Busca:     


A cultura política do petismo

Alberto Aggio - Dezembro 2004
 

Se a exist√™ncia do Partido dos Trabalhadores (PT) √© um fato irrefut√°vel, o mesmo n√£o ocorre com seu neologismo correspondente: o petismo. Este, de forma distinta do primeiro, necessitaria de maiores precis√Ķes. Antes de tudo, haveria que demonstrar sua exist√™ncia, suas caracter√≠sticas principais, seus fundamentos, seus valores, seu ide√°rio, etc. Al√©m disso, seria preciso definir tamb√©m se o petismo se configura efetivamente como uma cultura pol√≠tica relevante tal como o partido que lhe d√° refer√™ncia ou sustenta√ß√£o.

Esse artigo prop√Ķe-se discutir o petismo como uma cultura pol√≠tica. A import√Ęncia do tema n√£o demanda maiores explica√ß√Ķes. Especialmente depois da vit√≥ria eleitoral de 2002, quest√Ķes que envolvem o PT e o petismo n√£o dizem respeito apenas a esse partido ou ao mundo das esquerdas, tendo correspond√™ncia direta com expectativas e proje√ß√Ķes de futuro presentes na sociedade brasileira.

Admitindo-se a existência do petismo, inevitável considerar que PT e petismo vieram ao mundo num mesmo momento. E mais, que o petismo teria sido, antes, uma criação do PT, como uma forma de lhe atribuir tanto legitimidade quanto identidade. A questão não é formal e sim substantiva.

Talvez se possa dizer que somente ap√≥s a conquista do governo federal, PT e o petismo possam ser efetivamente compreendidos. A conquista do poder pol√≠tico maior da Rep√ļblica sepultou definitivamente a imagem - ou o desejo - que alguns criaram em torno do PT como um "partido contra a ordem". Conclu√≠da a trajet√≥ria desde as origens at√© a conquista do poder, o PT √©, em definitivo, "um partido dentro da ordem", sem mais! Tornando-se, a partir de 2003, o principal ator governante do pa√≠s, configurou-se, assim, uma situa√ß√£o privilegiada para que se possa analisar, enfim, de que mat√©ria √© constitu√≠do o petismo. A realidade e n√£o o desejo se imp√Ķe como refer√™ncia para a an√°lise: depois de janeiro de 2003, n√£o h√° mais √°libi na pol√≠tica brasileira, n√£o h√° mais como n√£o apresentar as coisas pelo nome que elas t√™m.

Nos tempos da fundação do partido, no final da década de 1970, o PT apresentou uma solução própria para a questão da sua identidade. Em 1979, Lula estabeleceu o critério de que poderiam aderir ao PT "todos os que são explorados, todos os que se sentem trabalhadores, os que não exploram os outros" (Brandão, 2003: 41; grifos nossos). O sentimento de ser trabalhador, de se sentir explorado e não explorador, formulado como se fora, por assim dizer, um dado de natureza (da natureza do sistema capitalista), tinha como propósito facultar a adesão massiva ao partido.

Em seus termos iniciais, a cultura política do petismo estruturava-se mais a partir da dimensão psicossocial do que de qualquer outra noção mais elaborada cultural e/ou politicamente. Esse critério subjetivo atuava como referente difuso no posicionamento e na retórica vocalizada por seus militantes em relação ao sistema capitalista, reconhecido como a causa maior da exploração do trabalhador: sentir-se trabalhador era, em certa medida, sentir-se anticapitalista, de esquerda, contestador, rebelde.

De l√° para c√° o tempo n√£o passou em v√£o. A trajet√≥ria trilhada desde o final da d√©cada de 1970 havia acumulado e sedimentado tanto elementos de contradi√ß√£o quanto elementos de identidade entre a linha pol√≠tica do partido, que propugnava estrat√©gias de formula√ß√£o mais sistem√°tica, e a sua cultura pol√≠tica, sendo dif√≠cil admitir, pela manifesta express√£o dos fatos, que nela tenham se estabelecido antagonismos internos irreconcili√°veis. Muito ao contr√°rio, PT e petismo marcharam juntos at√© a vit√≥ria maior. A partir da√≠, definidos os lugares e as linguagens pol√≠ticas de cada dimens√£o do poder, a f√≥rmula baseada no "sentimento" foi definitivamente deslocada, permanecendo apenas como um recurso midi√°tico insistentemente utilizado por Lula com o intuito de ainda resguardar e sobrepor a sua imagem de trabalhador √† de Presidente da Rep√ļblica. De toda forma, √© ineg√°vel que o petismo acompanhou e alimentou o avan√ßo do partido. Contudo, atingido o cume, as diferen√ßas e mesmo rupturas internas emergiram com for√ßa, a ponto de desconcertarem militantes e lideran√ßas expressivas. A partir da√≠ foi se impondo uma sensa√ß√£o estranha de ambig√ľidade entre a imagem difusamente anticapitalista dos primeiros tempos e uma outra de corte mais pragm√°tico em conformidade com as fatias de poder conquistadas.

Reconhecidamente, PT e petismo surgem num momento de cr√≠tica a todos os "ismos". Ambos emergem num contexto p√≥s-moderno da cultura e da pol√≠tica ocidentais. Isto significa dizer que na sua origem o PT n√£o ir√° buscar sua autocompreens√£o no campo das ideologias pol√≠ticas da esquerda. Da√≠ ser pouco precisa sua caracteriza√ß√£o como "partido socialista" e pouco convincente a afirma√ß√£o de que o PT teria esposado, desde suas origens, uma linha clara de "socialismo democr√°tico". Em toda a trajet√≥ria do PT √© ilustrativo o constante deslocamento discursivo operado em rela√ß√£o ao que os pr√≥prios petistas entendiam como distintivo no PT: do "partido de trabalhadores sem patr√Ķes" passou-se a se enfatizar o "jeito petista de governar"; do "trabalhador vota em trabalhador" ou do "vote no tr√™s que o resto √© burgu√™s" passou-se ao "PT, o partido da cidadania"; e, na mesma dire√ß√£o, expressando sua definitiva integra√ß√£o ao sistema pol√≠tico, a linha pol√≠tica do partido se deslocou da "revolu√ß√£o socialista" para a estrat√©gia da "revolu√ß√£o democr√°tica" (Singer, 2001). Muito dessa ret√≥rica, com o predom√≠nio de cada uma delas em um momento, teve a ver com a constru√ß√£o de acordos entre as correntes do partido, resultando na afirma√ß√£o de uma determinada orienta√ß√£o.

Apesar das declara√ß√Ķes oficiais e das consignas levantadas pelo partido desde sua funda√ß√£o, as d√ļvidas quanto √† ades√£o do PT ao tema da democracia n√£o foram poucas e menos ainda em rela√ß√£o ao tipo de socialismo. Quanto √† quest√£o da democracia, as ambig√ľidades (ou at√© hostilidades) do PT em rela√ß√£o √† tem√°tica da transi√ß√£o e aos atores pol√≠ticos que lutaram contra o regime autorit√°rio foram permanentes, e esse √© um dos fatores que explicam a dificuldade do PT em realizar alian√ßas pol√≠ticas e eleitorais em toda sua trajet√≥ria; quando decidiu por faz√™-las, foi simultaneamente err√°tico e hegemonista, terminando por concertar-se com atores inexpressivos ou estranhos √† luta democr√°tica contra a ditadura, como, por exemplo, o Partido Liberal. Ademais, o PT foi tardio tamb√©m em conectar as tem√°ticas da cidadania com a perspectiva de conquista e consolida√ß√£o da democracia pol√≠tica¬†como regime pol√≠tico e sistema de governo. Da√≠ a sua obtusa atitude ao votar contra a aprova√ß√£o da Carta de 1988, a Constitui√ß√£o mais democr√°tica da hist√≥ria do pa√≠s.

Em rela√ß√£o √† tem√°tica do socialismo, n√£o h√° como n√£o reconhecer que essa nunca foi a quest√£o central do partido. Contudo, ainda que tardiamente, alguns dos seus intelectuais n√£o mediram esfor√ßos para dar um novo significado ao socialismo. Da no√ß√£o de socialismo como "socializa√ß√£o dos meios de produ√ß√£o", passou-se √† formula√ß√£o de que o socialismo "deve ser considerado uma ¬Ďid√©ia reguladora¬í n√£o s√≥ das pol√≠ticas p√ļblicas (de total desigualdade para mais igualdade), mas tamb√©m da a√ß√£o dos partidos socialistas comprometidos com a democracia" (Genro, 2004). Em rela√ß√£o √† classe trabalhadora - a sua classe referente desde o in√≠cio -, abandona-se a sua representa√ß√£o social exclusiva ou estrita, agora considerada como uma concep√ß√£o de partidos "ultrapassados"; na nova acep√ß√£o, o PT "parte do princ√≠pio de que √© preciso trabalhar com todas as classes sociais" (Genro, 2004); hodiernamente, segundo alguns de seus formuladores, o PT n√£o deve buscar o acirramento da luta de classes, "porque essa exacerba√ß√£o fragiliza o governo ante o dom√≠nio do capital financeiro globalizado" (Genro, 2004). Como se v√™, foi preciso chegar ao governo para que a rela√ß√£o do PT com o socialismo deixasse para tr√°s as influ√™ncias revolucionaristas predominantes na ret√≥rica origin√°ria.

Outras abordagens a respeito da hist√≥ria do PT e do petismo n√£o resistem √† constata√ß√£o de que os fatos foram em outra dire√ß√£o. Elas alimentam uma historiografia "metaf√≠sica" do partido. Apenas dois exemplos: [1] o PT expressaria a autonomia dos movimentos sociais e afirmaria uma pr√°tica cr√≠tica √† "tradicional delega√ß√£o de soberania que constitui a proposta liberal-burguesa" (Gadotti & Pereira: 1989: 26); [2] o PT estaria dividido entre o leninismo e a socialdemocracia (Azevedo: 1995), uma ins√≥lita discuss√£o que manteve a aten√ß√£o e √†s vezes alguma beliger√Ęncia entre correntes internas.

No argumento at√© aqui desenvolvido h√° uma sugest√£o impl√≠cita de que se deveria trabalhar com mais objetividade a respeito das origens e da trajet√≥ria do PT para que se possa tecer um diagn√≥stico mais apropriado. Recentemente, o Senador Cristovam Buarque investiu nessa dire√ß√£o, que, de resto, j√° se havia captado √† √©poca (Vianna, 1989). Para o senador, "o PT nasceu no setor mais moderno do sindicalismo - a ind√ļstria automobil√≠stica e os servidores p√ļblicos [...]. Dedicou-se a canalizar as reivindica√ß√Ķes desses trabalhadores, aliando-se a grupos da esquerda tradicional e a setores populares. Mas n√£o trouxe uma nova utopia para o Brasil. Da√≠ a express√£o ¬Ďpetismo¬í nunca ter se afirmado" (Buarque, 2004).

Recusando os referenciais clássicos da esquerda - postura que lhe parecia dar a chave para abrir todas as portas do futuro - e inclinado a adotar condutas cada vez mais pragmáticas à medida que mais poder conquistava, o PT se afirmou no sistema político enquanto o petismo não conseguiu se configurar como um conjunto de valores novos ou como um ideário norteador de uma proposta essencialmente transformadora para o país. Num país com o conhecido déficit republicano que o Brasil manifesta, PT e petismo, de fato, não pareciam ser mais do que ética e corporativismo.

Haveria que olhar a história desse período com mais profundidade para se compreender melhor esse diagnóstico. Hoje, podemos dizer que se trata de um consenso o entendimento de que a sociedade na qual o PT nasceu era uma sociedade inteiramente revolucionada pelo processo de modernização acelerada impetrado pelo regime militar de 1964. A morfologia da sociedade brasileira havia se alterado drasticamente depois de 20 anos. A sociedade que emerge desse processo é inteiramente outra. Não houve dimensão da sociedade brasileira que não tenha sido afetada por essa imensa transformação. Mas a mudança fundamental, como afirmou Luiz Werneck Vianna (1994), resultou da "liberação dos instintos egoísticos" da sociedade civil.

No contexto hist√≥rico da abertura e da transi√ß√£o √† democracia, a novidade do PT tamb√©m corresponderia ao sentido estabelecido por essa mudan√ßa. Nascido da movimenta√ß√£o derivada dos novos seres sociais do mundo do trabalho oriundos da moderniza√ß√£o conservadora imposta pelo regime militar, o novo partido, para ser, de fato, novo, deveria, segundo seus dirigentes, recusar todas as orienta√ß√Ķes anteriores institu√≠das no campo da esquerda. Na vida pol√≠tica brasileira, aquele era um tempo no qual se imaginava que um novo partido somente se afirmaria a partir de um caminho jamais trilhado. Desde o in√≠cio, o PT viu a si mesmo como uma novidade que desconhecia qualquer predetermina√ß√£o. Clara e explicitamente, a id√©ia era a de que o PT assumiria a sua constru√ß√£o como uma pr√°tica e n√£o como o resultado de uma elabora√ß√£o te√≥rica. Nos conselhos do velho M√°rio Pedrosa, "partido de massa n√£o tem vanguarda, n√£o tem teorias, n√£o tem livro sagrado. Ele √© o que √©, guia-se por sua pr√°tica, acerta por seu instinto" (Singer, 2001: 88). Registre-se apenas que a dist√Ęncia com a "esquerda racional", historicamente reconhecida por Eric Hobsbawm, √© imensa.

A√ß√£o pol√≠tica que nasce do sentimento, fundada no instinto, o movimento de cria√ß√£o do PT n√£o respondia, assim, direta e especificamente a qualquer cultura pol√≠tica anterior. N√£o seria um ato pol√≠tico de renova√ß√£o cultural, moral e intelectual; n√£o se apresentaria, de forma nenhuma, em continuidade e/ou renova√ß√£o com as tradi√ß√Ķes e as fam√≠lias pol√≠ticas historicamente constitu√≠das no pa√≠s, e tampouco anunciaria uma doutrina ou invocaria para si a defini√ß√£o de determinados paradigmas te√≥ricos ou pol√≠ticos essenciais. O apelo √† intui√ß√£o, ao improviso, √† paix√£o que caracterizou o seu momento inicial foi certamente coerente com o crit√©rio institu√≠do de que a √ļnica condi√ß√£o de ser do petista era sentir-se trabalhador. Este seria o primeiro gesto autocompreensivo e de auto-identifica√ß√£o para um petista. N√£o haveria, a despeito da ret√≥rica das suas v√°rias correntes ideol√≥gicas, nenhum outro referencial s√≥lido e conseq√ľente que pudesse supor a ades√£o do militante. Excetuando-se aqueles que j√° possu√≠am uma milit√Ęncia anterior (ou paralela), n√£o houve quem se tornasse petista por agir no sentido da prepara√ß√£o, organizativa e estrat√©gica, das condi√ß√Ķes para a efetiva instaura√ß√£o de um processo de revolu√ß√£o socialista. E, se houve, n√£o permaneceu por muito tempo no partido. O PT n√£o nasceu nem se tornou um partido revolucion√°rio; tampouco emergiu ou se tornou um partido reformista, porque sempre imaginou que isso mereceria ser antagonizado e at√© estigmatizado em sua pr√°tica.

Se o PT teve sua origem no contexto de oposi√ß√£o ao regime ditatorial de 1964, ocupando nele um lugar determinado como desaguadouro do movimento social, afastado e quase em integral dissenso com as for√ßas de oposi√ß√£o pol√≠tica ao regime autorit√°rio, seria interessante examinarmos a hip√≥tese de, no contexto da "Nova Rep√ļblica", a partir de 1984, o petismo apresentar tra√ßos pr√≥prios a uma cultura pol√≠tica de recha√ßo em rela√ß√£o tanto ao sistema quanto aos atores pol√≠ticos que se constitu√≠am ou que se reinventavam no contexto da transi√ß√£o. A suposi√ß√£o aqui √© que haveria uma determinada continuidade entre o petismo e a cultura pol√≠tica oposicionista cristalizada durante a vig√™ncia do MDB como o estu√°rio das oposi√ß√Ķes ao regime ditatorial.

Desenvolvendo o argumento: o movimento de resist√™ncia e de oposi√ß√£o pol√≠tica ao regime militar produziu o que poder√≠amos chamar de uma cultura pol√≠tica oposicionista, que fazia da din√Ęmica eleitoral um movimento plebiscit√°rio contra a ditadura; a partir da conquista crescente de espa√ßos parciais no √Ęmbito parlamentar e executivo, entre 1974 e 1984, os partidos pol√≠ticos de oposi√ß√£o, especialmente o MDB (depois PMDB), se tornaram governo. A partir da√≠ essa cultura pol√≠tica oposicionista desencarna dos seus atores pol√≠ticos originais e vivencia uma situa√ß√£o de deriva e desorienta√ß√£o no campo da sociedade civil, que rapidamente seria solucionada pelo PT. √Č nesse momento que o PT construir√° uma interpreta√ß√£o espec√≠fica a respeito de como se poderia estabelecer uma s√≥lida vincula√ß√£o entre as motiva√ß√Ķes do seu nascimento e a id√©ia de oposi√ß√£o pol√≠tica que at√© ent√£o havia se tornado vitoriosa na pol√≠tica brasileira. Em outras palavras, o PT procurou capturar para si o lugar e a imagem do oposicionismo, que havia sido estabelecida na disjuntiva "situa√ß√£o versus oposi√ß√£o" presente durante a d√©cada de decl√≠nio do regime ditatorial. O objetivo foi o de capturar o legado oposicionista deixado principalmente pelos peemedebistas, que passaram √†s fun√ß√Ķes de governo, e conect√°-lo ao perfil de representa√ß√£o social que havia marcado e estava presente nas origens e na expans√£o do partido. Entre outras coisas, isso explicaria tanto o protagonismo do PT no movimento "Diretas J√°" quanto o seu oposicionismo integral, ret√≥rico e pr√°tico, nas conjunturas posteriores.

Esse movimento n√£o seria desprovido de conseq√ľ√™ncias pol√≠ticas para o pa√≠s: de uma oposi√ß√£o negociadora e que marcava fundamentalmente seu territ√≥rio de a√ß√£o no √Ęmbito da sociedade pol√≠tica se passaria para uma oposi√ß√£o que se afirmaria pelo recha√ßo, pela nega√ß√£o absoluta a qualquer postura concertacionista ou de negocia√ß√£o pol√≠tica. √Č efetivamente nesse plano que o PT encontra os elementos essenciais que v√£o compor a sua cultura pol√≠tica: recha√ßo e nega√ß√£o ao processo da transi√ß√£o, recha√ßo e nega√ß√£o a uma estrat√©gia pol√≠tica de concerta√ß√£o, que se somariam aos elementos difusos do anticapitalismo como a √ļnica dimens√£o organizada do discurso petista no plano ideol√≥gico. √Č ai que reside a id√©ia do PT como p√≥lo do sistema pol√≠tico, em rela√ß√£o ao qual tudo deveria gravitar. A cultura pol√≠tica do oposicionismo forjada contra a ditadura seria assim reinventada no petismo e serviria de elemento de unifica√ß√£o dos diferentes estratos do partido. Em torno dela se poderia soldar a valoriza√ß√£o dos interesses e expectativas dos setores populares presentes naquela renovada sociedade civil do per√≠odo p√≥s-ditatorial e o recha√ßo permanente √†s determina√ß√Ķes que emanavam do Estado, em qualquer n√≠vel. Essa cultura pol√≠tica foi o sustent√°culo e definiu a sorte do PT at√© a conquista do governo federal.

Contudo, a suposi√ß√£o de que, com a chegada do PT ao governo federal, o petismo, como cultura pol√≠tica, passaria a definhar parece-nos enganosa.¬†Nosso argumento se fundamenta no entendimento de que a trajet√≥ria do PT e do petismo acusa mudan√ßas que se alimentam mutuamente. Com o crescimento e o avan√ßo do partido, a cultura pol√≠tica do petismo vive tamb√©m uma metamorfose. Era esperado que o partido viveria dificuldades ao procurar manter a ades√£o √† cultura do recha√ßo, uma vez que, com a conquista de prefeituras e Estados, realizaria obrigatoriamente o tr√Ęnsito de um discurso ex parte popolo para um discurso ex parte principis. Assim, era imperativo consolidar a situa√ß√£o de p√≥lo ocupada pelo partido no interior do espectro pol√≠tico brasileiro, valorizando essa posi√ß√£o por si mesma, nos termos de que o PT continuava sendo "o √ļnico partido capaz de transformar o Brasil".

Mesmo conquistando alguns governos e at√© o governo federal, o PT deveria continuar permanecer com o seu vi√©s "oposicionista". As reformas propugnadas como necess√°rias para o pa√≠s haveriam de ganhar tintas diferentes quando vocalizadas pelo PT. Seria necess√°rio, portanto, reproduzir a qualquer pre√ßo a l√≥gica do recha√ßo por meio de um c√°lculo que estabelecesse as justas conex√Ķes, de tempo e de programa, com vistas √† conquista final do poder; da√≠ a constata√ß√£o posterior de que o PT tinha, antes e sobretudo, um "projeto de poder". A valoriza√ß√£o da situa√ß√£o de p√≥lo deveria resultar, portanto, numa estrat√©gia que considerasse os riscos que o partido deveria correr com vistas √† conquista do poder central; esta seria o "momento leninista" do PT ¬Ė oportunidade mais decis√£o. A postura de recha√ßo deveria ser reinventada nesse novo contexto, afirmando-se por meio de uma pr√°tica de ator polarizador que, por sua vez, daria solidez e garantiria poder de convencimento a um partido que assumia abertamente trilhar um caminho que se afastava do campo das defini√ß√Ķes ideol√≥gicas e buscava o das posturas baseadas na l√≥gica econ√īmica do custo/benef√≠cio. O risco teria um pre√ßo: a conquista da Presid√™ncia da Rep√ļblica.

Novamente demonstrando uma extraordin√°ria capacidade inventiva diante das mudan√ßas vivenciadas pela sociedade brasileira, o PT compreendeu que a l√≥gica do custo-benef√≠cio j√° n√£o se configurava como estranha e que fazia parte das transforma√ß√Ķes pelas quais haviam passado tanto a sociedade como a cultura pol√≠tica brasileira. Junto com a transi√ß√£o no plano pol√≠tico-institucional, a consagra√ß√£o da l√≥gica do custo-benef√≠cio acabou se tornando um dos fatores cruciais no desenvolvimento de um ambiente favor√°vel √†s manifesta√ß√Ķes sociais baseadas na escolha racional, ambiente do qual o PT foi um dos maiores benefici√°rios, visto que conseguiu ser a corrente pol√≠tica que mais conseguiu se adaptar a essa mudan√ßa e retirar dividendos dela.

No curso da transi√ß√£o, a sincronia entre a cultura pol√≠tica de recha√ßo e a cultura pol√≠tica de escolha racional deu vida ao petismo pela firme e resoluta a√ß√£o dos seus dirigentes: negar todo o sistema e se constituir¬†como um p√≥lo alternativo por meio do c√°lculo eleitoral foi assumido, inclusive pelas massas mobilizadas pelo PT, como o sentido l√≥gico e conclusivo de uma trajet√≥ria de representa√ß√£o. O petismo como uma cria√ß√£o do PT deu sustenta√ß√£o a uma opera√ß√£o cultural que ligava os temas da pol√≠tica da transi√ß√£o, a partir de uma determinada leitura daquele processo, com quest√Ķes da vida cotidiana, traduzidas e interpretadas a partir de comportamentos pr√≥prios e vinculados ao "mundo do interesse" (Vianna, 1989). O liberalismo como concep√ß√£o de mundo n√£o seria estranho aqui.

Nas sucessivas conjunturas da transi√ß√£o √† democracia no Brasil, marcadas pela influ√™ncia de um contexto cultural p√≥s-moderno e por um cen√°rio mundial de globaliza√ß√£o e neoliberalismo, a cultura pol√≠tica do PT foi se alterando de acordo com a trajet√≥ria do partido at√© a conquista do governo federal. Essa mudan√ßa guarda um sentido que, a nosso ver, tende a se estabelecer para o futuro: a cultura pol√≠tica do petismo passou do recha√ßo e da obsess√£o oposicionista dos √ļltimos anos da ditadura e, especialmente, dos primeiros governos democr√°ticos, para uma cultura pol√≠tica fundada na escolha racional, que, por sua vez, n√£o se configura como uma ruptura integral em rela√ß√£o √† cultura pol√≠tica anterior; esta, ao contr√°rio, √© que se apresenta como problem√°tica frente ao PT como partido de governo.

Nos dias que correm a cultura pol√≠tica de escolha racional expressa uma motiva√ß√£o nucleada numa estrat√©gia que se sustentaria tanto no mercado quanto na a√ß√£o interessada dos indiv√≠duos e das organiza√ß√Ķes da sociedade civil. √Č, outra vez, uma l√≥gica arriscada. O governo Lula parece pedir ao PT e ao petismo que continuem a se metamorfosear, na sua dupla tarefa de "reinventar" o Brasil e a si mesmos.

----------

Alberto Aggio é professor livre-docente da Unesp/Franca, autor e organizador de Gramsci: a vitalidade de um pensamento. São Paulo: Unesp, 1998, e Pensar o século XX: problemas políticos e história nacional na América Latina. São Paulo: Unesp, 2003 (com Milton Lahuerta).

----------

Referências Bibliográficas

AZEVEDO, C. B. A estrela partida ao meio. S√£o Paulo: Entrelinhas, 1995.

BRANDÃO, M. A. O socialismo democrático do partido dos trabalhadores - a história de uma utopia (1979-1994). São Paulo: Annablume, 2003.

BUARQUE, C. "A revolução estancada". Folha de S. Paulo, 15 jun. 2004.

GADOTTI, M. &; PEREIRA, O. Pra que PT. S√£o Paulo: Cortez, 1989.

GENRO, T. Esquerda em processo. S√£o Paulo: Vozes, 2004.

SINGER, A. O PT. S√£o Paulo: PubliFolha, 2001.

VIANNA, L. W. A transição. Rio de Janeiro: Revan, 1989.

VIANNA, L.W. "Entre um transformismo e outro: problemas da refunda√ß√£o republicana". Agenda de Pol√≠ticas P√ļblicas. Rio de Janeiro: Iuperj, n. 5, fev. 1994, p. 7-13.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

  •