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A quest√£o da ideologia em Gramsci

Leandro Konder - 2002
 

O italiano Antonio Gramsci desenvolveu uma interpreta√ß√£o bastante original da filosofia de Marx. Para ele, a perspectiva do pensador alem√£o era a de um "historicismo absoluto". No essencial, o pensamento de Marx nos desafia - sempre! - a pensar historicamente. E esse desafio nos p√Ķe diante tanto de possibilidades magn√≠ficas como de dificuldades colossais.

Pesa sobre n√≥s uma tradi√ß√£o negativa, que se fortaleceu muito ao longo dos s√©culos XVII e XVIII, segundo a qual o "senso comum" √© deposit√°rio de tesouros de sabedoria. Gramsci admitia que o "senso comum" possu√≠a um caro√ßo de "bom senso", a partir do qual poderia desenvolver o esp√≠rito cr√≠tico. Advertia, contudo, para o risco de uma superestima√ß√£o do "senso comum", cujos horizontes, afinal, s√£o inevitavelmente muito limitados. O "senso comum √©, em si mesmo, "difuso e incoerente". A percep√ß√£o da realidade, no √Ęmbito desse campo visual estreito, n√£o poderia deixar de ser- segundo o te√≥rico italiano - drasticamente "emp√≠rica", restrita √† compreens√£o imediata, superficial.

Em sua origem, o termo "ideologia" compactuava, implicitamente, com uma valoriza√ß√£o exagerada da for√ßa da percep√ß√£o sensorial. Gramsci se referiu ao fato de que o primeiro conceito de ideologia foi elaborado por fil√≥sofos franceses vinculados a um "materialismo vulgar", te√≥ricos que pretendiam decompor as id√©ias at√© chegarem aos "elementos originais" delas, quer dizer, at√© chegarem √†s "sensa√ß√Ķes", das quais, supostamente, as id√©ias derivavam. Tratava-se, assim, de uma concep√ß√£o "fisiol√≥gica" da ideologia (GRAMSCI, 1977, p. 453).

Marx e Engels, os "fundadores da filosofia da práxis", submeteram essa concepção a uma crítica vigorosa. Tornaram-se, filosoficamente, os representantes de um pensamento que implicava "uma clara superação" ("un netto superamento") da ideologia (GRAMSCI, 1977, p. 1.491). No entanto, adotaram o termo, conferindo-lhe, naturalmente, um sentido pejorativo.

Para Marx e Engels, a ideologia fazia parte da "supra-estrutura", e como tal deveria ser criticamente analisada. As constru√ß√Ķes supra-estruturais combinam elementos de conhecimento e express√Ķes de press√Ķes prejudiciais √† universalidade do conhecimento. A ideologia, na acep√ß√£o em que Marx e Engels usam a palavra, torna-se, na supra-estrutura, um fator de equ√≠vocos, "un elemento di errore", segundo Gramsci (GRAMSCI, 1977, p. 868). E o principal equ√≠voco, aquele que costuma se verificar com maior frequ√™ncia, √© aquele que consiste numa vis√£o "ideol√≥gica" da ideologia e que resulta numa desqualifica√ß√£o dos fen√īmenos ideol√≥gicos.

O pensador italiano explicava: "O processo desse erro pode ser facilmente reconstitu√≠do. 1) A ideologia √© identificada como distinta da estrutura e se afirma que n√£o s√†o as ideologias que mudam a estrutura, mas, ao contr√°rio, √© a estrutura que muda as ideologias: 2) afirma-se que determinada solu√ß√£o pol√≠tica √© ¬īideol√≥gica`,¬†isto √©, insuficiente para mudar a estrutura, quando acredita que poderia mud√°-la; afirma-se, ent√£o, que ela √© in√ļtil, est√ļpida, etc ; 3) passa-se, por fim, a afirmar que toda ideologia √© ¬īpura` apar√™ncia, √© in√ļtil, est√ļpida, etc." (GRAMSCI, 1977, p. 868).

Essa desqualifica√ß√£o ilimitada, generalizada, impede a perspectiva comprometida com a supera√ß√£o das distor√ß√Ķes ideol√≥gicas (a perspectiva de Marx e Engels) de reconhecer concretamente as diferen√ßas significativas que existem no interior do campo da ideologia. E dificulta enormemente ao cr√≠tico das limita√ß√Ķes da ideologia reconhecer a complexidade dos elementos ideol√≥gicos presentes no seu pr√≥prio pensamento.

Gramsci propunha uma aten√ß√£o especial para as diferen√ßas internas da ideologia. Fixava-se, em especial, numa diferen√ßa que lhe parecia decisiva: "√© preciso distinguir entre ideologias historicamente org√Ęnicas, que s√£o necess√°rias a uma certa estrutura, e ideologias arbitr√°rias, racionalizadas, desejadas" (idem, ibidem).

As ideologias "arbitr√°rias" merecem ser submetidas a uma cr√≠tica que, de fato, as desqualifica. As ideologias "historicamente org√Ęnicas", por√©m, constituem o campo no qual se realizam os avan√ßos da ci√™ncia, as conquistas da "objetividade", quer dizer, as vit√≥rias da representa√ß√£o "daquela realidade que √© reconhecida por todos os homens, que √© independente de qualquer ponto de vista meramente particular ou de grupo" (GRAMSCI, 1977, p. 1.456).

A ci√™ncia √© um conhecimento que se expande, que se aprofunda e se rev√™, se corrige, continuamente. Ela tamb√©m √© hist√≥rica, n√£o pode pretender situar-se acima da hist√≥ria, n√£o pode pretender escapar √†s marcas que o fluxo da hist√≥ria, a cada momento, imprime nas suas constru√ß√Ķes. Por isso, n√£o √© razo√°vel tentar promover uma contraposi√ß√£o r√≠gida entre ci√™ncia e ideologia. "Na realidade", escreveu Gramsci, "a ci√™ncia tamb√©m √© uma supra-estrutura, uma ideologia" (GRAMSCI, l977, p.1.457).

Há alguma diferença entre ciência e ideologia, entre filosofia e ideologia ? Gramsci não consegue ser muito preciso na resposta a essa indagação. Ele diz que a ideologia se torna ciência quando assume a forma de "hipótese científica de caráter educativo energético" e é "verificada (criticada) pelo desenvolvimento real da história" (GRAMSCI, 1977, p. 507). E a filosofia ? Uma distinção é sugerida quando o filósofo afirma: "O progresso é uma ideologia, o vir-a-ser é uma filosofia" (GRAMSCI, 1977, p. 1.335). Contudo, a maior preocupação do autor dos Cadernos do Cárcere é a de evitar que alguma construção cultural ou algum elemento da supra-estrutura sejam destacados da ideologia e concebidos como independentes dela.

A pr√≥pria "filosofia da pr√°xis" (o marxismo) n√£o pode se pretender imune √†s vicissitudes da ideologia. Na medida em que est√° comprometido com um projeto e uma a√ß√£o de crescente mobiliza√ß√£o das classes populares - cuja consci√™ncia se move no plano do "senso comum" - compreende-se que o marxismo tenha acabado por se mostrar um tanto impregnado pelos crit√©rios (frequentemente preconceituosos ou supersticiosos) determinados pela percep√ß√£o das massas. O pensador italiano constatava: "a filosofia da pr√°xis se tornou, ela tamb√©m,¬†¬īpreconceito` e ¬īsupersti√ß√£o`" (GRAMSCI, 1977, p. 1.861).

Gramsci, conv√©m ressalvar, n√£o se assustava com essa constata√ß√£o. Ele estava convencido de que nenhuma for√ßa inovadora consegue atuar com efic√°cia imediata e preservar sua coes√£o com completa coer√™ncia. De fato, a for√ßa inovadora "√© sempre racionalidade e irracionalidade, arb√≠trio e necessidade. √Č ¬īvida`, quer dizer, tem todas as fraquezas e for√ßas da vida, tem todas as suas contradi√ß√Ķes e suas ant√≠teses" (GRAMSCI, 1977, p. 1.326).

O que importa n√£o √© a ambi√ß√£o irrealista de se preservar contra toda e qualquer "contamina√ß√£o" por parte das contradi√ß√Ķes sociais, e sim a firme disposi√ß√£o para uma luta permanente no sentido de superar os elementos "acr√≠ticos" da consci√™ncia, em liga√ß√£o com o projeto de revolucionamento da sociedade.

Por seu "car√°ter tendencial de filosofia de massa", a filosofia da pr√°xis s√≥ pode se desenvolver de modo pol√™mico, em confronto com os nost√°lgicos do passado ou com os aproveitadores da situa√ß√£o presente. √Č no conflito que ela se liberta, ou tenta se libertar, "de todo elemento ideol√≥gico unilateral e fan√°tico" (GRAMSCI, 1977, p. 1.487).

De acordo com a concepção de Gramsci, por conseguinte, a ideologia tem elementos unilaterais e fanáticos, e tem igualmente elementos de conhecimento rigoroso e até mesmo de ciência. Nesse sentido, a ideologia pode chegar a se identificar com "todo o conjunto das supra-estruturas" (GRAMSCI, 1977, p. 1.320).

Por um lado, pois, a perspectiva do pensador italiano atribui uma import√Ęncia imensa √† ideologia (especialmente √†s ideologias "historicamente org√Ęnicas"); por outro lado, por√©m, o materialismo hist√≥rico n√£o permite que se acredite ingenuamente no poder das ideologias como tais revolucionarem a sociedade. Gramsci escreveu: "Para Marx as¬†¬īideologias` n√£o s√£o meras ilus√Ķes e apar√™ncias; s√£o uma realidade objetiva e atuante. S√≥ n√£o s√£o a mola da hist√≥ria" (GRAMSCI, 1977, p. 436).

Segundo o teórico italiano, caberia aos revolucionários agir, atuar praticamente. No entanto, para uma atuação eficaz, eles precisariam superar as "ideologias parciais e falaciosas", através de um processo no qual deveriam se apoiar nas ciências e na filosofia, buscando o máximo de "objetividade" no conhecimento, e encaminhando então, na ação, a realização prática efetiva da "unificação cultural do gênero humano" (GRAMSCI, 1977, p. 1.048).

A busca da amplia√ß√£o do quadro de refer√™ncias e o esfor√ßo no sentido de alcan√ßar maior universalidade no conhecimento conferem ao confronto supra-estrutural das id√©ias uma caracter√≠stica muito diversa daquela que se encontra nas batalhas "militares". Na "guerra", o combatente procura atacar os pontos fracos do advers√°rio. Na controv√©rsia ideol√≥gica, entretanto, quando se trata de alcan√ßar uma compreens√£o mais ampla e mais profunda, cumpre enfrentar o desafio de enfrentar as obje√ß√Ķes mais fortes dos interlocutores mais not√°veis ("i piu eminenti") na representa√ß√£o do ponto de vista oposto (GRAMSCI, 1977, p. 875).

Em outro fragmento dos Cadernos do Cárcere se pode ler uma advertência metodológica aparentada com a preocupação que se manifestou no trecho acima referido: "Na abordagem dos problemas histórico-críticos, não se deve conceber a discussão científica como um processo judicial, no qual existe um acusado e um promotor que, por obrigação funcional, deve demonstrar que o acusado é culpado e merece ser retirado de circulação" (GRAMSCI, 1977, p. 1.267).

A concep√ß√£o de ideologia adotada por Gramsci est√° ligada a uma certa unifica√ß√£o das supra-estruturas em torno dos valores hist√≥ricos do conhecimento e da cultura. O pensador italiano √©, sem d√ļvida, um materialista; seu materialismo, por√©m, tem uma fei√ß√£o peculiar: est√° permanentemente atento para a import√Ęncia da criatividade do sujeito humano, para o poder inovador dos homens, tal como se expressa nas cria√ß√Ķes culturais.

Apesar das grandes diferenças, Gramsci tem em comum com Lukács (que ele nunca chegou a ler) um profundo apreço pela cultura como tal. Na análise do autor dos Cadernos do Cárcere, a ideologia conservadora dominante estaria se tornando cada vez mais cética em relação aos valores básicos da cultura, do conhecimento, da teoria em geral, por causa da crise da cultura burguesa, que vem perdendo sua capacidade de exercer uma verdadeira hegemonia sobre a sociedade. "A morte das velhas ideologias" - anotou Gramsci - "se verifica como ceticismo em relação a todas as teorias" (GRAMSCI, 1977, p. 312).

Difunde-se um estado de esp√≠rito pragm√°tico, imediatista, utilit√°rio, c√≠nico, que tende a subestimar a riqueza do significado das cria√ß√Ķes culturais. Generaliza-se uma crise de valores. Em resoluta oposi√ß√£o a essa tend√™ncia, o fil√≥sofo n√£o hesitava em reivindicar a "honestidade cient√≠fica" e a "lealdade intelectual" (GRAMSCI, 1977, pp. 1.840 e 1.841).

As cria√ß√Ķes dos sujeitos humanos no n√≠vel supra-estrutural n√£o se deixam reduzir a explica√ß√Ķes sociol√≥gicas (e Gramsci critica duramente a redu√ß√£o do marxismo a uma "sociologia", que o russo Bukh√°rin teria tentado fazer). N√£o se pode ignorar a autonomia - relativa, mas insuprim√≠vel - que se manifesta na cria√ß√£o cultural, nas op√ß√Ķes ideol√≥gicas.

Gramsci exemplificava com um epis√≥dio extra√≠do da hist√≥ria da Igreja: "Na discuss√£o entre Roma e Biz√Ęncio sobre a proveni√™ncia do Esp√≠rito Santo, seria rid√≠culo procurar na estrutura do Oriente europeu a afirma√ß√£o de que o Esp√≠to Santo prov√©m somente do Pai e na estrutura do Ocidente a afirma√ß√£o de que ele prov√©m do Pai e do Filho. A exist√™ncia e o conflito das duas igrejas dependem da estrutura de toda a hist√≥ria, mas no caso elas puseram quest√Ķes que s√£o princ√≠pio de distin√ß√£o e de coes√£o interna para cada uma delas. Podia acontecer, contudo, que qualquer uma das duas igrejas tivesse afirmado o que a outra afirmou; o princ√≠pio de diferencia√ß√£o e conflito continuaria a ser o mesmo. E √© esse problema da distin√ß√£o e do contraste que constitui o problema hist√≥rico e n√£o a bandeira casual empunhada por cada uma das partes" (GRAMSCI, 1977, p. 873).

As representa√ß√Ķes n√£o se deixam reduzir √†s condi√ß√Ķes em que se encontravam seus criadores no momento em que as criaram. E tamb√©m n√£o devem ser consideradas imut√°veis na forma que assumiram na cabe√ßa das pessoas que as adotaram.

Por isso, Gramsci n√£o abandonava, em momento algum, sua convic√ß√£o de que as representa√ß√Ķes, as id√©ias, as formas da sensibilidade, os preconceitos, as supersti√ß√Ķes, mas tamb√©m os sistemas filos√≥ficos e as teorias cient√≠ficas precisavam sempre ser pensados historicamente, do √Ęngulo do "historicismo absoluto".

O sujeito humano existe intervindo no mundo, sendo constituído pelo movimento da história e, simultaneamente, constituindo esse movimento. Mesmo quando amplos setores da população de um país ficam reduzidos a uma situação de miséria material e espiritual, mergulhados nas formas mais empobrecidas e limitadas do "senso comum", não se deve perder de vista o fato de que eles continuam a ser integrados por sujeitos humanos.

Lidando com sujeitos humanos, √© imposs√≠vel eliminar totalmente de modo irrevers√≠vel a margem de op√ß√Ķes que as pessoas s√£o levadas a preservar e anseiam por ampliar. Nos Cadernos do C√°rcere se l√™ a observa√ß√†o feita a respeito da situa√ß√£o intelectual do "homem do povo", que n√£o sabe contra-argumentar em face de um "advers√°rio ideologicamente superior", n√£o consegue sustentar e desenvolver suas pr√≥prias raz√Ķes, mas nem por isso adere ao ponto de vista do outro, porque se identifica solidariamente com o grupo a que pertence e se recorda de ter ouvido algu√©m desse grupo formular raz√Ķes convincentes que iam numa dire√ß√£o diferente da que est√° sendo seguida pelo seu contraditor. "N√£o recorda os argumentos, concretamente, n√£o poderia repeti-los, mas sabe que existem, porque j√° lhes ouviu a convincente esposi√ß√£o" (GRAMSCI, 1977, p. 1.391).

A hist√≥ria pressup√Ķe, ent√£o, n√£o s√≥ a a√ß√£o dos l√≠deres e a atua√ß√£o dos de "cima", mas tamb√©m a inelimin√°vel possibilidade da interven√ß√£o ativa e consciente dos de "baixo". Fortalecer essa interven√ß√£o era a meta, o ideal do pensador italiano. Sua perspectiva revolucion√°ria o incitava a tentar contribuir para a cria√ß√£o de organiza√ß√Ķes capazes de atuar num sentido pol√≠tico-pedag√≥gico, capazes de ajudar a popula√ß√£o a tornar mais cr√≠ticas suas atividades j√° existentes. Sua inten√ß√£o era a de mobilizar o maior n√ļmero poss√≠vel de pessoas para a realiza√ß√£o de um programa que resultasse num aumento da liberdade e numa diminui√ß√£o da coer√ß√£o, na sociedade.

Bibliografia

GRAMSCI, Antonio. Quaderni del Carcere. Edição crítica do Instituto Gramsci, org. Valentino Gerratana. Turim: Einaudi, 1977. 



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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