de vista das camadas populares a Fenomenologia do Esp√≠rito, de Hegel. O sujeito hist√≥rico n√£o √© originariamente formado e pressuposto, como no individualismo liberal, mas √©, para dizer com terminologia hegeliana, um werden zu sich, um tornar-se ele pr√≥prio, atrav√©s de um processo de supera√ß√£o das formas falsificadas de autoconsci√™ncia que ele, em sua vida imediata, possui necessariamente de si mesmo, como sujeito subalterno a classes e a id√©ias dominantes. Mas n√£o √© preciso, ao dizer isto, cair na interpreta√ß√£o liberal e idealista que o pensador italiano N. Bobbio deu do conceito de "sociedade civil" em Gramsci. Porque falar de uma dial√©tica entre as ideologias como momento essencial da forma√ß√£o de um sujeito n√£o mais subalterno, mas aut√īnomo e capaz de hegemonia, n√£o significa renunciar ao plano econ√īmico da produ√ß√£o material, como √Ęmbito do qual Gramsci, que √© pensador marxista e n√£o liberal, parte sem nunca abandonar. A hegemonia, como capacidade de promover um consenso generalizado, que se estende a v√°rias classes sociais, √© √©tico-pol√≠tica: mas √© tal sempre a partir de uma hegemonia econ√īmica:

O fato da hegemonia pressup√Ķe indubitavelmente [...] que o grupo dirigente fa√ßa sacrif√≠cios de ordem econ√īmico-corporativa; mas tamb√©m √© indubit√°vel que tais sacrif√≠cios e tal compromisso n√£o podem envolver o essencial, dado que, se a hegemonia √© √©tico-pol√≠tica, n√£o pode deixar de ser tamb√©m econ√īmica, n√£o pode deixar de ter seu fundamento na fun√ß√£o decisiva que o grupo dirigente exerce no n√ļcleo decisivo da atividade econ√īmica (caderno 13, ¬ß 18).

2. Americanismo e fordismo: a f√°brica se faz totalidade

Esta concep√ß√£o de uma subjetividade sociopol√≠tica, volto a dizer, n√£o pressuposta, mas posta, permite a Gramsci recusar uma concep√ß√£o natural e espont√Ęnea da consci√™ncia de classe, formular o problema dos intelectuais e, sobretudo, no que nos interessa, avaliar como dogm√°tica e fide√≠sta toda interpreta√ß√£o que, reduzindo o marxismo a filosofia da hist√≥ria, concebe a passagem de uma √©poca a outra atrav√©s do automatismo das contradi√ß√Ķes econ√īmicas.

Por tudo isto, Gramsci pode escrever as p√°ginas sobre Americanismo e fordismo. Pode recusar o diagn√≥stico de estagna√ß√£o e cat√°strofe que a Terceira Internacional indicava para o futuro do capitalismo - precisamente, segundo uma l√≥gica mec√Ęnica das contradi√ß√Ķes objetivas, da queda tendencial da taxa de lucros e da tend√™ncia √† superprodu√ß√£o intr√≠nseca na produ√ß√£o capitalista. Mesmo encerrado no espa√ßo estreito de um c√°rcere fascista, pode soltar-se a ponto de ver se iniciar nos Estados Unidos uma nova fase expansiva da civiliza√ß√£o institu√≠da com base na produ√ß√£o de capital.

Como se sabe, para Gramsci o americanismo se baseia numa rela√ß√£o e redistribui√ß√£o entre lucro, sal√°rio e renda profundamente diversa daquela do capitalismo do Ocidente europeu. Os altos sal√°rios e a conseq√ľente expans√£o da demanda permitem a amplia√ß√£o de um mercado interno que n√£o mais v√™ as rendas e o consumo improdutivo numa posi√ß√£o de grande relevo. Com rela√ß√£o ao capitalismo oitocentista e tradicional, baseado na repress√£o do sal√°rio e numa rela√ß√£o org√Ęnica entre lucro e renda, o novo capitalismo americano desloca a renda para uma fun√ß√£o marginal e coloca sal√°rio-lucro no centro do desenvolvimento econ√īmico.

Esta distribui√ß√£o diferente dos rendimentos tem como base um aumento gigantesco da produtividade do trabalho devido √† reorganiza√ß√£o dos processos produtivos segundo cadeias de montagem (fordismo) e √† defini√ß√£o cient√≠fica dos tempos, dos movimentos e das fun√ß√Ķes (taylorismo). Na base, portanto, da moderna configura√ß√£o social do capitalismo americano, Gramsci v√™ a transforma√ß√£o t√©cnica do processo de produ√ß√£o, sua racionaliza√ß√£o com o enorme aumento da intensidade do trabalho. A produ√ß√£o e a reprodu√ß√£o de uma for√ßa de trabalho que participe cada vez menos, com sua consci√™ncia e sua personalidade aut√īnoma, no processo de trabalho e que seja, pelo contr√°rio, um componente apenas mec√Ęnico e passivo deste processo, est√£o, de fato, no centro das p√°ginas de Americanismo e fordismo:

Taylor [...] expressa com brutal cinismo o objetivo da sociedade americana: desenvolver em seu grau m√°ximo, no trabalhador, os comportamentos maquinais e autom√°ticos, quebrar a velha conex√£o psicof√≠sica do trabalho profissional qualificado, que exigia uma certa participa√ß√£o ativa da intelig√™ncia, da fantasia, da iniciativa do trabalhador, e reduzir as opera√ß√Ķes produtivas apenas ao aspecto f√≠sico maquinal (caderno 22, ¬ß 11).

Com rigoroso m√©todo marxista, Gramsci deduz e reconstr√≥i a partir da centralidade da nova forma do processo de trabalho a nova forma da organiza√ß√£o social moderna. A nova f√°brica se faz princ√≠pio e s√≠ntese da nova totalidade social porque re√ļne em si as tr√™s produ√ß√Ķes fundamentais de sua constitui√ß√£o e reprodu√ß√£o. De fato, ela √© no americanismo: 1) produ√ß√£o material de mercadorias; 2) produ√ß√£o do nexo social de sal√°rio e lucro, ou seja, da rela√ß√£o de classe central da sociedade contempor√Ęnea; e, por fim, √©: 3) produ√ß√£o de um imagin√°rio, de uma vis√£o do mundo: ou seja, a partir de seus ritmos e de suas modalidades organizativas racionais e mecanizadas, produ√ß√£o de um estilo de vida capaz de uma √©tica puritana, em oposi√ß√£o a comportamentos dissipadores e improdutivos.

Noutras palavras, Gramsci come√ßa a compreender que o americanismo significa produ√ß√£o de toda uma organiza√ß√£o social, em seu nexo articulado de plano material, plano relacional-social e plano ideol√≥gico-simb√≥lico, a partir da centralidade da f√°brica: isto √©, que na produ√ß√£o capitalista existe uma capacidade de difus√£o do valor do capital - no sentido tanto econ√īmico quanto moral que o conceito valor do capital aqui assume - a todo o corpo social. E, justamente por isto, as p√°ginas de Americanismo e fordismo representam um dos testemunhos mais elevados da intelig√™ncia de Gramsci: e isto a ponto de lev√°-lo a problematizar em seguida o papel dos intelectuais, compreendendo que aqui a quest√£o da hegemonia se p√Ķe de modo mais direto e com menos complexidade de media√ß√Ķes do que no velho capitalismo europeu: "A hegemonia nasce da f√°brica - escreve sempre no Caderno 22 - e necessita apenas, para ser exercida, de uma quantidade m√≠nima de intermedi√°rios profissionais da pol√≠tica e da ideologia".

3. Corpo, mente, ortopedia

No entanto, justamente nestas páginas de elevadíssima inteligência histórica e sociológica, o pensamento de Gramsci mostra alguns limites de formulação igualmente importantes e significativos. O limite principal reside, em minha opinião, na aceitação e valorização substancial que ele faz do taylorismo, o qual, para ele, significa uma organização racional do processo de trabalho que não só garante eficiência e um salto enorme de produtividade na história do industrialismo, mas chega propriamente a libertar a mente do trabalhador.

N√£o que Gramsci n√£o esteja consciente dos aspectos opressivos e repressivos que a nova organiza√ß√£o do trabalho comporta. A produ√ß√£o de "um novo tipo de trabalhador e de homem" comporta uma coer√ß√£o necess√°ria. De resto, "a hist√≥ria do industrialismo - Gramsci escreve - foi sempre (e se torna hoje de modo ainda mais acentuado e rigoroso) uma luta cont√≠nua contra o elemento ¬Ďanimalidade¬í do homem, um processo ininterrupto, freq√ľentemente doloroso e sangrento, de sujei√ß√£o dos instintos (naturais, isto √©, animalescos e primitivos) a normas e h√°bitos de ordem, de exatid√£o, de precis√£o sempre novos, mais complexos e r√≠gidos, que tornam poss√≠veis as formas cada vez mais complexas de vida coletiva, que s√£o a conseq√ľ√™ncia necess√°ria do desenvolvimento do industrialismo". Vale dizer, a intr√≠nseca natureza do industrialismo, mais do que o capitalismo, √© que requer esta transforma√ß√£o na natureza do ser humano. De fato, para Gramsci - e este ponto √© muito importante -, tal processo de ortopedia da for√ßa de trabalho e de sua adapta√ß√£o aos ritmos muito mais intensos e eficientes da produ√ß√£o industrial vale n√£o s√≥ para a sociedade capitalista mas tamb√©m para o socialismo. Com a condi√ß√£o de passar de uma repress√£o externa, como ocorre na organiza√ß√£o taylorista e fordista do capitalismo, para uma auto-repress√£o interior, em que as classes trabalhadoras, num sistema social diferente, sejam elas mesmas a se imporem uma disciplina rigorosa do trabalho que possa desenvolver comportamentos maquinais e autom√°ticos e obter, assim, uma "compress√£o" do componente "animalesco" do ser humano. "Este equil√≠brio [psicof√≠sico] - escreve Gramsci, referindo-se √† nova rela√ß√£o entre corpo e mente estabelecida pelo taylorismo - s√≥ pode ser puramente externo e mec√Ęnico, mas poder√° se tornar interno se for proposto pelo pr√≥prio trabalhador e n√£o imposto de fora, por uma nova forma de sociedade, com meios apropriados e originais" (Ib.).

"O princípio da coerção, direta e indireta, na ordenação da produção e do trabalho é justo", escreve de fato Gramsci a propósito das tentativas de Trotski de organizar os exércitos do trabalho e de militarizar a disciplina e a organização de fábrica. Só a forma e o ritmo desta operação foram errados, excessivamente apressados e resolutos (Ib.).

Mas compreender estas teses de Gramsci sobre o taylorismo como organização de per si racional do desenvolvimento das forças produtivas significa prestar atenção em seu modo de conceber a relação entre mente e corpo, pelo menos como se desenvolveu no Caderno 22. Porque exatamente aqui considero que se registra um componente excessivamente espiritualista e idealista presente no pensamento de Gramsci. Com efeito, parece-me que se pode dizer que a característica mais destacada da relação corpo-mente em Gramsci - considerada pelo menos do ponto de vista da história do trabalho - consiste numa assimetria radical de valores que exalta, por um lado, a liberdade e a autoridade da mente, e, por outro, desvaloriza o corpo como lugar material e brutal do instinto e da animalidade. Para Gramsci, pode-se medir o progresso na história da civilização justamente através da história da repressão e da ortopedia do corpo que a ordem social consegue realizar:

Mas todo novo modo de viver, no per√≠odo em que se imp√Ķe a luta contra o velho, n√£o foi sempre, durante um certo tempo, o resultado de uma coer√ß√£o mec√Ęnica? At√© mesmo os instintos que hoje devem ser superados como ainda demasiadamente "animalescos" foram, na realidade, um not√°vel progresso em rela√ß√£o aos anteriores, ainda mais primitivos: quem poderia descrever o "custo", em vidas humanas e em dolorosas repress√Ķes dos instintos, da passagem do nomadismo √† vida sedent√°ria e agr√≠cola (caderno 22, ¬ß 10)?

Mas o corpo n√£o √© apenas algo a ser governado e educado. √Č tamb√©m, em sua n√£o-espiritualidade, algo meramente fisiol√≥gico e, por isto, mec√Ęnico, que, em raz√£o desta sua natureza, pode assimilar movimentos de trabalho ritmados e mecanizados, at√© assimil√°-los dentro de si e transform√°-los numa pr√≥pria "segunda natureza". A coa√ß√£o se torna, com a repeti√ß√£o, um h√°bito espont√Ęneo do corpo. Por isto, a hist√≥ria da civiliza√ß√£o √© hist√≥ria de um equil√≠brio psicof√≠sico que se desloca progressivamente cada vez mais para cima, atrav√©s da transforma√ß√£o em automatismos corp√≥reos espont√Ęneos de imposi√ß√Ķes que originalmente se fizeram, simultaneamente, √† mente e ao corpo, com a artificialidade da viol√™ncia e da for√ßa. Tanto que no taylorismo o sistema homem-m√°quina, abrangendo sobretudo o corpo da for√ßa de trabalho, deixa livre a mente, libertando-a de toda aten√ß√£o ligada ao processo de produ√ß√£o. Na mecaniza√ß√£o taylorista, escreve Gramsci, "quando o processo de adapta√ß√£o se completou, verifica-se na realidade que o c√©rebro do oper√°rio, em vez de mumificar-se, alcan√ßou um estado de completa liberdade. Mecanizou-se completamente apenas o gesto f√≠sico; a mem√≥ria do of√≠cio, reduzido a gestos simples repetidos com ritmo intenso, ¬Ďaninhou-se¬í nos feixes musculares e nervosos e deixou o c√©rebro livre e desimpedido para outras ocupa√ß√Ķes. Do mesmo modo como caminhamos sem necessidade de refletir sobre todos os movimentos necess√°rios para mover sincronizadamente todas as partes do corpo, de acordo com aquele determinado modo que √© necess√°rio para caminhar, assim tamb√©m ocorreu e continuar√° a ocorrer na ind√ļstria com rela√ß√£o aos gestos fundamentais do of√≠cio; caminhamos automaticamente e, ao mesmo tempo, podemos pensar em tudo o que quisermos" (caderno 22, ¬ß 12).

O corpo como campo de disciplina e de manipula√ß√£o cultural! Este √© o horizonte pressuposto em cujo √Ęmbito Gramsci desenvolve suas considera√ß√Ķes sobre a efici√™ncia objetivamente racional do taylorismo. E n√£o poderia ser diferente, dada a cultura do tempo e a forma√ß√£o te√≥rica de Gramsci, muito distante de perspectivas antropol√≥gicas e psicanal√≠ticas, como as que nos s√£o contempor√Ęneas, que v√™em no corpo n√£o a natureza oposta √† cultura, n√£o a animalidade oposta √† espiritualidade, mas, pelo contr√°rio, o fundamento de sentido e de vida da mente. Ou seja, muito distante daquelas perspectivas psicobiol√≥gico-antropol√≥gicas que v√™em na diferen√ßa de corpo e mente n√£o uma rela√ß√£o entre colonizado e colonizador, mas um nexo de reciprocidade e de di√°logo aberto e inesgot√°vel, precisamente pela diferen√ßa estrutural de suas polaridades, cuja presen√ßa simult√Ęnea constitui, ao lado da socialidade com os outros, a peculiaridade do ser humano.

√Č esta antropologia assim√©trica predominantemente espiritualista, junto com uma concep√ß√£o excessivamente neutra e t√©cnica do desenvolvimento das for√ßas produtivas e da organiza√ß√£o do trabalho, que torna datado o discurso de Gramsci e faz dele, por estes aspectos, um homem de seu tempo, que n√£o pode ir al√©m do pr√≥prio contexto cultural e da pr√≥pria sombra.

Coloniza√ß√£o do corpo e apologia do taylorismo levam de volta o pensamento de Gramsci ao mito de uma subjetividade pressuposta idealista-racional e √†quela inflex√£o positivista do marxismo que re√ļne, quanto √† exalta√ß√£o das for√ßas produtivas, a cultura da Segunda e da Terceira Internacional. Com efeito, tamb√©m para Gramsci, a passagem de uma forma√ß√£o social a outra, do capitalismo ao socialismo, parece repousar mais na transforma√ß√£o das rela√ß√Ķes de propriedade e na substitui√ß√£o do sujeito social hegem√īnico - numa confian√ßa substancial na continuidade das for√ßas produtivas - do que na g√™nese de uma subjetividade, individual e coletiva, que, no cora√ß√£o mesmo da produ√ß√£o, saiba avan√ßar uma nova produ√ß√£o e uma nova organiza√ß√£o do trabalho.

A f√°brica capitalista, como teorizou K. Marx no Capital e em seus cadernos preparat√≥rios, n√£o √© lugar de racionalidade, mas de irracionalidade. Nela, n√£o existe s√≥ processo concreto de trabalho, a ser organizado mais ou menos eficazmente com o fim de produzir bens, mas existe produ√ß√£o de "riqueza" abstrata e de sua acumula√ß√£o. As transforma√ß√Ķes tecnol√≥gicas que, para Marx, conduzem da coopera√ß√£o at√© a manufatura e a grande ind√ļstria, visam a fazer com que o processo de trabalho se torne cada vez mais coerente e "subsumido" sob o processo de valoriza√ß√£o, at√© que a for√ßa de trabalho seja expropriada n√£o s√≥ da riqueza produzida mas, precisamente, da capacidade de usar os meios de produ√ß√£o. E, se √© verdade que a produ√ß√£o de capital aumenta enormemente a produtividade, que gera mais mercadorias, ao mesmo tempo ela destr√≥i a produ√ß√£o de vida dos trabalhadores, que subordina √† sua acumula√ß√£o. Disso est√° bem consciente Marx, quando escreve no Capital: "√Č uma quest√£o de vida ou de morte [...] A grande ind√ļstria obriga a sociedade, sob pena de morte, a substituir o indiv√≠duo fragmentado, submetido ao tormento de uma fun√ß√£o produtiva parcial, pelo indiv√≠duo integral, que saiba enfrentar as exig√™ncias mais diversificadas do trabalho e, no exerc√≠cio de suas variadas fun√ß√Ķes, d√™ livre desenvolvimento √† diversidade de suas capacidades naturais e adquiridas" [2].

Refletindo sobre estas palavras de Marx, cabe pensar que por muitas vezes a cultura de esquerda se reconheceu na palavra de ordem de Max Weber, segundo a qual a ess√™ncia da modernidade reside na "racionaliza√ß√£o", e esqueceu a palavra de ordem de Marx, segundo a qual a ess√™ncia do moderno est√° na "valoriza√ß√£o". Conseq√ľ√™ncia desta substitui√ß√£o de palavras-chave √© a cr√≠tica da modernidade como cr√≠tica da racionalidade t√©cnica, tal como desenvolvida por Martin Heidegger. Assim, freq√ľentemente as palavras do pensador alem√£o, do pastor da metaf√≠sica do Ser, substitu√≠ram e fizeram esquecer as p√°ginas em que Marx reuniu e conjugou a an√°lise do processo de explora√ß√£o e a an√°lise do processo de trabalho, dando uma leitura n√£o metaf√≠sica, mas hist√≥rico-sociol√≥gica da t√©cnica.

Ora, por certo não cabe a Gramsci a responsabilidade por tudo isso. Aqui, só quis dizer que Gramsci deve ser recuperado criticamente, distinguindo entre o que ainda é atualíssimo em seu pensamento e o que não mais é adequado a nossa realidade. Ele é um teórico da subjetividade sociopolítica e dos problemas muito complexos de seu nascimento e de sua constituição. Elabora uma teoria da política não como relação entre representados e representantes ou como mediação de sujeitos já pressupostos, como faz a doutrina democrático-liberal, mas como relação de coerência, ou não, entre uma subjetividade social e sua auto-representação.

Esta concepção originalíssima da política - esta teoria de uma subjetividade não pressuposta - começou a preencher o vazio e o atraso que a tradição do marxismo e do socialismo sempre teve quanto ao tema do sujeito. Mas acredito que o próprio Gramsci, em seguida, contradiga tal concepção do sujeito em devir com um retorno a um sujeito metafísico e abstrato, porque pressuposto com uma excessiva caracterização racionalista e moralista. Mas até mesmo a discussão sobre tudo isso é uma dádiva que nos legou a inteligência deste extraordinário comunista.

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Roberto Finelli é professor de História da Filosofia na Universidade de Bari.

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Notas

[1] "Uma relação de forças sociais estreitamente ligada à estrutura, objetiva, independente da vontade dos homens, que pode ser mensurada com os sistemas das ciências exatas ou físicas" (caderno 13, § 17).

[2] K. Marx. Il capitale. Turim, Einaudi, 1976, p. 597-8.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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