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A biblioteca gramsciana na pris√£o

Lincoln Secco - Dezembro 2005
 

A hist√≥ria do livro e da leitura constitui um campo de estudo de muitas possibilidades anal√≠ticas. Numa zona intermedi√°ria que une a hist√≥ria social e a hist√≥ria econ√īmica, ela tem inspirado estudos sobre livrarias, livreiros, editoras, bibliotecas [1]. √Č tamb√©m um ramo fecundo para iluminar novas facetas da Revolu√ß√£o Francesa (por exemplo, os estudos de Robert Darnton), da hist√≥ria cultural (Roger Chartier), da Hist√≥ria Antiga (Luciano Canfora e Guglielmo Cavallo). Desde o cl√°ssico de Daniel Mornet (As origens intelectuais da Revolu√ß√£o Francesa), foi poss√≠vel ampliar muito o conhecimento das rela√ß√Ķes (nem sempre t√£o diretas) entre as luzes e a Revolu√ß√£o.

No que tange à cultura operária e ao socialismo, N. Richter na França é um exemplo dessa modalidade de abordagem. Na obra coletiva História do Marxismo, organizada por Eric Hobsbawm, encontram-se artigos acerca dessa mesma temática. No Brasil, salvo estudos pioneiros de Astrojildo Pereira e Edgard Carone, pouco ainda se fez sobre a história dos livros e editoras de esquerda ou operárias.

Também nesta área, Antonio Gramsci foi um pioneiro. Ele tem sido visto como objeto de uma história mais ampla que a história do livro, ou seja, a da recepção e difusão de suas idéias em várias partes do mundo. A Bibliografia feita por John Cammett arrola milhares de títulos sobre Gramsci, muitos deles tratando da fortuna crítica de seus livros. Todavia, Gramsci, ele mesmo, refletiu sobre os livros e a história deles. Ele percebeu a obra impressa como um meio fundamental na constituição da cultura política. Até porque o socialismo marxista nascia como um pensamento vinculado a uma prática política.

Condi√ß√Ķes pol√≠ticas e editoriais na It√°lia

Os livros que Gramsci tinha no cárcere compunham um movimento editorial bastante específico na Europa Latina, especialmente na França. Os livros italianos eram de editoras que se tornariam tradicionais, como Mondadori e Bompiani. Assim como alguns livros franceses eram de editoras como Bernard Grasset e Gaston Gallimard (o editor francês de Luigi Pirandello). Mas os livros socialistas eram preferencialmente daquelas editoras que por mais ou menos tempo se dedicaram à literatura revolucionária, como a Marcel Rivière, Rieder e o caso extremo da Alfred Costes, que apoiou uma das mais importantes tentativas de edição das obras completas de Marx e Engels. Esta editora extinguiu-se nos anos 1950.

A hegemonia cultural francesa era incontrast√°vel at√© a Segunda Guerra Mundial. Ao menos nos pa√≠ses a oeste do Elba, na Europa, e tamb√©m nas pen√≠nsulas It√°lica e Ib√©rica, bem como na Am√©rica Latina. Por isso, destacar o movimento editorial franc√™s corresponde a dar relevo √† maior parte das edi√ß√Ķes socialistas. Especialmente porque, na √©poca de Gramsci, assiste-se ao decl√≠nio do papel editorial do Partido Socialdemocrata Alem√£o (SPD) e √† ascens√£o das editoras ligadas aos partidos comunistas e, por via deles, √† Uni√£o Sovi√©tica e √† Internacional Comunista. A Correspondance internationale e v√°rias outras publica√ß√Ķes oficiais da Internacional Comunista eram em franc√™s.

O pr√≥prio Gramsci dominava perfeitamente essa l√≠ngua desde o tempo em que fora jornalista e cr√≠tico liter√°rio nos jornais Avanti e Il Grido del Popolo, nos anos 1910. E quando se tornou dirigente do seman√°rio L¬íOrdine Nuovo fez tradu√ß√Ķes de textos franceses (como os do grupo Clart√®, de Henri Barbusse). O russo (com que Gramsci travou contato por ter vivido na R√ļssia nos anos 1920 e que se transformaria, com o tempo, numa l√≠ngua relativamente importante no movimento comunista internacional) s√≥ adquiriu a hegemonia de fato nos pa√≠ses da Europa Central e do Leste. E, mesmo assim, quando essa regi√£o tornou-se socialista, depois da Segunda Guerra. Quando Gramsci escreveu seus cadernos de tradu√ß√£o no c√°rcere, ele se preocupou em aprender o alem√£o e o ingl√™s. Mas isso era mais devido √†s suas condi√ß√Ķes e ao seu talento de intelectual nato do que ao papel pol√≠tico preponderante dessas l√≠nguas. Certamente, o alem√£o continuava sendo a refer√™ncia te√≥rica, mas j√° n√£o era pol√≠tica.

A difus√£o do marxismo, portanto, teve dois ve√≠culos principais: a l√≠ngua e as editoras francesas. E teve um centro irradiador: Moscou. As raz√Ķes para o decl√≠nio de Berlim e do SPD alem√£o eram f√°ceis de se observar: o impacto mundial da Revolu√ß√£o de Outubro criara um movimento igualmente mundial nela inspirado. Nada semelhante ocorrera antes. Embora os alem√£es tivessem o dom√≠nio da II Internacional, a estrutura desta era bem menos centralizada. Ao contr√°rio, a Internacional Comunista era um √≥rg√£o dirigente de fato (e de direito, para os comunistas) dos demais partidos comunistas, que eram suas se√ß√Ķes nacionais.

Al√©m disso, foi dif√≠cil qualquer colabora√ß√£o pol√≠tica entre comunistas e socialistas nos primeiros anos. Ao menos at√© a mudan√ßa de linha pol√≠tica da Internacional Comunista nos anos 1930, quando a t√°tica de frente √ļnica antifascista foi adotada. Os autores vinculados √† II Internacional ficaram definitivamente em segundo plano. Turati, na It√°lia, McDonald, na Inglaterra, Kautsky e Bernstein, na Alemanha, eram substitu√≠dos por Lenin, Rosa Luxemburg, Trotski e, mais tarde, Stalin. Os autores socialdemocratas eram apenas citados de segunda m√£o, normalmente a partir das cr√≠ticas a eles endere√ßadas pelos marxistas revolucion√°rios, como Lenin, Trotski, Bukharin, Zinoviev, Rosa Luxemburg e Franz Mehring, ou eram apenas criticados por autores revolucion√°rios menores ou situados nas margens da atividade pol√≠tica revolucion√°ria, como Paul Matick, Karl Korsh ou Anton Pannekoek.

Pela "biblioteca gramsciana" do cárcere pode-se constatar esse fato: dois títulos de Bernstein e um só de Kautsky e de Turati. E se é verdade que só um título de Bukharin e nenhum de Lenin ou Zinoviev aparecem na lista organizada por Valentino Gerratana, no aparato crítico da edição dos Quaderni del carcere do Instituto Gramsci, os motivos são bem conhecidos! Afinal, Zinoviev e Bukharin, aquele mais do que este, tiveram uma circulação impressionante nas editoras e livrarias francesas. Ao menos até o início dos anos trinta. Também pelos poucos títulos de Stalin até o início dos anos 1930, pode-se observar que o culto da personalidade ainda não estava inteiramente instalado na União Soviética quando Gramsci foi preso, embora os boletins da oposição de esquerda formada por Trotski, Zinoviev e Kamenev já usassem, em 1927, a expressão "stalinismo".

De toda maneira, a hegemonia editorial francesa era patente na pr√≥pria literatura que Gramsci usava no c√°rcere. O maior n√ļmero de t√≠tulos que ele citou nos Cadernos era, depois do italiano, obviamente, em franc√™s. Isso porque, segundo Edgard Carone, em 1926 come√ßa uma nova fase editorial na Fran√ßa. O Bureau d¬íEditions herda o cat√°logo da Librarie de l¬íHumanit√© e publica v√°rios te√≥ricos do marxismo. Ele se volta para as quest√Ķes de organiza√ß√£o. As Editions Sociales Internationales editam Marx e Lenin, principalmente. Mas tamb√©m os romances prolet√°rios. Nas franjas dessa atividade editorial dominante na esquerda, aparecem a Librarie du Travail, que continua a publicar trabalhos sobre sindicatos, a Rieder, que traduz e edita os livros de Trotski, e a F√©lix Alcan, que d√° vaz√£o √†s teses universit√°rias sobre marxismo [2].

E o que se tem na It√°lia? As editoras, a exemplo da Fran√ßa, mant√™m uma organiza√ß√£o consider√°vel, mas com um p√ļblico leitor muito menor. Desde os anos 1870, a Associazione Tipografico-Libraria organiza muitos congressos e edita o Giornale della Libreria. Al√©m disso editou o Catalogo Generale della Libreria Italiana dal 1847 al 1899. Um dicion√°rio italiano do princ√≠pio do s√©culo XX nomeava entre as mais importantes editoras italianas: Nicol√≤ Zanichelli (Bolonha), Antonio Vallardi (Mil√£o), Loesscher (Turim), G. Laterza (Bari), Sansoni (Floren√ßa) [3]. A Mondadori, tamb√©m de Mil√£o, fora fundada em 1907. Em 1929, um de seus funcion√°rios (Valentino Bompiani) fundou outra editora, a Bompiani, tamb√©m em Mil√£o [4]. Outras, como a editora dos Irm√£os Bocca (Turim), interessaram a Gramsci tanto pelo conte√ļdo quanto pela a√ß√£o editorial. Al√©m de alguns livros de Robert Michels e de Achille Loria (autor ao qual se far√° refer√™ncia mais adiante), eles publicaram¬†os livros¬†de Max Nordau (que depois passaram "√†s m√£os de editores como¬†Madella e Barion e foram¬†difundidos¬†por vendedores ambulantes a pre√ßos baix√≠ssimos e em grande quantidade") [5].

Tudo isso revela a amplitude geográfica do movimento editorial. Mas, ainda assim, não se podiam esconder por trás dessa variedade as debilidades educacionais da população. Setenta e cinco por cento dos italianos eram analfabetos à época da unificação e só 2,4% dominavam o idioma oficial (toscano). Essa situação melhorou sensivelmente na era Giolitti, mas até a Segunda Guerra era frágil a situação social e educacional do país. No campo da produção editorial, essa fragilidade educacional se refletia. A produção editorial era de 6.822 títulos em 1906 e permaneceu quase a mesma (6.832) em 1909. Os editores argumentavam, entretanto, que somente 10% desses títulos se mantinham com venda constante por um ou dois anos [6].

O per√≠odo em que Gramsci permaneceu preso assistiu a um aumento da m√©dia anual de publica√ß√Ķes de livros. No intervalo 1922-1926 a m√©dia anual foi de 6.700 livros publicados. No per√≠odo 1927-1931, a m√©dia subiu a 9.568. Depois, entre 1932-1936, a m√©dia foi de 12.656. At√© a Guerra o volume de edi√ß√Ķes incrementou-se mais ainda.¬†Estes dados excluem os livros escolares.

Se olharmos apenas para o ano de 1933, quando o n√ļmero de livros editados chegou a 13.975, poderemos observar aquilo que foi uma tend√™ncia persistente daquele e dos outros anos. A maioria dos livros era de ci√™ncias morais, sociais e pol√≠ticas (32,93%), depois literatura (22,91), artes (15,70%) e did√°ticos (11,96%). Apesar das oscila√ß√Ķes, apenas os livros escolares sofreram uma queda acentuada at√© o fim da Segunda Guerra.

De fato, a It√°lia teve um aumento da produ√ß√£o editorial sem par no per√≠odo 1928-1932, os anos mais produtivos da atividade carcer√°ria de Gramsci. Enquanto a produ√ß√£o francesa estava estagnada em 72.044 (praticamente o mesmo n√ļmero dos anos anteriores 1922-1927), a da Alemanha ca√≠a para 127.283 (contra 142.166 nos anos anteriores), a It√°lia saltava de 33.967 a 54.265, atr√°s apenas da Gr√£-Bretanha (que subira de 65.791 a 73.400) [7].

Gramsci chegou a p√īr em d√ļvida dados como estes, lembrando que seria preciso avaliar o conte√ļdo e a natureza dessas publica√ß√Ķes. A an√°lise quantitativa precisava combinar-se √† qualitativa.

Insiste-se muito no fato de que aumentou o n√ļmero dos livros publicados. O Instituto Italiano do Livro comunica que a m√©dia anual da d√©cada 1908-1918 foi exatamente de 7.300. Os c√°lculos feitos para 1929 (os mais recentes) d√£o a cifra de 17.718 (livros e op√ļsculos; exclu√≠dos os da Cidade do Vaticano, de San Marino, das col√īnias e dos territ√≥rios de l√≠ngua italiana que n√£o fazem parte do Reino). Publica√ß√Ķes pol√™micas e, portanto, tendenciosas [8].

Gramsci afirma que seria necess√°rio ver se as cifras eram calculadas como no passado e ver se mudou a "composi√ß√£o org√Ęnica do complexo livreiro". Ele cita a multiplica√ß√£o de casas editoras cat√≥licas que editam, muitas vezes, livros sem nenhuma import√Ęncia cultural. Por fim, seria preciso tamb√©m inserir nas estat√≠sticas as tiragens, e isto especialmente para os jornais e revistas:

L√™-se menos ou mais? E¬†quem l√™ menos ou mais? Est√° se formando uma "classe m√©dia culta" mais numerosa que no passado, que l√™ mais,¬†ao passo que¬†as classes populares l√™em muito menos; isto √© revelado pela¬†rela√ß√£o entre livros, revistas e jornais. Os jornais diminu√≠ram¬†de n√ļmero e imprimem menos exemplares; l√™em-se mais revistas e livros (isto √©,¬†existem mais leitores de revistas e livros). Comparar¬†a It√°lia e outros pa√≠ses no que diz respeito aos modos de¬†realizar a estat√≠stica¬†sobre livros¬†e na classifica√ß√£o por grupos do que se publica [9].

Primeiras leituras na pris√£o

Nos cerca de dez anos em que esteve no c√°rcere fascista (1926-1937), Antonio Gramsci escreveu os Cadernos do c√°rcere. Sob a rigorosa censura carcer√°ria ele n√£o podia obter muitas informa√ß√Ķes acerca dos fatos cotidianos, o que corrigia parcialmente com um n√ļmero elevado de assinaturas de revistas que se lhe permitiam ler.

Desde suas primeiras missivas, ele se preocupou muito com o fornecimento de livros e peri√≥dicos. Na pris√£o de Ustica (9/12/26) [10], quando lia O homem que queria ser rei, de Kipling, pediu com urg√™ncia os dicion√°rios e gram√°ticas para seus estudos de alem√£o, o que denota seu interesse em aprofundar-se na l√≠ngua em que ainda estava boa parte dos escritos de Marx e Engels. Tamb√©m os livros sobre o Risorgimento e a unidade nacional, tema que ele j√° vinha tratando pouco antes de ser preso, quando escrevia "Alguns temas da quest√£o meridional". Em outras cartas ele fez observa√ß√Ķes sutis acerca dos diferentes grupos regionais e culturais do Sul da It√°lia.

A primeira fonte para Gramsci foi a biblioteca da pris√£o. Essa circunst√Ęncia limitou e, ao mesmo tempo, estimulou a reflex√£o te√≥rica. Eis um caso em que o conte√ļdo, bem como a forma (leggere senza scrivere) determinou uma nova abordagem da literatura. Numa carta de 22 de abril de 1929, Gramsci¬†escreve¬†√† mulher de um prisioneiro, atrav√©s de¬†Tatiana, que era preciso abandonar o modo de pensar "escolar" e n√£o p√īr na cabe√ßa a id√©ia de se fazer estudos regulares e aprofundados, porque isso seria imposs√≠vel at√© para aqueles que estavam em melhores condi√ß√Ķes do que ele. Exceto no caso do estudo das l√≠nguas modernas, para o qual bastaria uma gram√°tica, que se poderia encontrar em qualquer banca de livros usados por pre√ßo barato (na express√£o do pr√≥prio Gramsci), embora n√£o se pudesse aprender a pron√ļncia.

Além disso, muitos encarcerados subestimavam a biblioteca carcerária. Certamente - diz Gramsci -, ela é desconexa, os livros são recolhidos ao acaso e abundam livros de devoção e romances de baixa condição. Ele leu os romances populares aos montes: Sue, Montépin, Ponson, etc. Em geral, lia-os em francês. Mas os romances populares em italiano eram editados pelo jornal Corriere della Sera. Publicava ao menos 15 por ano em tiragens altíssimas. Seguia-o a casa Sonzogno.

Mas essa restri√ß√£o inicial aos livros da biblioteca da pris√£o n√£o impediu que Gramsci, mesmo sem poder fazer apontamentos, chegasse a perguntas que se tornaram verdadeiros problemas de pesquisa: "Por que esta literatura √© sempre a mais lida e a mais publicada?¬†Que necessidades satisfaz? A que aspira√ß√Ķes corresponde?". Ao comentar a atividade editorial da casa Sonzogno ele disse:

Um¬†exame da atividade da editora Sonzogno ao longo¬†do tempo¬†forneceria um quadro bastante aproximativo das varia√ß√Ķes ocorridas no gosto do p√ļblico popular; a pesquisa √© dif√≠cil,¬†j√° que¬†a Sonzogno n√£o imprime o ano de publica√ß√£o e freq√ľentemente n√£o numera as reedi√ß√Ķes, mas um exame cr√≠tico dos cat√°logos daria algum resultado [11].

Como observa Joseph Buttigieg, "o cuidado e a atenção com os quais Gramsci registra rigorosamente cada detalhe bibliográfico são surpreendentes" [12].

Outro exemplo, indicado por Gramsci, é o do historiador Groethuysen, que, para estudar a burguesia nos dois séculos antes de 1789, leu toda uma literatura de devoção, prédicas, catecismos de diversas dioceses, e fez um "magnífico volume" (na expressão de Gramsci).

O principal intermedi√°rio de Gramsci nas compras de livros era Piero Sraffa, professor de economia em Cambridge e amigo de Maurice Dobb. Direta ou indiretamente eles sempre mantiveram discuss√Ķes dessa natureza. Como Gramsci tinha um limite definido para escrever cartas, a correspond√™ncia era na maioria das vezes mediada por sua cunhada Tatiana Schucht. Piero Sraffa abrira uma conta corrente ilimitada para Gramsci na livraria milanesa Sperling & Kupfer. Em 21/12/26 Gramsci escreveu:

Querido amigo: recebi sua carta do dia 13; no entanto, ainda não recebi os livros que você menciona. Agradeço muito cordialmente o oferecimento que me fez; já escrevi à Livraria Sperling e fiz uma encomenda bastante volumosa com a certeza de não ter abusado, porque conheço toda a sua gentileza.

Em seguida (2/1/27) ele informou a Piero Sraffa ter recebido os livros:

Assim, tenho muito o que ler por algum tempo. Agradeço sua grande gentileza, mas não quero abusar. Asseguro, porém, que vou me dirigir a você sempre que tiver necessidade de algo.

Numa carta de 4 de abril de 1927 ele informa que possui alguns livros próprios e que toda semana recebe oito livros da biblioteca do cárcere:

Para que faça uma idéia, eis a lista desta semana, que, no entanto, é excepcional por causa da qualidade relativamente boa dos livros que apareceram: 1. Pietro Colletta, Storia del Reame di Napoli (ótimo); 2. V. Alfieri, Autobiografia; 3. Molière, Commedie scelte, traduzidas pelo Sr. Moretti (tradução ridícula); 4. Carducci, dois volumes das Obras completas (medíocres, entre os piores de Carducci); 5. Artur Lévy, Napoleone intimo (curioso, apologia de Napoleão como "homem moral"); 6. Gina Lombroso, Nell’America meridionale (muito medíocre); 7. Harnack, L’Essenza del cristianesimo; Virgilio Brocchi, Il destino in pugno, romance (de enlouquecer qualquer um); Salvador Gotta, La donna mia (ainda bem que a mulher é dele, porque é chatíssima).

Gramsci informa uma lista insuspeita para seus censores. Revela-se ainda apenas um leitor. E sua leitura tem tanto o interesse de futuras pesquisas quanto de prazer est√©tico ou intelectual. √Č que pouco tempo antes (mar√ßo de 1927) ele havia feito uma requisi√ß√£o para escrever na sua cela. Foi indeferida. Em 20 de fevereiro de 1928, ele escreveu √† sua irm√£ Teresina: "Posso ler, mas n√£o posso estudar, porque n√£o me permitiram ter¬† papel e¬†caneta¬†√† disposi√ß√£o". Uma nova requisi√ß√£o encaminhada pela sua fam√≠lia no ano seguinte obteve a permiss√£o. Em 24 de setembro de 1928, ele voltou a se lamentar sobre a quest√£o da leitura (agora do suprimento de revistas): "Voc√™ n√£o me escreveu nada sobre as publica√ß√Ķes peri√≥dicas que eu deveria receber da Livraria Sperling". Tratava-se de sua mudan√ßa de endere√ßo de Roma a Turi que precisava ser informada √† livraria.

Diversas são as cartas onde ele mostra sua preocupação insistente com os livros. Ora está a falar a Tatiana (20/08/28) de um "pacote de livros". Em seguida (3/11/28) reclama o envio de seus livros que estavam nas mãos de seu advogado, ou se refere aos livros da Slavia, editora que ele acompanhava atentamente. A Slavia, dirigida por A. Polledro, difundiu, entre 1926 e 1938, a literatura russa e eslava na Itália.

Fontes socialistas

Pelos autores mais citados nos Quaderni tamb√©m se poderia fazer um levantamento da circula√ß√£o editorial de alguns autores muito lidos na It√°lia. Por exemplo, Antonio Bresciani (1798-1862), um jesu√≠ta que cultivou o romance hist√≥rico, tendo sido tamb√©m o principal redator de Civilt√† cattolica, publica√ß√£o que continuou a existir e que Gramsci lia assiduamente. N√£o foi √† toa que Gramsci o tenha citado muito. A obra de Bresciani teve uma repercuss√£o europ√©ia fora do comum. Seu livro Hebreu de Verona alcan√ßou 80 edi√ß√Ķes em poucos anos e foi traduzido ao franc√™s, russo, alem√£o, ingl√™s e castelhano. Outro autor muito citado foi Achille Loria. Sua obra principal, Analisi della propriet√† capitalistica (1888) recebeu da Academia dei Lincei (Roma) o pr√™mio do rei. Ambos os autores eram usados por Gramsci para significar fen√īmenos essencialmente negativos.

J√° Benedetto Croce, outro entre os mais citados, era uma presen√ßa obrigat√≥ria. Os primeiros dec√™nios de vida intelectual italiana no Novecento foram assinalados pela "hegemonia [e Bobbio aqui faz alus√£o ao conceito gramsciano] de Benedetto Croce. O seu pensamento foi, conjuntamente, centro de irradia√ß√£o e de converg√™ncia dos movimentos intelectuais do tempo" [13]. Todavia, n√£o √© verdade que Gramsci tenha se afastado da leitura dos cl√°ssicos do marxismo e do socialismo, mesmo sob as duras condi√ß√Ķes carcer√°rias.

O n√ļmero de livros que Gramsci podia ter na cela era limitado. No quarto volume da edi√ß√£o cr√≠tica dos Cadernos do c√°rcere, preparada por Valentino Gerratana, podemos encontrar um vasto material referente aos livros que Gramsci possu√≠a. J√° no primeiro caderno carcer√°rio encontramos uma lista de "Livros enviados de Turi a Carlo em 11 de¬† novembro de 1929". Eram 63 t√≠tulos, entre eles os de pensadores italianos como Benedetto Croce e Luigi Einaudi. Mas o grosso dessa primeira lista era composto por literatura: de Pirandello a Tolstoi, de Kipling a Dostoievski, de Tchekov a Maupassant. Mas tamb√©m a chamada literatura social (ou oper√°ria ou engajada), como o pr√≥prio Tolstoi, al√©m de Panait Istrati, Boris Pilniaki e os best-sellers da √©poca, como E. Remarque e Emil Ludwig. √Č preciso lembrar que a primeira lista expressa a cautela do prisioneiro, acostumando-se a novas regras de conduta que circunscreviam suas possibilidades de leitura. Mais adiante, no mesmo primeiro caderno, encontravam-se 4 livros, entre eles o do general Krasnov, Dall¬íaquila imperiale alla bandiera rossa (Floren√ßa, Ed. Salani), cuja terminologia seria usada ami√ļde por Gramsci.

Na lista seguinte, "Livros entregues a Tatiana em Turi, em 20 de fevereiro de 1930", havia 8 t√≠tulos, com destaque para Croce e Prezzolini. Na lista seguinte, datada de 13 de mar√ßo de 1930, 16 t√≠tulos, agora incluindo peri√≥dicos como o Almanacco letterario e autores como Marcel Proust e Plutarco. A lista de 20 de maio seguia o mesmo padr√£o. S√≥ numa anota√ß√£o √† parte viam-se dois t√≠tulos socialistas de Leon Trotski: La r√©volution d√©figur√©e e Vers le capitalisme ou vers le socialisme?. Gramsci certamente n√£o podia ter √† m√£o os livros dos chefes do Estado sovi√©tico, como Lenin e Stalin. Mas Trotski j√° havia sido expulso da Uni√£o Sovi√©tica e do Partido Comunista. Ele fora at√© mesmo publicado em italiano pela Editora Mondadori em 1930 (reedi√ß√£o nos anos 50, com 13 ilustra√ß√Ķes) [14].

No caderno 2 h√° o esbo√ßo de um requerimento, datado de setembro de 1930 ("Peti√ß√£o a S. Exa., o chefe de Governo, expedida em setembro de 1930"). Esta carta √© paradigm√°tica porque revela a necessidade do prisioneiro (que tinha uma rela√ß√£o quase f√≠sica com os livros) de saber quais as suas condi√ß√Ķes de leitura, o que ele podia ou n√£o ler. Ele conta que em junho de 1928, no c√°rcere judici√°rio de Roma, confiscaram-lhe um op√ļsculo de versos de Mino Maccari, not√≥rio escritor fascista. Gramsci protestou ao Tribunal Especial e conseguiu saber que somente os livros de agita√ß√£o pol√≠tica lhe eram proibidos:

Na Penitenci√°ria de Turi de Bari, onde atualmente me encontro recluso, novamente me foi apreendido o pequeno livro de Maccari, junto com os seguintes: Giuseppe Prezzolini, Mi Pare... (uma colet√Ęnea de pequenos artigos de circunst√Ęncia publicada em 1925 por Arturo Marpicati), Oscar Wilde, Il fantasma dei Canterville e altre due novelle umoristiche, H. Mann, Le sujet, Ed. Kra (romance da Alemanha guilhermina), Petronio √Ārbitro, Satyricon, J. London, Le memorie di un bevitore, Krasnov, Dall¬íaquila imperiale alla bandiera rossa (√© um romance de Krasnov, general dos cossacos, emigrado czarista em Berlim, publicado pela Ed. Salani, de Floren√ßa); Maurice Muret, Le cr√©puscule des nations blanches, 1925. Trata-se de livros an√≥dinos e insignificantes, √© verdade, mas trata-se para mim, que ainda devo cumprir quinze anos de reclus√£o, de uma importante quest√£o de princ√≠pio: saber com exatid√£o quais livros posso ler [15].

Gramsci aproveitava, no fim dessa carta, para pedir a concess√£o da leitura de F√ľl√∂p-Miller, Il volto del bolscevismo, e a Autobiografia de Leon Trotski. Nessa missiva h√° toda uma estrat√©gia sutil de di√°logo entre um prisioneiro e combatente e seu algoz. Que n√£o √© necessariamente uma pessoa, mas um sistema. E Gramsci cobrava das pessoas, representantes do sistema, uma coer√™ncia com as regras do pr√≥prio sistema. H√° tamb√©m uma ambig√ľidade proposital entre cr√≠tica e aceita√ß√£o das regras, bem como uma estrat√©gia de explora√ß√£o das brechas, das v√°lvulas de escape. Como se sabe, Antonio Gramsci nunca esbo√ßou um gesto de luta ilegal enquanto esteve no c√°rcere. Condenou toda a agita√ß√£o ou press√£o p√ļblica que se pudesse fazer a seu favor. Uma vez preso, preferia lutar num horizonte reconhec√≠vel e dentro de perspectivas bastante realistas, que lhe preservassem ao menos os direitos que o pr√≥prio regime fascista declarava existirem. Comportamento que, se n√£o destoava das diretivas que o partido impunha aos seus militantes presos, tamb√©m retirava qualquer veleidade de hero√≠smo vulgar e artificial apregoado √† √©poca [16].

Por outro lado, ele jamais se rendeu ou declarou ter abandonado suas convic√ß√Ķes pol√≠ticas. Na carta, ele aproveita para simular a pouca import√Ęncia dos livros pedidos, acrescenta que s√£o politicamente neutros ou mesmo a favor do fascismo. Ora, se entre os livros pedidos h√° um ou mais fascistas not√≥rios (como ele diz) e se os mesmos s√£o insignificantes, √© uma cr√≠tica bastante sutil e ir√īnica ao pr√≥prio fascismo que se esbo√ßa atrav√©s do di√°logo sobre os livros. Por fim, ele volta a usar as "permiss√Ķes" do sistema: se o governo italiano permitiu a publica√ß√£o de dois livros sobre o bolchevismo, incluindo a autobiografia de Trostski, por que ele n√£o os poderia ler?

Numa carta seguinte, a mesma "estrat√©gia" √© utilizada com mais ousadia. Gramsci gentilmente lembra ao seu interlocutor que um pedido similar ao que ora est√° a fazer fora recebido favoravelmente um ano antes. Uma vez mais ele explora as contradi√ß√Ķes dos dispositivos regulamentares com o pr√≥prio sistema, porque uma nova regra fixara uma lista de publica√ß√Ķes peri√≥dicas que os presos poderiam ler, mas exclu√≠a (ou ignorava) um conjunto de outras revistas que Gramsci j√° assinava h√° 4 anos e meio por autoriza√ß√£o do Tribunal Especial de Defesa do Estado. No mesmo requerimento, Gramsci solicita livros mais diretamente vinculados √† quest√£o socialista: Knickerbocker, O plano q√ľinq√ľenal sovi√©tico. Tamb√©m Le proc√®s du parti industriel de Moscou; Trotski, La r√©volution d√©figur√©e e Vers le socialisme ou vers le capitalisme?. Para evitar surpresa aos superiores, ele pede as obras completas de Marx e Engels com o reparo de que j√° tinha autoriza√ß√£o do Tribunal Especial para l√™-las e possu√≠a em sua cela v√°rios volumes. Por fim, para justificar o livro de Marx, Lettres √† Kugelmann, com pref√°cio de N. Lenin, ele faz saberem que se trata de um pref√°cio de 1907.

O interesse de Gramsci pelo desenvolvimento da Uni√£o Sovi√©tica nunca deixou de ser grande e persistente. Aparentemente, ela continuou sendo um paradigma bastante concreto para qualquer socialista marxista baseado na realidade. Seus longos coment√°rios a respeito da doutrina de Nikolai Bukharin demonstram o quanto ele usou a linguagem da filosofia e das intrincadas discuss√Ķes sobre materialismo hist√≥rico e ci√™ncia para refletir sobre a natureza pol√≠tica do regime sovi√©tico.

O mesmo se pode dizer do interesse pelo marxismo. Seus cadernos do cárcere mostram que ele fez exercícios de tradução de vários livros de Marx e Engels, como: Manifesto comunista, Trabalho assalariado e capital, Questão judaica, Sagrada Família e Contribuição para a crítica da economia política. Ora, se é verdade que Antonio Gramsci foi um marxista sui generis, muito ocupado com aquilo que ele entendia ser o princípio leninista ("análise concreta de uma situação concreta"), ele não descurou do conhecimento teórico dos clássicos do marxismo. Os títulos citados de Marx e Engels, somados, são trinta e dois nos Cadernos.

A id√©ia de que Gramsci teria abandonado o axioma b√°sico do chamado materialismo hist√≥rico, a saber, a primazia em √ļltima inst√Ęncia da infra-estrutura ou base em rela√ß√£o √†s superestruturas, asseverando uma determina√ß√£o da sociedade civil (em termos gramscianos) sobre a totalidade da vida social, foi propugnada por Norberto Bobbio [17]. Outros preferiram um Gramsci te√≥rico apenas da pol√≠tica. Mas tanto suas in√ļmeras e dispersas notas sobre economia, quanto os livros que ele compulsou sobre o assunto confirmam o contr√°rio. Ele n√£o deixou passar ao largo suas inclina√ß√Ķes muito ortodoxas neste assunto. Citou pelo menos seis diferentes vers√Ķes e/ou resumos de O Capital de Karl Marx, al√©m do original alem√£o.

Ora, Il Capitale foi editado na It√°lia em vers√Ķes resumidas, ou mesmo o primeiro volume em tradu√ß√£o de segunda m√£o, desde 1879, quando Carlo Cafiero publicou seu resumo da obra de Marx. As duas editoras que publicaram Marx nos primeiros dec√™nios do s√©culo XX foram Nerbini, de Floren√ßa, e Societ√† Editrice Avanti, de Mil√£o. Nerbini publicou a vers√£o de Ettore Fabietti [18]. As Opere de Marx, Engels e Lassalle dirigidas por Ettore Ciccotti, foram publicadas primeiro por Remo Sandron e, depois, por Luigi Modigliani em Mil√£o. Gramsci fez o seguinte coment√°rio a respeito da atividade editorial de Remo Sandron:

Na Ed. Remo Sandron, muitos livros para esta se√ß√£o. Duas dire√ß√Ķes. Sandron teve um momento de car√°ter "nacional": publicou muitos livros que dizem respeito √† cultura nacional e internacional (edi√ß√Ķes originais de obras de Sorel); e √© editor "siciliano", ou seja, publicou livros sobre quest√Ķes sicilianas, especialmente ligadas aos acontecimentos de 1893-1894. Car√°ter positivista, de uma parte, e, de outra, sindicalista, das publica√ß√Ķes de Sandron. Muitas edi√ß√Ķes esgotad√≠ssimas, a serem buscadas nos sebos [19].

Vê-se que o conhecimento até mesmo da circulação e das vicissitudes editoriais da obra de Marx era posto em relevo por Gramsci. Ele se referiu mais de duzentas vezes a Marx nos seus cadernos e mais ou menos a metade disso a Engels. Referiu-se mais ainda a Croce, é certo, e bastante a Maquiavel e Hegel. Ainda assim, Gramsci tinha que eludir e iludir a censura carcerária não a respeito de nomes como Bresciani ou Missiroli, mas em relação a Marx e Engels, muitas vezes chamados de os corifeus ou fundadores da filosofia da práxis, a Stalin (Bessarione), a Trotski (Bronstein) e, especialmente, a Lenin, citado como Ilitch ou o discípulo dos fundadores da filosofia da práxis (o marxismo).

A formação da biblioteca

A publica√ß√£o completa (ou quase) das Cartas do c√°rcere (incluindo correspond√™ncia ativa e passiva) permitiu agregar mais informa√ß√Ķes sobre a biblioteca gramsciana [20]. A biblioteca reunida ap√≥s a¬†Segunda Guerra teve tr√™s fontes principais: uma parte dos livros do c√°rcere tinha sido enviada a Moscou com os cadernos e retornara √† It√°lia em mar√ßo de 1950 sob cust√≥dia da Secretaria do PCI e,¬† no m√™s seguinte, do Instituto Gramsci; outra parte pertencia √† fam√≠lia Schucht e foi doada ao partido; uma terceira parte estava em Ghilarza (Sardenha) na casa da fam√≠lia Gramsci. Uma pesquisa acurada de cat√°logos da Livraria Sperling & Kupfer seria importante para estabelecer "os tempos e as modalidades de constru√ß√£o de uma parte da biblioteca carcer√°ria" [21], mas infelizmente a sede da livraria foi destru√≠da durante a¬†Segunda Guerra Mundial.

No c√°rcere, os livros foram constitu√≠dos em "biblioteca" atrav√©s de uma luta tenaz contra a dispers√£o. As cartas de Gramsci o mostram desesperado para reunir os livros deixados nas v√°rias pris√Ķes por onde ele passava em sacos de viagem e malas. Ora Tatiana escreve ao advogado por causa dos livros, ora escreve a Amadeo Bordiga com¬† quem Gramsci estivera preso em Ustica. A preocupa√ß√£o maior √© com as gram√°ticas, pois ele fazia constantes exerc√≠cios de alem√£o (traduzindo Goethe, Marx, Engels, os irm√£os Grimm...) e do ingl√™s.

Ele tamb√©m era um comprador nato. Parcela de suas missivas solicitava cat√°logos e publica√ß√Ķes especializadas em livros. Ele teve em m√£os, por exemplo, o Almanacco Mondadori, o Marzocco, a Rassegna settimanale della Stampa¬† Estera, a Fiera Letteraria, etc. Era assinante de revistas como Critica fascista. Quase todo o seu di√°logo epistolar com Piero Sraffa (atrav√©s de Tatiana) referia-se a livros. A mesma¬† Tatiana providenciou para seu cunhado um ba√ļ ingl√™s, enorme, de tempos anteriores √† Guerra Europ√©ia, "s√≥lido", "gracioso". Era para Gramsci guardar os livros dele [22].

Gramsci se enfurece com seus gastos e com a precária segurança dos volumes. As constantes mudanças de prisão dispersam volumes que se perdem ou se deixam furtar:

Estes livros devem estar na casa da senhora Pina e gostaria de t√™-los, especialmente o de Croce: imagine que j√° o comprei tr√™s vezes e sempre me roubaram. √Č demais. Custa 40 liras: gastei 120 liras e vou ter de gastar mais 40 (isto √©: 160 liras) para ter um livro que me √© indispens√°vel [23].

√Äs vezes apela √† mem√≥ria para reunir seus livros: "Querida Tania: envio-lhe uma lista dos livros que devem estar em Roma, se a mem√≥ria n√£o me trai num ou noutro caso" [24]. A lista revela que, em 25 de mar√ßo de 1929, Antonio Gramsci j√° busca fontes para alguns dos temas centrais dos seus Cadernos. Ele requisita quatro livros de¬† Croce. Ora, sabemos que ele escrever√° seu "anti-Croce" na pris√£o ¬Ė a express√£o n√£o √© a melhor, pois se trata de uma cr√≠tica e de um di√°logo fecundo com o maior pensador italiano de ent√£o.

Toda uma corrente liberal e socialista aparece representada por livros de Gobetti e Salvemini. O interesse pelo americanismo e o fordismo transparece em t√≠tulos de H. Ford, A. Siegfried e L. Romier. A famosa cr√≠tica a Bukharin j√° tem ali um in√≠cio. Neste caso, todavia, a leitura √© mais antiga. Ele leu o Tratado de materialismo hist√≥rico de Bukharin em Moscou (a primeira edi√ß√£o √© de 1921) em 1923. No ano seguinte prop√īs ao partido a tradu√ß√£o para o italiano. Em 1925 usou extratos da obra nas suas aulas para a escola do partido. Criticou a obra especialmente no caderno do c√°rcere n. 11.

Numa carta de 26 de agosto de 1929 ele revela um pendor para a bibliofilia, ao mostrar um interesse em ter mais de uma edi√ß√£o de uma mesma obra mesmo nas condi√ß√Ķes carcer√°rias. A obra de R. Michels ele a possui na edi√ß√£o francesa anterior √† guerra e na tradu√ß√£o italiana. √Č o que os franceses chamam amateur. Numa tradu√ß√£o aproximada: um amante dos livros.

Fortuna crítica

A discuss√£o de Gramsci sobre livros e editoras encontra-se apenas nos Cadernos do c√°rcere. Isso traz um problema para o historiador das id√©ias: as edi√ß√Ķes desses textos implicam uma leitura e um direcionamento ideol√≥gico. Gramsci, pessoalmente, nunca quis editar um livro e √© bastante plaus√≠vel supor que jamais publicaria suas notas carcer√°rias no estado em que as deixou. Quando recebeu uma proposta, nos anos 20, para reunir seus artigos em livro, ele recusou sob o argumento de que seus textos eram apenas circunstanciais, posto que ele era sempre um intelectual em di√°logo constante com os acontecimentos e os personagens de ocasi√£o. Estampava seus artigos apenas em jornais.

No c√°rcere sua escritura sofreu uma altera√ß√£o fundamental. Ele escrevia f√ľr ewig (para a eternidade) como dizia. Escreveu reflex√Ķes mais demoradas em vinte e nove cadernos. Trabalhava neles muitas vezes ao mesmo tempo, o que em alguns casos impede que saibamos a ordem cronol√≥gica dos textos. Reescrevia passagens inteiras, √†s vezes mudando uma ou outra palavra.¬†Como editar uma obra assim? Este problema foi enfrentado por Palmiro Togliatti.

A hist√≥ria da edi√ß√£o dos Cadernos come√ßou j√° em vida de Gramsci. No dia 7 de dezembro de 1933, ap√≥s pedidos insistentes e uma campanha internacional a respeito de suas prec√°rias condi√ß√Ķes de sa√ļde, Antonio Gramsci foi finalmente transferido da pris√£o de Turi para uma cl√≠nica em Formia. A preocupa√ß√£o do detento era com seus livros e, especialmente, com seus cadernos manuscritos. Temia que a dire√ß√£o do c√°rcere lhe confiscasse tudo o que havia escrito ou lido. Preparou uma opera√ß√£o: enquanto ele mesmo distra√≠a seus carcereiros, um jovem amigo de cela, Gustavo Trombetti, enfiava os cadernos embaixo das roupas, no fundo da mala.

Quando Antonio morreu em 27 de abril de 1937, ele deixou seus livros na cl√≠nica onde passou os √ļltimos dias lancinantes da vida. Livros lidos e escritos. Livros do presente e do passado. E aqueles do futuro, de sua lavra, os cadernos que viriam a ser publicados. Piero Sraffa, seu amigo e correspondente, interpelou o centro exterior do Partido Comunista da It√°lia sobre o que fazer com os manuscritos gramscianos. Palmiro Togliatti (cujo pseud√īnimo era Ercoli) escreveu-lhe falando com veem√™ncia da heran√ßa pol√≠tica e liter√°ria de Antonio. Decidiu-se envi√°-los a Giulia, esposa de Antonio, em Moscou (o que significava, em verdade, faz√™-los chegar a Ercoli). Escrevendo a Tatiana, cunhada de Antonio, Piero a aconselhou a cuidar muito da seguran√ßa do transporte dos manuscritos. Seria preciso um transporte "seguro". Quando Piero chegou √† It√°lia, em junho, ele cuidou para que os cadernos do c√°rcere ficassem sob cust√≥dia no cofre de um banco (Banca commerciale). O presidente do banco era um antifascista amigo de Piero.

Os cadernos permaneceram no cofre por um ano [25]. Neste per√≠odo Tatiana fez v√°rias peti√ß√Ķes a fim de tomar posse tamb√©m dos livros que Antonio possu√≠a na pris√£o. Depois disso, providenciou um ba√ļ no qual os cadernos chegaram a Moscou. L√°, Vincenzo Bianco, representante italiano na Internacional Comunista, retirou pessoalmente os escritos e os entregou a Ercoli. Foi assim que os cadernos de Antonio Gramsci foram salvos.

Palmiro Togliatti publicou os Cadernos do cárcere entre 1948 e 1951. Ele reagrupou as notas de Gramsci por grandes temas. Assim, favoreceu uma leitura "fácil", militante, mas também dirigida. Foram seis livros: Maquiavel, o Estado e a política moderna; Literatura e vida nacional; Passado e presente; O materialismo histórico e a filosofia de Benedetto Croce; O Risorgimento; Os intelectuais e a organização da cultura. Além disso, foram publicadas também as Cartas do cárcere. Argumentou-se que, embora essa seja ainda a mais importante edição dos textos gramscianos, ela está ligada à chamada via nacional para o socialismo (estratégia do Partido Comunista Italiano no pós-guerra). Agrupar as críticas de Gramsci a Croce, e não as críticas a Bukharin, revela uma escolha. No segundo caso, seria mostrar um Gramsci que questionava o materialismo soviético, por exemplo. Além disso, os Cadernos não foram escritos com unidades temáticas. Foram feitos de maneira fragmentada mas sob o prisma fundamental da história política.

Em 1975, Valentino Gerratana publicou os textos na sua "ordem espacial", ou seja, como eles aparecem nos cadernos originais. Obra mais "dif√≠cil" de ler, que interessou bem mais aos especialistas e abriu uma longa discuss√£o te√≥rica, conceitual e, nos anos 80-90, tamb√©m filol√≥gica. Gianni Francioni pretendeu restabelecer a "ordem cronol√≥gica" dos textos [26]. Ainda hoje se discute a pertin√™ncia de uma edi√ß√£o completa e rigorosa (do ponto de vista filol√≥gico) dos textos de Gramsci. O exemplo de suas an√°lises sobre a circula√ß√£o dos livros pode servir para iluminar a edi√ß√£o cr√≠tica de seus pr√≥prios textos. √Č de se duvidar que se consiga um dia editar os Cadernos como Gramsci os pensou enquanto escrevia. Mesmo com os avan√ßos da cr√≠tica liter√°ria, este t√≥pico permanece sendo um problema. Mas tamb√©m assim se revela a riqueza desse pensador e homem de a√ß√£o t√£o not√°vel que resistiu a todas as tempestades que varreram muitos autores supostamente identificados com o marxismo.

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Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP.

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Notas

[1] Evidentemente, este artigo não busca fazer referências aos avanços teóricos na área específica da história do livro senão indiretamente. Trata-se de abordar a maneira como Gramsci tratou de temas semelhantes: mediação editorial, formas de pensamento, estratégias de leitura, etc.

[2] Carone, Edgard. O marxismo no Brasil (das origens a 1964). Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986, p. 40-2.

[3] Brunacci, A. Dizionario generale di cultura. Turim: Libreria Editrice, 1915, p. 498-9.

[4] Caro Bompiani. Lettere con l¬īeditore. Mil√£o: Bompiani, 1988, p. 3.

[5] Gramsci, A. Quaderni del carcere. Org. por Valentino Gerratana. Turim: Einaudi, 1977, p. 1.900. Doravante os Quaderni serão citados como QC.

[6] Pettinato, C. "Libri, editori ed autori". La Lettura. Rivista mensile del Corriere della Sera, n. 10, out. 1910.

[7] Santoro, M. Storia del libro italiano. Mil√£o: Editrice Bibliografica, 2000, p. 318-9.

[8] QC, p. 1.699-700.

[9] Id., ib. 

[10] Todas as cartas citadas a seguir provêm das seguintes fontes: QC, v. IV. Vide também: Gramsci, A. Lettere dal carcere. Turim: Einaudi, 1978; Id. Novas cartas de Gramsci e algumas de Piero Sraffa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

[11] QC, p. 2.125.

[12] Buttigieg, J. "O método de Gramsci". Educação em foco, v. 5, n. 2. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2001.

[13] Bobbio, N. Profilo ideologico del novecento. Mil√£o: Garzanti, 1990, p. 90.

[14] Arnoldo Mondadori Editore. Catalogo generale giugno 1956. Mil√£o: Mondadori, p.108.

[15] QC, p. 2.375.

[16] Cf. I communisti di fronte alla polizia e di fronte ai giudici (lettera di un vecchio rivoluzionario). Paris: Edizioni del PCI, jun. 1928, 15 p.

[17] Bobbio, N. O conceito de sociedade civil. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Graal, 1982, p. 32.

[18] Ettore Fabietti é citado nos Quaderni (QC, 88) por um artigo sobre bibliotecas populares de Milão, onde mostra que os operários eram os melhores usuários: cuidavam dos livros e não os perdiam, diferentemente de outras categorias de leitores (empregados, estudantes, donas de casa).

[19] QC, p. 980.

[20] Gramsci, A. e Schucht, T. Lettere. 1926-1935. Org. por Aldo Natoli e Chiara Daniele. Turim: Einaudi, 1997.

[21] Id., ib., p. 22.

[22] Id., ib., p. 295.

[23] Id., ib., p. 317.

[24] Id., ib., p. 331.

[25] Spriano, P. Gramsci in carcere e il partito. Roma: L’Unità, 1988, p.104-5.

[26] Cf. Liguori, G. "El debate sobre Gramsci en el cambio de siglo". In: Kanoussi, D. (Org). Gramsci en América. II Conferencia Internacional de Estudios Gramscianos. México, D.F.: Plaza y Valdes, 2000, p. 307.



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