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A barb√°rie, do Facundo a Os sert√Ķes

Berthold Zilly - 2001
 

Facundo, modelo de Os sert√Ķes?

Sob muitos aspectos, o Facundo de Sarmiento e os Os sert√Ķes de Euclides da Cunha apresentam semelhan√ßas e diferen√ßas elucidativas, sobretudo em rela√ß√£o √† dicotomia tematizada que, por ser crucial em ambos os livros, principalmente no primeiro onde j√° aparece no t√≠tulo, pode servir, de um modo geral, como chave interpretativa [1]. Ambos discutem, a partir dos problemas de uma regi√£o atrasada e de uma guerra civil, os destinos da Na√ß√£o, da qual se tornam interpreta√ß√Ķes at√© hoje influentes e mesmo constitutivas. Embora a quest√£o da influ√™ncia do primeiro livro sobre o segundo n√£o care√ßa de interesse, vou me limitar a poucas observa√ß√Ķes a este respeito, n√£o s√≥ porque os dois autores parcialmente beberam nas mesmas fontes, o que dificulta, com rela√ß√£o a muitas imagens e id√©ias, o estabelecimento de uma filia√ß√£o direta, mas tamb√©m porque mais significativas do que esta me parecem as pr√≥prias afinidades e diverg√™ncias formais, tem√°ticas, ideol√≥gicas entre as duas obras que se explicam e se interpretam mutuamente e, mesmo que Euclides nunca tivesse ouvido falar de Sarmiento, a compara√ß√£o entre os dois autores sempre seria interessante [2].

Euclides conhecia bem o Facundo. Em seu ensaio "Via√ß√£o Sul-Americana", publicado em √Ā margem da hist√≥ria, fala das "p√°ginas admir√°veis de um dos maiores livros sul-americanos, ressoantes ao tropear das cavallarias disparadas dos Quirogas e dos Chachos". Analisando a rela√ß√£o entre estrada de ferro, progresso econ√īmico e liberdade pol√≠tica, aplaude o racioc√≠nio de Sarmiento na obra que cita como Civilizaci√≥n y barbarie [3]. No "Discurso de recep√ß√£o" proferido na Academia Brasileira de Letras, o novo acad√™mico aponta o autor argentino como historiador-escritor modelar, junto com Thierry, Macaulay, Alexandre Herculano, pois todos eles trabalhariam no "dominio commum da fantasia e da raz√£o", ao passo que no Brasil faria falta um autor "que nos abreviasse a distancia do passado e, num evocar surprehendente, trouxesse aos nossos dias os nossos maiores com os seus caracteres dominantes, fazendo-nos compartir um pouco as suas existencias immortaes [...]" [4]. Esse "evocar surpreendente" ser√° realmente um dos principais recursos composit√≥rios da historiografia euclidiana.

Em Os sert√Ķes, ainda que falte qualquer alus√£o direta a Sarmiento, a presen√ßa do Facundo √© manifesta √† primeira vista, a come√ßar pela seq√ľ√™ncia dos t√≥picos: o meio f√≠sico, a popula√ß√£o e a cultura, a guerra. Ambos os textos transitam livremente entre os g√™neros liter√°rios e modos de discurso, entre diversos tipos de pesquisa e representa√ß√£o da realidade, combinando geografia, antropologia e hist√≥ria em um texto que √© cr√īnica, ensaio e fic√ß√£o ao mesmo tempo. Ambos coincidem na relev√Ęncia dada ao contraste entre campo e cidade, o alheio e o pr√≥prio, o desconhecido e o conhecido, o sul-americano e o europeu, barb√°rie e civiliza√ß√£o, numa vis√£o dualista da sociedade que esbo√ßa uma teoria impl√≠cita das duas Argentinas e dos dois Brasis [5].

Quem conhece Facundo e come√ßa a ler Os sert√Ķes volta e meia tem a impress√£o do d√©j√†-vu. N√£o s√≥ o plano geral mas tamb√©m numerosos detalhes tem√°ticos e lexicais, alus√Ķes, met√°foras, nomes s√£o ind√≠cios de que para Euclides o famoso livro argentino foi, se n√£o modelo, pelo menos incentivo para conceber o seu ensaio sobre a campanha de Canudos e dar-lhe a fei√ß√£o que tem. O personagem central de Sarmiento, o gaucho, tamb√©m aparece em Euclides, em sua forma brasileira de "ga√ļcho", como termo de compara√ß√£o do sertanejo. Palavras-chaves como desierto, ruina, tapera, cuchillo, deguella, rudeza, civilizado, b√°rbaro, s√≥ para dar uns poucos exemplos, reaparecem em forma portuguesa no livro euclidiano. Os dois autores associam a crueldade das popula√ß√Ķes do interior com a dos Ashanty [6], comparam os movimentos rebeldes na Am√©rica Latina com a revolta dos Chouans durante a Revolu√ß√£o Francesa [7], relacionam algumas serras do interior com fortalezas e castelos arruinados [8].

J√° nos seus t√≠tulos os livros fazem uma refer√™ncia ou pelo menos alus√£o a uma tem√°tica dupla ou tripla, vinculada a tr√™s espa√ßos geogr√°ficos e culturais: a regi√£o, a na√ß√£o, a hist√≥ria universal, sendo esta marcada pela civiliza√ß√£o, centrada na Europa, mas conquistando o mundo. Come√ßam por uma tem√°tica gen√©rica, depois, no subt√≠tulo, indicam o caso espec√≠fico analisado, ou melhor, narrado [9]. Nota-se logo que, apesar desse paralelismo, tanto o t√≠tulo como o subt√≠tulo s√£o bem mais abrangentes em Sarmiento do que em Euclides onde a dicotomia sarmientina est√° presente mas de modo impl√≠cito. Pois "os sert√Ķes", no plural, designa√ß√£o dos espa√ßos secos, in√≥spitos e "incivilizados" do Norte, hoje chamado de Nordeste e, por antonom√°sia, de todas as regi√Ķes pouco habitadas, atrasadas e b√°rbaras do Brasil, se n√£o do mundo, pressup√Ķem a sua contrapartida, ou seja as regi√Ķes cultas, produtivas, modernas, civilizadas do litoral brasileiro e da Europa, sendo o conflito entre essas duas √°reas e culturas antag√īnicas causa principal da guerra e fio condutor do livro. A diversidade dos t√≠tulos assinala uma diferen√ßa menos na tem√°tica geral do que no seu modo de representa√ß√£o: o livro sarmientino promete discutir e provar uma hip√≥tese gen√©rica, universal, exemplificada no caso escpec√≠fico de uma biografia e de uma regi√£o, quase um roman √† th√®se. As numerosas altera√ß√Ķes do t√≠tulo nas diversas edi√ß√Ķes preparadas por Sarmiento ou por editores de sua confian√ßa mostram por√©m que n√£o havia para ele uma clara prioridade entre o abstracionismo das ant√≠teses hist√≥ricas e a concretude das paisagens, personagens e eventos representados, de modo que variou de edi√ß√£o para edi√ß√£o o grau de literariedade do livro. O t√≠tulo de Euclides no entanto, evocando uma paisagem ou diversas paisagens, √© espec√≠fico, concreto, e ao mesmo tempo gen√©rico, simb√≥lico, poliss√™mico, sugestivo, ao passo que o subt√≠tulo se refere a um determinado evento, "a campanha de Canudos", denominada por√©m na "Nota preliminar" "variante de assunto geral", ou seja do avan√ßo da civiliza√ß√£o no interior que implicaria no "esmagamento das ra√ßas fracas pelas ra√ßas fortes" [10]. Felizmente o autor n√£o mant√©m sistematicamente essa desconcretiza√ß√£o durante o seu relato da guerra.

Terras

Os dois livros começam por extensa pesquisa mesológica, histórica e sociológica, inspirando-se o primeiro na Ilustração e no Romantismo, e o segundo, embora de forma crítica, no Positivismo e no Evolucionismo, sem tampouco renegar uma boa dose de Romantismo.

Os sert√Ķes, livro um tanto disforme em muitos sentidos, como tamb√©m o seu hom√≥logo argentino, mais do que este se estrutura no plano espacial, al√©m do cronol√≥gico, como √© natural em toda obra hist√≥rica. Se na vis√£o dos letrados do litoral as ant√≠teses Norte¬ĖSul, sert√£o¬Ėlitoral, aridez¬Ėumidade, esterilidade¬Ėfertilidade est√£o correlacionadas com a dicotomia barb√°rie¬Ėciviliza√ß√£o, na vis√£o dos sertanejos elas se identificam, inversamente, com as ant√≠teses terra da f√©¬Ėterra do Anticristo, terra da promiss√£o¬Ėterra da condena√ß√£o. O pr√≥prio sert√£o tem uma estrutura conc√™ntrica, de modo que, para quem se aproxima de Canudos, centro do sert√£o, aumenta o seu car√°ter inculto, in√≥spito e ao mesmo tempo m√≠stico, sagrado. Um dos per√≠metros mais pr√≥ximos do teatro de guerra √© a elipse com eixos de poucos quil√īmetros, "cercadura de montanhas" de que fazem parte o Cambaio e a Canabrava, cujo topo estrategicamente mais significativo e mais chegado a Canudos √© o morro da Favela, a 1.800 metros das duas igrejas [11]. Estas marcam o bairro central e mais bem defendido da aldeia sagrada que, com sua m√°gica for√ßa centr√≠peta, atrai os fi√©is para salvarem a alma e os soldados para perderem a vida, repelindo com for√ßa centr√≠fuga os atacantes feridos. Esta comunidade est√° vinculada diretamente a Deus, fora do alcance das autoridades seculares, quase um Estado teocr√°tico dentro da jovem Rep√ļblica laicista.

Em Facundo, a organiza√ß√£o do espa√ßo √© menos clara, menos transparente, √© cambiante e exc√™ntrica ou polic√™ntrica, pois n√£o h√° nenhum lugar fixo ou central, de converg√™ncia ou de irradia√ß√£o que dominasse os outros, capaz de atrair e de repelir grandes contingentes de atacantes. O palco das andan√ßas do anti-her√≥i sarmientino √© muito mais extenso e menos uniforme do que o do Conselheiro durante a guerra, pois na hinterl√Ęndia argentina n√£o h√° centro rebelde, n√£o h√° um n√ļcleo aglutinador das for√ßas b√°rbaras, contrapartida selvagem da metr√≥pole civilizada. Temporariamente, devido √† derrota dos unitarios, o pa√≠s inteiro est√° nas m√£os da anticiviliza√ß√£o, toda a Argentina √© por assim dizer uma imensa Canudos, uma barb√°rie n√£o de roupagem religiosa, mas n√£o menos fan√°tica e irracional, do ponto de vista esclarecido e civilizado.

H√° por√©m uma regi√£o nuclear que procria e gera de certa forma o protagonista, onde este est√° em casa, e que tem algumas semelhan√ßas com a terra do Conselheiro, pois se trata de um ermo, espa√ßo √°rido, curiosamente chamado de traves√≠a no castelhano argentino, lugar de passagem, deserto onde nenhum forasteiro gosta de parar por muito tempo, nisto parecido com a vila sagrada, ainda que ali o termo "travessia" tenha um sentido predominantemente religioso, sendo ao mesmo tempo meton√≠mia do mundo: "Canudos era o cosmos. E este mesmo transit√≥rio e breve: um ponto de passagem, uma escala terminal, de onde decampariam sem demora; o √ļltimo pouso na travessia de um deserto - a Terra", vis√£o apocal√≠ptica assumida pelo narrador atrav√©s do estilo indireto livre [12]. A traves√≠a em Facundo todavia n√£o √© um determinado lugar, e muito menos o mundo, podendo ser qualquer deserto que fique longe de um povoado, lugar abandonado e in√≥spito, o t√≠pico ber√ßo tanto dos profetas como dos bandidos [13]. O pampa, como regi√£o correspondente ao sert√£o euclidiano, diferentemente deste, n√£o tem centro nem ant√≠tese claramente demarcada.

Além de Buenos Aires, há vários outros centros irradiadores do comércio e da cultura, viveiros da civilização, entre os quais merece destaque a vila de San Juan, terra de Sarmiento, descaracterizada porém, no tempo da redação do livro, também pela ação de Facundo Quiroga, à espera de seu verdadeiro dono que é o autor [14]. Por outro lado, a Argentina civilizada, exceto alguns elementos esparsos no país inteiro, está naquele momento, em 1845, no exterior, na emigração, na memória e na projeção; já foi realidade parcial e será realidade plena. E, como dá a entender o autor, há um lugar simbólico para essa memória e projeção, antítese da Argentina barbarizada: o livro que está escrevendo ele mesmo, o mais importante antagonista de Rosas, e é assim que Euclides entende o papel histórico do escritor argentino [15].

Homens

Ambos os livros apresentam vis√£o ambivalente da "plebe rural" semi-selvagem que √© tendencialmente m√£o-de-obra sup√©rflua, entre submissa, vadia e revoltada, atribuindo-lhe propens√£o para a criminalidade e viol√™ncia, mas tamb√©m, diante do onipresente perigo de morte, estoicismo e at√© hero√≠smo, com fa√ßanhas lend√°rias e quase sobrenaturais [16]. Os dois negligenciam os aspectos socioecon√īmicos da condi√ß√£o do homem do campo e da sua inser√ß√£o no clientelismo dominado pelo latif√ļndio, propagando ao contr√°rio uma imagem festiva do gaucho e do ga√ļcho, "um vitorioso jovial e forte" para quem o rodeio √© "uma festa di√°ria" [17], um "fuerte, altivo, en√©rgico" [18]. Em ambos se encontra a id√©ia ao mesmo tempo rom√Ęntica e pequeno-burguesa de que os guardadores de rebanhos no fundo n√£o trabalhariam, pois dariam, diferentemente de suas mulheres, na maior parte do tempo, passeios a cavalo e se divertiriam em festas, o que vale principalmente para o gaucho [19], mas tamb√©m, em grau menor, para "o vaqueiro pregui√ßoso" que "quase transforma o campi√£o que cavalga na rede amolecedora em que atravessa dous ter√ßos da exist√™ncia" [20].

No entanto há também, na visão euclidiana, profundas diferenças entre os dois tipos de moradores do campo, como se pode depreender do cotejo de duas cenas que narram o confronto do homem bárbaro com as forças mais bárbaras ainda da natureza:

[...] Algunos minutos despu√©s, el bramido se oy√≥ m√°s distinto y m√°s cercano; el tigre ven√≠a ya sobre el rastro, y s√≥lo a una larga distancia se divisaba un peque√Īo algarrobo. Era preciso apretar el paso, correr, en fin, porque los bramidos se suced√≠an con m√°s frecuencia, y el √ļltimo era m√°s distinto, m√°s vibrante que el que le preced√≠a.

Al fin, arrojando la montura a un lado del camino, dirigi√≥se el gaucho al √°rbol que hab√≠a divisado, y no obstante la debilidad de su tronco, felizmente bastante elevado, pudo trepar a su copa y mantenerse en una continua oscilaci√≥n, medio oculto entre el ramaje. Desde all√≠ pudo observar la escena que ten√≠a lugar en el camino: el tigre marchaba a paso precipitado, oliendo el suelo y bramando con m√°s frecuencia, a medida que sent√≠a la proximidad de su presa. [...] En efecto, sus amigos hab√≠an visto el rastro del tigre y corr√≠an sin esperanza de salvarlo. El desparramo de la montura les revel√≥ el lugar de la escena, y volar a √©l, desenrollar sus lazos, echarlos sobre el tigre, empacado y ciego de furor, fue la obra de un segundo. La fiera, estirada a dos lazos, no pudo escapar a las pu√Īaladas repetidas con que, en venganza de su prolongada agon√≠a, le traspas√≥ el que iba a ser su v√≠ctima. ¬ĎEntonces supe lo que era tener miedo¬í¬†- dec√≠a el general don Juan Facundo Quiroga, contando a un grupo de oficiales este sucesso [21].

√Ä noite, a su√ßuarana trai√ßoeira e ladra, que lhe [ao sertanejo] rouba os bezerros e os novilhos, vem beirar a sua rancharia pobre. √Č mais um inimigo a suplantar. Afugenta-a e espanta-a, precipitando-se com um ti√ß√£o aceso no terreiro deserto. E se ela n√£o recua, assalta-a. Mas n√£o a tiro por que sabe que desviada a mira, ou pouco eficaz o chumbo, a on√ßa, ¬Ďvindo em cima da fuma√ßa¬í √© invenc√≠vel. O pugilato √© mais comovente. O atleta enfraquecido, tendo √† m√£o esquerda a forquilha e √† direita a faca, irrita e desafia a fera, provoca-lhe o bote e apara-a no ar, trespassando-a de um golpe [22].

O sertanejo, diferentemente do gaucho, não foge da "suçuarana", que corresponde ao tigre argentino, não se esconde medroso numa árvore, como faz o herói dos pampas, ele, pelo contrário, procura, desafia e esfaqueia a fera, para proteger o lar e o gado. Difícil saber se o autor brasileiro concebeu esta cena como réplica direta à cena-chave de Facundo, da qual citamos dois trechos, episódio seminal que introduz a biografia do personagem principal, narrando o seu nascimento a partir do medo. De qualquer forma, essa façanha, apresentada como ato quase costumeiro na vida do sertanejo, understatement hiperbólico do escritor brasileiro, se insere na estratégia discursiva do autor de comparar dois tipos de guardadores de gado, representantes da civilização do couro, concedendo certa superioridade ao vaqueiro do sertão. A contrapartida do caudilho argentino não é determinado líder canudense e muito menos o próprio Conselheiro, cuja valentia é sublimada e transfigurada em fé e abnegação, mas o simples caboclo, quase um anti-herói, o sertanejo como tipo, porém mais brabo, mais corajoso, mais lutador do que o mais valente, o mais perigoso, o mais temível dos gauchos, que é o próprio protagonista sarmientino.

O ga√ļcho aparece duplamente como ant√≠poda do canudense: primeiramente como termo de compara√ß√£o; em segundo lugar como inimigo, uma vez que grande parte do ex√©rcito brasileiro era composto de rio-grandenses que sempre tiveram participa√ß√£o desproporcional na vida militar do pa√≠s, at√© hoje em dia [23]. A freq√ľente caracteriza√ß√£o do sertanejo conselheirista, na imprensa da √©poca, como "jagun√ßo", ou seja, bandido, pistoleiro, capanga, aproximando-o ao significado de gaucho malo, no fundo √© uma cal√ļnia inventada por latifundi√°rios e jornalistas, que Euclides parece n√£o ter nenhuma hesita√ß√£o em adotar, pelo menos no in√≠cio da campanha.

Do ga√ļcho, Euclides tem uma imagem amb√≠gua. Por um lado, apresenta-o como menos b√°rbaro, mais refinado, mais ostensivamente her√≥ico, mais pr√≥ximo da civiliza√ß√£o do que o sertanejo visto quase como o seu primo bruto, selvagem, primitivo, inferior na escala barb√°rie¬Ėcivilidade. A natureza do sert√£o, mais selvagem, mais dura e impiedosa do que a do pampa, no entanto tem vantagens, pois obriga o homem a ser ex√≠mio lutador: "O jagun√ßo √© menos teatralmente her√≥ico; √© mais tenaz; √© mais resistente; √© mais perigoso; √© mais forte; √© mais duro" [24]. Por outro lado, o ga√ļcho se caracteriza por um modo de matar pessoas que, copiado no abate do gado, bestializa tanto o matador como a sua v√≠tima: a degola, fio condutor da trama nos dois livros aqui contemplados. Ele pode ser mais civilizado do que o sertanejo, no entanto ou talvez por isso mesmo √© mais cruel e ajuda a barbarizar ainda mais o sert√£o. Diferentemente das guerras civis na Argentina por√©m, na guerra de Canudos esse m√©todo pr√©-moderno de homic√≠dio √© praticado em nome da civiliza√ß√£o, contra prisioneiros intimados cinicamente, antes de serem trucidados, a gritar um "viva √† Rep√ļblica" [25].

Facundo e Conselheiro, importantes l√≠deres de massas rurais, t√™m pouco em comum. O primeiro √© ambicioso, ganancioso, l√ļbrico, brutal, col√©rico, viciado em jogos de azar, por√©m um l√≠der militar genial, capaz de gestos generosos, √≥timo conhecedor do povo, que o teme e o admira, um Napole√£o desgarrado nos llanos e nos pampas. Em outras condi√ß√Ķes, num pa√≠s civilizado, poderia ter sido um estimado estrategista ou estadista, embora, pelo menos na apresenta√ß√£o pol√™mica de Sarmiento, n√£o tivesse projeto pol√≠tico, faltando-lhe educa√ß√£o e controle social por parte de institui√ß√Ķes que possam regulamentar o seu poder.

O Conselheiro, na imagem euclidiana, √© o seu ant√≠poda em quase tudo, sendo menos her√≥i e dominador do que representante, quase encarna√ß√£o da comunidade de Canudos, da popula√ß√£o do sert√£o todo, e emiss√°rio do poder divino. Se Ant√īnio Mendes Maciel se extingue atrav√©s da desgra√ßa amorosa, "fulminado pela vergonha" do incidente "algo rid√≠culo" [26], ele depois renasce como Ant√īnio Conselheiro, pregador e l√≠der popular. A sua ascend√™ncia sobre o povo √© de car√°ter religioso e moral, mas tamb√©m socioecon√īmico, pois atua como redistribuidor de renda para os moradores mais necessitados de Canudos, aspecto negligenciado por Euclides. Se o Conselheiro tem pouca visibilidade para o leitor e at√© para os soldados que podem contempl√°-lo de perto s√≥ como morto, isso tamb√©m vale para o autor, mas nem sempre para o narrador, que se permite alguns olhares diretos para o chefe de Canudos e l√≠der do sert√£o. Este exerce o seu poder de modo quase im√≥vel e silencioso, fugidio, e, embora seja ele o personagem mais importante do livro, n√£o √© propriamente o seu protagonista, como Facundo no livro que leva o seu nome no t√≠tulo. O Conselheiro afigura-se-nos menos como agente e her√≥i do que como sofredor e renunciador, na defini√ß√£o de Roberto DaMatta, encarna√ß√£o da f√©, abnega√ß√£o e perseveran√ßa, homem de transi√ß√£o para um mundo melhor [27].

A motiva√ß√£o de Facundo n√£o tem nada de religioso, ele parece uma for√ßa natural, sendo o seu atraso de certa forma anterior √† fase religiosa da humanidade que j√° seria um certo progresso √©tico e civilizat√≥rio [28]. Se o tipo ideal, no sentido weberiano, que est√° por tr√°s de Ant√īnio Conselheiro √© exatamente o conselheiro, forma superior do beato, leigo particularmente devoto e orientador do povo, aquele que est√° por tr√°s de Facundo √© o gaucho malo. Facundo n√£o conhece nenhuma solidariedade, n√£o funda nem fam√≠lia, nem associa√ß√£o, nem comunidade, nem cidade. N√£o cria, s√≥ destr√≥i. Quanto ao controle dos afetos e instintos, tanto o Conselheiro quanto Rosas s√£o bem mais civilizados do que o l√≠der dos pampas, na acep√ß√£o de Norbert Elias [29]. Rosas, sim, tem um projeto sociopol√≠tico, √© sedent√°rio, tem uma capital, vive por uma comunidade, a na√ß√£o, e por uma causa, o federalismo e o nacionalismo, embora de modo deturpado e cruel, na vis√£o do autor.

Os dois autores por√©m se assemelham no intuito n√£o s√≥ memorial√≠stico mas civilizador dos seus livros, em que se afirmam como explicadores e preceptores de suas na√ß√Ķes, como "conselheiros" de sua gente.

Lutas

Os dois enredos s√£o basicamente constitu√≠dos pela hist√≥ria de uma guerra civil entre as for√ßas do atraso e as do progresso, imbricada com a biografia de importante l√≠der de massas rurais, abominado pelos adeptos da civiliza√ß√£o, com a vit√≥ria final destes √ļltimos, a que pertencem os narradores, e com a morte do mau her√≥i a que √© concedida nesse momento, no entanto, uma quase apoteose, principalmente no livro euclidiano, contrariando as anteriores condena√ß√Ķes.

S√≥ que, se em Os sert√Ķes a morte do Conselheiro e o fim da campanha de Canudos de 1897 praticamente coincidem, o livro saindo cinco anos depois, em Facundo h√° uma diferen√ßa de 17 anos entre a morte do protagonista, em 1835, e o t√©rmino do regime de Rosas em 1852, sendo a narra√ß√£o do meio, de 1845. O autor argentino, quanto √† constru√ß√£o do enredo, hesita portanto entre dois desenlaces, um que termina com o assassinato de Facundo no passado, dez anos antes da reda√ß√£o do relato, e outro que narra sucintamente a historia posterior, prolongando-a em considera√ß√Ķes pol√≠ticas at√© o futuro, at√© a almejada e pressagiada queda de Rosas: "Por la puerta que deja abierta al asesinato de Barranca-Yaco, entrar√° el lector, conmigo, en un teatro donde todav√≠a no se ha terminado el drama sangriento" [30]. A magnanimidade para com o inimigo sendo mais f√°cil depois da vit√≥ria, Euclides, principalmente como narrador, menos como autor pol√≠tico, pode enaltec√™-lo mais do que Sarmiento, para quem o Facundo morto continua perigoso no Rosas vivo.

Nos dois livros a história é encenada, mas no caso de Canudos a própria realidade vem ao encontro de sua literarização e, principalmente, de sua representação como espetáculo. Pois fica evidente que a guerra de Canudos preenche, aproximativamente, vários requisitos do drama clássico, as unidades do lugar, do tempo, do enredo. A unidade do tempo talvez seja menos patente no caso da guerra de Canudos, já que esta durou bem mais de um dia, exatamente onze meses, tendo porém início, meio, fim, diferentemente das intermináveis guerras civis da Argentina, algo informes e intransparentes, sem claros contornos cronológicos. Essa mesmice, demarcação e nitidez do lugar e do tempo ajudam a memória coletiva, ajudam a imaginação, ajudam tanto a narrativa organizadora e reflexiva do historiador assim como a narrativa evocadora do escritor. Não é exagero dizer que o livro euclidiano é, não obstante os seus fortes traços épicos, construído como um drama em cinco atos [31].

A intenção de aproximar o Facundo da tradição épica fica assinalada logo no início pela típica invocação, desta vez porém não de uma musa, de algum deus ou herói, como reza a tradição, mas de um defunto que conhece por dentro a paisagem e o povo dos pampas:

¬°Sombra terrible de Facundo, voy a evocarte, para que, sacudiendo el ensangrentado polvo que cubre tus cenizas, te levantes a explicarnos la vida secreta y las convulsiones internas que desgarran las entra√Īas de un noble pueblo! T√ļ posees el secreto: ¬°rev√©lanoslo! [32]

O autor esconjura um dem√īnio, o seu arquiinimigo que curiosamente se torna um aliado na busca da verdade hist√≥rica e como fonte de inspira√ß√£o narrativa. O autor o obriga a servi-lo na obra de evoca√ß√£o e interpreta√ß√£o da alma do povo argentino, das guerras civis e da pol√≠tica nacional, dando-lhe em troco aquilo que o povo j√° lhe concedeu: a imortalidade [33]. Trata o antagonista vencido como este tratou o tigre apunhalado, apoderando-se de suas for√ßas, como tamb√©m se apodera da tradi√ß√£o oral popular. O autor aparece, aqui j√°, como l√≠der, pois dialoga com Facundo morto em nome da sua plat√©ia, da Argentina antirrosista, congregada no pronome da primeira pessoa do plural. Escusado dizer que Euclides, apesar de toda a pretens√£o liter√°ria, come√ßa o seu livro, √† primeira vista pelo menos, como autor puramente cient√≠fico e historiogr√°fico, sem ap√≥strofes e invoca√ß√Ķes, sem dialogar diretamente com vivos e muito menos com mortos.

As duas quase-epop√©ias nacionais se complementam de modo singular, pois pertencem, ao n√≠vel do enredo e dos deslocamentos no espa√ßo, a modelos diferentes, arquet√≠picos, ambos prefigurados em Homero. Pois Facundo, constru√≠do no seu n√ļcleo narrativo como um romance de aventuras, tem alguma analogia com a trama da Odiss√©ia, sendo o seu her√≥i ao mesmo tempo um Ulisses, astuto e forte, embora tamb√©m covarde e sanguinolento, que vagueia pelos pampas, e pretendente ileg√≠timo de uma Pen√©lope coletiva, ou seja da Na√ß√£o argentina. O verdadeiro Ulisses entretanto, o pr√≥prio Sarmiento, banido da p√°tria, com algumas interrup√ß√Ķes, durante mais de duas d√©cadas, parecido ao her√≥i hom√©rico, erra pelo mundo, lutando para sobreviver e para reconquistar sua p√°tria-esposa mais ou menos fiel, lutando principalmente mediante o livro que estamos analisando. Depois de muitas aventuras e percal√ßos, narrados tamb√©m em outros livros - por exemplo em Viajes, de 1849, e Campa√Īa del ej√©rcito grande, de 1852 - ele consegue voltar. Facundo √© um epis√≥dio da odiss√©ia do autor que come√ßou com o seu primeiro ex√≠lio no Chile, em 1831, e que s√≥ terminar√° em 1852, com a queda de Rosas, e de certa forma em 1855, quando o autor se instala em Buenos Aires, no seio da Na√ß√£o com a qual renova e consuma o himeneu. Essa uni√£o com a p√°tria se manifesta numa carreira pol√≠tica brilhante, em que vai galgando os mais altos cargos, chegando em 1868 √† presid√™ncia, impens√°vel sem o Facundo e o caudilho hom√īnimo ao qual por outro lado confere imortalidade, quase uma rela√ß√£o de troca de favores entre personagem e autor.

Os sert√Ķes pelo contr√°rio segue a certa dist√Ęncia o esquema da Il√≠ada, os conselheiristas desempenhando o papel dos troianos e os soldados o dos gregos, uma guerra de s√≠tio de meses, mas com antecedentes de d√©cadas, entre os quais o rapto de uma Helena sertaneja, a esposa do Conselheiro, seduzida por um soldado, ato ileg√≠timo que desencadeou, ao n√≠vel da narrativa, as peregrina√ß√Ķes de Ant√īnio Mendes Maciel e sua transfigura√ß√£o em Ant√īnio Conselheiro, l√≠der espiritual da popula√ß√£o sertaneja. O adult√©rio √© importante mola do enredo, constituindo um dos principais pressupostos da guerra que se trava entre a comunidade fundada pelo marido tra√≠do e os "colegas" do sedutor, s√≥ que, diferentemente da epop√©ia grega, a posse da raptada n√£o √© motivo da guerra, j√° que s√£o os raptores que atacam a comunidade chefiada pelo ex-marido da raptada, juntando um segundo crime ao primeiro. Os raptores ganham a guerra e nunca devolvem a raptada cujo destino fica desconhecido, n√£o interessando mais aos dois partidos beligerantes. Se a viola√ß√£o dos direitos por agentes do aparelho do Estado levou os vitimados a sua auto-organiza√ß√£o, nem essa sa√≠da √© permitida [34].

N√£o falta a interven√ß√£o de poderes ol√≠mpicos, em Os sert√Ķes quase s√≥ do lado do ex√©rcito: grupos e partidos pol√≠ticos, a imprensa nacional e internacional, os intelectuais, a ind√ļstria b√©lica europ√©ia, os bancos ingleses, ainda que estes √ļltimos n√£o apare√ßam no livro. A "Tr√≥ia de taipa", como a chama o pr√≥prio Euclides, s√≥ tem Deus como aliado de fora, e alguns deuses pr√©-ol√≠mpicos, principalmente a Terra e as serras cicl√≥picas, o que pelo visto n√£o √© suficiente. Em Facundo, a Civiliza√ß√£o, como inst√Ęncia superior, est√° teoricamente do lado de Sarmiento e dos unit√°rios, mas na pr√°tica as pot√™ncias europ√©ias fazem uma esp√©cie de Realpolitik, colaborando com Rosas, o que o autor explica como falta de informa√ß√£o da parte daquelas.

Estilos e p√ļblicos

J√° vimos que os estilos dos dois livros t√™m muito em comum: a presentifica√ß√£o sensorial, com √™nfase na descri√ß√£o de pain√©is e narra√ß√£o de cenas que se gravam facilmente na mem√≥ria do leitor, a refer√™ncia √† hist√≥ria europ√©ia como padr√£o comparativo, express√£o da tend√™ncia de explicar a realidade inc√≥gnita da Am√©rica Latina atrav√©s de compara√ß√Ķes e analogias com a hist√≥ria e literatura do Velho Mundo que fornece os par√Ęmetros interpretativos, por exemplo, atrav√©s de met√°foras como "Tebas del Plata" ou "Tr√≥ia de taipa" [35]. No uso da erudi√ß√£o e dos recursos po√©ticos por√©m Sarmiento √© menos radical, menos transgressivo e exacerbado, mais contido, s√≥brio e moderado do que o escritor brasileiro, o que se explica em parte pela diferen√ßa do momento liter√°rio, bem antes dos exageros do cientificismo e do parnasianismo, como tamb√©m pela finalidade mais pragm√°tica do seu texto. Euclides √†s vezes pouco se preocupa com a inteligibilidade dos seus relatos, observa√ß√Ķes e reflex√Ķes, porque a fun√ß√£o est√©tica nele ganha autonomia bem maior do que no autor argentino, embora a crescente dist√Ęncia da posteridade em rela√ß√£o aos fatos relatados tenda a relativizar esses diferentes graus de literariedade entre as duas obras.

Para evidenciar diferenças estilísticas e compositórias, nada melhor do que exemplificá-las em trechos comparáveis:

Al sur, y a larga distancia, limitan esta llanura arenisca los Colorados, montes de greda petrificada, cuyos cortes regulares asumen las formas más pintorescas y fantásticas: a veces es una muralla lisa con bastiones avanzados, a veces, créese ver torreones y castillos almenados en ruinas [36].

A Serra do Cambaio √© um desses monumentos rudes. Certo ningu√©m lhe pode enxergar geom√©tricas linhas de cortinas ou parapeitos bojando em redentes circuitados de fossos. Eram piores aqueles redutos b√°rbaros. Erigiam-se √† t√™mpera dos que os guarneciam. E a dist√Ęncia, indistintos os ressaltos das pedras e desfeitos os vincos das quebradas, o conjunto da serra incute, de fato, no observador, a impress√£o de topar, de s√ļbito, fraldejando-a, subindo por elas, em patamares sucessivos e estendidas pelas vertentes, as barbac√£s de velh√≠ssimos castelos, onde houvessem embatido, outrora, assaltos sobre assaltos que os desmantelaram e alu√≠ram, reduzindo-os a mont√Ķes de silhares em desordem, mal aglomerados em enormes hemiciclos, sucedendo-se em renques de plintos, e torres, e pilastras truncadas, avultando mais ao longe no aspecto pinturesco de grandes colunatas derru√≠das... [37]

Comparando as duas descri√ß√Ķes de serras ao sul de importantes vilas do interior, La Rioja e Canudos, ambas associadas com Jerusal√©m, revelam-se afinidades e diversidades entre os estilos: a frase euclidiana pode ser lida como amplia√ß√£o, grada√ß√£o, intensifica√ß√£o e dramatiza√ß√£o barroquizante da frase correspondente do predecessor argentino.

Nos dois livros, a fun√ß√£o informativa e referencial, portanto, √© complementada e √†s vezes sobrepujada pelas fun√ß√Ķes expressiva, po√©tica e apelativa, sendo as conota√ß√Ķes talvez mais importantes do que as denota√ß√Ķes. Facundo √© mais panflet√°rio, mais apelativo, mais diretamente voltado para a pol√≠tica, ao passo que Os sert√Ķes lan√ßa m√£o, num grau muito maior do que o "modelo" argentino, do discurso erudito, acad√™mico, principalmente do das ci√™ncias exatas ao qual Sarmiento, o autodidata do interior, tinha pouco acesso e para o qual esse homem impetuoso talvez nem tivesse a necess√°ria paci√™ncia e meticulosidade, embora em princ√≠pio o apreciasse muito. O seu estilo √© menos met√≥dico, mais descontra√≠do, embora altamente art√≠stico, cheio de ap√≥strofes, interjei√ß√Ķes, perguntas ret√≥ricas. O autor coqueteia, como Euclides tamb√©m, com o car√°ter rude do livro, "obra tan informe" [38], conseq√ľ√™ncia do clima de combate em que foi escrito e dos temas de que trata. Assemelha-se a um grande di√°logo com um p√ļblico imaginado, o que demonstram os freq√ľentes apelos ao leitor, que Sarmiento, sem muitos rodeios, pretende captar, agitar e empolgar, valendo-se menos da erudi√ß√£o acad√™mica do que da cultura geral, da ret√≥rica rom√Ęntica de tipo hugoano, amalgamada com a fala cotidiana de intelectuais e populares, citadinos e gauchos, pondo em segundo plano a factualidade hist√≥rica [39]. Beira o perigo, sem incorr√™-lo realmente, de aborrecer o leitor com a repetitividade de sua argumenta√ß√£o e sua falta de humor, ou de cair at√© no rid√≠culo com seu hiperbolismo, seu ergotismo, sua vaidade desenfreada.

Euclides da Cunha, no seu requisit√≥rio, seu discurso de defesa e acusa√ß√£o, necessariamente persuas√≥rio, lan√ßa m√£o de uma ret√≥rica mais sofisticada, embora tamb√©m de apar√™ncia rude, motivo de certa coqueteria do pr√≥prio autor que chama o seu estilo de "algo b√°rbaro" [40]. A √™nfase dada √† fun√ß√£o po√©tica, mesmo nos trechos cient√≠ficos da primeira parte, intitulada "A Terra", tende a fazer dos meios ret√≥ricos uma finalidade em si e compromete volta e meia a sua comunicabilidade, ao p√īr no segundo plano as fun√ß√Ķes referenciais e apelativas [41]. A pompa estil√≠stica e "opul√™ncia ret√≥rica" [42] contrastam curiosamente com a secura do meio descrito, muito diferente, por exemplo, de Vidas secas, de Graciliano Ramos, em que a aridez da terra e do povo sertanejo corresponde ao car√°ter √°rido e lapidar do estilo.

Tudo isso aumenta, naturalmente, as tens√Ķes entre a vertente referencial e a vertente po√©tica dentro de Os sert√Ķes, que portanto se apresenta, em compara√ß√£o com seu hom√≥logo argentino, mais met√≥dico e ao mesmo tempo mais fantasioso, mais controlado e mais apaixonado, mais cient√≠fico e por√©m mais marcado esteticamente. Seu livro est√° sob alta tens√£o, podendo fracassar a todo momento, ser pulverizado pela comicidade involunt√°ria do pathos, pela aspira√ß√£o √† grandiosidade, ao sublime, pelos exageros desmedidos, pelo pedantismo acad√™mico, pelas incoer√™ncias composit√≥rias e ideol√≥gicas, pela grandiloq√ľ√™ncia, pelas cita√ß√Ķes ou alus√Ķes erradas, ou simplesmente pela sua incompreensibilidade. Tens√£o que se traduz por in√ļmeras met√°foras e antonom√°sias arrojadas [43], tomadas n√£o raras vezes das ci√™ncias exatas, uma enxurrada de ox√≠moros e ant√≠teses, de repeti√ß√Ķes e sin√īnimos. Como o seu "colega" argentino, tamb√©m Euclides soube, excetuando-se poucas frases mal-sucedidas, contornar aqueles perigos. Cabe para eles uma frase de Theodor W. Adorno: "Grandes obras s√£o aquelas que t√™m sorte em seus pontos mais duvidosos" [44]. Monumentalizando o sert√£o e o sertanejo num memor√°vel conjunto de pain√©is dram√°ticos o pr√≥prio texto euclidiano vira monumento, imponente, her√≥ico e intoc√°vel, como constatou Gilberto Freyre [45].

Esses dois textos fundamentais e fundacionais, visando ao autodescobrimento nacional, h√≠bridos, violentos, op√Ķem-se a uma classifica√ß√£o f√°cil, transgredindo os limites entre g√™neros liter√°rios e √°reas do saber, podendo ser provisoriamente considerados ensaios geogr√°ficos, antropol√≥gicos e sobretudo historiogr√°ficos parcialmente romanceados, dramatizados, poetizados e sobretudo altamente ret√≥ricos [46]. H√° elementos de discursos solenes e teatrais de rememora√ß√£o e acusa√ß√£o em ambos os livros que pedem n√£o s√≥ para ser lidos mas para ser ouvidos, ou pelo menos para ser imaginados acusticamente com toda a sua faustosa eloq√ľ√™ncia e sonoridade, oralidade em que ecoa a ret√≥rica cl√°ssica e barroca, bastante presente no ensino e na vida p√ļblica do s√©culo XIX [47]. Dirigem-se n√£o apenas ao p√ļblico letrado de seus pa√≠ses, no caso de Sarmiento inclusive aos leitores dos pa√≠ses vizinhos de fala espanhola, nomeadamente aos argentinos exilados e aos chilenos, mas tamb√©m √† comunidade de homens ilustrados do mundo civilizado em geral. Talvez os dois textos aqui contemplados estejam entre os primeiros livros latinoamericanos concebidos para entrarem na literatura universal [48]. Se os escritos dos viajantes estrangeiros foram estudados avidamente como modelos de pesquisa e de representa√ß√£o, os autores das terras americanas escreviam tamb√©m com a esperan√ßa, secreta ou n√£o, de ajudar a Europa a entender melhor o novo mundo, sendo portanto a sua interpreta√ß√£o tarefa comum de letrados aut√≥ctones e europeus. Al√©m disso, para todos os pa√≠ses jovens ou atrasados, a Europa, principalmente Paris, era o juiz est√©tico e intelectual, quem era reconhecido l√°, era reconhecido em toda parte, o que fazia da capital francesa um trampolim para carreiras nas Am√©ricas [49].

A poesia do espaço "incivilizado"

Aproxima os dois autores tamb√©m a rom√Ęntica √™nfase no car√°ter quase liter√°rio e po√©tico da pr√≥pria realidade selvagem, da natureza, da sociedade rural, atrasada, patriarcal, dram√°tica, multicolor, violenta, o seu folclore, a singularidade e heroicidade de alguns dos seus representantes. Esse mundo b√°rbaro, que naquela √©poca estava aos poucos entrando em extin√ß√£o, por si s√≥ j√° seria po√©tico, teatral, tr√°gico, at√© musical; ou pelo menos se prestava para a representa√ß√£o art√≠stica, exige-a de certa forma, convida e quase obriga os autores a descobrirem a sua poeticidade, a descrev√™-la e a enaltec√™-la. Pois ambos recorrem √† velha met√°fora do mundo como livro, como escrita a ser lida ou decifrada pelos escritores [50]. A Hist√≥ria √© um livro cient√≠fico, principalmente para Euclides e, mais ainda, um livro po√©tico, exigindo dupla leitura portanto. Por outro lado, essa realidade n√£o √© apenas poesia, ela tamb√©m produz poesia, atrav√©s dos seus cantadores populares que a tematizam e interpretam, sendo ela duplamente po√©tica, como sujeito e como objeto.

Existe, pues, un fondo de poesía que nace de los accidentes naturales del país y de las costumbres excepcionales que engendra. La poesía, para despertarse, [...] necesita el espectáculo de lo bello, del poder terrible, de la inmensidad, de la extensión, de lo vago, de lo incomprensible [...].

A selvageria √© uma das suas condi√ß√Ķes:

La soledad, el peligro, el salvaje, la muerte! He aquí ya la poesía [...]. De aquí resulta que el pueblo argentino es poeta por carácter, por naturaleza [51].

Se todo argentino √© poeta, √© porque todo argentino √© gaucho, poderia ter dito Sarmiento, do mesmo modo que Euclides declarava todo sertanejo vaqueiro e dava a entender que o sertanejo era, no fundo, o brasileiro por excel√™ncia [52]. Esses tipos √©tnicos e sociais a serem superados, transformados ou at√© eliminados na realidade social, foram estilizados como prot√≥tipos de suas na√ß√Ķes no plano simb√≥lico. Euclides concordaria, embora menos enfaticamente, no que se refere √† idoneidade do sertanejo para entrar na literatura. Cita longamente a poesia dos cantadores do sert√£o, assim como as lendas sugeridas pela pr√≥pria conforma√ß√£o do terreno, por exemplo quando descreve as "cidades encantadas" que teriam impressionado "frios observadores do Instituto Hist√≥rico e Geogr√°fico Brasileiro". Atribui ao assalto do filho de Macambira √† matadeira "delineamentos √©picos" [53]. E depois de narrar aquele epis√≥dio, o autor o apresenta como adapta√ß√£o de uma narra√ß√£o oral do povo, dentro e fora de Canudos, incluindo o pr√≥prio ex√©rcito:

Estes e outros casos - exagerado romancear dos mais triviais sucessos - dando √† campanha um tom impressionante e lend√°rio, abalavam a opini√£o p√ļblica da velha capital e por fim a de todo o pa√≠s [54].

Portanto, os dois escritores cultos registram, comentam e continuam a produ√ß√£o dos seus "colegas" r√ļsticos, os poetas e cantadores populares, condenados ao desaparecimento junto com a cultura a que pertencem. N√£o houvesse os autores eruditos da cidade, a bronca cultura rural seria esquecida, de modo que tanto Sarmiento como Euclides, entoando-lhe um canto de cisne, asseguram-lhe a sobreviv√™ncia no imagin√°rio nacional. Pois se o progresso com a comercializa√ß√£o e a burocratiza√ß√£o da sociedade promovem a urbaniza√ß√£o, a educa√ß√£o, o bem-estar, a seguran√ßa, a moda, se acabam com dureza das condi√ß√Ķes de vida e a rudeza do trato, com a depend√™ncia do homem em rela√ß√£o aos poderes naturais e ao seu culto cheio de supersti√ß√Ķes, tamb√©m acabam com a poeticidade do mundo, acabam com o seu mist√©rio e o seu encanto. O fim da viol√™ncia como praxe "normal" nas rela√ß√Ķes sociais √© uma faca de dois gumes, pois o estado de guerra faz parte da poeticidade dos espa√ßos "incivilizados" e, nos √ļltimos cem anos tamb√©m, da sua filmicidade. √Č sobretudo na guerra, elo entre a civiliza√ß√£o e a barb√°rie, que esta subsiste dentro da civiliza√ß√£o, j√° que um ex√©rcito sem tra√ßos b√°rbaros seria condenado √† derrota, e at√© a guerra mais civilizada nunca deixa de ser profundamente b√°rbara, n√£o havendo guerra sem crime de guerra. Para Hegel, a guerra √© o evento por excel√™ncia que mobiliza intelectual e emocionalmente uma na√ß√£o, sendo portanto mat√©ria bruta e for√ßa motriz da cria√ß√£o de epop√©ias, g√™nero privilegiado em que se articulam as aspira√ß√Ķes de uma coletividade, id√©ia que nos parece estranha hoje em dia, depois de um s√©culo cruento e eivado de guerras [55].

Os nossos autores enquanto pensadores sociais e pol√≠ticos naturalmente encaram essa aus√™ncia pr√°tica da lei, da ordem e do bem-estar - essa enxurrada de desmandos dos poderosos, rebeli√Ķes, repress√Ķes, crimes, guerras civis, massacres, cat√°strofes naturais - como males a serem superados, provas do atraso, motivos de vergonha. Mas enquanto escritores √©picos pensam ou, antes, sentem de modo diferente, pois adivinham ou consideram que as defici√™ncias na domina√ß√£o da natureza, na administra√ß√£o e no policiamento de regi√Ķes selvagens ou campestres, verdadeiros "homizios" [56], evitam a rotina, a regularidade, a monotonia do cotidiano. A falta de justi√ßa e seguran√ßa d√° ampla margem de manobra aos chamados homens fortes, aos caudilhos e tiranos, mas tamb√©m aos her√≥is e profetas, uma fauna de her√≥is invi√°veis e sup√©rfluos em √°reas civilizadas: prato feito para os literatos. Assim como a agricultura com suas plantas cultivadas precisa da biodiversidade de √°reas selvagens, parece que a cultura letrada tamb√©m precisa da reciclagem com sociedades e manifesta√ß√Ķes culturais pr√©-modernas, "incivilizadas". O Estado de direito, com seu monop√≥lio da viol√™ncia, e a sociedade do bem-estar dispensam o hero√≠smo, cujo desaparecimento assinala geralmente um progresso civilizat√≥rio. Ai daquela sociedade que precisa de her√≥is, dizia Bertolt Brecht. Onde h√° policiamento e seguran√ßa, n√£o h√° grandes homens, onde h√° bombeiros, servi√ßo de sa√ļde, seguro social, lanternas nas ruas, correio, sistema de transporte, hospitais, escolas e centros de lazer, paz interna e externa, onde as necessidades b√°sicas s√£o satisfeitas, onde tudo √© previsto e onde se remedeia logo o imprevisto, os her√≥is s√£o dispens√°veis, os santos e profetas tamb√©m, e os poetas √©picos, preocupados com o grandioso, o memor√°vel e o sublime, se n√£o desaparecem, s√≥ podem falar de culturas passadas ou "primitivas".

Uma das mais elucidativas reflex√Ķes sobre a rela√ß√£o entre a hist√≥ria social e g√™neros √©picos se encontra em Hegel, num trecho da Est√©tica em que distingue as √©pocas her√≥icas ou pelo menos aristocr√°ticas, o contexto social e cultural das epop√©ias, da "atual situa√ß√£o prosaica", referindo-se assim √† sociedade civil burguesa do seu tempo que se oporia a uma representa√ß√£o ou transfigura√ß√£o po√©tica em tom elevado, √©pico ou sublime. Na moderna sociedade organizada pelo Estado e outras institui√ß√Ķes, cada indiv√≠duo, mesmo um pr√≠ncipe, est√° preso por uma correla√ß√£o de for√ßas, est√° submisso a uma ordem econ√īmica e pol√≠tica, cujas institui√ß√Ķes limitam a sua liberdade de a√ß√£o. "A acidentalidade da exist√™ncia exterior se transformou numa ordem firme e segura da sociedade civil e do Estado, de modo que agora a pol√≠cia, os tribunais, o ex√©rcito, o governo do Estado assumem o lugar das metas quim√©ricas que se propunha o cavaleiro". A epop√©ia tornando-se invi√°vel, surge o romance moderno, a que faltaria "a situa√ß√£o originalmente po√©tica do mundo da qual surge a aut√™ntica epop√©ia" [57]. Como a epop√©ia e, ainda que em grau menor, a trag√©dia entram em decl√≠nio na modernidade, que n√£o abre espa√ßo para her√≥is, a prosa de fic√ß√£o, ou seja, o romance, passa a ser a express√£o mais adequada da emergente sociedade burguesa, embora, conforme os c√Ęnones vigentes at√© quase meados do s√©culo XIX, ele seja considerado, oficialmente, quase g√™nero menor [58].

Nas margens do mundo civilizado por√©m ainda existem elementos tanto dos per√≠odos her√≥icos da Antig√ľidade como da Idade M√©dia, principalmente em tempos de guerra, quando se abrem espa√ßos para o surgimento de indiv√≠duos fortes, com ampla margem de a√ß√£o, que conseguem marcar e moldar a realidade ainda n√£o inteiramente prosaica, organizada de modo que os seus protagonistas, desbravadores, guerreiros, pregadores possam reassumir algumas atitudes dos antigos her√≥is, cavaleiros e santos. Nessas √°reas distantes em rela√ß√£o √† civilidade urbana os nossos dois autores acreditam poder satisfazer a sua rom√Ęntica saudade pelo antigo e pelo aut√™ntico, pelas origens, pelo primordial, pelo n√£o-moderno, pelo singelo, pelo id√≠lico, pelo maravilhoso, pelo patriarcal. O fasc√≠nio europeu pela Am√©rica Latina se deve tamb√©m √† imagem de desmesura, grandiosidade, hiperbolismo, incomensurabilidade e sublime que ela desperta nos forasteiros desde os descobrimentos. O homem civilizado √†s vezes se cansa de s√™-lo, de ter que domar os seus instintos, de ter que aceitar toda uma complicada aparelhagem de regras e normas objetivas, de se comportar de modo sensato e racional, jugos para as paix√Ķes, para a subjetividade e a espontaneidade, para os ego√≠smos e a solidariedade, para os afetos de um modo geral. Essa insatisfa√ß√£o, fortalecida por leituras rousseaunianas e rom√Ęnticas, talvez seja express√£o da desconfian√ßa, nos dois autores, de que nesses valores pr√©-burgueses e pr√©-modernos existe algo cuja perda iminente ser√° lamentada e que vale a pena preservar na mem√≥ria coletiva. Parecem sentir ou pressentir o mal-estar na civiliza√ß√£o de que fala Freud, e a decep√ß√£o com o desencantamento com a fria objetividade do mundo moderno de que fala Max Weber, mal-estar esse que √© mais impl√≠cito no autor argentino, mais expl√≠cito no brasileiro.

O choque entre dois mundos e dois graus de civiliza√ß√£o, um legitimado pela raz√£o tendencialmente determinista e o outro pela emo√ß√£o meio rom√Ęntica do autor e dos seus leitores, gera uma vis√£o tr√°gica da hist√≥ria nos dois autores aqui contemplados, tragicidade impl√≠cita em Sarmiento, manifesta e n√≠tida em Euclides, visto que ele √© bem mais c√©tico em rela√ß√£o ao progresso e √† civiliza√ß√£o. Uma colis√£o tr√°gica s√≥ √© poss√≠vel quando entre os campos opostos h√° certa igualdade de legitima√ß√£o e dignidade moral¬† [59]. Conceder tragicidade √†s personifica√ß√Ķes da barb√°rie equivale a elevar, dignificar, transfigurar os her√≥is vencidos, condenados pelo discurso ilustrado dos mesmos autores, e constitui uma cr√≠tica impl√≠cita √† civiliza√ß√£o.

O cronista Machado de Assis assinalou claramente, no seu tom semi-ir√īnico, a idoneidade do movimento de Canudos como assunto liter√°rio:

Jornais e telegramas dizem dos clavinoteiros e dos sequazes do Conselheiro que s√£o criminosos; nem outra palavra pode sair de c√©rebros alinhados, registrados, qualificados, c√©rebros eleitorais e contribuintes. Para n√≥s, artistas, √© a renascen√ßa, √© um raio de sol que, atrav√©s da chuva mi√ļda e aborrecida, vem dourar-nos a janela e a alma. √Č a poesia que nos levanta do meio da prosa chilra e dura deste fim de s√©culo [60].

E mais adiante caracteriza a modernidade, a sociedade baseada no lucro e na troca, como antipoética, já que os escritores são os aliados naturais dos inconformados com a sociedade administrada e compartimentada:

Os direitos da imagina√ß√£o e da poesia h√£o de sempre achar inimiga uma sociedade industrial e burguesa. Em nome deles protesto contra a persegui√ß√£o que se est√° fazendo √† gente de Ant√īnio Conselheiro. Este homem fundou uma seita a que se n√£o sabe o nome nem a doutrina. J√° este mist√©rio √© poesia [61].

Construção do Estado nacional

Nota-se em ambas as obras um projeto historiogr√°fico ambicioso, visando a um retrato abrangente, cientificamente fundamentado, da natureza e da sociedade de uma regi√£o perif√©rica e, a partir dela, de todo um pa√≠s em forma√ß√£o. Em ambos os casos esse remoto espa√ßo rural e semi-selvagem estava ou parecia em descompasso com a miss√£o civilizat√≥ria do pa√≠s, rebelando-se contra ela. Os dois livros tendem a ser uma esp√©cie de s√ļmula, enciclop√©dia e quintess√™ncia dos tra√ßos caracter√≠sticos de seus pa√≠ses, seus problemas e poss√≠veis solu√ß√Ķes, na sua aspira√ß√£o por se tornarem na√ß√Ķes civilizadas, homog√™neas, abastadas, desenvolvendo amplamente o seu potencial econ√īmico e humano. Nas duas obras, o grande tema subjacente √©, portanto, a constru√ß√£o de um Estado nacional moderno, imposs√≠vel sem a incorpora√ß√£o dos incultos espa√ßos interioranos, t√£o t√≠picos quanto problem√°ticos para a defini√ß√£o daquilo que √© nacional. Pois, o interior pode ser incivilizado, mas ele √© t√≠pico e aut√™ntico, mais nacional do que as cidades e o litoral, que s√£o civilizadas, por√©m demasiado internacionalizadas. Se as duas obras aqui contempladas s√£o livros fundadores, isso se deve em parte a essa incorpora√ß√£o do desconhecido e inculto interior e, por outro lado ao fato de satisfazerem a "demanda" de na√ß√Ķes em forma√ß√£o por uma epop√©ia que possam reconhecer como a sua "b√≠blia" cultural e pol√≠tica [62]. A transforma√ß√£o do passado da na√ß√£o em mem√≥ria esteticamente elaborada √© fundamental para evitar a sua descaracteriza√ß√£o e, n√£o √© de se espantar que ambos os livros se tenham tornado lugares de mem√≥ria de suas respectivas na√ß√Ķes [63].

Os dois autores apostaram alto e ganharam. A publica√ß√£o de suas "epop√©ias nacionais" celebrizou-os imediatamente [64]. Embora oriundos da baixa classe m√©dia do interior, longe dos setores urbanos letrados do litoral, foram logo saudados n√£o apenas como grandes literatos, mas como porta-vozes e int√©rpretes m√°ximos de uma regi√£o e da pr√≥pria na√ß√£o, como preceptores da p√°tria [65]. Se a gl√≥ria de Euclides paira acima das lutas partid√°rias, se todas as tend√™ncias ideol√≥gicas se reportam a ele, da extrema direita at√© a extrema esquerda, Sarmiento, autor mais diretamente engajado e posteriormente pol√≠tico atuante, √© mais controvertido; sendo tendencialmente identificado com o ide√°rio da burguesia liberal que volta e meia mudou suas posi√ß√Ķes e alian√ßas, de maneira que a sua recep√ß√£o sempre dependeu at√© certo ponto das vicissitudes da pol√≠tica nacional [66]. Seja como for, os dois livros em quest√£o entraram nos c√Ęnones liter√°rios das suas na√ß√Ķes, como tamb√©m da Am√©rica Latina e do mundo inteiro.

H√° toda uma linhagem de escritores preocupados com a constru√ß√£o da nacionalidade, de Jos√© de Alencar e Jos√© Hern√°ndez a Guimar√£es Rosa e Antonio Callado, que tenderam a mediar essa oposi√ß√£o ao conceber a sua p√°tria basicamente a partir do interior, valorizando as popula√ß√Ķes mesti√ßas, suas formas de conv√≠vio e organiza√ß√£o social, procurando nelas suas inspira√ß√Ķes liter√°rias e combinando-as com a vertente humanista da civiliza√ß√£o. Tanto Euclides como Sarmiento se integram nessas tradi√ß√Ķes e de certa forma as constituem ou pelo menos as enriquecem; eles sentem e adivinham que o rude conterr√Ęneo interiorano √© um tipo condenado √† extin√ß√£o, destino que lamentam, por mais necess√°rio ou, no caso de Sarmiento, at√© desej√°vel que seja. Vale a pena fixar essa cultura b√°rbara, por√©m aut√≥ctone, importante para a constru√ß√£o da nacionalidade, erguer-lhe um monumento, antes que desapare√ßa. Algo dela deve ser preservado, tanto √© que o t√≠tulo do livro sarmientino usa a conjun√ß√£o "y" (na grafia sarmientina "i"), em vez de uma poss√≠vel "o" entre os dois conceitos-chave; ou seja que n√£o se trata de substituir simplesmente a barb√°rie pela civiliza√ß√£o mas de valorizar e fundir as duas, pelo menos no plano simb√≥lico, criando uma cultura e, eventualmente, uma sociedade nova, nem exclusivamente civilizada no sentido europeu, nem americanamente selvagem como foi o Novo Mundo antes da vinda dos europeus e, at√© certo ponto, nos tempos coloniais que perduram em caudilhos como Facundo.

A diferença entre os dois autores, a este respeito, é gradual, pois Euclides gostaria, numa futura civilização nacional, de manter mais traços sertanejos do que Sarmiento em relação aos traços gauchos. Ao povo mestiço do campo, não-aculturado se nega o direito de existir, o que prefigura a futura política de extermínio promovida pelo próprio Sarmiento como homem político; porém o sertanejo de Euclides, embora condenado à extinção pela luta das raças, da qual faz parte a guerra de Canudos, paradoxalmente tem uma grande vocação virtual, pois ele seria a "rocha viva" sobre a qual se poderia construir a nação, sendo ele quase um salvador da Pátria que porém o mata tragicamente. Em Sarmiento ideólogo a salvação vem basicamente do exterior, em Euclides ideólogo ela vem do exterior, mas também do interior, isto é, poderia ou deveria vir de lá. Todavia, nos dois, enquanto escritores, o homem simples do interior é personagem fascinante e indispensável, portador da especificidade nacional.

Cabe ao sertanejo, na forma√ß√£o √©tnica e civilizat√≥ria do Brasil, papel importante, pois prefigura uma ra√ßa mesti√ßa, poss√≠vel base da na√ß√£o nascente, aut√™ntica, aut√≥ctone e civilizada ao mesmo tempo. √Č que um Brasil puramente branco e europeu n√£o s√≥ √© imposs√≠vel, √© at√© impens√°vel. Ou se concebe um Brasil mesti√ßo, ou n√£o se concebe o Brasil, como j√° viu Martius, nos anos quarenta do s√©culo XIX. Na Argentina, por√©m, a id√©ia de pa√≠s branco, n√£o mesti√ßo, basicamente europeu sempre foi e continua sendo miragem difundida e influente, devido √† clara predomin√Ęncia da popula√ß√£o de origem europ√©ia. Sarmiento, diferentemente do seu admirador brasileiro, n√£o considera a mesti√ßagem um grande problema, e muito menos a solu√ß√£o da forma√ß√£o nacional.

Dialética da civilização

Qual √© o rumo da Hist√≥ria? Como represent√°-la? Como explicar a barb√°rie? A principal caracter√≠stica da hist√≥ria √© a marcha inexor√°vel da civiliza√ß√£o na sua luta contra o seu contr√°rio. A barb√°rie, por mais fecunda que seja poeticamente e por mais necess√°ria que seja militarmente [67], n√£o deixa de ser preocupante, podendo ser, quando n√£o controlada, um empecilho para o progresso. Euclides assume, √† primeira vista pelo menos, a atitude isenta e objetiva do cientista √† procura da verdade, pesquisando a ess√™ncia por tr√°s das apar√™ncias, as causas profundas por baixo das causas imediatas, as leis naturais e sociais por tr√°s dos fen√īmenos, para organizar e classificar as suas in√ļmeras e meio ca√≥ticas impress√Ķes. Em √ļltima an√°lise, assume a atitude de um historiador, "um narrador sincero" que escreve para aquela divindade secularizada que √© a Hist√≥ria, prefigurando o ju√≠zo da posteridade, representada por futuros historiadores, de maneira que escreve quase sub specie aeternitatis. O leitor vai percebendo que as ci√™ncias exatas e a historiografia n√£o se contradizem, mas que est√£o intimamente ligadas, n√£o apenas devido √† doutrina da influ√™ncia do meio sobre a sociedade e do condicionamento da evolu√ß√£o cultural pela evolu√ß√£o gen√©tica, da hist√≥ria humana pela hist√≥ria natural. As duas vinculam-se por analogia e correspond√™ncia, gra√ßas √† poetiza√ß√£o da linguagem, servindo a natureza como prefigura√ß√£o da hist√≥ria, entremeada de cat√°strofes, e sendo a vida social caracterizada por met√°foras naturalistas, de modo que n√£o √© de maneira nenhuma sup√©rflua a primeira parte do livro intitulada "A Terra".

Por outro lado, como cronista e historiador, Euclides √©, dir-se-ia algumas d√©cadas depois nas ci√™ncias sociais, uma esp√©cie de "observador participante", de car√°ter predominantemente emp√≠rico no meio dos soldados e oficiais, seus companheiros desde a Escola Militar, e de modo antes imagin√°rio entre os sertanejos que quase s√≥ conheceu indiretamente, atrav√©s de textos ou relatos orais de outras testemunhas, ou observando-os de longe, entrevistando-os como prisioneiros condenados √† morte, vendo-os mortos. Essa empatia n√£o √© apenas uma quest√£o de temperamento, mas tamb√©m programa, porque aparece no mote, tomado em Hippolyte Taine no fim da "Nota Preliminar" de Os sert√Ķes, o que modifica de certa forma sua atitude ol√≠mpica de autor que escreve para futuros historiadores e para o ju√≠zo da posteridade [68]. Euclides sofre e se alegra e se irrita com seus personagens, menos ostensivamente e menos unilateralmente do que o seu predecessor do Rio da Prata, cuja est√©tica da empatia tamb√©m se ap√≥ia em autoridade francesa, com posi√ß√£o mais rom√Ęntica, mas n√£o diferente na subst√Ęncia. Esse envolvimento emocional com os personagens permeia, relativiza e at√© domina o discurso l√≥gico-hist√≥rico, a come√ßar pela nota preliminar, at√© o fim do livro; ele n√£o impede a busca da verdade, mas a favorece. A cr√≠tica √† civiliza√ß√£o como progresso instrumental que homogeneiza o mundo, atropelando todas as alteridades, esbarra volta e meia na afirma√ß√£o da necessidade dessa mesma civiliza√ß√£o do ponto de vista cient√≠fico, sem que haja qualquer media√ß√£o ou pondera√ß√£o entre as dicotomias do dilema. Manter as peculiaridades regionais e nacionais significaria dificultar ou impedir a ado√ß√£o da civiliza√ß√£o: "Velar pela originalidade ainda vacillante de um povo [...] equivale quase a impropriar-nos ao rythmo acelerado da civiliza√ß√£o geral" [69]. Note-se, por outro lado, que a cr√≠tica euclidiana √† civiliza√ß√£o como progresso instrumental n√£o invalida ou denuncia a civiliza√ß√£o tout court, ela se baseia ao contr√°rio na civiliza√ß√£o entendida como progresso humanit√°rio, na vaga esperan√ßa de que os sacrif√≠cios exigidos pela primeira beneficiem algum dia a segunda. Assim, ele pode legitimar por exemplo o colonialismo franc√™s na √Āfrica, visto como modelo para miss√£o civilizadora que o Brasil litor√Ęneo exerce no sert√£o, √† qual esta compara√ß√£o confere um estatuto colonial [70].

Sarmiento, por sua vez, concentra todo o mal, ou seja, a barb√°rie em uma pessoa, Facundo, o caudilho do interior, e no tipo humano representado por ele, o gaucho; por√©m, como deixa claro na introdu√ß√£o, ele visa no fundo outra pessoa, o ditador Rosas, que ainda det√©m o poder na hora em que o livro est√° sendo escrito. Por isso o autor argentino n√£o v√™ motivos para criticar a ferocidade da luta contra o l√≠der do atraso, o inimigo da civiliza√ß√£o. O bem e o mal est√£o claramente delimitados e distribu√≠dos, pois o exilado argentino no Chile tem uma boa consci√™ncia na sua campanha jornal√≠stica e liter√°ria contra os gauchos, dos quais ele se considera v√≠tima, e sabemos que as v√≠timas sempre t√™m raz√£o. Em 1845, Sarmiento n√£o pode ter certeza ainda de que pertencer√° aos vencedores da Hist√≥ria, embora Facundo j√° tenha morrido, por trai√ß√£o, por culpa de Rosas, como sugere o autor, num trecho altamente dram√°tico que √© quase uma cr√īnica de uma morte anunciada, no cap√≠tulo XIII, o √ļltimo do livro em algumas edi√ß√Ķes, de qualquer forma o ponto alto do ponto de vista √©pico: "¬°¬°¬°Barranca-Yaco!!!" Esse desenlace, talvez o √ļnico lance verdadeiramente her√≥ico do protagonista, o transfigura num ser imortal, demonizado e glorificado pelo relato do autor inimigo, de modo que o leitor, em vez de execrar esse fac√≠nora, finalmente passa a se preocupar com a sua vida e a temer a sua morte, desejando que escape √† tocaia armada. A heroicidade do inimigo derrotado √© velho lugar comum de toda literatura de guerra, pois a admira√ß√£o pelo vencido enaltece tamb√©m o vencedor ao passo que o triunfo sobre um inimigo fraco e covarde ou o menosprezo pelo inimigo morto acarretariam pouca honra. J√° em Homero, os Troianos, depois de vencidos, s√£o apresentados quase como vencedores morais e, os principais art√≠fices da vit√≥ria grega, Agamenon e Ulisses, t√™m que pagar caro por ela, Aquiles j√° tendo morrido antes.

A situa√ß√£o de Euclides √© moralmente mais inc√īmoda e intrigante do que a de Sarmiento no seu ex√≠lio. O autor brasileiro, mais de meio s√©culo depois, como oficial reformado e membro da comitiva do ministro da guerra, esteve do lado dos poderosos, dos vencedores, dos autores de um crime n√£o justific√°vel com os alegados crimes anteriormente cometidos pelas v√≠timas. Embora, ainda v√°rios anos depois da luta, tome repetidas vezes o partido da civiliza√ß√£o [71], por outro lado denuncia o ex√©rcito como "multid√£o criminosa e paga para matar", cujas atrocidades n√£o sabe explicar satisfatoriamente [72]. Se lhe parecia vi√°vel interpretar os crimes dos sertanejos atrav√©s do darwinismo social e do evolucionismo da √©poca, os crimes da oficialidade branca, do governo vencedor, da civiliza√ß√£o europ√©ia que mandou os seus canh√Ķes Whitworth, Canet e Krupp e da qual os soldados brasileiros foram "mercen√°rios inconscientes", n√£o podiam ser imputados √† mesti√ßagem, mas √† pr√≥pria Civiliza√ß√£o. Esta, j√° no come√ßo do livro, na "Nota preliminar", aparece como sujeito hist√≥rico, impelido, por sua vez, pela luta de ra√ßas, aquela "for√ßa motriz da Hist√≥ria" [73], nas palavras do soci√≥logo polon√™s-austr√≠aco Ludwig Gumplowicz, decifr√°vel como express√£o mistificada da concorr√™ncia capitalista em escala mundial. A "animalidade primitiva" [74], na cada vez mais pessimista vis√£o euclidiana, √© atributo do g√™nero humano e n√£o apenas do homem pr√©-moderno, n√£o-europeu ou mesti√ßo; o homem faz parte da natureza vista numa perspectiva darwinista, ele √© feroz seja troglodita, seja moderno. O car√°ter desumano do g√™nero humano instrumentaliza a civiliza√ß√£o e √© instrumentalizado por ela no combate ao suposto n√£o-civilizado, expulso da na√ß√£o. A id√©ia do progresso tende a inverter-se, pois em Canudos os b√°rbaros se verificam menos b√°rbaros do que os civilizados com sua barbaridade apoiada pela tecnologia moderna. O centro da barb√°rie parece identificar-se cada vez mais com a capital do pa√≠s:

A rua do Ouvidor valia por um desvio das caatingas [...]. E a guerra de Canudos era, por bem dizer, sintom√°tica apenas. O mal era maior. N√£o se confinara num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral. O homem do sert√£o, encourado e bruto, tinha parceiros porventura mais perigosos [75].

Pode-se vislumbrar nos dois autores uma impl√≠cita dial√©tica da civiliza√ß√£o, como geradora dos seus pr√≥prios opostos, muito embrion√°ria em Sarmiento em que se desenrola ao n√≠vel liter√°rio, no sentido de um desencanto, bastante n√≠tida em Euclides que a v√™ tamb√©m ao n√≠vel social e pol√≠tico, pois para ele a civiliza√ß√£o engendra a sua pr√≥pria ant√≠tese: uma barb√°rie moderna, mais perigosa e desumana do que a barb√°rie pr√©-moderna, e que s√≥ pode ser superada por meio da pr√≥pria civiliza√ß√£o que deve incorporar elementos das combatidas culturas tradicionais. Por outro lado, estas rom√Ęnticas contrapartidas s√≥ t√™m valor, s√≥ podem sobreviver como parte da pr√≥pria civiliza√ß√£o, pois para esta n√£o existe alternativa, dela n√£o se escapa, tampouco como da "arma√ß√£o de ferro" de Max Weber √† qual no fundo √© id√™ntica [76]. S√≥ √© poss√≠vel, eventualmente, humaniz√°-la, atrav√©s dos seus pr√≥prios elementos humanistas que prometem justi√ßa, Estado de direito e bem-estar e atrav√©s de elementos das culturas subjugadas do interior da Am√©rica Latina. Mas mesmo em Euclides, essa almejada concilia√ß√£o entre Civiliza√ß√£o e Barb√°rie no sert√£o √© mais fic√ß√£o do que realidade, pois a oposi√ß√£o n√£o se resolve ao n√≠vel da realidade, a tese e a ant√≠tese n√£o levam a nenhuma s√≠ntese, a n√£o ser ao n√≠vel da representa√ß√£o est√©tica. A concilia√ß√£o acontece no livro, ela √© o livro [77].

A indigna√ß√£o e o protesto de Euclides permanecem ate√≥ricos, acient√≠ficos, inoperantes, s√£o puramente √©ticos e po√©ticos. Nutrem-se da intui√ß√£o de que toda essa vis√£o determinista da hist√≥ria n√£o √© a √ļltima verdade, pelo que protesta com ironia sarc√°stica contra a na√ß√£o que procura levar o sertanejo "para os deslumbramentos da nossa idade dentro de um quadrado de baionetas, mostrando-lhe o brilho da civiliza√ß√£o atrav√©s do clar√£o de descargas" [78]. O que objetivamente vale √© a efici√™ncia na matan√ßa, a "produtividade" do material b√©lico, ou seja, a sua destrutividade. O progresso t√©cnico-militar √© um retrocesso humano, porque a carabina, a metralhadora e o canh√£o s√£o facas potenciadas, cujo efeito atroz √†s vezes n√£o se v√™ de perto, principalmente no caso da artilharia, quando a dist√Ęncia entre os campos beligerantes e a assimetria do armamento geram a possibilidade de os atiradores assistirem √† batalha como a um drama, um espet√°culo ficcional, esteticamente desfrut√°vel, livre de detalhes cruentos e desagrad√°veis, numa guerra limpa, ilus√£o evocada criticamente em Os sert√Ķes. O engenheiro, personagem emblem√°tico da Civiliza√ß√£o industrial, se torna espectador que contempla a partir do quartel-general a efic√°cia mortal da sua engenhosidade. Se a faca representa um est√°gio artesanal de matan√ßa, os canh√Ķes marcam o seu est√°gio industrial, numa guerra em que a barb√°rie pr√©-hist√≥rica se funde com a barb√°rie moderna. Se nem aos mortos se concede dignidade, sendo at√© o Conselheiro degolado, uma profana√ß√£o de sepulcro, embora com fins cient√≠ficos, isto √©, para estudos de cranologia, √© l√≥gico o teatro da guerra ser caracterizado como "matadouro" [79], met√°fora mas tamb√©m meton√≠mia que lembra a famosa frase de Hegel sobre a Hist√≥ria como matadouro e sobre a escassez de felicidade nela existente [80].

Se Euclides parece mais velho do que o seu colega argentino, embora os dois tivessem a mesma idade ao escreverem os livros aqui confrontados, √© porque reflete experi√™ncias de mais de meio s√©culo que se desenrolou depois do aparecimento do livro argentino. A civiliza√ß√£o j√° teve tempo de revelar alguns dos seus reversos, principalmente na sua periferia, o que permitiu ao autor brasileiro vislumbrar elementos de uma "dial√©tica do iluminismo", na acep√ß√£o de Adorno e Horkheimer. Em Sarmiento, o interior dominado por Facundo tamb√©m √© caracterizado pelo terror cruento, do qual √© emblem√°tica a degola que tem seu dom√≠nio generalizado na capital e no pa√≠s inteiro pela ditadura de Rosas, permeando o livro todo [81]. Mas o autor argentino n√£o problematiza realmente a g√™nese da viol√™ncia, simplificando-a como conseq√ľ√™ncia do atraso, falta de educa√ß√£o, falta de comunica√ß√£o, falta de progresso. Em momento nenhum ele considera a pr√≥pria civiliza√ß√£o como geradora de viol√™ncia e selvageria, pois ignora, de prop√≥sito ou n√£o, as monstruosidades cometidas em seu nome. De certa forma a sua f√© no progresso √© t√£o ing√™nua quanto a de Candide no conto de Voltaire que acredita viver no melhor dos mundos poss√≠veis [82]. Se Sarmiento tamb√©m pressente tra√ßos b√°rbaros dentro da civiliza√ß√£o, as atribui √† predomin√Ęncia do interior atrasado, do campo b√°rbaro, de formas de organiza√ß√£o primitivas sobre a sociedade urbana.

O que fustiga, por√©m, no regime de Rosas s√£o, sem que tenha consci√™ncia disso, aspectos, embora embrion√°rios, do Estado ditatorial moderno, com terror sistematizado e culto da personalidade, fen√īmenos bem conhecidos do s√©culo XX. Ele denuncia Rosas, o antigo estancieiro e caudilho rural, como b√°rbaro, para n√£o ser obrigado a criticar a pr√≥pria civiliza√ß√£o, sobre a qual alimenta muitas ilus√Ķes. Considera o ditador homem do campo, para n√£o ter que criticar o Estado autorit√°rio, centralizado, racional, assim como a problem√°tica hegemonia da capital sobre o pa√≠s inteiro, prolonga√ß√£o da depend√™ncia do pa√≠s em rela√ß√£o √† economia mundial dominada pela Inglaterra. N√£o viu o car√°ter classista do Estado nem o car√°ter limitado, racista e dependente do seu projeto republicano. Se o Estado nacional civilizado √© por vezes incivilizado e at√© anticivilizat√≥rio, esse defeito n√£o √© extr√≠nseco, como pensava Sarmiento, √© intr√≠nseco como intu√≠a Euclides.

No fundo, Rosas, o ditador, era homem da cidade, da modernidade, da civiliza√ß√£o, e poderia ter dado ao escritor argentino a oportunidade de vislumbrar a barb√°rie dentro da pr√≥pria civiliza√ß√£o. O que lhe turvou a perspic√°cia foi a falta de informa√ß√Ķes e sobretudo a teimosia em equiparar o pol√≠tico urbano ao caudilho campestre, sob o signo comum da barb√°rie gauchesca. Por outro lado, Rosas como personagem principal teria sido bem menos rom√Ęntico e √©pico do que Facundo. Borges tinha toda raz√£o em acentuar a dist√Ęncia entre os dois l√≠deres do Federalismo, s√≥ aparentemente da mesma estirpe, ao desruralizar Rosas, apresentando-o como homem da cidade e da civiliza√ß√£o. Tamb√©m imaginou, com igual raz√£o, que o b√°rbaro Facundo teria apreciado muito o seu retrato no livro que leva seu nome e que se tornou o seu monumento, ainda que escrito por seu inimigo pol√≠tico e ideol√≥gico. Em "Di√°logo de muertos", uma miniatura em prosa, o caudilho dos pampas diz postumamente ao seu aliado e rival:

Rosas, usted no me entendió nunca. [...] A usted le tocó mandar en una ciudad, que mira a Europa y que será de las más famosas del mundo; a mí, guerrear por las soledades de América, en una tierra pobre, de gauchos pobres. [...] A usted le debo este regalo de una muerte bizarra, que no supe apreciar en aquella hora, pero que las siguientes generaciones no han querido olvidar. No le serán desconocidas a usted unas litografías muy primoroas y la obra interesante que ha redactado un sanjuanino de valía [83].

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Berthold Zilly √© professor do Instituto Am√©rica Latina da Universidade Livre de Berlim. Texto originalmente publicado em De sert√Ķes, desertos e espa√ßos incivilizados (Rio de Janeiro: Faperj/Mauad, 2001).

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Notas

[1] Usei as seguintes edi√ß√Ķes: Domingo F. Sarmiento. Facundo: Civilizaci√≥n y barbarie. Barcelona: Biblioteca Ayacucho, 1985 (1. ed. Santiago de Chile, 1845); Euclides da Cunha. Os Sert√Ķes (Edi√ß√£o cr√≠tica de Walnice Nogueira Galv√£o). S√£o Paulo: Brasiliense 1985 (1. ed. Rio de Janeiro, 1902). Sarmiento viveu de 1811 a 1888, Euclides da Cunha de 1866 a 1909. Sobre a hist√≥ria e a fun√ß√£o ideol√≥gica dos conceitos de "civiliza√ß√£o" e "barb√°rie" ver Roberto Fern√°ndez Retamar. "Algunos usos de civilizaci√≥n y barbarie". Havana: Casa de las Am√©ricas, a√Īo XVII, n¬ļ 102, 1977; Norbert Elias. √úber den Prozess der Zivilisation: Soziogenetische und psychogenetische Untersuchungen. 2 v. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1997 (Ed. bras. O processo civilizador - Uma hist√≥ria dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990); e especificamente sobre "barb√°rie" na hist√≥ria colonial Ronald Raminelli. Imagens da coloniza√ß√£o: a representa√ß√£o do √≠ndio de Caminha a Vieira. Rio de Janeiro/S√£o Paulo: Jorge Zahar/Edusp, 1996.

[2] H√° quem negue que Euclides se tenha inspirado em Facundo, como Adelino Brand√£o que explica as numerosas semelhan√ßas entre os dois livros com leituras e preocupa√ß√Ķes id√™nticas ou afins, o que em princ√≠pio √© plaus√≠vel, embora em certos detalhes talvez exagerado (A sociologia d¬íOs sert√Ķes. Rio de Janeiro: Artium, 1996, p. 167); por exemplo, o romance 1793, de Victor Hugo, n√£o pode ter inspirado Sarmiento, visto que s√≥ foi publicado em 1874. Sobre a leitura desse romance por Euclides ver Leopoldo M. Bernucci (A imita√ß√£o dos sentidos: pr√≥gonos, contempor√Ęneos e ep√≠gonos de Euclides da Cunha. S√£o Paulo: Edusp, 1995, p. 25-38) que tamb√©m faz um confronto entre Euclides e Sarmiento, atendo-se a semelhan√ßas estruturais e ideol√≥gicas (Ib., p. 39-50).

[3] Euclydes da Cunha.¬†√Ä margem da hist√≥ria. Porto: Chardron, 1909, p. 168 (a grafia, inclusive dos nomes pr√≥prios, desta e das outras cita√ß√Ķes, √© a das edi√ß√Ķes consultadas).

[4] Euclydes da Cunha. "Academia Brasileira de Letras: Discurso de recep√ß√£o". In: Id.¬†Contrastes e confrontos. Porto: Empr√™sa litteraria e typographica, 1907, p. 347-8. Em¬†√Ä margem da hist√≥ria, no ensaio "Martin Garcia", nome de uma ilha no Rio da Prata, em que Sarmiento localizou sua utopia, Argir√≥polis, Euclides tamb√©m menciona Facundo, elogiando o "espirito glorioso do pensador de Civilizaci√≥n y barbarie", ainda que vislumbre nele uma certa tend√™ncia hegem√īnica para com os pa√≠ses vizinhos, semelhante at√© "ao imperialismo raso de Manuel Rozas". Isso n√£o o impede de dedicar ao escritor argentino frases de grande admira√ß√£o: "Nos ultimos tempos da ditadura de Rozas todos os alentos da nacionalidade desangrada pela Mashorca parecia concentrarem-se na fortaleza moral de um homem. Domingos Sarmiento sobresa√≠a nas crizes da sua terra despedindo os clar√Ķes de suas grandes esperan√ßas, presagos de um proximo amanhecer depois de uma noite nacional de vinte anos" (E. da Cunha, op. cit., 1909, p. 214-5). Ver tamb√©m o cap√≠tulo "Entre utopias e pesadelos: Argir√≥polis, Canudos e as favelas", em¬†Miriam Viviana G√°rate. "Leituras cruzadas: entre Sarmiento e Euclides da Cunha". Tese de Doutorado, Campinas, Unicamp, 1995.

[5] A idéia é antiga, mas a fórmula dos "dois Brasis" é dos anos 50 (ver Jacques Lambert. Os dois Brasis. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976).

[6] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 68; e Cunha, op. cit., 1985, p. 201, onde esse nome aparece com a grafia "Achanti".

[7] Tanto Sarmiento como Euclides mencionam Charette de la Contrie (1763-1796), um l√≠der aristocr√°tico e monarquista da Vend√©ia (Vend√©e), subleva√ß√£o contra-revolucion√°ria que os dois autores confundem com a dos Chouans, numa regi√£o vizinha, na Bretanha, como termo de compara√ß√£o para caracterizar rebeldes latinoamericanos antieuropeus; por√©m, ao passo que Sarmiento pretende caracterizar com essa compara√ß√£o Bol√≠var, pondo este militarmente acima de Charette (Ib., p. 17), Euclides a usa de modo semi-ir√īnico e auto-ir√īnico, para caracterizar a imagem dos conselheiristas na imprensa brasileira da √©poca, que via neles um bando de aliados do partido monarquista. O autor brasileiro se serve ambiguamente da met√°fora da Vend√©ia como designa√ß√£o do movimento de Canudos, adotando-a e rejeitando-a ao mesmo tempo (ver ib., p. 461, 249, 282). Mas Sarmiento tamb√©m est√° cheio de ambig√ľidades ao equiparar implicitamente Bol√≠var e Facundo, por interm√©dio da compara√ß√£o de ambos com Charette, como chefes militares e como express√Ķes das terras americanas. Se o elemento aut√≥ctone e mesti√ßo, base de uma guerrilha eficiente, √© t√£o positivo em Bol√≠var, evidentemente por ser antiespanhol, n√£o pode ser t√£o negativo em Facundo, s√≥ por ser antiunit√°rio, antiliberal, antieuropeu. Por outro lado, essa contradi√ß√£o √© atenuada um pouco pela hip√≥tese de que o antiespanholismo de Bol√≠var √© visto como atitude esclarecida, civilizada, moderna, pois a Espanha da √©poca passava por clerical, monarquista e reacion√°ria.

[8] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 91. O interesse pelas ru√≠nas se deve em parte ao escritor franc√™s Constantin de Volney (1757-1820), viajante pelo oriente pr√≥ximo, arabista, historiador meio rom√Ęntico, meio iluminista e quase materialista, pol√≠tico ligado aos girondinos na Revolu√ß√£o Francesa, autor de Les ruines ou m√©ditations sur les r√©volutions des empires (1791), muito lido na Am√©rica Latina na primeira metade do s√©culo XIX, sob o t√≠tulo Las ruinas de Palmira, livro citado tamb√©m por Sarmiento (ver ib., p. 26). A id√©ia, j√° existente no autor argentino, de que o interior b√°rbaro √© ao mesmo tempo velho e nov√≠ssimo, caduco e embrion√°rio, vetusto e jovem, ru√≠na e in√≠cio permeia mais acentuamente ainda todo o livro de Euclides, sem que ele cite Volney expressamente. Sobre a presen√ßa deste na obra euclidiana ver Francisco Foot Hardman. "Brutalidade antiga: sobre hist√≥ria e ru√≠na em Euclides". Estudos Avan√ßados, S√£o Paulo, USP, jan./abr. 1996, v. 10, n¬į 26, p. 293-310.

[9] Estou me referindo √†s duas primeiras edi√ß√Ķes de Facundo, de 1845 e de 1851, publicadas em Santiago de Chile. O t√≠tulo da primeira √©: Civilizaci√≥n i barbarie. Vida de Juan Facundo Quiroga i aspecto f√≠sico, costumbres i √°bitos de la Rep√ļblica Arjentina. Santiago de Chile, 1845, sendo o da segunda edi√ß√£o quase id√™ntico. Sabe-se que Sarmiento pretendeu americanizar, argentinizar e popularizar o castelhano tamb√©m atrav√©s de uma reforma ortogr√°fica que aplicou nos seus primeiros livros, mas que n√£o vingou. O livro euclidiano, nas tr√™s edi√ß√Ķes que sa√≠ram durante a vida do autor, em 1902, 1903, 1905, sempre manteve o mesmo t√≠tulo: Os Sert√Ķes (Campanha de Canudos) , embora alguns raros editores tenham posteriormente omitido o subt√≠tulo.

[10] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 86.

[11] Depois de voltarem ao Rio, alguns soldados se estabeleceram num morro com o nome sugestivo da Providência, ao lado da estação ferroviária Central do Brasil, denominando-o Morro da Favela, de onde o nome se espalhou virando termo genérico, de modo que aquela favela específica readotou mais tarde o antigo nome de Morro da Providência.

[12] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 237.

[13] Se h√° uma cidade no Facundo compar√°vel, pelo menos minimamente, com Canudos e talvez ainda mais com Monte Santo, √© La Rioja, situada no deserto, ou na sua margem, comparada pelo autor com Jerusal√©m, igual Canudos: "M√°s hacia el oriente, se extiende una llanura arenisca, desierta y agostada por los ardores del sol, en cuya extremidad norte, y a las inmediaciones de una monta√Īa cubierta hasta su cima de lozana y alta vegetaci√≥n, yace el esqueleto de La Rioja, ciudad solitaria, sin arrabales y marchita como Jerusal√©n, al pie del Monte de los Olivos" (Sarmiento, op. cit., 1985, p. 91). Essas llanuras lembram a Palestina mas tamb√©m o sert√£o de Canudos: "El aspecto del pa√≠s es, por lo general, desolado; el clima, abrasador; la tierra, seca y sin aguas corrientes. El campesino hace represas para recoger el agua de las lluvias y dar de beber a sus ganados" (Ib., p. 91). E, como no sert√£o, h√° nos arredores uma altern√Ęncia de terras √°ridas e terras f√©rteis, principalmente no plano espacial, menos no plano temporal das esta√ß√Ķes do ano: "Hay una extra√Īa combinaci√≥n de monta√Īas y llanuras, de fertilidad y aridez, de montes adustos y erizados, y colinas verdinegras tapizadas de vegetaci√≥n como los cedros del L√≠bano" (Ib., p. 92). Sobre o car√°ter m√≠tico e metaf√≠sico do sert√£o ver Fernando Crist√≥v√£o. "A transfigura√ß√£o da realidade sertaneja e a sua passagem a mito (A Divina Com√©dia do Sert√£o)". Revista da USP, n¬ļ 20, dez./jan./fev. 1993-1994.

[14] Em muitos pa√≠ses de coloniza√ß√£o espanhola, devido √† predomin√Ęncia da minera√ß√£o como principal fonte da riqueza e da exporta√ß√£o, os centros irradiadores da civiliza√ß√£o se estabeleceram no interior: Cidade do M√©xico, Bogot√°, Quito, Cuzco, Santiago de Chile, C√≥rdoba, o que ocorreu no Brasil tardia e reduzidamente em Minas Gerais a partir do s√©culo XVIII, e no s√©culo XX em Bras√≠lia. Por isso, na Am√©rica hisp√Ęnica, a dicotomia civiliza√ß√£o¬Ėbarb√°rie n√£o corresponde necessariamente √†quela entre litoral¬Ėinterior.

[15] Ver acima a citação do ensaio "Martín García". In: E. da Cunha, op. cit., 1909, p. 221. Quanto às cidades em Facundo, especialmente a relação entre a iluminista Buenos Aires e a clerical Córdoba, ver Maria Ligia Coelho Prado, "Prefácio à edição brasileira". In: Domingo F. Sarmiento. Facundo: civilização e barbárie. Trad. Jaime A. Clasen. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 32-3.

[16] Ver Walnice Nogueira Galv√£o. As formas do falso: Um estudo sobre a ambig√ľidade no "Grande sert√£o: veredas" (S√£o Paulo: Perspectiva, 1986), sobretudo a 1¬™ parte: "A condi√ß√£o jagun√ßa".

[17] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 182 e 185.

[18] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 34.

[19] Ib., p. 34 e 57.

[20] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 180.

[21] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 80.

[22] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 196.

[23] Lembremo-nos de que o termo brasileiro "ga√ļcho" pode designar n√£o apenas o guardador de gado, montado a cavalo, nos pampas, mas tamb√©m o habitante do Rio Grande do Sul. Entre os dois significados, Euclides n√£o faz uma clara distin√ß√£o, dando a entender que, em Canudos, todos os soldados provenientes daquele Estado eram cavaleiros cuidando do gado, "monarcas das coxilhas" (Ib., p. 408), o que provavelmente corresponde t√£o pouco √† realidade hist√≥rica quanto a apresenta√ß√£o gen√©rica do sertanejo como vaqueiro, tamb√©m montado a cavalo. S√£o pelo menos exageros, estiliza√ß√Ķes enobrecedoras da plebe rural semib√°rbara, para aproxim√°-la √† figura do escudeiro medieval. Na verdade, em Canudos havia poucos cavalos e poucas vacas, visto que a economia da popula√ß√£o pobre do sert√£o se baseava e se baseia at√© hoje principalmente na cabra, genericamente chamada de "bode".

[24] Ib., p. 184.

[25] Ib., p. 535.

[26] Ib., p. 215.

[27] "Malandros e caxias prometem carnavais e paradas. O renunciador promete um mundo novo, um universo social alternativo, como o fez Ant√īnio Conselheiro e, em escala menor, todos os nossos cangaceiros ou bandidos sociais, como foi o caso de Lampi√£o e outros. Ousaria, ent√£o, dizer que tudo indica ser o renunciador o verdadeiro revolucion√°rio num universo social hierarquizante, como √© o caso do sistema brasileiro" (Roberto DaMatta. Carnavais, malandros e her√≥is: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 206).

[28] Se falta religiosidade expl√≠cita em Sarmiento, n√£o falta certa predisposi√ß√£o para tal no meio social e no pr√≥prio autor, o que mostram as numerosas alus√Ķes a paisagens b√≠blicas, ou a antonom√°sia surpreendente segundo a qual o "caudillo argentino es un Mahoma, que pudiera, a su antojo, cambiar la religi√≥n dominante y forjar una nueva", gra√ßas ao seu poder discricion√°rio (Sarmiento, op. cit., 1985, p. 60), e que o protagonista, depois de morto, √© esperado de volta pelo povo como se fosse um ser sobrenatural, quase como um messias (Ib., p. 8). Mais tarde, viajando pelo norte da √Āfrica, o autor at√© ficar√° surpreso com "la semejanza de fisionom√≠a del gaucho argentino y del √°rabe, y mi ¬Ďchauss¬í me lisonjeaba dici√©ndo-me que, al verme, todos me tomar√≠an por un creyente", e at√© gosta da id√©ia de ser "presunto deudo de Mahoma" (Domingo F. Sarmiento. Recuerdos de Provincia. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1991, p. 36). Em terras estrangeiras, Sarmiento curiosamente se identifica com o conterr√Ęneo semib√°rbaro, associado a outro semib√°rbaro, o √°rabe mu√ßulmano. A primeira educa√ß√£o do autor foi toda religiosa; seus primeiros e quase seus √ļnicos professores foram sacerdotes, com os quais certamente tamb√©m aprendeu a predile√ß√£o pela orat√≥ria (ver principalmente o cap√≠tulo "Mi educaci√≥n". In: Ib., p. 172 s.).

[29] Ver N. Elias, op. cit., especialmente v. II, p. 323 s.

[30] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 203. O autor argentino, depois do fim do mau her√≥i, depois do fim da parte descritiva e narrativa que constitui a ess√™ncia do livro, acrescenta dois cap√≠tulos (XIV e XV), em que tece, √† diferen√ßa de Euclides da Cunha que termina o livro com o fim do inimigo principal, considera√ß√Ķes pol√≠ticas, apresentando mais uma caracteriza√ß√£o do ditador Rosas, um balan√ßo do presente e um projeto para o futuro. Futuro do pa√≠s e, nas entrelinhas, futuro do autor que, sem mod√©stia nenhuma, v√™ o seu destino intimamente ligado ao destino da na√ß√£o. Esses √ļltimos dois cap√≠tulos, literariamente talvez os menos bem sucedidos, pouco narrativos, pouco dram√°ticos e pouco po√©ticos, destoam do livro como um todo, sendo-lhe esteticamente alheios. Assim, as opin√Ķes e inten√ß√Ķes pol√≠ticas do autor constituem uma esp√©cie de ep√≠logo ou at√© ap√™ndice, impress√£o fortalecida pelo fato de n√£o constarem na primeira vers√£o publicada em forma de folhetim no Progreso, jornal editado pelo autor no Chile, nem na segunda e terceira edi√ß√£o do livro (ver ib., p. LVIII; e Elizabeth Garrels. "El ¬ĎFacundo¬í como follet√≠n". Revista Iberoamericana, n¬ļ 143, 1988).

[31] Ver a rela√ß√£o das dramatis personae, em Euclides da Cunha. Obra Completa. Org. Afr√Ęnio Coutinho. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, v. II, p. 77-87. A quest√£o da literariedade foi discutida, entre outros, por Luiz Costa Lima (Terra ignota: a constru√ß√£o de "Os sert√Ķes". Rio de Janeiro: Civiliza√ß√£o Brasileira, 1997), que, no entanto, √† procura de uma defini√ß√£o clara, distinta, racionalista de um livro extremamente multidimensional e de alta carga emocional, contesta, em √ļltima an√°lise, o car√°ter liter√°rio de Os sert√Ķes, ou o reduz aos aspectos ornamentais. Sobre a teatralidade de Os sert√Ķes ver Berthold Zilly. "A guerra como painel e espet√°culo: a hist√≥ria encenada em Os sert√Ķes". Hist√≥ria, Ci√™ncias, Sa√ļde - Manguinhos. Rio de Janeiro, Fiocruz, v. V, suplemento, jul. 1998.

[32] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 7.

[33] Ib., p. 8. Sobre a invocação das musas na literatura ocidental ver Ernst Robert Curtius. Literatura européia e Idade Média latina. Trad. Paulo Rónai e Teodoro Cabral. São Paulo: Edusp/Hucitec, 1996, p. 291-311. Em Curtius não há nenhum exemplo de invocação de um ser negativo, inimigo, nefasto, seja imaginário, seja real. Ver também a interpretação em Jens Andermann. Mapas de poder: una arqueología literaria del espacio argentino. Rosario: Beatriz Viterbo Editora, 2000, p. 85-6.

[34] Tanto Os sert√Ķes como Facundo s√£o livros sem amor e quase sem mulheres, a n√£o ser como personagens coletivas ou como v√≠timas. Se h√° um amor nos dois livros, √© o dos autores pela p√°tria. Sobre as mulheres em Os sert√Ķes, ver Jos√© Calasans. "As mulheres de Os sert√Ķes". In: Jos√© Calasans. No tempo de Ant√īnio Conselheiro: figuras e fatos da Campanha de Canudos. Salvador: Aguiar & Souza/Progresso, s.d. [1959], p. 7-23.

[35] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 9; e E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 169 e 231.

[36] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 91.

[37] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 300.

[38] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 19.

[39] Ver as "Notas de Valentín Alsina al libro". In: Sarmiento, op. cit., 1985, p. 255-304, especialmente nota 2.

[40] Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Galotti (Orgs.). Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: Edusp, 1997, p. 119.

[41] As presentes reflex√Ķes sobre as diversas fun√ß√Ķes do texto liter√°rio e de qualquer ato comunicativo devem muito a Roman Jakobson. "Ling√ľ√≠stica e po√©tica". In: R. Jakobson. Ling√ľ√≠stica e comunica√ß√£o. S√£o Paulo: Cultrix, 1969, p. 118-62.

[42] Walnice Nogueira Galvão. "Uma ausência". In: Roberto Schwarz (Org.). Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 51.

[43] Um exemplo famoso √© "centauro apeado", no sentido de "centauro b√≠pede", para caracterizar a impetuosidade da infantaria do Sul, ou seja, de ga√ļchos que lutam sem cavalos na caatinga (E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 417). Vale a pena citar a frase toda: "Mas nos encontros a arma branca aqueles centauros apeados arremetem com os contr√°rios, como se copiassem a carreira dos ginetes ensofregados das pampas". Ali√°s, quanto ao g√™nero gramatical da paisagem ga√ļcha, Euclides vacila entre o pampa e a pampa, talvez por influ√™ncia do espanhol (ver ib., p. 417 e 685). A imagem do ga√ļcho como centauro era corriqueira no tempo do Facundo, de modo que Alberdi, correligion√°rio e rival de Sarmiento, a usou para sugerir a afinidade temperamental deste √ļltimo com os cavaleiros do pampa: "Lo presenta como como un caso t√≠pico de inadaptaci√≥n al orden posterior a la ca√≠da de Rosas. A fuerza de pelear contra la tiran√≠a, no sabe hacer otra cosa. Es un caudillo de la pluma, ¬Ďproducto natural de la Am√©rica despoblada¬í [...]. Libre como el centauro de nuestros campos, embiste a la Academia espa√Īola con tanto denuedo como a las primeras autoridades de la Rep√ļblica" (Alberto Palcos. "Sarmiento". In: Sarmiento, op. cit., 1985, p. 342).

[44] Citado por Roberto Schwarz. "Sobre o amanuense Belmiro". In: R. Schwarz. O Pai de família e outros estudos. São Paulo: Paz e Terra, 1992, p. 11.

[45] Gilberto Freyre. Perfil de Euclides e outros perfis. Rio de Janeiro: Record, 1987, p. 23-4.

[46] Sobre o conceito de livro fundacional ver Doris Sommer (Foundational Fictions: The National Romances of Latin America. Berkeley/Los Angeles: Oxford/University of California Press, 1994), que inclui na sua pesquisa o Facundo, por√©m n√£o Os sert√Ķes.

[47] Ver Roberto de Oliveira Brandão. "Presença da oratória no Brasil do século XIX". In: Leyla Perrone Moisés. O Ateneu: retórica e paixão. São Paulo: Brasiliense/Edusp, 1988. Sarmiento, que diferentemente de Euclides nunca teve a chance de concluir uma formação formal, escolar ou superior, pode ter conhecido essa retórica não só através da leitura de modelos literários latinoamericanos e europeus mas também através da oratória eclesiástica (Sarmiento, op. cit., 1985, p. 318 e 320; e Sarmiento, op. cit., 1991, p. 187 s.).

[48] Os dois autores se empenharam por terem seus livros traduzidos, Sarmiento com √™xito r√°pido, pois dentro de poucos anos sa√≠ram tradu√ß√Ķes do Facundo em franc√™s, ingl√™s e italiano (Sarmiento, op. cit., 1985, p. LIV), ao passo que o livro de Euclides s√≥ foi publicado em outra l√≠ngua depois de sua morte, pela primeira vez na Argentina, em 1938 (Marcia Japor de Oliveira Garcia e Vera Maria F√ľrstenau (Coords.). O acervo de Euclydes da Cunha na Biblioteca Nacional. Campinas/Rio de Janeiro: Editora da Unicamp/Funda√ß√£o Biblioteca Nacional, 1995, p. 17-8). Hoje em dia, a situa√ß√£o parece invertida, sendo o livro de Euclides mundialmente mais lido do que o de Sarmiento, cujas tradu√ß√Ķes est√£o em grande parte esgotadas. √Č de 1923 a primeira tradu√ß√£o para o portugu√™s (ver M. L. C. Prado, op. cit., p. 19). Sobre a r√°pida recep√ß√£o de Facundo nas Am√©ricas e na Europa ver tamb√©m Sarmiento, op. cit., 1991, p. 256 e 260-1. O pr√≥prio Sarmiento considerava a tradu√ß√£o uma atividade central na transfer√™ncia e apropria√ß√£o da civiliza√ß√£o, de modo que a praticava ele mesmo, embora de modo bastante subjetivo (ver ib., p. 264-5; e Florian Nelle. Atlantische Passagen: Paris am Schnittpunkt s√ľdamerikanischer Lebensl√§ufe zwischen Unabh√§ngikeit und kubanischer Revolution [Travessias atl√Ęnticas: Paris no cruzamento de biografias entre a Independ√™ncia e a Revolu√ß√£o Cubana]. Berlin: Tranv√≠a, 1996, p. 156-66).

[49] Sarmiento reivindica um livro sobre a Argentina escrito por um autor cient√≠fico do porte de Tocqueville, mas d√° a entender que ele mesmo tem muito a dizer sobre o seu pa√≠s e a Am√©rica do Sul aos europeus. "A la Am√©rica del Sur en general, y a la Rep√ļblica Argentina sobre todo, le ha hecho falta un Tocqueville, que, premunido del conocimiento de las teor√≠as sociales, como el viajero cient√≠fico de bar√≥metros, octantes y br√ļjulas, viniera a penetrar en el interior de nuestra vida pol√≠tica, como en un mapa vast√≠simo y a√ļn no explorado ni descrito por la ciencia, y revelase a la Europa, a la Francia, tan √°vida de fases nuevas en la vida de las diversas porciones de la humanidad, este nuevo modo de ser, que no tiene antecedentes bien marcados y conocidos" (Sarmiento, op. cit., 1985, p. 9), sendo interessante a reivindica√ß√£o de uma ci√™ncia social t√£o met√≥dica quanto as ci√™ncias naturais; ver tamb√©m as p√°ginas subseq√ľentes. Euclides cumpre de certa forma a reivindica√ß√£o de um estudo cient√≠fico do pa√≠s, pois n√£o s√≥ lan√ßa m√£o das teorias sociais vigentes na Europa, aparentemente com o rigor das ci√™ncias naturais, mas tamb√©m se serve destas mesmas, como viajante e como autor cient√≠fico, fundindo-as com a representa√ß√£o po√©tica e ret√≥rica do tipo ensaiado pelo pr√≥prio Sarmiento naquelas p√°ginas. Mas, al√©m disso, Euclides tamb√©m afirma a necessidade de algum s√°bio europeu um dia explicar eventos como a guerra de Canudos, no plano psicossocial, dando a entender que, quem sabe, ele mesmo, Euclides, j√° cumpriu parte dessa tarefa, s√≥ que em vez da ci√™ncia pol√≠tica ele invoca a psiquiatria social: "√Č que ainda n√£o existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades..." s√£o as √ļltimas palavras de Os sert√Ķes (E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 573). Sobre a import√Ęncia da literatura de viagem para a constitui√ß√£o da fic√ß√£o brasileira ver Flora S√ľssekind. O Brasil n√£o √© longe daqui: o narrador, a viagem. S√£o Paulo: Companhia das Letras, 1990.

[50] "Sejamos simples copistas", diz Euclides, o que pode ser entendido de maneira tr√≠plice: primeiramente, "decifrar" e "transcrever" o "livro" da Hist√≥ria; em segundo lugar, registrar situa√ß√Ķes e acontecimentos como uma esp√©cie de escrevente, secret√°rio, cronista do real; em terceiro lugar, reproduzir, ou seja desenhar, pintar, esculpir verbalmente quadros e cenas que a pr√≥pria realidade oferece ao observador e espectador. De qualquer forma a atividade do autor "copista" est√° oposta √† teoriza√ß√£o e √† especula√ß√£o, j√° que as teorias da √©poca se verificaram pouco id√īneas para captar e analisar os processos sociais no sert√£o (ver E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 178). Sobre a met√°fora da natureza ou da hist√≥ria como livro que o te√≥logo, o s√°bio ou o poeta teriam que decifrar, ver Ernst Robert Curtius. Europ√§ische Literatur und lateinisches Mittelalter (1. ed. 1948). Bern und M√ľnchen: Francke, 1969, p. 306-52; e E. R. Curtius, op. cit., 1996, p. 375-429. No Renascimento e no Barroco estava muito em voga essa met√°fora.

[51] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 40-1.

[52] Ver Berthold Zilly. "Sert√£o e nacionalidade: forma√ß√£o √©tnica e civilizat√≥ria do Brasil segundo Euclides da Cunha". Estudos - Sociedade e Agricultura, n¬ļ 12, abr. 1999, Rio de Janeiro, UFRRJ/CPDA.

[53] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 299 e 476.

[54] Ib., p. 477.

[55] Georg Wilhelm Friedrich Hegel. √Ąsthetik. Org. Friedrich Bassenge. Berlin und Weimar: Aufbau, 1965, v. II, p. 420 s.; e G. W. F. Hegel. Curso de est√©tica: O sistema das artes. Trad. √Ālvaro Ribeiro. S√£o Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 458 s. A viol√™ncia e principalmente a guerra como fonte de inspira√ß√£o po√©tica e de sonhos de salva√ß√£o numa civiliza√ß√£o supostamente decadente √© um dos fios condutores no livro de Schneider, por exemplo, no cap√≠tulo sobre Nietzsche (Manfred Schneider. Der Barbar: Endzeitstimmung und Kulturrecycling [O b√°rbaro: ambiente de fim de √©poca e reciclagem cultural]. M√ľnchen: Hanser, 1997, p. 201 s.). √Č principalmente nos espa√ßos "incivilizados" que a fantasia dos civilizados acredita poder livrar-se das peias da moral civilizada, sendo esses espa√ßos de suma import√Ęncia para a produ√ß√£o po√©tica europ√©ia.

[56] "O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o chapéu, e passa" (Ib., p. 538). Sobre massacres como método de "resolver" conflitos sociais, ver Roberto Pompeu de Toledo. "A teimosa mania de cortar cabeças". Veja, 8/5/1996, p. 154. Sobre a violência na literatura latino-americana ver Ariel Dorfman. Imaginación y violencia en América. Barcelona: Anagrama, 1972.

[57] Ib., p. 567 e 452.

[58] "O romance no sentido moderno pressup√Ķe uma realidade ordenada prosaicamente, e baseando-se nela - tanto com respeito √† vivacidade dos acontecimentos quanto em rela√ß√£o aos indiv√≠duos e ao seu destino -, ele recupera, na medida em que isto √© poss√≠vel nessas condi√ß√Ķes, para a poesia o seu direito de exist√™ncia perdido. Uma das colis√Ķes mais comuns e mais apropriadas ao romance √© por isso o conflito entre a poesia do cora√ß√£o e a prosa adversa das circunst√Ęncias, assim como entre aquela e as conting√™ncias acidentais" (Hegel, op. cit., 1965, v. II, p. 452. A tradu√ß√£o das cita√ß√Ķes √© minha).

[59] Ib., p. 549.

[60] Machado de Assis. A Semana.¬†Rio de Janeiro/S√£o Paulo/Porto Alegre: Jackson, 1937, v. II, p. 134 (cr√īnica de 22/7/1894).

[61] Machado de Assis. A Semana. Org. John Gledson. S√£o Paulo: Hucitec, 1992, p. 401 (cr√īnica de 31/1/97).

[62] √Č um chav√£o chamar Os sert√Ķes de "b√≠blia da na√ß√£o", o que coincide com a defini√ß√£o da epop√©ia por Hegel: "Enquanto tal totalidade original, a obra √©pica √© a lenda [Sage], o livro, a b√≠blia de um povo, e toda grande e importante na√ß√£o tem livros assim absolutamente primordiais, nos quais lhe √© enunciado aquilo que √© o seu esp√≠rito original" (Hegel, op. cit., 1965, v. II, p. 407).

[63] Ver Pierre Nora. "Entre m√©moire et histoire". In: P. Nora (Org.). Les Lieux de M√©moire, v. I, La R√©publique. Paris: Gallimard, 1984; e Regina Abreu. O enigma de "Os sert√Ķes". Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1998.

[64] Ver por exemplo Afr√Ęnio Coutinho. "Os sert√Ķes, obra de fic√ß√£o". In: Euclides da Cunha, op. cit., 1966.

[65] Esta representatividade nacional se reflete, por exemplo, no título do livro de Tulio Halperín Donghi e outros (Orgs.). Sarmiento: Author of a Nation. (Berkeley/Los Angeles/London: University of California Press, 1994). Ver também Ezequiel Martínez Estrada. Radiografía de la pampa. Ed. crítica de Leo Pollmann. Paris/São Paulo: ALLCA XX-Ediciones Unesco/Edusp, 1996, p. 253-6.

[66] Sobre a recep√ß√£o e funcionaliza√ß√£o de Sarmiento pelas correntes ideol√≥gicas na hist√≥ria argentina ver Dieter Reichardt. "Sarmiento¬ís Essay ¬ĎFacundo¬†- Civilizaci√≥n y barbarie¬í in der politischen Auseinandersetzung Argentiniens" [O ensaio de Sarmiento ¬ĎFacundo - Civilizaci√≥n y barbarie¬í nas lutas pol√≠ticas da Argentina]. In: Rolf Kl√∂pfer e outros (Orgs.). Bildung und Ausbildung in der Romania, v. III. M√ľnchen: Fink, 1979.

[67] A hist√≥ria de algumas palavras derivadas do √©timo latino e grego de "b√°rbaro" elucida as ambival√™ncias que sempre acompanharam a atitude dos civilizados em rela√ß√£o √† barb√°rie: pertencem a elas, entre muitas outras, as palavras bravio e brabo, o que n√£o pode surpreender, mas tamb√©m bravo e bravura, prova de que pelo menos no plano militar a barbaridade √© indispens√°vel (ver Ant√īnio Geraldo da Cunha. Dicion√°rio Etimol√≥gico Nova Fronteira da l√≠ngua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, verbete "bravo").

[68] "Estimem o historiador que trate a hist√≥ria como ela o merece, isto √©, como ci√™ncia [...]. Pois ele s√≥ aprecia o verdadeiro absoluto, ele se irrita contra as semiverdades que s√£o semifalsidades, contra os autores que guardam o desenho dos acontecimentos e modificam a sua cor, que copiam os fatos e desfiguram a sua alma: ele quer se sentir como b√°rbaro entre os b√°rbaros, e entre os antigos como antigo". (H. Taine. Essai sur Tite-Live. Paris: Hachette, 1888, p. 30; a tradu√ß√£o √© minha). √Č significativo a cita√ß√£o de Euclides s√≥ come√ßar com as palavras "il s¬íirrite", ficando portanto fora a reivindica√ß√£o de que hist√≥ria seja uma "science" e uma busca do "vrai absolu". Em vez disso, Euclides acentua a necessidade da empatia que em Taine est√° mais bem ao servi√ßo da neutralidade, da proximidade sempre igual do historiador com todos os seus protagonistas e portanto da imparcialidade. N√£o surpreende Sarmiento come√ßar o seu livro, na introdu√ß√£o, com um mote que vai na dire√ß√£o euclidiana, encontrado em outro autor franc√™s, Abel Fran√ßois Villemain, historiador da literatura, pouco conhecido hoje em dia: "Pe√ßo ao historiador o amor pela humanidade ou pela liberdade; a sua justi√ßa imparcial n√£o deve ser impass√≠vel. √Č preciso, pelo contr√°rio, que ele espere, que sofra, ou que esteja feliz com aquilo que narra" (Sarmiento, op. cit.,1985, p. 7; a tradu√ß√£o √© minha). A empatia, uma certa pluriparcialidade √© program√°tica nos dois autores, mas em Sarmiento ela fica, principalmente em rela√ß√£o ao povo e aos inimigos, bastante subliminar, devido ao seu temperamento egoc√™ntrico, partid√°rio, pragm√°tico. Em Euclides ela √© mais generalizada, justa, equitativa, menos partid√°ria, pois a sua compaix√£o √© suprapartid√°ria, estendendo-se a homens de todas as condi√ß√Ķes, plantas, animais, pedras, a todos os seres sofridos e martirizados.

[69] E. da Cunha, op. cit., 1907, p. 297.

[70] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 135.

[71] E. da Cunha, op. cit., 1907, p. 141-68. A "cruzada" √© a da civiliza√ß√£o contra a barb√°rie. A √ļltima frase reza: "[...] o unico significado verdadeiramente civilizador do movimento expansionista das ra√ßas vigorosas sobre a terra, est√° todo em affei√ßoar os novos scenarios naturaes a uma vida maior e mais alta - compensando-se o duro esmagamento das ra√ßas incompetentes com a redemp√ß√£o maravilhosa dos territorios [...]". Sarmiento n√£o pensaria diferentemente, s√≥ que teria menos problemas morais com esse "esmagamento". N√£o √© a primeira nem a √ļltima vez que se veicula a id√©ia do desenvolvimento de um territ√≥rio aceitando-se a elimina√ß√£o da sua popula√ß√£o primitiva, considerada empecilho.

[72] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 538.

[73] Ib., p. 86.

[74] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 538.

[75] Ib., p. 373.

[76] No original alem√£o a famosa f√≥rmula reza: stahlhartes Geh√§use, que significa literalmente "arma√ß√£o, c√°psula, carca√ßa dura como a√ßo", um inv√≥lucro, portanto, em que o homem est√° inexoravelmente preso, met√°fora da coer√ß√£o que a economia capitalista exerce sobre os indiv√≠duos, independentemente de sua aceita√ß√£o ou n√£o (M. Weber. Die protestantische Ethik. M√ľnchen/Hamburg: Siebenstern, 1969, v. I, p. 188).

[77] B. Zilly, op. cit., 1999, p. 37-40.

[78] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 374.

[79] Ib., p. 538.

[80] Esteban Echeverr√≠a, amigo de Sarmiento e unit√°rio como ele, usa esse s√≠mbolo para caracterizar o regime de Rosas, no seu conto-novela El matadero, provavelmente escrito em 1839, publicado s√≥ em 1871, onde "se ilumina la figura del joven vejado [...] por los esbirros del tirano, como la proyecci√≥n simb√≥lica en que avanza el cuadro de costumbres nacionales, dise√Īando una interpretaci√≥n de la lucha entre civilizaci√≥n y barbarie" (Juan Carlos Ghiano. "¬ĎEl Matadero¬í de Echeverr√≠a". In: Esteban Echeverr√≠a. El Matadero. Buenos Aires/Barcelona: Emec√©, 1967, p. 13). H√° quem estabele√ßa uma filia√ß√£o entre El Matadero e o Facundo (ver Roberto Gonz√°lez Echeverr√≠a. "Redescubrimiento del mundo perdido: El Facundo de Sarmiento". Revista Iberoamericana, n¬ļ 143, 1988, p. 385-406).

[81] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 27 e outros trechos.

[82] √Č curioso essa ingenuidade tamb√©m se encontrar em Mart√≠nez Estrada, em pleno s√©culo XX, que atribui a barb√°rie debaixo dos fraques ao car√°ter americano (E. Mart√≠nez Estrada, op. cit., p. 253).

[83] Jorge Luis Borges. "Diálogo de muertos". In: Id. El Hacedor. Obras Completas: 1923-1972. Buenos Aires: Emecé, 1989, v. 1, p. 791. O "sanjuanino", naturalmente, é Sarmiento.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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