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O método de Gramsci

Joseph Buttigieg - 1998
Tradução: Luiz Sérgio Henriques
 

Entre julho e outubro de 1929, Gramsci anotou a seguinte observação em meio ao heterogêneo material que estava coligindo e recolhendo em seu primeiro caderno escrito no cárcere: "O ossinho de Cuvier. Observação ligada à nota precedente. O caso L[o]mbroso. A partir de um pequeno osso de rato às vezes se reconstruía um monstro imaginário" [1]. 

Encontrando esta passagem um tanto cr√≠ptica, √© prov√°vel que o leitor dos Cadernos lance um r√°pido olhar e prossiga. Embora o trecho se encontre bem no in√≠cio ¬Ė vinte e oito p√°ginas no manuscrito e vinte e duas na vers√£o impressa ¬Ė, muitas notas que o precedem s√£o compostas por r√°pidas observa√ß√Ķes, listas de nomes, breves digress√Ķes ou coment√°rios, a transcri√ß√£o de um aforismo de Rivarol e mais material heterog√™neo. Por isto, o leitor est√° plenamente consciente do fato de que muitos destes fragmentos desconexos representam pouco mais que r√°pidas anota√ß√Ķes, que poderiam adquirir significado mais adiante no texto depois de serem elaborados ou se tornarem parte de contextos mais determinados, que tornem expl√≠cito de que modo eles entram no plano do conjunto, na estrutura ou no desenvolvimento do projeto gramsciano. Dado o car√°ter peculiar dos Cadernos do c√°rcere, um leitor, mesmo um leitor atento, n√£o √© prov√°vel que se sinta obrigado a explicar cada pequeno fragmento neles contido; afinal de contas, n√£o se est√° diante de uma exposi√ß√£o "cient√≠fica" em que se pressup√Ķe que a cada elemento possa ser atribu√≠do um sentido preciso. Ao mesmo tempo, no entanto, os leitores chegam a ler os Cadernos, com toda probabilidade, pelo menos com um conhecimento geral dos grandes temas, dos motivos principais neles entretecidos; os leitores, por isto, se inclinam a atribuir (ainda que provisoriamente) a cada um destes fragmentos um lugar dentro de algumas grandes categorias gramscianas, como "hegemonia", "cultura", "teoria dos intelectuais" e assim por diante.¬†

De todo modo, a express√£o "ligada √† nota precedente", que Gramsci usa, poderia induzir a parar um instante, porque a "nota precedente", neste caso, cont√©m uma refer√™ncia a alguns dos mais bizarros escritos de Achille Loria. Na verdade, o nome de Achille Loria provavelmente n√£o diz muito, ou precisamente n√£o diz nada, √† maior parte dos leitores modernos: a n√£o ser talvez que algu√©m recorde a violenta diatribe contra ele dirigida por Engels no "Pref√°cio" e nas "Considera√ß√Ķes suplementares" ao terceiro livro de O capital. Al√©m disto, um leitor que tenha algum conhecimento da obra de Gramsci sabe provavelmente que um dos √ļltimos Cadernos √© dedicado ao "lorianismo", que, como o "brescianismo", √© uma categoria criada por Gramsci para poder agrupar e designar determinados tipos de intelectuais italianos. Assim, apesar de Loria e o lorianismo n√£o serem mencionados na lista dos "temas principais" com que se abre o Caderno 1, n√£o seria dif√≠cil determinar o nexo entre a nota intitulada Achille Loria e dois destes "temas principais", ou seja, "Forma√ß√£o dos grupos intelectuais italianos: desenvolvimento, atitudes" e "Os filhotes de padre Bresciani". Assim como "brescianismo" serve para designar um grupo de intelectuais burgueses literatos, cuja atitude reacion√°ria, confus√£o ideol√≥gica, nostalgia de uma ordem perdida, populismo os marcam como a √ļltima vers√£o do padre jesu√≠ta Bresciani, conhecido autor de romances hist√≥ricos e polemista, ortodoxo, repressivo, extremamente conservador, realmente jesu√≠tico, tamb√©m o termo "lorianismo" serve para indicar um grupo de intelectuais das ci√™ncias sociais, cujo positivismo, oportunismo e cultura aproximativa est√£o magnificamente (e comicamente, se n√£o fosse por sua difusa e nefasta influ√™ncia) exemplificados na obra e na carreira do professor de economia Achille Loria. √Č dif√≠cil supor que seja uma simples coincid√™ncia o fato de que a nota Achille Loria se siga imediatamente √† primeira de uma s√©rie de notas sobre os "filhotes de Padre Bresciani" disseminadas em todos os Cadernos.¬†

A parte central da nota √© ocupada por uma rela√ß√£o e uma breve descri√ß√£o de algumas obras que testemunham a predile√ß√£o de Loria pelas teorias exc√™ntricas. Seguem-se algumas considera√ß√Ķes relativas aos coment√°rios de Benedetto Croce sobre Loria. A nota conclui com a observa√ß√£o de que Loria n√£o deve ser considerado um fen√īmeno √ļnico e que a an√°lise de suas idiossincrasias pode ser proveitosamente estendida a muitos outros intelectuais: "Loria n√£o √© um caso teratol√≥gico individual: √© o exemplar mais completo e consumado de uma s√©rie de representantes de um certo estrato intelectual de um certo per√≠odo; em geral, dos intelectuais positivistas que se ocupam da quest√£o oper√°ria e que acreditam mais ou menos aprofundar, ou corrigir, ou superar o marxismo [...] Em geral, pois, o Lorismo √© uma caracter√≠stica de certa produ√ß√£o liter√°ria e cient√≠fica de nosso pa√≠s (muitos de seus documentos se encontram na Critica de Croce, na Voce de Prezzolini, na Unit√† de Salvemini), ligada √† escassa organiza√ß√£o da cultura e, portanto, √† falta de controle e de cr√≠tica" [2].¬†

A breve nota sobre O ossinho de Cuvier integra aquela mais ampla sobre Achille Loria em dois sentidos: prop√Ķe o acr√©scimo de Cesare Lombroso √† lista dos intelectuais a serem tratados na rubrica "Lorianismo" e sugere que os m√©todos cient√≠ficos dos "lorianos" assemelham-se √†queles de alguns paleont√≥logos que, fazendo um uso errado da evid√™ncia emp√≠rica, chegam a conclus√Ķes extravagantes. Tal sugest√£o pode ser considerada perfeitamente em sintonia com a avers√£o bem conhecida de Gramsci por qualquer elemento ainda que s√≥ remotamente marcado como positivista. Mas, se nos detiv√©ssemos a considerar a nota sobre O ossinho de Cuvier e as pr√≥ximas desta, a√≠ encontrar√≠amos alguma coisa al√©m de um simples ataque ao positivismo e a seus adeptos.¬†

Tamb√©m se pode notar, nesta etapa inicial da reflex√£o dos Cadernos, que as distin√ß√Ķes foram tra√ßadas entre diversos tipos de intelectuais italianos. Os "filhotes de Padre Bresciani" s√£o jornalistas, romancistas, ensa√≠stas, cr√≠ticos; em resumo, literatos de v√°rios g√™neros. Os lorianos est√£o empenhados, geralmente, nas ci√™ncias sociais. Al√©m disto, eles diferem por uma outra raz√£o muito mais relevante. Os "filhotes de Padre Bresciani" s√£o reacion√°rios, quer se comportem como defensores da cultura, quer se apresentem como expoentes de um populismo nacionalista e nost√°lgico. Os lorianos, ao contr√°rio, se consideram progressistas; muitos deles (inclusive o fundador do socialismo italiano, Filippo Turati) abra√ßam ativamente a causa socialista e, muitas vezes, pensam continuar ou melhorar a tradi√ß√£o marxista. No fim, naturalmente, muitos destes personagens, ligados tanto ao brescianismo quanto ao lorianismo, contribuir√£o para a forma√ß√£o da atmosfera intelectual, ou melhor, cultural, que prepararia o terreno e contribuiria para sustentar o fascismo. Apesar disto, resta um aspecto particular do lorianismo que requer uma an√°lise espec√≠fica; uma an√°lise que revelaria como e com qual amplitude, e com quais conseq√ľ√™ncias, o positivismo e o cientificismo chegaram a contaminar o pensamento de esquerda em geral e o marxismo em particular. A nota que se segue imediatamente √†quela sobre O ossinho de Cuvier confirma tal necessidade: "Seq√ľelas do baixo romantismo? A tend√™ncia da sociologia de esquerda na It√°lia para ocupar-se da criminalidade. Ligada ao fato de que a tal corrente haviam aderido Lombroso e outros, que pareciam ent√£o a suprema express√£o da ci√™ncia? Ou uma seq√ľela do baixo romantismo de 48 (Sue, etc.)? Ou ligada ao fato de que na It√°lia impressionava a estes homens a grande quantidade de crimes de sangue, e eles acreditavam n√£o poder ir adiante sem haver explicado 'cientificamente' este fen√īmeno?" [3].¬†

√Č evidente que as notas sobre brescianismo e lorianismo cabem todas no tema geral da "Forma√ß√£o dos grupos intelectuais italianos: desenvolvimento, atitudes", mas tamb√©m est√° claro que j√° nas p√°ginas de abertura do Caderno 1 a express√£o "grupos intelectuais" come√ßa a adquirir um significado particular e mais amplo. As tr√™s notas sobre Achille Loria, O ossinho de Cuvier e Seq√ľelas do baixo romantismo? formam um pequeno grupo que se distingue das notas anteriores ou posteriores. (As duas notas sucessivas s√£o sobre o Direito natural e sobre O sarcasmo como express√£o de transi√ß√£o nos historicistas. Elas s√£o seguidas por outras duas notas relativas ao lorianismo.) Ao mesmo tempo, dentro deste grupo de tr√™s notas, observa-se um andamento do particular ao geral. O grupo se inicia com a ilustra√ß√£o de como algumas das mais bizarras teorias de Achille Loria levem a cunhar a express√£o "lorianismo" para denotar a atividade ou a mentalidade de alguns tipos de intelectuais (supostamente de esquerda ou progressistas); em seguida, a obra destes intelectuais est√° ligada a uma degenera√ß√£o do m√©todo cient√≠fico de Cuvier; por fim, apresenta-se toda a quest√£o da rela√ß√£o (e da hist√≥ria de tal rela√ß√£o) entre a sociologia de esquerda na It√°lia e a ci√™ncia positivista.¬†

Depois de ter examinado estas notas minuciosamente, o hipot√©tico leitor dos Cadernos presumivelmente prosseguir√° examinando como os argumentos e os temas esbo√ßados nas primeiras p√°ginas ser√£o em seguida elaborados, entrela√ßados com outros apresentados e discutidos nas notas subseq√ľentes, e em muitos casos recolhidos e reordenados mais ou menos sistematicamente nos √ļltimos "Cadernos especiais" organizados tematicamente. As tr√™s notas supracitadas reaparecem, com efeito, numa forma um tanto modificada no final dos Cadernos, mas n√£o todas as tr√™s no mesmo Caderno. Nem as mudan√ßas feitas no texto destas notas nem sua nova coloca√ß√£o pareceriam significativas √† primeira vista. Ou, antes, pareceriam de pouca import√Ęncia a quem simplesmente passa da primeira √† segunda reda√ß√£o, de um texto A a um texto C, com o prop√≥sito de compar√°-las diretamente ¬Ė opera√ß√£o tornada extremamente f√°cil pelo excelente sistema de refer√™ncias de que √© dotada a edi√ß√£o cr√≠tica [4]. Mas para o leitor atento deste enorme conjunto de fragmentos que tenha passado pelas 2.300 p√°ginas que separam a primeira e a segunda vers√£o destas tr√™s notas, as diferen√ßas entre elas adquirem grande relevo, n√£o porque se tenha chegado a alguma importante conclus√£o nem porque tudo tenha sido sistematizado, mas porque as notas reescritas acusam a complexidade multidirecional e multiprospectiva do projeto necessariamente inconcluso do qual s√£o uma pequena parte.¬†

A terceira das notas acima examinadas mant√©m sua forma interrogativa (com exce√ß√£o do t√≠tulo) quando volta num dos √ļltimos Cadernos, o Caderno 25: "Cientificismo e seq√ľelas do baixo romantismo. Deve-se observar a tend√™ncia da sociologia de esquerda na It√°lia para ocupar-se intensamente do problema da criminalidade. Est√° ela ligada ao fato de que √† tend√™ncia de esquerda haviam aderido Lombroso e muitos dos mais 'brilhantes' seguidores, que ent√£o pareciam a suprema express√£o da ci√™ncia e que influ√≠am com todas as suas deforma√ß√Ķes profissionais e seus problemas espec√≠ficos? Ou se trata de uma seq√ľela do baixo romantismo de 48 (Sue e suas elucubra√ß√Ķes romanceadas de direito penal)? Ou est√° ligada ao fato de que na It√°lia impressionava a certos grupos intelectuais a grande quantidade de crimes de sangue, e eles pensavam n√£o poder ir adiante sem ter explicado 'cientificamente' (ou seja, naturalisticamente) este fen√īmeno de 'barb√°rie'?" [5].¬†

As mudan√ßas parecem ser m√≠nimas ¬Ė a nota ainda indica o mesmo conjunto de problemas, ou seja, a rela√ß√£o entre sociologia de esquerda e positivismo cient√≠fico tal como se explicita na criminologia acad√™mica. N√£o obstante, um deslocamento de aten√ß√£o se verificou, na medida em que a vers√£o C desta nota agora est√° separada das outras duas notas vistas anteriormente e colocada num novo contexto, no caderno tem√°tico intitulado √Ä margem da hist√≥ria (Hist√≥ria dos grupos sociais subalternos).¬†

Na verdade, n√£o √© inteiramente correto afirmar que a recoloca√ß√£o da nota Cientificismo e seq√ľelas do baixo romantismo representa uma mudan√ßa de aten√ß√£o. Trata-se, antes, de uma extens√£o e de um refor√ßo da rede de conex√Ķes entre as v√°rias inst√Ęncias propostas no √Ęmbito da multid√£o de fragmentos que comp√Ķem os Cadernos. Tanto assim que a nota sobre "cientificismo e baixo romantismo", tanto em seu texto C quanto no A, remete a uma pesquisa sobre a genealogia de uma parte da teoria da sociologia italiana de esquerda, uma pesquisa voltada n√£o tanto a determinar sua exata origem mas, antes, a historiciz√°-la e a ampliar a compreens√£o da forma√ß√£o dos grupos intelectuais, de seu desenvolvimento e de suas "atitudes"; e uma tal pesquisa resta um componente necess√°rio do estudo do fen√īmeno do lorianismo ¬Ė n√£o tanto de seus aspectos mais bizarros quanto da mistura de pol√≠tica aparentemente progressista ou de esquerda e de positivismo a-hist√≥rico. Mas esta pesquisa n√£o deve limitar-se ao estudo de formula√ß√Ķes desconexas como tais. Ela diz respeito ao impacto que esta corrente e seus expoentes tiveram na hist√≥ria material, pol√≠tica, social e cultural italiana. Cesare Lombroso (1835-1909) √© geralmente recordado pela contribui√ß√£o que suas investiga√ß√Ķes "cient√≠ficas" em criminologia trouxeram para o tratamento dos encarcerados. Nos poucos casos em que seu nome √© mencionado por Gramsci, ele aparece ligado √† influente escola de "cientistas sociais" (cujos nomes est√£o espalhados em todos os Cadernos, freq√ľentemente em rela√ß√£o ao lorianismo), cujas teorias positivistas tiveram um s√©rio efeito nocivo e regressivo sobre a cultura pol√≠tica italiana: entre outras coisas, eles conferiram legitimidade "cient√≠fica" e contribu√≠ram para a perpetua√ß√£o da cren√ßa determinista (e fatalista) segundo a qual alguns indiv√≠duos (criminosos, por exemplo) ou alguns grupos (em particular, os meridionais) s√£o "b√°rbaros" ou primitivos por natureza. Uma importante conseq√ľ√™ncia deste tipo de sociologia est√° no fato de que bloqueia a possibilidade de reconstruir as causas que explicam as rela√ß√Ķes de poder ¬Ė a biologia substitui a pol√≠tica como explica√ß√£o das condi√ß√Ķes das camadas marginalizadas. Em outras palavras, atribuindo a leis biol√≥gicas e a-hist√≥ricas o n√£o-conformismo do "criminoso", a n√£o-integra√ß√£o dos meridionais, o comportamento irrequieto das massas "depravadas" ou "irracionais", a escola positivista de sociologia nega aos grupos subalternos a possibilidade de ter uma hist√≥ria pr√≥pria.¬†

Portanto, √© inteiramente coerente que Cesare Lombroso, fundador desta tend√™ncia e "emin√™ncia parda" de muitos lorianos, apare√ßa n√£o s√≥ na nota final do Caderno 25, intitulado √Ä margem da hist√≥ria (Hist√≥ria dos grupos sociais subalternos) , mas tamb√©m no par√°grafo de abertura. O tema desta primeira nota √© Davide Lazzaretti, l√≠der carism√°tico de uma seita religiosa dissidente que teve notoriedade na Toscana em torno de 1870, per√≠odo de graves dificuldades econ√īmicas e de agita√ß√Ķes populares. O tratamento que Cesare Lombroso reserva a Lazzaretti em seu livro Loucos e anormais determina o seguinte coment√°rio de Gramsci: "este era o costume cultural do tempo: em vez de estudar as origens de um acontecimento coletivo, e as raz√Ķes de sua difus√£o, de seu ser coletivo, isolavam o protagonista e se limitavam a fazer-lhe a biografia patol√≥gica, muito freq√ľentemente partindo de motivos n√£o comprovados ou interpret√°veis de outro modo: para uma elite social, os elementos dos grupos subalternos t√™m sempre algo b√°rbaro ou patol√≥gico" [6].¬†

N√£o se pode deixar de notar que, mais uma vez, uma observa√ß√£o causada por uma particularidade muito espec√≠fica e muito concreta ¬Ė isto √©, a caracteriza√ß√£o lombrosiana de Lazzaretti como subnormal ou louco ¬Ė √© o ponto de partida para considera√ß√Ķes bem mais amplas sobre a hist√≥ria cultural, sobre as pr√°ticas discursivas das elites, sobre a marginaliza√ß√£o dos grupos subalternos. Este movimento do particular ao geral caracteriza in√ļmeras notas dos Cadernos. Raramente se verifica o contr√°rio ¬Ė a saber, que uma generaliza√ß√£o seja postulada e sucessivamente utilizada para compreender o particular. Certamente, quando fragmentos ou partes determinadas de uma informa√ß√£o ou observa√ß√Ķes espec√≠ficas levam a uma intui√ß√£o geral ou generalizante qualquer, a generaliza√ß√£o n√£o alcan√ßa o status de uma teoria global que atribui √†s particularidades um significado definido, ficando aut√īnoma em face delas. As generaliza√ß√Ķes ou os conceitos n√£o est√£o nunca completos ou acabados; est√£o sempre numa rela√ß√£o fluida, crescentemente complexa diante de outras generaliza√ß√Ķes ou conceitos. Eles visam sempre a combina√ß√Ķes sint√©ticas diferentes, sem nunca se fixarem numa s√≠ntese definitiva; e requerem sempre um retorno aos elementos particulares, aos fragmentos, que conservam sua especificidade hist√≥rica mesmo quando induzem a novos conceitos mais complexos, referidos uns aos outros numa rede de rela√ß√Ķes cada vez mais densa, extensa e mut√°vel.¬†

Alguns aspectos extremamente importantes da rela√ß√£o entre o particular e o geral nos Cadernos podem ser evidenciados comparando a primeira nota dedicada a Achille Loria com sua segunda vers√£o, que ocupa as primeiras p√°ginas do "caderno especial" intitulado Lorianismo. Como no texto A, a ampla parte inicial desta nota fornece uma informa√ß√£o bibliogr√°fica e descritiva das obras mais extravagantes de Loria. Mas, durante os anos que separam a primeira vers√£o da nota (1929) da segunda (1935), fora publicada uma bibliografia das obras de Loria por Luigi Einaudi, e Gramsci usa os dados extra√≠dos de tal bibliografia para completar e modificar algumas informa√ß√Ķes presentes na primeira reda√ß√£o da nota, que havia sido escrita de mem√≥ria. (O cuidado e a aten√ß√£o com os quais Gramsci registra rigorosamente cada detalhe bibliogr√°fico, mesmo √≠nfimo, s√£o surpreendentes.) A bibliografia de Einaudi, de todo modo, √© mais do que um instrumento para verificar e controlar particularidades bibliogr√°ficas, dado que dela se deduz um coment√°rio geral que se torna um pre√Ęmbulo para o resto da nota: "Registro dos principais 'documentos', em que se encontram as principais 'bizarrias' de Achille Loria. (Recordados de mem√≥ria: existe agora a 'Bibliografia de Achille Loria', compilada por Luigi Einaudi, suplemento ao n. 5, setembro-outubro de 1932, da Riforma Sociale; a lista n√£o √© completa, evidentemente, e talvez faltem 'bizarrias' bem mais significativas do que as recordadas. O esfor√ßo de Einaudi √© tamb√©m significativo, pois avaliza a 'dignidade' cient√≠fica de Loria e coloca necessariamente, diante do leitor-jovem contempor√Ęneo, todos os escritos de Loria num mesmo 'plano', estimulando a fantasia gra√ßas √† grande quantidade do 'trabalho' feito por Loria: 884 t√≠tulos, nestes tempos de civiliza√ß√£o quantitativa. Einaudi merece, por este seu esfor√ßo, ser inscrito ad honorem na lista dos lorianos; ademais, deve-se notar que Einaudi, como organizador de movimentos culturais, √© respons√°vel pelas 'bizarrias' de Loria e, a respeito deste problema particular, caberia escrever uma nota)" [7].¬†

N√£o h√° necessidade de explicar que este acr√©scimo ao texto A da nota estende o √Ęmbito do lorianismo at√© incluir os mecanismos de sua difus√£o e legitima√ß√£o, e que todo o fen√īmeno √© ligado √†s reflex√Ķes contidas em muitas outras partes dos Cadernos sobre o papel dos intelectuais na organiza√ß√£o da cultura. Mas pode n√£o ser sup√©rfluo chamar a aten√ß√£o sobre o fato de que a bibliografia de Einaudi, um instrumento cient√≠fico que comumente teria sido considerado como ideologicamente neutro e julgado segundo crit√©rios objetivos de verifica√ß√£o (√Č completa? Fornece com precis√£o todas as informa√ß√Ķes necess√°rias?), n√£o escapa ao controle cr√≠tico mesmo quando √© usada como instrumento √ļtil! E tal exame revela precisamente a aus√™ncia de seriedade cr√≠tica ou rigor na compila√ß√£o de um instrumento aparentemente inocente como uma bibliografia. Esta "aus√™ncia" e esta "inoc√™ncia" revelam-se elementos de coniv√™ncia ¬Ė abandonando seu papel cr√≠tico, mas pretendendo situar-se fora do objeto de sua investiga√ß√£o cient√≠fica, o respeitado professor (Einaudi) valoriza e promove a difus√£o de um corpo de obras (de Loria e dos lorianos) que √© caracterizado pela falta de rigor cr√≠tico e por escassa aten√ß√£o ao m√©todo cient√≠fico. As conseq√ľ√™ncias das atitudes intelectuais determinadas por tais escolhas s√£o enormes e n√£o limitadas √† It√°lia, como fica claro na parte conclusiva da nota.¬†

Os dois par√°grafos finais do texto C da nota sobre Achille Loria repetem o movimento do particular ao geral j√° encontrado na vers√£o A, mas com uma significativa diferen√ßa. As manifesta√ß√Ķes e os efeitos do lorianismo e, mais importante, a aus√™ncia de barreiras cr√≠ticas, que torna poss√≠vel o fen√īmeno, s√£o aqui considerados como um problema europeu e n√£o s√≥ italiano. Os par√°grafos conclusivos da nota Achille Loria s√£o revistos e elaborados tomando em considera√ß√£o os important√≠ssimos desenvolvimentos havidos no curso dos cinco anos que separam as duas reda√ß√Ķes.¬†

"Loria ¬Ė escreve Gramsci ¬Ė n√£o √© um caso teratol√≥gico individual: ao contr√°rio, √© o exemplar mais completo e acabado de uma s√©rie de representantes de uma certa camada intelectual de um determinado per√≠odo hist√≥rico; em geral, daquela camada de intelectuais positivistas que se ocuparam da quest√£o oper√°ria e que estavam mais ou menos convencidos de terem aprofundado, revisto e superado a filosofia da pr√°xis. Mas deve-se notar que cada per√≠odo tem seu lorianismo mais ou menos completo e perfeito, e que todo pa√≠s tem o seu: o hitlerismo mostrou que a Alemanha alimentava, sob o aparente dom√≠nio de um grupo intelectual s√©rio, um lorianismo monstruoso, que rompeu a crosta oficial e se difundiu como concep√ß√£o e m√©todo cient√≠fico de uma nova 'oficialidade'. Que Loria pudesse existir, escrever, elucubrar e publicar por sua conta livros e livra√ßos, nada de estranho: existem sempre os descobridores do moto perp√©tuo e os p√°rocos que publicam continua√ß√Ķes de Jerusal√©m libertada. Mas que ele tenha se tornado um pilar da cultura, um 'mestre', e que tenha encontrado 'espontaneamente' um imenso p√ļblico, eis algo que nos leva a refletir sobre a debilidade, mesmo em √©pocas normais, das barreiras cr√≠ticas que, n√£o obstante, existiam: deve-se pensar como, em √©pocas anormais, de paix√Ķes desencadeadas, seja f√°cil aos Loria, apoiados por for√ßas interessadas, superar todos os obst√°culos e infectar por d√©cadas um ambiente de civiliza√ß√£o intelectual ainda d√©bil e fr√°gil. Somente hoje (1935), ap√≥s as manifesta√ß√Ķes de brutalidade e de ignom√≠nia inauditas da 'cultura' alem√£ dominada pelo hitlerismo, foi que alguns intelectuais tomaram consci√™ncia de quanto era fr√°gil a civiliza√ß√£o moderna ¬Ė em todas as suas express√Ķes contradit√≥rias, mas necess√°rias em sua contradi√ß√£o ¬Ė que teve como ponto de partido o primeiro Renascimento (depois do ano 1000) e se imp√īs como dominante atrav√©s da Revolu√ß√£o Francesa e do movimento de id√©ias conhecido como 'filosofia cl√°ssica alem√£' e como 'economia cl√°ssica inglesa'. Da√≠ a cr√≠tica apaixonada de intelectuais como Georges Sorel, como Spengler, etc., que enchem a vida cultural de gases asfixiantes e esterilizadores" [8].¬†

Se tiv√©ssemos de comentar minuciosamente este trecho, dever√≠amos recorrer a alguns dos temas de maior relevo que se entrela√ßam nos Cadernos, os mais √≥bvios dos quais s√£o o papel dos intelectuais na sociedade, a rela√ß√£o entre cultura e pol√≠tica e a cr√≠tica do positivismo. Poder-se-ia tamb√©m relacionar esta e outras notas sobre o lorianismo com aquelas sobre o brescianismo e com outras sobre os mais importantes intelectuais italianos, para fazer surgir dos fragmentos dos Cadernos um estudo particularizado sobre as condi√ß√Ķes culturais que determinaram o nascimento do fascismo e contribu√≠ram para sustent√°-lo. Aqui, desejo apenas chamar a aten√ß√£o sobre duas observa√ß√Ķes contidas neste trecho e presentes j√° na primeira (e muito mais curta) vers√£o da nota, mas que agora podem ser apreendidas em todas as suas implica√ß√Ķes: a) o positivismo pr√≥prio de um estrato significativo de intelectuais (denominados convencionalmente de "lorianos") que se ocupam dos problemas do proletariado e cr√™em de algum modo superar Marx; b) a neglig√™ncia cient√≠fica e a confus√£o dos lorianos, que s√£o sintom√°ticas da falta de rigor cr√≠tico e de seriedade cultural em geral. Esta falta de seriedade e rigor √© camuflada por uma fachada de cientificidade e, de alguma maneira, escapa √† censura das camadas intelectuais superiores ¬Ė os supostos defensores √ļltimos da civiliza√ß√£o ¬Ė ou pelo menos n√£o √© por elas inteiramente marginalizada. Uma das maiores preocupa√ß√Ķes expressas nas notas sobre o lorianismo (e mesmo em outros pontos) √© que res√≠duos de pensamento, teorias bizarras, generalidades cr√≠ticas e uma difusa irresponsabilidade intelectual n√£o s√£o caracter√≠sticas exclusivas de expoentes da cultura de direita, reacion√°ria, conservadora ou liberal; eles tamb√©m contaminaram seriamente o pensamento progressista, de esquerda e mesmo marxista.¬†

A partir da an√°lise minuciosa e concreta da cultura do tempo conduzida nos Cadernos, descobre-se que √© imposs√≠vel incriminar unicamente os elementos reacion√°rios pela ascens√£o do fascismo. Observa-se, sobretudo, que as for√ßas antag√īnicas √† cultura dominante, impregnadas de id√©ias socialistas e mesmo especificamente marxistas, n√£o ofereceram, e certamente em muitos casos n√£o tiveram capacidade para isto, uma alternativa coerente e persuasiva ao fascismo, ou seja, n√£o foram efetivamente capazes de elaborar uma contracultura, na medida em que elas pr√≥prias careciam de rigor e adotaram acriticamente m√©todos e paradigmas da cultura dominante. A prova mais clara disto √© dada pelo "sociologismo" pseudocient√≠fico, pelo positivismo, a que muitas notas gramscianas atribuem as distor√ß√Ķes enganosas que vulgarizaram o marxismo e inutilizaram suas vers√Ķes mais difundidas. Dois importantes problemas relacionados √† sociologia positivista s√£o identificados explicitamente na vers√£o revista da nota sobre O ossinho de Cuvier, que se segue imediatamente √† ampla nota sobre Achille Loria no Caderno 28, intitulado Lorianismo: "O ossinho de Cuvier. Exposi√ß√£o do princ√≠pio de Cuvier. Mas nem todos s√£o Cuvier e, sobretudo, a 'sociologia' n√£o pode ser comparada com as ci√™ncias naturais. As generaliza√ß√Ķes arbitr√°rias e 'bizarras' s√£o muito mais poss√≠veis nela (e mais danosas para a vida pr√°tica)" [9].¬†

Num certo sentido, esta vers√£o da nota explicita o que j√° fora sugerido, ainda que de modo cr√≠ptico, em sua formula√ß√£o precedente: precisamente que o lorianismo pseudocient√≠fico leva a conclus√Ķes t√£o extravagantes quanto aquelas produzidas pelo uso errado de m√©todos cient√≠ficos. Al√©m disto, aqui est√° presente um outro aspecto que n√£o aparece (pelo menos n√£o explicitamente) na evoca√ß√£o anterior do princ√≠pio de Cuvier, mas que √© expresso repetidamente de variadas maneiras no Caderno 28 ¬Ė a saber, que um dos erros fundamentais da "sociologia" consiste em haver adotado em bloco e acriticamente uma metodologia tomada diretamente das ci√™ncias naturais. A absoluta import√Ęncia deste ponto ser√° evidente para o leitor que tiver seguido seriamente a extensa, minuciosa e severa cr√≠tica do livro de Bukharin, A teoria do materialismo hist√≥rico. Manual popular de sociologia, que ocupa uma parte not√°vel dos Cadernos. Al√©m disto, √© importante estar atento √†s aspas que cercam o termo "sociologia" no texto C da nota O ossinho de Cuvier. Neste ponto dos Cadernos, o termo "sociologia" adquiriu um significado particular e est√° associado √†s teorias e metodologias seja dos lorianos, seja de Bukharin. Mesmo que Bukharin n√£o seja nunca acolhido como membro (sequer honor√°rio, como ao contr√°rio acontece com Luigi Einaudi) da "sociedade dos lorianos", suas id√©ias s√£o, apesar disto, diretamente comparadas √†s de Loria em dois trechos dos Cadernos [10]. Portanto, se bem que O ossinho de Cuvier esteja colocado no caderno sobre o Lorianismo, a investiga√ß√£o cr√≠tica que prop√Ķe em grandes linhas tem ramifica√ß√Ķes que v√£o muito al√©m das caracter√≠sticas do grupo de intelectuais analisados na rubrica sobre o lorianismo. Na realidade, o que est√° em jogo nas inst√Ęncias e nos problemas evocados pela alus√£o ao "princ√≠pio de Cuvier" √© a defini√ß√£o mesma de marxismo ou materialismo hist√≥rico; ou, como diz Gramsci, "filosofia da pr√°xis".¬†

Na Teoria do materialismo hist√≥rico, Bukharin equipara o materialismo hist√≥rico √† sociologia e descreve a rela√ß√£o entre hist√≥ria e sociologia de um modo que privilegia a sociologia ¬Ė uma "sociologia" que √© cient√≠fica num sentido indubitavelmente positivista ou mecanicista. Tra√ßando a rela√ß√£o entre ci√™ncia e hist√≥ria de modo esquem√°tico, Bukharin escreve na "Introdu√ß√£o": "Existem, nas ci√™ncias sociais, dois ramos muito importantes que n√£o se ocupam de um s√≥ aspecto da vida social, mas da vida social em toda a sua complexidade; em outros termos, eles n√£o se limitam a examinar uma s√≥ esp√©cie de fen√īmenos [...] mas estudam a vida social em seu conjunto, ou seja, todas as manifesta√ß√Ķes dos fen√īmenos sociais. Estas ci√™ncias constituem, por uma parte, a hist√≥ria, e por outra a sociologia [...] A hist√≥ria segue e descreve o fluxo da vida social por um certo tempo e num dado lugar [...] Quanto √† sociologia, ela enfrenta interroga√ß√Ķes de ordem geral: o que √© a sociedade? Quais s√£o as raz√Ķes de seu desenvolvimento e de sua decad√™ncia? Quais s√£o as rela√ß√Ķes entre os v√°rios tipos de fen√īmenos sociais (a economia, o direito, a ci√™ncia)? Como explicar seu desenvolvimento? Quais s√£o as formas hist√≥ricas da sociedade? Como explicar suas mudan√ßas? A sociologia √© a mais geral e a mais abstrata das ci√™ncias sociais. Freq√ľentemente, √© apresentada sob outros nomes: 'filosofia da hist√≥ria', 'teoria do desenvolvimento hist√≥rico', etc." [11]¬†

Esta n√£o √© uma compara√ß√£o equ√Ęnime. Bukharin n√£o define as esferas do discurso, as tarefas distintas de cada ci√™ncia ¬Ė "hist√≥ria" e "sociologia". Segundo seu esquema, a sociologia dita o tempo (predisp√Ķe os eventos) da hist√≥ria; isto √©, os procedimentos e os objetivos da pesquisa hist√≥rica s√£o predeterminados pela sociologia. Afirma√ß√£o que se esclarece no trecho sucessivo: "Na explica√ß√£o das leis gerais da evolu√ß√£o da humanidade, a sociologia serve como m√©todo para a hist√≥ria. Se, por exemplo, a sociologia estabelece uma lei geral segundo a qual as formas do Estado dependem das formas da economia, um historiador, quando estuda uma dada √©poca, deve se esfor√ßar de fato por encontrar esta rela√ß√£o e indicar a forma concreta (ou seja, correspondente a um dado momento) na qual ela se expressa" [12].¬†

A tese bukhariniana se torna obscura no passo seguinte, que parece implicar o fato de que a sociologia depende da informa√ß√£o fornecida pela investiga√ß√£o hist√≥rica: "O historiador fornece ao soci√≥logo o material sobre o qual fundar suas conclus√Ķes e operar suas generaliza√ß√Ķes, para que estas conclus√Ķes n√£o sejam extra√≠das arbitrariamente mas com base em fatos hist√≥ricos reais" [13]. Na frase final do par√°grafo, por√©m, diz-se de modo claro que a sociologia √© que guia a hist√≥ria, e n√£o vice-versa: "A sociologia, por sua vez, oferece o ponto de vista determinado, os meios de investiga√ß√£o ou, como se costuma dizer, o m√©todo da hist√≥ria" [14]. Afirma√ß√£o com que se refor√ßa que a sociologia j√° sabe, antes ainda de receber o material hist√≥rico, que existem leis que governam a hist√≥ria: da√≠ decorre que a hist√≥ria como disciplina desenvolve sempre suas pesquisas segundo os crit√©rios de um m√©todo cient√≠fico de proveni√™ncia sociol√≥gica, um m√©todo que garante que a hist√≥ria chegar√° sempre √† descoberta ou √† confirma√ß√£o de leis gerais. Esta opini√£o √© subseq√ľentemente refor√ßada no trecho com o qual Bukharin conclui sua "Introdu√ß√£o": "Que lugar deve, pois, ocupar a teoria do materialismo hist√≥rico? Seu lugar certamente n√£o √© na economia pol√≠tica e na hist√≥ria, mas na ci√™ncia geral da sociedade e das leis de sua evolu√ß√£o, isto √©, na sociologia [...] o fato de que a teoria do materialismo hist√≥rico constitua um m√©todo para a hist√≥ria n√£o diminui em nada sua import√Ęncia como teoria sociol√≥gica. Acontece muitas vezes que uma ci√™ncia mais abstrata forne√ßa um ponto de vista, isto √©, um m√©todo, a uma ci√™ncia menos abstrata. Este √© o caso presente" [15].¬†

A principal obje√ß√£o levantada contra Bukharin nos Cadernos do c√°rcere √© que, embora pretenda expor a "aut√™ntica" teoria da "filosofia da pr√°xis", ele n√£o apresenta nunca uma "sistematiza√ß√£o l√≥gica e coerente dos conceitos filos√≥ficos que s√£o difusamente conhecidos sob o nome de filosofia da pr√°xis (e que s√£o freq√ľentemente esp√ļrios, de deriva√ß√£o estranha e, como tais, deveriam ser criticados e expostos)" [16]. Ao contr√°rio, deduz por extrapola√ß√£o da pr√≥pria "sociologia" uma filosofia ¬Ė a filosofia da pr√°xis. Mas a sociologia "pressup√Ķe uma filosofia, uma concep√ß√£o do mundo, da qual √© um momento subordinado" [17]. E a sociologia de Bukharin n√£o constitui exce√ß√£o; sua sociologia, na realidade, √© uma emana√ß√£o do materialismo filos√≥fico. Em vez de afirmar o materialismo hist√≥rico como concep√ß√£o do mundo alternativa, independente e autenticamente revolucion√°ria, Bukharin o subordina a uma filosofia preexistente, faz dele uma deriva√ß√£o filos√≥fica da cultura hegem√īnica: "A sociologia foi uma tentativa de criar um m√©todo para a ci√™ncia hist√≥rico-pol√≠tica, na depend√™ncia de um sistema filos√≥fico j√° elaborado, o positivismo evolucionista, sobre o qual a sociologia reagiu, mas apenas parcialmente. Por isto, a sociologia se tornou uma tend√™ncia em si, tornou-se a filosofia dos n√£o-fil√≥sofos, uma tentativa de descrever e classificar esquematicamente fatos hist√≥ricos e pol√≠ticos, a partir de crit√©rios constru√≠dos com base no modelo das ci√™ncias naturais. A sociologia √©, portanto, uma tentativa de extrair 'experimentalmente' as leis de evolu√ß√£o da sociedade humana, de maneira a 'prever' o futuro com a mesma certeza com que se prev√™ que de uma semente nascer√° uma √°rvore. O evolucionismo vulgar est√° na base da sociologia, que n√£o pode conhecer o princ√≠pio dial√©tico da passagem da quantidade √† qualidade" [18].¬†

O erro de Bukharin √© an√°logo ao erro dos lorianos: ambos sofrem excessivamente o fasc√≠nio das ci√™ncias naturais. (Em seu livro, Bukharin recorre √†s ci√™ncias naturais para sustentar a tese pela qual o evento revolucion√°rio, as "transforma√ß√Ķes imprevistas" n√£o est√£o em contradi√ß√£o com a teoria evolucionista, e cita a teoria catastrofista de Cuvier). As observa√ß√Ķes feitas na nota sobre O ossinho de Cuvier podem ser lidas como obje√ß√Ķes levantadas contra o m√©todo de Bukharin. Antes de mais nada, para Gramsci a sociologia n√£o pode ser comparada √†s ci√™ncias naturais e, portanto, n√£o √© poss√≠vel descrever o desenvolvimento da sociedade como se se tratasse do desenvolvimento de uma √°rvore a partir da semente, nem √© poss√≠vel reconstruir a hist√≥ria como faz o paleont√≥logo que, utilizando o princ√≠pio de Cuvier, constr√≥i um dinossauro partindo de um de seus ossos. Em segundo lugar, a errada aplica√ß√£o dos princ√≠pios das ci√™ncias naturais √† sociologia leva a conclus√Ķes "bizarras" que produzem danosas conseq√ľ√™ncias pr√°ticas. As notas sobre Loria e sobre os lorianos oferecem in√ļmeros exemplos dos resultados da sociologia positivista. Na seq√ľ√™ncia de notas dedicadas √† refuta√ß√£o das teses de Bukharin, encontram-se algumas observa√ß√Ķes iluminadoras sobre os efeitos absolutamente delet√©rios que a sociologia positivista tem sobre o marxismo. Uma destas notas se intitula Redu√ß√£o da filosofia da pr√°xis a uma sociologia ¬Ė uma nota extensa e muito importante que toca numa grande variedade de temas cruciais. Dela cito um trecho que trata do dano causado pelo cientificismo sociol√≥gico: "Por outro lado, a extens√£o da lei estat√≠stica √† ci√™ncia e √† arte pol√≠tica pode ter conseq√ľ√™ncias muito graves se dela nos utilizarmos para construir perspectivas e programas de a√ß√£o; se, nas ci√™ncias naturais, a lei pode determinar apenas desprop√≥sitos e asneiras, que poder√£o ser facilmente corrigidos por novas investiga√ß√Ķes (e, de todo modo, apenas tornam rid√≠culo o cientista individual que a utilizou), na ci√™ncia e na arte pol√≠tica ela pode ter como resultado verdadeiras cat√°strofes, cujos 'frios' preju√≠zos jamais poder√£o ser ressarcidos. De fato, na pol√≠tica, a utiliza√ß√£o da lei estat√≠stica como lei essencial, operando de modo fatalista, n√£o √© apenas um erro cient√≠fico, mas torna-se tamb√©m um erro pr√°tico, em ato; por outro lado, ela favorece a pregui√ßa mental e a superficialidade program√°tica. Deve-se observar que a a√ß√£o pol√≠tica tende, precisamente, a fazer com que as multid√Ķes saiam da passividade, isto √©, a destruir a lei dos grandes n√ļmeros. Como, ent√£o, consider√°-la uma lei sociol√≥gica?" [19].¬†

A nota prossegue explicando como a sociologia positivista √© incompat√≠vel com o programa pol√≠tico do marxismo. A filosofia determinista (isto √©, o materialismo filos√≥fico) conduz √† passividade, torna as massas sens√≠veis √† lisonja carism√°tica de l√≠deres que perpetuam a padroniza√ß√£o mec√Ęnica do sentimento popular. Ao contr√°rio, a tarefa do "partido das massas" √© derrubar a velha ordem "naturalista" promovendo uma consci√™ncia cr√≠tica. Em outras palavras, o materialismo hist√≥rico prev√™ para as massas um papel de efetivo protagonismo na hist√≥ria, n√£o o de atores inconscientes de um drama mecanicista que se desdobra segundo leis de natureza inalter√°veis ¬Ė leis que separam, privilegiam e d√£o o poder √†queles que reivindicam o m√©rito de t√™-las descoberto e que, com base em seu saber "cient√≠fico", se arrogam o direito ao comando.¬†

A partir desta nota, pode-se ver que a cr√≠tica a Bukharin est√° em continuidade n√£o s√≥ com as cr√≠ticas ao positivismo que atravessam os escritos de Gramsci, mas tamb√©m com a concep√ß√£o do socialismo como cultura aut√īnoma, a insist√™ncia na necessidade de educar as massas para faz√™-las adquirir uma consci√™ncia cr√≠tica, o antidogmatismo, a fundamental voca√ß√£o democr√°tica e, sobretudo, as discuss√Ķes aprofundadas sobre o car√°ter e o papel do partido comunista, o "moderno Pr√≠ncipe". Esta nota, em particular, confirma a constante aten√ß√£o de Gramsci √† hist√≥ria, presente em todos os Cadernos. Voltam √† mente os coment√°rios sobre os soci√≥logos lombrosianos, cujas explica√ß√Ķes "cient√≠ficas" dos comportamentos aberrantes inibem a possibilidade de uma hist√≥ria dos grupos subalternos. De fato, esta nota contribui para a plena compreens√£o da afirma√ß√£o (que tamb√©m se encontra nas p√°ginas dos Cadernos dedicadas √† refuta√ß√£o das teses de Bukharin) segundo a qual na express√£o "materialismo hist√≥rico" se deveria p√īr "o acento no segundo termo, 'hist√≥rico', e n√£o no primeiro, de origem metaf√≠sica" [20].¬†

Com efeito, a parte que abre a nota sobre a Redu√ß√£o da filosofia da pr√°xis a uma sociologia afirma com vigor que a redutiva vers√£o sociol√≥gica do materialismo hist√≥rico deriva da incompreens√£o da import√Ęncia e da complexidade da hist√≥ria; uma incompreens√£o que √© respons√°vel pela deforma√ß√£o do marxismo produzida seja por seus adeptos ortodoxos (Bukharin), seja pelos n√£o-ortodoxos (os lorianos). "Esta redu√ß√£o [da filosofia da pr√°xis a sociologia] representou a cristaliza√ß√£o da tend√™ncia deteriorada, j√° criticada por Engels (nas cartas a dois estudantes, publicadas no Sozialistische Akademiker), e que consiste em reduzir uma concep√ß√£o do mundo a um formul√°rio mec√Ęnico, que d√° a impress√£o de poder colocar toda a hist√≥ria no bolso. Ela foi o maior incentivo para as f√°ceis improvisa√ß√Ķes jornal√≠sticas dos 'genial√≥ides' " [21].¬†

Em outras palavras, os "sociólogos" tratam a história como Cuvier trata cada osso. Munidos de um conjunto de princípios metodológicos, eles colocam cada elemento numa totalidade predeterminada. Como confundem sua fórmula mecanicista com a própria história, não existe experiência histórica ou evento que eles considerem em sua especificidade. Cada elemento trazido à luz pela pesquisa histórica serve unicamente para preencher os pequenos vazios e confirmar a precisão do quadro geral. Isto é o que ocorre quando a filosofia e as ciências sociais são orientadas pelo mesmo tipo de "naturalismo" exemplificado pelo princípio de Cuvier. 

Os trechos seguintes da mesma nota apresentam uma concep√ß√£o alternativa do materialismo hist√≥rico. Segundo tal concep√ß√£o, a filosofia da pr√°xis n√£o √© sociologia mas hist√≥ria, e a metodologia a ela apropriada deve ser derivada n√£o das ci√™ncias naturais mas do √Ęmbito da cr√≠tica e da interpreta√ß√£o, isto √©, da "filologia": "A experi√™ncia sobre a qual se baseia a filosofia da pr√°xis n√£o pode ser esquematizada; ela √© a pr√≥pria hist√≥ria em sua infinita variedade e multiplicidade, cujo estudo pode dar lugar ao nascimento da 'filologia' como m√©todo de erudi√ß√£o na verifica√ß√£o dos fatos particulares e ao nascimento da filosofia, entendida como metodologia geral da hist√≥ria. Talvez tenha sido isto o que pretenderam dizer os escritores que, como muito apressadamente afirma o ensaio [de Bukharin] no primeiro cap√≠tulo, negam a possibilidade de construir uma sociologia a partir da filosofia da pr√°xis e afirmam que a filosofia da pr√°xis s√≥ vive nos ensaios hist√≥ricos particulares (a afirma√ß√£o, assim nua e crua, √© certamente err√īnea e seria uma curiosa nova forma de nominalismo e de ceticismo filos√≥fico). Negar que se possa construir uma sociologia, entendida como ci√™ncia da sociedade, isto √©, como ci√™ncia da hist√≥ria e da pol√≠tica, que seja algo diverso da filosofia da pr√°xis, n√£o significa que n√£o se possa construir uma compila√ß√£o emp√≠rica de observa√ß√Ķes pr√°ticas que ampliem a esfera da filologia, tal como esta √© entendida tradicionalmente. Se a filologia √© a express√£o metodol√≥gica da import√Ęncia que tem a verifica√ß√£o e a defini√ß√£o dos fatos particulares em sua inconfund√≠vel 'individualidade', √© imposs√≠vel excluir a utilidade pr√°tica da identifica√ß√£o de determinadas 'leis de tend√™ncia' mais gerais, que correspondem, na pol√≠tica, √†s leis estat√≠sticas ou dos grandes n√ļmeros, que contribu√≠ram para o progresso de algumas ci√™ncias naturais. Mas n√£o se deu import√Ęncia ao fato de que a lei estat√≠stica pode ser empregada na ci√™ncia e na arte pol√≠tica somente enquanto as massas da popula√ß√£o permanecerem essencialmente passivas ¬Ė com rela√ß√£o √†s quest√Ķes que interessam ao historiador e ao pol√≠tico ¬Ė ou enquanto se sup√Ķe que permane√ßam passivas" [22].¬†

No texto A da mesma nota, as rela√ß√Ķes entre marxismo, hist√≥ria e filologia s√£o descritas ainda mais sinteticamente: "A 'experi√™ncia' do materialismo hist√≥rico √© a pr√≥pria hist√≥ria, o estudo dos fatos particulares, a 'filologia' [...] A 'filologia' √© a express√£o metodol√≥gica da import√Ęncia dos fatos particulares entendidos como 'individualidades' definidas e precisas" [23].¬†

Segundo Bukharin, a história é uma atividade, um campo de pesquisas regido por leis sociológicas: de um ponto de vista metodológico, ela é apenas uma "serva" da sociologia. Ao contrário, nas notas de Gramsci a relação entre história e sociologia é quase inteiramente interrompida: a sociologia positivista utiliza leis gerais abstratas que são separadas da experiência vivida da história; além disto, é tarefa do materialismo histórico infringir aquelas mesmas leis, superá-las, assegurar que os seres humanos tenham a possibilidade de forjar sua própria história. Em seguida, a mesma nota prossegue afirmando que o partido político ("o organismo coletivo") prefigurado pelo materialismo histórico não chega ao conhecimento do "sentimento popular" por meio de leis estatísticas geradas por uma sociologia quantitativa; antes, chega a tal conhecimento através "da 'co-participação ativa e consciente', da 'co-passionalidade', da experiência dos detalhes imediatos, de um sistema que se poderia chamar de 'filologia viva' " [24]. 

Isto n√£o significa que a sociologia seja in√ļtil: s√≥ que suas asser√ß√Ķes devem ser controladas, seu poder totalizante deslegitimado, seus usos cuidadosamente circunscritos e seus resultados "cient√≠ficos" sempre submetidos a uma cr√≠tica hist√≥rica, e n√£o vice-versa. A utilidade da sociologia √© discutida num contexto separado, numa nota intitulada Temas de cultura. O ossinho de Cuvier. Nesta nota, a sociologia √© vista sob uma luz positiva, mas s√≥ se considerada como instrumento para a constru√ß√£o de hip√≥teses e n√£o para a formula√ß√£o de verdades universais. Seus m√©todos, derivados das ci√™ncias naturais, s√£o considerados fal√≠veis ¬Ė e n√£o s√≥ quando aplicados √†s ci√™ncias sociais, mas tamb√©m aos fen√īmenos naturais. Al√©m disto, √© firmemente posta numa posi√ß√£o subordinada em rela√ß√£o √† hist√≥ria, que ela pode complementar mas nunca suplantar: "O princ√≠pio de Cuvier, da correla√ß√£o entre as partes org√Ęnicas de um corpo, de modo que de uma pequena parte dele (desde que √≠ntegra) se pode reconstruir todo o corpo (mas √© preciso rever bem a doutrina de Cuvier para expor com exatid√£o seu pensamento), certamente deve ser inserido na tradi√ß√£o do pensamento franc√™s, na 'l√≥gica' francesa, e relacionado com o princ√≠pio do animal-m√°quina. N√£o importa ver se na biologia ainda se pode considerar o princ√≠pio inteiramente v√°lido; isto n√£o parece poss√≠vel (por exemplo, deve-se lembrar o ornitorrinco, em cuja estrutura n√£o h√° 'l√≥gica', etc.); deve-se examinar se o princ√≠pio da correla√ß√£o √© √ļtil, exato e fecundo na sociologia, al√©m da met√°fora. Parece que se pode responder claramente sim. Mas √© preciso que se entenda: para a hist√≥ria passada, o princ√≠pio da correla√ß√£o (como o da analogia) n√£o pode substituir o documento, isto √©, s√≥ pode levar a uma hist√≥ria hipot√©tica, veross√≠mil mas hipot√©tica. Mas diferente √© o caso da a√ß√£o pol√≠tica e do princ√≠pio de correla√ß√£o (como o da analogia) aplicado ao previs√≠vel, √† constru√ß√£o de hip√≥teses poss√≠veis e de perspectiva. Estamos precisamente no campo da hip√≥tese e se trata de ver que hip√≥tese √© mais veross√≠mil e mais fecunda em termos de convic√ß√Ķes e de educa√ß√£o. √Č certo que, quando se aplica o princ√≠pio de correla√ß√£o aos atos de um indiv√≠duo ou mesmo de um grupo, existe sempre o risco de cair no arb√≠trio: os indiv√≠duos e tamb√©m os grupos n√£o operam sempre 'logicamente', 'coerentemente', conseq√ľentemente, etc.; mas √© sempre √ļtil partir da premissa de que assim operem. Posta a premissa da 'irracionalidade' dos motivos da a√ß√£o, ela n√£o serve para nada; s√≥ pode ter um alcance pol√™mico para que se possa dizer, como os escol√°sticos: ex absurdo sequitur quodlibet" [25].¬†

Considerado sob esta luz, o m√©todo da sociologia pode ser considerado politicamente √ļtil. Mantendo o princ√≠pio de Cuvier na esfera do hipot√©tico, num contexto claramente delimitado, evita-se o perigo (e a tenta√ß√£o) de transform√°-lo numa vis√£o de mundo, numa filosofia. Afinal, as p√°ginas dos Cadernos dedicadas √† cr√≠tica do positivismo e contra Bukharin, assim como as partes em que se refuta Croce s√£o justificadas pela necessidade de salvaguardar o materialismo hist√≥rico das incurs√Ķes (e das apropria√ß√Ķes) da metaf√≠sica. A √™nfase na hist√≥ria ¬Ė no sentido de diferen√ßa, multiplicidade, especificidade do particular ¬Ė constitui t√£o-somente uma defesa e uma resist√™ncia ativa em rela√ß√£o √† metaf√≠sica em suas diversas vers√Ķes, em especial o materialismo filos√≥fico e o idealismo. Enquanto o impulso metaf√≠sico engloba o particular no geral, subordinando a realidade individual √†s exig√™ncias da totalidade, a hist√≥ria tal como √© concebida nos Cadernos busca recuperar o fragmento, reconhecer sua especificidade e captar sua diferen√ßa. A hist√≥ria alcan√ßa este objetivo negando-se o privil√©gio da contempla√ß√£o distanciada e empenhando-se nas atividades pr√°ticas e materiais da filologia e da cr√≠tica. Tal como a aus√™ncia de rigor cr√≠tico e a falta de aten√ß√£o filol√≥gica ao particular conduziram √†s vulgariza√ß√Ķes e distor√ß√Ķes do marxismo, na mesma medida a cr√≠tica e a filologia s√£o necess√°rias para preservar a √ļnica qualidade essencial do materialismo hist√≥rico: o seu ser revolucion√°rio.¬†

Uma nota originalmente intitulada Maquiavel e Marx, que aparece, revista, no caderno dedicado √†s Breves notas sobre a pol√≠tica de Maquiavel, cont√©m a seguinte afirma√ß√£o: "A inova√ß√£o fundamental introduzida pela filosofia da pr√°xis na ci√™ncia da pol√≠tica e da hist√≥ria √© a demonstra√ß√£o de que n√£o existe uma 'natureza humana' abstrata, fixa e imut√°vel (conceito que certamente deriva do pensamento religioso e da transcend√™ncia), mas que a natureza humana √© o conjunto das rela√ß√Ķes sociais historicamente determinadas, ou seja, um fato hist√≥rico verific√°vel, dentro de certos limites, com os m√©todos da filologia e da cr√≠tica" [26]. Os m√©todos da filologia e da cr√≠tica est√£o sempre operantes nos Cadernos do c√°rcere de Gramsci.¬†

A an√°lise cr√≠tica de Croce, que constitui uma parte substancial dos Cadernos, √© bem conhecida e sua import√Ęncia j√° foi destacada por in√ļmeros cr√≠ticos. N√£o t√£o conhecida, ainda que igualmente importante, √© a cr√≠tica minuciosa de Bukharin. Sabe-se perfeitamente, tamb√©m, que in√ļmeras notas s√£o dedicadas √† an√°lise cr√≠tica da cultura italiana, especialmente a literatura. Mas n√£o foi suficientemente enfatizado o conjunto enorme de informa√ß√Ķes particularizadas registradas nos Cadernos ¬Ė o m√©todo "filol√≥gico" em uso nos Cadernos jamais atraiu muita aten√ß√£o. Toda an√°lise e discuss√£o do texto de Gramsci cont√©m uma observa√ß√£o sobre seu car√°ter fragment√°rio e incompleto. Tais observa√ß√Ķes s√£o freq√ľentemente acompanhadas pela suposi√ß√£o de que seja tarefa do estudioso gramsciano reconstruir a partir destes fragmentos um conjunto coerente. Implicitamente ou explicitamente, a natureza fragment√°ria dos Cadernos √© habitualmente atribu√≠da √†s terr√≠veis condi√ß√Ķes em que foram escritos. A fragmenta√ß√£o, em outras palavras, √© considerada como um obst√°culo que infelizmente se interp√Ķe √† compreens√£o daquilo que Gramsci queria dizer ou teria dito, caso tivesse tido o tempo e os meios para redigir um livro "normal" ou uma s√©rie de livros. Da√≠ os esfor√ßos para "organizar" os Cadernos, para agrupar seus fragmentos segundo alguns temas ou sob algumas rubricas. Muitas vezes, estes temas e rubricas s√£o retomados dos t√≠tulos apostos em muitos Cadernos: "A filosofia de Benedetto Croce", "Nicolau Maquiavel", "Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a hist√≥ria dos intelectuais", "Americanismo e fordismo", "Cr√≠tica liter√°ria" e assim por diante. Num certo sentido, isto se faz necess√°rio em fun√ß√£o da enorme dificuldade que apresentam os pr√≥prios Cadernos, da conveni√™ncia de apresent√°-los numa forma "leg√≠vel" e da aparente e relativa desimport√Ęncia ou irrelev√Ęncia de muitos pormenores para o desenvolvimento dos temas maiores tratados nos Cadernos. O editor gramsciano, o estudioso, o comentador se sentem levados a agrupar as v√°rias partes e, como um moderno Cuvier, a recostur√°-las. √Äs vezes esta opera√ß√£o de reconstru√ß√£o √© levada adiante de modo respons√°vel, isto √©, com a consci√™ncia cr√≠tica de seus limites. Outras vezes, tal opera√ß√£o √© conduzida com a errada convic√ß√£o de poder reconstruir n√£o s√≥ o pensamento de Gramsci, mas o pr√≥prio Gramsci. Este segundo tipo de opera√ß√£o √© aquele que em seguida leva a falar de um "Gramsci leninista" ou de um "Gramsci idealista crociano", etc. Tamb√©m os convites para "libertar Gramsci" das v√°rias interpreta√ß√Ķes indevidas s√£o muitas vezes inspirados pela convic√ß√£o de poder reconstruir o √ļnico e "verdadeiro" Gramsci, partindo do car√°ter fragment√°rio dos Cadernos. Quando se verifica este tipo de abordagem, os Cadernos se tornam um f√°cil terreno de ca√ßa no qual se escolhe aquilo que se considera "importante" e se abandona aquilo que se julga "secund√°rio" ¬Ė e, naturalmente, assiste-se a uma troca rec√≠proca de acusa√ß√Ķes por n√£o se ter sabido identificar os fragmentos "justos" e as "corretas" rela√ß√Ķes que se d√£o entre eles ou por se ter destacado a import√Ęncia de alguns detalhes em detrimento de outros.¬†

√Č in√ļtil pensar em p√īr fim a este jogo. A mais precisa e completa reprodu√ß√£o do manuscrito de Gramsci n√£o poder√° aplacar tais pol√™micas, nem poder√° faz√™-lo o desejo de reconstruir o "verdadeiro" Gramsci. Apenas lendo e voltando a percorrer o texto em seu conjunto ser√° poss√≠vel chegar a uma plena compreens√£o do que significa enfatizar a hist√≥ria "em sua infinita variedade e multiplicidade" [27]. O car√°ter fragment√°rio dos Cadernos se deve, ao menos em parte, ao m√©todo "filol√≥gico" que estrutura sua composi√ß√£o. A "filologia" requer uma aten√ß√£o cuidadosa pelo particular, esfor√ßa-se por verificar sua especificidade. Em muitas partes que comp√Ķem os Cadernos, acontece precisamente isto ¬Ė registra-se a hist√≥ria em sua infinita variedade e multiplicidade. Na verdade, estabelecem-se complexas redes de rela√ß√Ķes entre estas particularidades, e estas, por sua vez, d√£o origem a conceitos gerais e teorias ¬Ė a mais famosa das quais √© a da "hegemonia". Se o registro minucioso do particular desaparecesse, se a rela√ß√£o entre os fragmentos fosse estabelecida de modo permanente, ent√£o conceitos e teorias se cristalizariam em dogmas. Para tornar est√°veis as rela√ß√Ķes entre os fragmentos que comp√Ķem os Cadernos, se deveria abandonar a "filologia" pelo m√©todo de Cuvier. Dever-se-ia colocar cada parte numa rela√ß√£o necess√°ria e est√°vel com as outras, de modo a produzir uma estrutura geral que pudesse ser contemplada em sua inteireza. Mas nos Cadernos a hist√≥ria √© apresentada como "experi√™ncia" e n√£o como contempla√ß√£o; e a "experi√™ncia sobre a qual se baseia a filosofia da pr√°xis n√£o pode ser esquematizada" [28].¬†

A alus√£o a Cuvier nas p√°ginas iniciais do primeiro Caderno cont√©m uma advert√™ncia impl√≠cita e um convite. Adverte contra o perigo de correr √†s conclus√Ķes e convida a prestar aten√ß√£o ao particular. Gramsci repete a advert√™ncia e o convite em in√ļmeras ocasi√Ķes ¬Ė o manuscrito √© rico de express√Ķes como "a ser averiguado", "a ser aprofundado", "√© preciso distinguir este fato", e assim por diante. Os par√°grafos de abertura dos Cadernos 8 e 11 insistem vigorosamente no car√°ter provis√≥rio das notas e na possibilidade de que certas conclus√Ķes nelas expressas possam ser inteiramente err√īneas. Em 30 de dezembro de 1929, poucos meses depois de ter escrito a breve nota sobre O ossinho de Cuvier, Gramsci conclu√≠a uma carta √† mulher, Giulia Schucht, com a seguinte observa√ß√£o: "Pode ser, ou antes √© muito prov√°vel, que algumas avalia√ß√Ķes minhas sejam exageradas ou mesmo injustas. Reconstituir a partir de um pequeno osso um megat√©rio ou um mastodonte era pr√≥prio de Cuvier, mas pode acontecer que com um peda√ßo de rabo de rato se reconstrua um monstro fabuloso" [29].¬†

O modo para evitar tais erros grosseiros, sugerem os Cadernos do cárcere, consiste em permanecer fiel aos métodos da crítica e da filologia. Estes métodos, tal como são utilizados nos Cadernos, também funcionam simultaneamente como arma e como defesa contra todas as formas de dogmatismo e mistificação. A teoria e a prática da crítica filológica dos Cadernos constituem em si mesmas uma importantíssima contribuição para a elaboração de uma filosofia da práxis antidogmática.

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Joseph Buttigieg é professor da Universidade de Notre Dame (EUA) e secretário da International Gramsci Society - IGS.

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Notas

[1] Antonio Gramsci. Quaderni del carcere. Edi√ß√£o cr√≠tica organizada por Valentino Gerratana. Turim: Einaudi, 1975, p. 22. A edi√ß√£o cr√≠tica ¬Ė seguindo obviamente o texto do manuscrito gramsciano ¬Ė restabelece o nome "Lumbroso". Mas, a meu ver, corrigindo um evidente lapso gramsciano, aqui se deve entender "Lombroso" (Cesare) e n√£o "Lumbroso" (Alberto).

[2] Ib.

[3] Ib.

[4] A "edi√ß√£o cr√≠tica", referida na nota 1, reproduz os Cadernos do c√°rcere na ordem em que Gramsci os escreveu. Valentino Gerratana distingue textos A, B e C. Os textos A s√£o os que Gramsci redigiu e depois refundiu (ampliou, agrupou, etc.) nos chamados textos C; os B s√£o os que ele redigiu uma √ļnica vez. Trata-se de uma inova√ß√£o frente √† velha edi√ß√£o tem√°tica ou "togliattiana", que n√£o inclui os textos A.

[5] Ib., p. 2.293-4.

[6] Ib., p. 2.279.

[7] Ib., p. 2.321.

[8] Ib., p. 2.325-6.

[9] Ib., p. 2.327.

[10] Ib., p. 1.441 e 1420.

[11] N. Bukharin. Teoria del materialismo storico. Manuale popolare di sociologia marxista [1921]. Florença: La Nuova Italia, 1977, p. 12. [Ed. em língua portuguesa: Tratado de materialismo histórico. Trad. revista por Edgar Carone. Lisboa-Porto-Luanda: Centro Brasileiro do Livro, s/d.]

[12] Ib., p. 12.

[13] Ib.

[14] Ib., p. 12-3.

[15] Ib., p. 13-4.

[16] A. Gramsci. Quaderni del carcere, cit., p. 1.431.

[17] Ib., p. 1.432.

[18] Ib.

[19] Ib., p. 1.430.

[20] Ib., p. 1.437.

[21] Ib., 1.428.

[22] Ib., p. 1.428-9.

[23] Ib., p. 856.

[24] Ib., p. 1.430.

[25] Ib., p. 1.687.

[26] Ib., p. 1.599.

[27] Ib., p. 1.428.

[28] Ib.

[29] A. Gramsci. Lettere dal carcere. Org. por S. Caprioglio e E. Fubini. Turim: Einaudi, 1975, p. 314. [Ed. bras.: Cartas do cárcere. Trad. Noênio Spínola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, 2 v.]



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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