Busca:     


Raízes do Brasil: do filme ao livro

Bernardo Borges Buarque de Hollanda - 2004
 

Em confer√™ncia de 1965, por ocasi√£o de um congresso sobre o cinema latino-americano em G√™nova, It√°lia, Glauber Rocha lan√ßava as bases de sua tese A est√©tica da fome. Como expoente do movimento Cinema Novo, o cineasta defendia a singularidade do processo de afirma√ß√£o nacional, com a transforma√ß√£o de sua maior mazela¬†- a fome - em pot√™ncia art√≠stica criativa do Terceiro Mundo, √ļnico fen√īmeno capaz de assombrar a Europa civilizada. Em seu manifesto, a busca de elementos pr√≥prios ao pa√≠s, que lhe dariam a capacidade de expressar com originalidade esta for√ßa, poderia encontrar paralelo na literatura dos anos de 1930, em especial no romance social nordestino, com as obras de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jos√© Lins do Rego. O cinema da d√©cada de 1960 encontrava a fonte de inspira√ß√£o na literatura regional da d√©cada de 1930. Da escrita √† imagem, da pena √† c√Ęmera na m√£o, cineastas se identificavam com escritores no sentido do engajamento do artista com o seu meio.

Nelson Pereira dos Santos foi um dos pioneiros desse processo cinematogr√°fico de reivindica√ß√£o de uma continuidade com escritores regionalistas e de transposi√ß√£o de suas obras para as telas, o que sucedeu com Vidas secas, Tenda dos milagres e Mem√≥rias do c√°rcere. Nos √ļltimos anos, ap√≥s a consolida√ß√£o de uma extensa filmografia no campo ficcional, o diretor tem ampliado sua √°rea de atua√ß√£o, com a op√ß√£o pelo g√™nero do document√°rio e com a realiza√ß√£o de um novo di√°logo intelectual com as letras brasileiras da d√©cada de 1930. No limiar do s√©culo XXI, Nelson Pereira dos Santos adapta para o cinema, em forma did√°tica, a obra de cl√°ssicos das Ci√™ncias Sociais no Brasil, como Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, e Ra√≠zes do Brasil (1936), de S√©rgio Buarque de Hollanda.

Tal postura parece estar em conson√Ęncia com o esp√≠rito de um egresso do Cinema Novo, que havia nascido como uma insurg√™ncia contra o modelo do filme de entretenimento norte-americano e de suas variantes sub-hollywoodianas na Am√©rica Latina. A nova vanguarda art√≠stica filiava-se √† tradi√ß√£o nacional a fim de dar um cunho pedag√≥gico √† arte cinematogr√°fica. Isto fez com que Humberto Mauro, realizador de centenas de document√°rios no Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince), tenha sido aclamado como uma dos principais refer√™ncias do movimento. O interesse pela figura de Gilberto Freyre j√° vinha desde Joaquim Pedro de Andrade, com seu primeiro curta-metragem no final da d√©cada de 1950, O mestre de Apipucos, e com seu projeto, n√£o conclu√≠do, de registrar em forma de fic√ß√£o Casa-Grande & Senzala. Glauber Rocha filmou no in√≠cio da d√©cada de 1970 o longa-metragem Hist√≥ria do Brasil, com o estrito fim informativo, ap√≥s uma s√≠ntese de v√°rios autores do pensamento social brasileiro.

Com isso, n√£o parece haver na atualidade uma mudan√ßa de rumos no cinema de Nelson Pereira dos Santos. A aproxima√ß√£o do diretor √† vida e √† obra de int√©rpretes brasileiros da d√©cada de 1930 revela o desejo de um aprofundamento do conhecimento cient√≠fico √°udio-visual e de uma melhor compreens√£o do pa√≠s na contemporaneidade. Divididos respectivamente em quatro e em dois cap√≠tulos, Casa-Grande & Senzala (2001) e Ra√≠zes do Brasil (2004), de Nelson Pereira dos Santos, procuram apresentar para o grande p√ļblico a import√Ęncia do esfor√ßo de entendimento da realidade brasileira levado a termo por alguns de seus mais instigantes pensadores.

O depoimento de Ant√īnio C√Ęndido ao document√°rio parece ser o gancho que propicia a passagem da discuss√£o do filme ao livro: S√©rgio Buarque de Hollanda falava na d√©cada de 1930 de um Brasil que se esva√≠a, de um pa√≠s em vias de extin√ß√£o. O novo Brasil, ainda indefinido no plano social, pol√≠tico e econ√īmico, era formado pelos fluxos de imigrantes que desde o final do s√©culo XIX aportavam da Europa e da √Āsia. Embora n√£o desenvolvido pelo historiador, este dado era salientado por Ant√īnio C√Ęndido como um ind√≠cio da sintonia de Ra√≠zes do Brasil com os grandes debates de sua √©poca.

O autor n√£o tratava, pois, do passado; ao contr√°rio, seu foco incidia muito mais sobre o presente turbulento. As indecis√Ķes da conjuntura pol√≠tica faziam de Ra√≠zes do Brasil um ensaio aberto e, em algumas passagens, enigm√°tico. Sob o impacto da Revolu√ß√£o de 30 e √†s v√©speras da implementa√ß√£o do Estado Novo, a obra vai ser situada por Antonio C√Ęndido dentro de um processo que s√≥ poderia ser percebido com maior nitidez ap√≥s 1945, quando sua gera√ß√£o testemunha a consolida√ß√£o do Brasil no cen√°rio internacional como uma na√ß√£o moderna, urbana e industrial, o que teria sido legado, em certa medida de maneira paradoxal, pela ditadura Vargas. Talvez em decorr√™ncia disto, S√©rgio Buarque de Hollanda asseverasse que a democracia no Brasil houvesse sido at√© ent√£o um "lament√°vel mal-entendido".

O primeiro esbo√ßo de reda√ß√£o do livro data de 1930, quando S√©rgio Buarque de Hollanda residia na Alemanha. Enviado √†quele pa√≠s um ano antes como correspondente dos Di√°rios Associados, o jovem S√©rgio iria aproveitar sua temporada alem√£ com entrevistas a escritores como Thomas Mann e com a freq√ľ√™ncia √†s aulas na Universidade de Berlim. Em meio √† euforia bo√™mia dos √ļltimos dias da Rep√ļblica de Weimar, a leitura de autores ligados ao c√≠rculo de Stefan George, como Ernest Kantorowicz, o levaria ao conhecimento da obra de Max Weber. Este descortinaria um novo horizonte sociol√≥gico ao pensamento do autor, que regressaria da Europa com um caderno de anota√ß√Ķes para o livro que pretendia intitular Teoria da Am√©rica. Em 1935, publicaria em uma revista do Rio de Janeiro uma vers√£o sum√°ria de tais escritos, chamada Corpo e Alma do Brasil - ensaio de psicologia social, que iria adquir no ano seguinte a forma definitiva, com a publica√ß√£o de Ra√≠zes do Brasil. A viagem ao exterior seria um fator decisivo tanto no amadurecimento intelectual do autor, quanto na formula√ß√£o das quest√Ķes presentes na obra de 1936. O distanciamento de seu pa√≠s significou a obten√ß√£o de uma nova perspectiva dele. O Brasil passava a ser visto de fora, em seu conjunto, como um todo.

O argumento central do livro √© o de que o Brasil atravessava desde o s√©culo XIX uma prolongada crise de transi√ß√£o de uma ordem tradicional a uma ordem moderna. Os efeitos desta crise ainda eram sentidos nos anos em que o autor redigia seu ensaio. Tratava-se de uma revolu√ß√£o lenta, com a supera√ß√£o de um modelo agr√°rio, rural e patriarcal, por um outro modelo - industrial, urbano e democr√°tico. A dificuldade de ultrapassagem para esta √ļltima fase se originava de uma s√©rie de entraves que a estrutura colonial havia legado e que se manifestava desde ent√£o no modo de ser do brasileiro. Premido entre os novos imperativos da civiliza√ß√£o ocidental e os condicionantes arcaicos da sua forma√ß√£o hist√≥rica, o Brasil assistia a um impasse na defini√ß√£o de seu destino.

O desterro brasileiro proviria do descompasso entre esses dois fatores. Tal incongru√™ncia resultava na incapacidade de uma coes√£o social s√≥lida, assentada no Estado e no bem p√ļblico, e o predom√≠nio do amb√≠guo c√≠rculo de influ√™ncias vincadas na fam√≠lia e no livre-arb√≠trio do indiv√≠duo. O pa√≠s oscilava assim em um periclitante jogo de v√≠cios e virtudes, intercambi√°veis entre si, conforme a circunst√Ęncia. Em vez da proposi√ß√£o de f√≥rmulas pr√©-estabelecidas para a resolu√ß√£o deste quadro, S√©rgio Buarque de Hollanda defendia uma revis√£o libertadora de nosso passado que ensejasse o enfrentamento da realidade nacional. Sem o apego nost√°lgico ao que passou e sem a c√≥pia de modelos estrangeiros, seria poss√≠vel vislumbrar com mais clarivid√™ncia o pr√≥prio sentido da na√ß√£o como entidade coletiva.

O autor iniciava seu estudo com o exame de nossas origens hist√≥ricas mais long√≠nquas, que remontavam √† peculiaridade da civiliza√ß√£o portuguesa na Pen√≠nsula Ib√©rica e desta no ambiente europeu. A mescla de influ√™ncias que Espanha e Portugal recebiam tanto da Europa quanto da √Āfrica do Norte, em especial, com a presen√ßa de √°rabes na Ib√©ria durante v√°rios s√©culos, resultava em um certo distanciamento cultural destes dois pa√≠ses, pioneiros na expans√£o ultramarina, frente aos pa√≠ses protestantes da Europa setentrional. O contraste podia ser percebido no tipo de coloniza√ß√£o do Novo Mundo, feita por castelhanos e lusitanos, de um lado, e por anglo-sax√Ķes, de outro. S√©rgio Buarque de Hollanda procurava acentuar algumas especificidades da burguesia em Portugal que, em vez de se constituir em oposi√ß√£o √† aristocracia, assimilava muitos de seus valores. A fidalguia, o culto √† personalidade e a avers√£o ao trabalho eram alguns dos tra√ßos oriundos da mentalidade aristocr√°tica e que acabavam por se ver refletidos no estabelecimento das fronteiras coloniais em terras americanas.

A par da identifica√ß√£o das diversas matrizes hist√≥ricas de coloniza√ß√£o da Am√©rica, S√©rgio Buarque de Hollanda erigia uma de suas tipologias que, com base no cotejo entre as na√ß√Ķes, contribu√≠am para uma melhor percep√ß√£o das caracter√≠sticas do pa√≠s: aventura & trabalho. Ao contr√°rio do que preconizava a moral puritana na vida moderna, com o primado da rotina, do esfor√ßo met√≥dico e da disciplina asc√©tica, o universo colonial portugu√™s havia sido o reino da aventura. Nele, o colonizador n√£o pretendia a aquisi√ß√£o da estabilidade, mas a conquista de uma riqueza auferida com o m√≠nimo de disp√™ndio de energia. O esp√≠rito do colono n√£o visava os meios necess√°rios √† configura√ß√£o de uma ordem sist√™mica, que lhe garantisse o provimento de compensa√ß√Ķes futuras; inclinava-se mais √† satisfa√ß√£o imediata de seus primeiros fins. Talvez por isto o advent√≠cio tenha se valido menos da imposi√ß√£o de sua pr√≥pria ordem econ√īmica e mais da apropria√ß√£o das t√©cnicas nativas rudimentares, tal como elas se davam entre os amer√≠ndios, seja no cultivo da terra, seja na incurs√£o pelo interior.

Esse tra√ßo da coloniza√ß√£o portuguesa foi um elemento determinante para que as terras brasileiras n√£o chegassem a configurar um sistema agr√≠cola em sua acep√ß√£o mais precisa. A ambi√™ncia rural parecia se orientar ao sabor das facilidades que o meio lhe oferecia, em detrimento de uma interven√ß√£o seriada do homem sobre a natureza, com vistas a um melhor colhimento de seus frutos, fato que assemelhava a planta√ß√£o a√ßucareira √† explora√ß√£o aur√≠fera nas Minas Gerais durante o s√©culo XVIII. De acordo com o autor, o Brasil foi antes uma civiliza√ß√£o de ra√≠zes rurais. Nela, cada engenho de a√ß√ļcar era uma unidade auto-suficiente, a viver ao largo do raio de interfer√™ncia das cidades. Sua influ√™ncia mais presente se deu no seio da economia dom√©stica patriarcal, lugar de gesta√ß√£o para uma s√©rie de valores centrados no √Ęmbito familiar, com destaque para a figura do senhor de engenho, uma esp√©cie de tirano daquele mundo aut√°rquico, que tamb√©m nutria um grande rep√ļdio por qualquer tipo de trabalho manual. Mesmo com o decl√≠nio do campo e a expans√£o das cidades, a mentalidade colonial da casa-grande teve seus desdobramentos na vida citadina. Com a propaga√ß√£o das profiss√Ķes liberais, os filhos dos senhores de engenho perpetuavam nas cidades o menosprezo pelo trabalho corporal e pelo esfor√ßo f√≠sico.

O pouco apre√ßo do portugu√™s √† rotina laboriosa levava S√©rgio Buarque de Hollanda √† formula√ß√£o de sua compreens√£o do surgimento das cidades coloniais brasileiras. A demonstra√ß√£o de seu pensamento utilizaria agora uma nova dicotomia que ia prevalecer nos respectivos tipos de cidades portuguesas e espanholas: o semeador e o ladrilhador. Com base nos modelos urbanos da Antiguidade e da Renascen√ßa, o autor afirmava que as cidades no Brasil haviam nascido mais por obra do acaso do que por um empreendimento oriundo de uma atividade racional e planejada. Tendo de novo como par√Ęmetro a rela√ß√£o entre o homem e a natureza, o autor frisava o tra√ßado irregular das cidades brasileiras. Elas tratavam de se adequar √† silhueta da paisagem local, o que evidenciava o car√°ter de plasticidade do portugu√™s em seu processo de fixa√ß√£o topogr√°fica. J√° entre os espanh√≥is destacava-se a liga√ß√£o entre o homem e a arte, de onde se extra√≠am as no√ß√Ķes de harmonia e de simetria. Assim, enquanto o espanhol impingia √† cidade o tra√ßado retil√≠neo de sua geometria, o portugu√™s deixava-se reger pelas sinuosidades de sua geografia curvil√≠nea.

O crescimento √† revelia das cidades brasileiras refor√ßava o argumento do autor segundo o qual preponderou entre os portugueses um procedimento pouco sistem√°tico de ocupa√ß√£o do territ√≥rio. O desapego a leis abstratas e o t√≠mido empenho na edifica√ß√£o das cidades eram ind√≠cios da t√™mpera daquele conquistador. Al√©m disto, S√©rgio Buarque de Hollanda identificava uma s√©rie de outras sobreviv√™ncias espirituais que se estendiam da vida colonial √† vida urbana contempor√Ęnea. A cordialidade parecia ser a condensa√ß√£o de um conjunto de elementos que haviam se plasmado ao longo de s√©culos e que se manifestavam agora no car√°ter do brasileiro. O privil√©gio da emo√ß√£o sobre a raz√£o era um dos aspectos que saltava √† vista na observa√ß√£o das rela√ß√Ķes sociais e pol√≠ticas no Brasil. Os la√ßos de afeto eram respons√°veis pela dilui√ß√£o da oposi√ß√£o milenar entre a fam√≠lia e o Estado. Aqui, o prest√≠gio pessoal se antep√īs, na pr√°tica, ao princ√≠pio da isonomia e da cidadania. A indistin√ß√£o conceitual entre o bem p√ļblico e o bem particular estava na base de uma psicologia social do brasileiro, o que constitu√≠a grande empecilho para o estabelecimento da coopera√ß√£o interna nacional.

O fen√īmeno do homem cordial n√£o possu√≠a apenas uma dimens√£o negativa. Ele comportava tamb√©m a face viva de sua contribui√ß√£o √† civiliza√ß√£o. Fruto de uma rea√ß√£o √† polidez e ao ritualismo social imposto pelos padr√Ķes de civilidade europ√©ia, o brasileiro forjou uma nova maneira de relacionamento entre os homens ao procurar aproxim√°-los por meio da quebra de conven√ß√Ķes. A minimiza√ß√£o das dist√Ęncias visava abolir diversas formas de hierarquia entre os indiv√≠duos, por meio do compartilhamento de valores de fundo emotivo, oriundos do cora√ß√£o. Esta caracter√≠stica estava presente de modo especial no dom√≠nio da vida cotidiana, seja na linguagem, seja nas pr√°ticas religiosas. O sufixo -inho, presente na fala corrente, era uma mostra da tend√™ncia para trazer ao n√≠vel da intimidade pessoas que poderiam estar separadas por classes sociais ou por escalas de poder. Quanto √† religi√£o, S√©rgio Buarque de Hollanda observava de que maneira os r√≠gidos c√Ęnones da liturgia cat√≥lica se atenuavam em solo tropical. Gra√ßas a uma rela√ß√£o de menor rever√™ncia formal √† sua divindade, o fiel tratava de expressar sua adora√ß√£o a santos atrav√©s de uma s√©rie de festividades. Nelas, a atra√ß√£o pela m√ļsica e pela dan√ßa acabava por sobrepujar a solenidade dos cultos em si.

Certa benevol√™ncia do autor na descri√ß√£o de alguns h√°bitos t√≠picos da cultura popular n√£o se repetia quando se tratava da elite, da intelectualidade e da classe dirigente nacional. A√≠ pareciam retornar aquelas persist√™ncias at√°vicas do universo colonial. A falta de afei√ß√£o ao trabalho manual no meio urbano teve como corol√°rio a idealiza√ß√£o da figura do intelectual. Da aristocracia da terra passou-se √† aristocracia do esp√≠rito. O homem letrado foi al√ßado a uma condi√ß√£o de transcend√™ncia que o distinguia em rela√ß√£o aos demais. Tal posi√ß√£o constitu√≠a uma estrat√©gia de notabilidade e n√£o um compromisso efetivo com o trabalho e com a sua aplica√ß√£o √† realidade. Isto ocasionou a aus√™ncia tanto de um saber especulativo voltado para a proposi√ß√£o de indaga√ß√Ķes abstratas, quanto de um saber t√©cnico voltado para uma altera√ß√£o substantiva do real. A import√Ęncia atribu√≠da aos t√≠tulos honor√≠ficos era exemplar na caracteriza√ß√£o de uma sociedade que adulava os bachar√©is. Entre estes, seria rara a utiliza√ß√£o dos ensinamentos recebidos na universidade no decorrer de sua vida p√ļblica.

Cr√≠tico do academicismo desde o in√≠cio da d√©cada de 1920, quando se vinculou ao movimento modernista de S√£o Paulo, S√©rgio Buarque de Hollanda continuava a ver o culto √†s letras no Brasil como uma forma de manuten√ß√£o de um saber de fachada, baseado na apar√™ncia e expresso mediante alguns usos recorrentes: a cita√ß√£o em l√≠ngua estrangeira, o gosto pelas palavras dif√≠ceis e a eloq√ľ√™ncia dos discursos pomposos. A importa√ß√£o de sistemas filos√≥ficos e de ideologias pol√≠ticas seria um outro componente comum de nossa intelligentsia que viria a sofrer cr√≠ticas por parte do autor. Isto se dava menos pela busca de sua fonte de pensamento em outras latitudes e mais por sua incapacidade de sair do terreno da elucubra√ß√£o mental. A cren√ßa no poder das id√©ias p√īde explicar tamb√©m a voga do positivismo no Brasil, pois para o autor, em vez da implanta√ß√£o das doutrinas de Augusto Comte, merecia aten√ß√£o o papel evasivo da realidade que tais teorias cumpriam entre os seguidores do fil√≥sofo franc√™s.

A origem dessa subordina√ß√£o a pensamentos estrangeiros estava presente desde o processo de independ√™ncia das na√ß√Ķes ibero-americanas, com a ado√ß√£o dos ideais da Revolu√ß√£o Francesa. Era uma importa√ß√£o que ficava na superf√≠cie pol√≠tica, sem atingir o cerne da sociedade. Esta caracter√≠stica s√≥ veio a se repetir no curso da hist√≥ria e, no momento em que o autor escrevia, seu exemplo mais palp√°vel era o liberalismo, cujo princ√≠pio de impessoalidade encontrava s√©rios obst√°culos para sua aclimata√ß√£o. A conseq√ľ√™ncia de mais um desajuste era n√£o s√≥ o aumento da cis√£o entre o Estado e a sociedade civil, como a emerg√™ncia de um movimento que se verificava tamb√©m em v√°rios pa√≠ses da Am√©rica Latina e que se personificava na figura ant√≠poda do liberal: o caudilho. O personalismo na vida brasileira era ainda, para o autor, a perdura√ß√£o do ethos aristocr√°tico. Nem o liberalismo, arremedo de civiliza√ß√£o, nem o caudilhismo, caricatura da oligarquia, pareciam satisfazer o autor; tampouco o comunismo, com seu excessivo enquadramento em rela√ß√£o a Moscou, ou o integralismo, com seu desvario √† Mussolini, configuravam para ele experi√™ncias vi√°veis no caso brasileiro. A democracia no Brasil s√≥ seria poss√≠vel com a supera√ß√£o dial√©tica de modelos antit√©ticos. Era mister, mais que uma ruptura, uma revolu√ß√£o vertical, a colocar o pa√≠s de ponta-cabe√ßa. Somente assim seria poss√≠vel lograr um novo equil√≠brio de for√ßas que evitasse o abismo entre a pol√≠tica e a sociedade e que permitisse ao pa√≠s trilhar um caminho pr√≥prio entre as na√ß√Ķes civilizadas.

S√£o essas, em linhas gerais, as id√©ias do autor contidas em Ra√≠zes do Brasil. A recapitula√ß√£o das suas principais coordenadas parece ser motivada agora com o lan√ßamento do filme hom√īnimo de N√©lson Pereira dos Santos (2004) e com a mais recente edi√ß√£o em livro (2000). A novidade de sua reedi√ß√£o √© a de que ele integra a s√©rie organizada por Silviano Santiago, oportunamente denominada Int√©rpretes do Brasil, que compreende tr√™s volumes de obras cl√°ssicas do pensamento social brasileiro. Um aspecto da colet√Ęnea que se mant√©m em rela√ß√£o √†s demais edi√ß√Ķes do livro √© a sua abertura com um estudo que vem a robustecer ainda mais a fortuna cr√≠tica do autor. A an√°lise de Maria Odila Leite da Silva Dias contribui para a √™nfase na condi√ß√£o de S√©rgio Buarque de Hollanda como um adepto da hist√≥ria sempre atenta ao presente e √†s formas do devir. Captando os processos hist√≥ricos sem esquemas r√≠gidos, o autor soube discernir a trama de rela√ß√Ķes sociais, pol√≠ticas e culturais em seu sentido din√Ęmico. Esta marca o identificaria nas d√©cadas posteriores em seus demais estudos, que o colocariam no terreno espec√≠fico da historiografia. Obra de estr√©ia, Ra√≠zes do Brasil continha o vi√ßo das inquieta√ß√Ķes intelectuais que germinariam em Mon√ß√Ķes, Caminhos e fronteiras e Vis√£o do para√≠so.

----------

Bernardo Borges Buarque de Hollanda é doutorando em História Social da PUC/Rio de Janeiro.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

  •