Busca:     


As rosas e os cadernos

Giorgio Baratta - 2000
Tradução: Giovanni Menegoz
 

O século breve

Entre 1919 e 1989, entre a "utopia revolucion√°ria" do Ordine Nuovo e a "revolu√ß√£o passiva" da Nova Ordem Mundial, encerra-se a hist√≥ria agitada e contradit√≥ria do s√©culo que vai embora. V√£o-se tamb√©m projetos, esperan√ßas, ilus√Ķes, entusiasmos, compromissos, hero√≠smos, consci√™ncia cr√≠tica, historicismo, comunismo.

Antonio Gramsci escrevia em 1929: "O velho morre e o novo não pode nascer." Estava claro para ele o que seria e deveria ser o novo, que despontava como algo confuso no horizonte, mas que ainda não existia e nunca haveria de existir. Para nós, o novo já é o presente, com sua velocidade de inovação, destruição, invenção, com sua ausência de futuro, sua frieza tecnológica.

A obsolesc√™ncia quase imediata tanto das produ√ß√Ķes como das id√©ias √© de tal monta que, olhando para as potencialidades n√£o realizadas, quase congeladas, do socialismo, o mote poderia paradoxalmente soar assim: "O novo morre e o velho n√£o pode nascer."

A cidade futura

Hoje, pensar junto com Gramsci significa n√£o resignar-se, resistir, manter viva a contradi√ß√£o entre 1919 e 1989, entre passado e presente, realidade e imagina√ß√£o; significa reconquistar um olhar sobre o futuro, sem mitologias nem nostalgias, com a certeza de que o sonho foi sonhado, der Traum ist ausgetraumt, mas tamb√©m com a vontade e capacidade de manter vivos os rastros daquele sonho, que foi - como qualquer sonho - a realiza√ß√£o simb√≥lica de um desejo concreto, uma necessidade real, uma tend√™ncia do existente. O fato √© que, passada a √©poca de Yalta e do socialismo, primeiro num "s√≥" pa√≠s, depois cinzentamente "real" - quando o capitalismo volta a marchar no mundo como um tanque de ex√©rcito, queimando terras ainda virgens ou ricas de tradi√ß√Ķes -, o cen√°rio internacional, na passagem "entre um s√©culo e outro", parece reproduzir intensamente o clima de h√° cem anos: a arrog√Ęncia tecnocr√°tica e positivista √© novamente a m√°scara atrav√©s do qual se anuncia e se afirma brutalmente o direito do mais forte. Ontem como hoje, o progresso √© portador de seu contr√°rio e anuncia retrocessos espantosos, mas tamb√©m joga para frente as contradi√ß√Ķes da vida social. A cr√≠tica social agu√ßa suas armas. An√°lise objetiva do real e imagina√ß√£o cognitiva, juntas, p√Ķem em discuss√£o o existente, produzem a vis√£o do poss√≠vel.

Antonio Gramsci pensou e agiu não por força de uma fé, mas de uma paixão racional. Já que o mundo do comunismo nada mais é do que o mundo do capital, que associa coisas e indivíduos, povos e culturas, o eco daquela paixão e razão, a recordação daquele sonho obrigam a mente a se aventurar em um possível que terá outros nomes e características, mas extrai vida e alimento daquele mundo antigo e ainda novo.

A sagrada sobriedade

Die heilige N√ľchternheit √© um ideal holderliniano que atravessa de ponta a ponta os Cadernos.

√Č admir√°vel quantos espa√ßos extraordin√°rios abre, linha por linha, aquela "pena de escrever que arranha", t√£o impregnada de mofo carcer√°rio. Limita√ß√Ķes e isolamento d√£o asas ao pensamento. O v√īo √© desprovido de √™nfase. O horizonte tem√°tico √© o mundo/universo reconduzido a momentos particulares, fatos e pequenos fatos, situa√ß√Ķes e territ√≥rios, problemas que surgem, embri√Ķes de id√©ias, categorias audazes e penetrantes, que se concatenam organicamente sem nunca se tornar sistema e oferecem-se despidos de enfeites √† prova da experi√™ncia. O contexto √© constitutivamente interdisciplinar, ou melhor, adisciplinar; n√£o conhece limites e termos j√° determinados nem axiomas ou defini√ß√Ķes b√°sicas. A materialidade dos Cadernos √© express√£o de uma forma original de pensamento que pode desenhar-se de modos diferentes, como uma estrutura em espiral ou como um ret√≠culo ou labirinto... √© uma filosofia-crian√ßa que est√° aprendendo a caminhar e, por esta raz√£o, precisa ser ajudada a existir e desenvolver-se, mas tamb√©m ser considerada por aquilo que √©, fr√°gil em sua grandeza, inacabada em sua originalidade e fertilidade.

O estudo e o uso

Com poucas exce√ß√Ķes, o enorme sucesso do pensamento de Gramsci representou uma trai√ß√£o sistem√°tica de seu estilo s√≥brio e comedido, de seu ritmo lento e cadenciado, de sua arg√ļcia incisiva e sutil. Existem raz√Ķes profundas para esta trai√ß√£o, que se concretizam no destino simultaneamente perverso e fascinante, enraizado nas qualidades peculiar√≠ssimas do personagem; o qual conheceu, primeiro, a exclus√£o, a condena√ß√£o, o sil√™ncio, por parte de seus companheiros, depois, as celebra√ß√Ķes e los usos, que podem ser muito nobres, mas podem tamb√©m traduzir-se no af√£ de sempre buscar em sua obra algo a mais, ou diferente, do que ele tinha pensado e escrito, dentro da estrat√©gia e da t√°tica de adapt√°-lo aos prop√≥sitos de cada um [1].

Por um lado, é precisamente isso que seus escritos, tanto políticos e jornalísticos como epistolares e teóricos, pedem: um interlocutor vivo, que apreenda a idéia e siga em frente, que assuma uma atitude não somente filológica e crítica, mas projetual e herética.

Por outro lado, Gramsci nos advertiu, com suas anota√ß√Ķes pormenorizadas sobre o modo de ler Marx - um autor que lhe √© afim, por causa do movimento perp√©tuo e do car√°ter n√£o-sistem√°tico nem puramente te√≥rico do seu pensamento -, a exercer o m√°ximo de escr√ļpulo e de honestidade cient√≠fica, a n√£o "for√ßar" nunca os textos.

Ambivalências

N√£o √© f√°cil combinar, de maneira equilibrada e produtiva, filologia e pol√≠tica, o estudo e o uso. Tamb√©m pode acontecer que estes dois aspectos se fundam entre si. Esta, talvez, √© a novidade mais importante de certa literatura recente: atrav√©s do estudo paciente, quase uma escava√ß√£o, principalmente no sentido gen√©tico e diacr√īnico, da edi√ß√£o cr√≠tica dos Cadernos e, em geral, de toda a obra de Gramsci, esta literatura assume o "estilo" e "ritmo" de seu pensamento n√£o somente como objeto mas como m√©todo de estudo. N√£o se trata, neste caso, de tentar uma moderniza√ß√£o de suas categorias, mas de percorr√™-las novamente em sua din√Ęmica interna ou de torn√°-las dispon√≠veis como fermentos para uma an√°lise do existente.

H√° tamb√©m uma hist√≥ria inteiramente pol√≠tica da leitura dos textos e da interpreta√ß√£o do significado e uso de certas categorias. Tome-se o conceito de "hegemonia" e "luta hegem√īnica": houve, e ainda h√°, uma verdadeira "luta hegem√īnica" sobre o modo de entender a hegemonia. Penso, por exemplo, nos socialistas italianos, que, nos anos 70, para combater o avan√ßo do comunismo e a influ√™ncia gramsciana que se manifestava (embora pela √ļltima vez) na cultura italiana, propuseram-se demonstrar e convencer que o pr√≥prio conceito de "hegemonia" teria um car√°ter antidemocr√°tico, confundindo intencionalmente "hegemonia" com o sentido corrente de "hegemonismo".

Considera√ß√Ķes parecidas podem ser feitas a prop√≥sito do conceito, bastante ligado ao anterior, de "sociedade civil", que hoje revela, em particular, toda a "ambival√™ncia" de seus "usos". Estudiosos e homens pol√≠ticos de proje√ß√£o (dessa curiosa n√£o-esquerda de hoje) utilizam e alimentam uma linha de interpreta√ß√£o deste conceito que induz a eliminar os conte√ļdos "estatais" e "p√ļblicos" da tradi√ß√£o socialista. Mas esta leitura "neoliberal" ou "neo-an√°rquica" ignora (ou prefere ignorar) um fato simples e indiscut√≠vel: o trabalho intenso, profundo, corajoso e totalmente isolado, que - em anos dominados pela luta feroz entre "estatolatrias" opostas, mas sim√©tricas - Gramsci desenvolveu com generosidade, ao repensar o conceito de Estado e sociedade civil, fundando aquele seu particular√≠ssimo conceito de "Estado ampliado" (tanto antiliberal quanto antitotalit√°rio), no qual se reinseria a pr√≥pria "sociedade civil" como momento e articula√ß√£o fundamental [2]. Este novo conceito de Estado √© que o leva a retornar de maneira nova, cr√≠tica e construtiva, √†s origens do socialismo.

Filologia viva

Considero que a "luta hegem√īnica" em torno da leitura de Gramsci exige hoje uma certa suspens√£o das motiva√ß√Ķes mais diretamente ideol√≥gicas. Mesmo odiando academicismos e filologismos, Gramsci dava grande import√Ęncia √† filologia, entendida, em n√≠vel muito geral, como "express√£o metodol√≥gica da import√Ęncia dos fatos particulares". Ele formulou o conceito de "filologia viva", cuja import√Ęncia salientava n√£o somente em rela√ß√£o ao estudo dos textos mas tamb√©m da vida social e pol√≠tica, da pr√≥pria concep√ß√£o de partido. O m√©todo da "filologia viva" pressup√Ķe o vaiv√©m do emp√≠rico e do individual ao universal e ao total, e vice-versa - sem nunca fechar o c√≠rculo ou chegar a uma conclus√£o definitiva ou definidora -, e isso como id√©ia-guia na ci√™ncia e na pol√≠tica, na teoria e na pr√°tica, nas dimens√Ķes da pesquisa abstrata e da an√°lise concreta. "Cada raio passa por diversos prismas e produz diferentes refra√ß√Ķes de luz [...]. Encontrar a identidade real sob a diferencia√ß√£o e contradi√ß√£o aparentes, e encontrar a diversidade substancial sob a identidade aparente √© o dom mais delicado, incompreendido, mas essencial, do cr√≠tico de id√©ias e do historiador do desenvolvimento social." Ler Gramsci com as lentes de Gramsci: hoje, o esp√≠rito da "filologia viva" nos convida principalmente a isso.

Ler Gramsci, ler a realidade

Aqui se prop√Ķe uma tentativa de leitura e interpreta√ß√£o do pensamento de Gramsci: √© uma tentativa de balan√ßo e s√≠ntese de um percurso iniciado h√° quinze anos, feito de estudos monogr√°ficos, investiga√ß√Ķes de aspectos singulares, explora√ß√Ķes motivadas de maneiras at√© muito variadas, mas que hoje, olhado em retrospectiva, parece-me atravessado por um fio condutor unit√°rio, que os leitores identificar√£o imediatamente. Os estudos aqui reunidos s√£o parte do trabalho feito neste per√≠odo de tempo: metade deles ainda s√£o in√©ditos e os demais foram submetidos a uma forte revis√£o. Na terceira parte, ap√≥s alguma hesita√ß√£o, tamb√©m decidi publicar novamente estudos sa√≠dos recentemente (e, por esta raz√£o, facilmente acess√≠veis), uma vez que indicam concretamente - pelo menos, assim espero - uma maneira poss√≠vel de continuar com Gramsci.

Nestes quinze anos, "ler Gramsci" significou para mim uma surpresa permanente: a surpresa de deparar com textos extremamente ligados √† vida de outra √©poca, mas ao mesmo tempo ricos de universalidade e capazes de estimular perguntas do passado em rela√ß√£o √†s vicissitudes do presente; capazes tamb√©m de promover di√°logos e converg√™ncias entre "intelectuais" e "simples", entre cultura e senso comum. As asperezas do caminho tomado est√£o na dificuldade objetiva da "filologia" gramsciana, que coloca obst√°culos e armadilhas diferentes, mas n√£o menos perigosos, do que os colocados pelos c√≥dices antigos e medievais. Buscou-se a b√ļssola na "filosofia ocasional" de Gramsci, espor√°dica mas extremamente audaz, opaca e ami√ļde silenciosa, mas tamb√©m fonte de clar√Ķes e sons penetrantes. A ambi√ß√£o √© colocar no mosaico uma pedrinha bastante colorida, daquelas que o mosaico hoje precisa para continuar a despertar curiosidade e interesse.

As rosas e os cadernos

Primavera 1929: no terceiro ano de prisão, o prisioneiro- filósofo - tal como Rosa Luxemburg - cuida com carinho, no pátio da prisão, do crescimento de algumas plantinhas, cujas sementes lhe foram gentilmente oferecidas por Tania em uma de suas primeiras visitas a Turi.

Então, Antonio pediu-me com insistência uma roseira-trepadeira, eu respondi que não era oportuno fazer um roseiral na cadeia, se não quisesse desfrutá-lo. Mas Antonio respondeu que sabia da necessidade de estabelecer lentamente sua existência em Turi por longos anos, portanto bem podia desejar ter uma roseira para fazê-la subir no muro, até as celas [3].

Julho 1929: após um início precário e incerto, a roseira começa a crescer.

Sabe, a roseira reavivou-se totalmente. Do dia 3 de junho at√© o dia 15, de repente, come√ßou a dar bot√Ķes e depois folhas, at√© ficar toda verde: agora, j√° tem pequenos ramos de 15 cent√≠metros [...]. O ciclo das esta√ß√Ķes, ligado aos solst√≠cios e equin√≥cios, eu o sinto como carne de minha carne: a roseira est√° viva e florescer√° certamente, porque o calor prepara o gelo e, sob a neve, j√° palpitam as primeiras violetas, etc., etc.; enfim, o tempo me parece uma coisa corp√≥rea, uma vez que o espa√ßo n√£o existe mais para mim.

A roseira √© um convite √† vida e, ao mesmo tempo, para Gramsci, uma met√°fora do mundo grande e terr√≠vel. Ele estava experimentando, de modo totalmente particular, a inexorabilidade do tempo, os efeitos do devir e do desaparecer das coisas. N√£o √© s√≥ o ciclo das esta√ß√Ķes que √© "carne de sua carne": tamb√©m o √© a hist√≥ria dram√°tica dos seres humanos, vivida como natureza, como corpo, como parte de si, e da qual ele mesmo √© parte.

O coração do tempo corpóreo pulsa e dá vida, junto com a roseira, a uma torrente de cadernos, que arrasta consigo materiais de todo tipo, tudo aquilo que o acaso e a necessidade permitem encontrar nos longos anos de silêncio carcerário.

Os cadernos têm um caráter intimamente fragmentário: neles, nada é conclusivo e concludente, tudo é problemático. São a expressão cristalina e fluente de um pensamento em estado de nascimento, de um continuum, um organismo em movimento que cresce sob os olhos.

----------

Giorgio Baratta é professor da Universidade de Urbino, na Itália. Originalmente publicado como introdução a seu livro Le rose e i quaderni. Saggio sul pensiero di Antonio Gramsci (Roma: Gamberetti, 2000).

---------

Notas 

[1] Cf. Juan Carlos Portantiero. Los usos de Gramsci. Buenos Aires: Grijalbo, 1999.

[2] Cf. Domenico Losurdo. Gramsci dal liberalismo al "comunismo critico". Roma: Gamberetti, 1997, cap. V; Carlos Nelson Coutinho. Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999, cap. V; Guido Liguori. "Stato e società civile da Marx a Gramsci". In: VV.AA. Marx e Gramsci. Textos do encontro internacional realizado em Trieste, em 20-21 de março de 1999, em curso de publicação pela Ed. Gamberetti, de Roma.

[3] Tania Schucht. "I colloqui che ho avuto". In A. Gramsci & T. Schucht. Lettere 1926-1935. Org. por A. Natoli e C. Daniele. Turim: Einaudi, 1997, p. 1438.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

  •