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A comunicação numa sociedade desigual

Leandro Ramires Comassetto & Jean Carlos Souza - Setembro 2006
 

Dênis de Moraes. Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006. 246p.

Depois de Por uma outra comunica√ß√£o (Record, 2003), D√™nis de Moraes volta a reunir um time seleto de pensadores da comunica√ß√£o contempor√Ęnea e da revolu√ß√£o informacional e traz a p√ļblico Sociedade midiatizada. O livro, organizado em duas partes ("Cultura tecnol√≥gica e midiatiza√ß√£o" e "Sociedade em rede e muta√ß√Ķes comunicacionais") e 11 artigos, p√Ķe no centro das discuss√Ķes transforma√ß√Ķes e dilemas de nossa √©poca, preocupado em aprofundar as reflex√Ķes sobre o papel e a influ√™ncia da m√≠dia numa sociedade contradit√≥ria, que, ao mesmo tempo em que atinge seu mais alto est√°gio tecnol√≥gico, apresenta desigualdades perturbadoras.

A publica√ß√£o inicia com o artigo do te√≥rico Muniz Sodr√©. "Eticidade, campo comunicacional e midiatiza√ß√£o" prepara o terreno para a discuss√£o que se estabelece ao longo da obra e que diz respeito √†s muta√ß√Ķes sociais provocadas pela m√≠dia e pela realidade virtual. Retomando uma reflex√£o ampliada na teoria "Antropol√≥gica do espelho", o autor desenvolve uma argumenta√ß√£o sociol√≥gica, antropol√≥gica e filos√≥fica sobre o cen√°rio onde agora se constituem e se movimentam os novos sujeitos sociais, um espa√ßo regido pelas neotecnologias e moldado pelo virtual. Mudam as rela√ß√Ķes, mudam valores, muda a consci√™ncia. Est√°-se diante de uma nova ordem cultural. As formas de vida tradicionais s√£o afetadas por uma qualifica√ß√£o de natureza informacional, que chama a aten√ß√£o para a preval√™ncia da forma, do meio sobre o conte√ļdo, conforme j√° diagnosticado por McLuhan ao dar conta do envolvimento sensorial provocado pelas m√≠dias eletr√īnicas. Mas n√£o se trata de um informacionalismo redentor, ao contr√°rio do que talvez tenha dado a entender o te√≥rico da aldeia global. H√° que se considerar aqui a hipertrofia provocada pelas tecnomedia√ß√Ķes que se imp√Ķem ao ethos social, como desconfia Baudrillard e demais cr√≠ticos da cultura tardomoderna. Sodr√© pensa a midiatiza√ß√£o como um novo bios, um novo modo de presen√ßa do sujeito no mundo, e discute como a qualifica√ß√£o cultural resultante desta esfera existencial atua em termos de influ√™ncia ou poder na constru√ß√£o da realidade social. A m√≠dia √© estruturadora ou reestruturadora de percep√ß√Ķes e cogni√ß√Ķes, mas atravessada por injun√ß√Ķes que atuam de modo a atender √† din√Ęmica do mercado globalista. O valor moral resultante desse processo √© fundamentado por uma √©tica material, que d√° conta do indiv√≠duo enquanto consumidor. √Č desta forma que ele alcan√ßa o reconhecimento social.

D√™nis de Moraes retoma uma reflex√£o marxista e discorre sobre o eterno dilema do capital em reduzir ao m√°ximo o tempo de giro da mercadoria. A preocupa√ß√£o recai principalmente sobre a mercantiliza√ß√£o da cultura numa √©poca em que tudo √© feito para o consumo r√°pido, se poss√≠vel, instant√Ęneo, gra√ßas √† enxurrada de m√≠dias que invade as casas e ruas, mentes e cora√ß√Ķes. √Č o que o autor chama de abund√Ęncia rent√°vel, visto que tudo √© coisificado para saciar a voracidade do capital, que imp√Ķe a tirania da velocidade fortuita. Assediadas permanentemente por est√≠mulos e ofertas de toda ordem, as pessoas s√£o engolidas por uma l√≥gica do ef√™mero, que torna cada vez mais breve a dura√ß√£o do prazer e faz o presente parecer passado. O imagin√°rio √© arrebatado pelas novidades incessantemente vomitadas pelas m√≠dias, sempre atentas ao potencial de consumo dos indiv√≠duos. E, nesta dire√ß√£o, a cultura √©, antes de qualquer coisa, neg√≥cio, e os produtos culturais s√£o feitos para o mercado, como Fredric Jameson j√° observara uma d√©cada atr√°s. A tend√™ncia √† especializa√ß√£o, refletida nos produtos segmentados, n√£o corresponde √† valoriza√ß√£o das diversas culturas. Antes de refletir as manifesta√ß√Ķes culturais dos v√°rios povos, a segmenta√ß√£o atende √†s tend√™ncias de consumo de clientelas espec√≠ficas, reavivando f√≥rmulas de colagem e pastiche, em que, na ess√™ncia, tudo muito se parece. Dos best-sellers aos longa-metragens, dos seriados de TV aos games, distribu√≠dos em ritmo alucinante pelos conglomerados que controlam a informa√ß√£o e o entretenimento no mundo globalizado. √Č a l√≥gica do "mais do mesmo". Deleitam-se os consumidores da cultura estandardizada, regados por muita coca-cola ao sabor de Big Macs com batatas fritas. O n√ļmero de informa√ß√£o despejado pelas m√≠dias, e em tal velocidade, √© tanto que se estima que a massa de conhecimento (o que n√£o significa capacidade de pensar) da humanidade cresce 100% a cada cinco anos, devendo dobrar a cada 90 dias dentro de dez a 15 anos. Mas n√£o de maneira uniforme, visto que a disparidade de acesso √†s m√≠dias digitais √© de tal ordem que hoje 19% dos habitantes da Terra representam 91% dos usu√°rios da Internet. Enquanto Europa e Am√©rica do Norte t√™m 64% dos internautas, a √Āfrica responde por menos de 1% e, a Am√©rica Latina, por 6%. Mais grave ainda √© a proced√™ncia do conte√ļdo que corre o mundo. Hollywood det√©m 85% do mercado cinematogr√°fico global, e 77% das programa√ß√Ķes televisivas da Am√©rica Latina prov√™m de conglomerados norte-americanos.

D√™nis de Moraes alerta que n√£o se pode esperar a diversidade dos prazeres sensoriais proporcionados pela Disney ou pelos cinco mil itens anunciados anualmente pela Sony e nem a busca de identidade tem a ver com compras compulsivas. Diversidade e identidade se concretizam com interc√Ęmbio e coopera√ß√£o horizontal entre as culturas de povos, cidades e pa√≠ses, para o que a implanta√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas e medidas reguladoras s√£o imprescind√≠veis.

Para Jes√ļs Mart√≠n-Barbero, n√£o h√° como analisar a comunica√ß√£o sem entender o que aconteceu com o mundo ap√≥s os atentados terroristas ocorridos em 11 de setembro de 2001 e as novas perspectivas abertas pelo F√≥rum Social Mundial de Porto Alegre. Esses dois epis√≥dios s√£o fontes de extrema tens√£o no mundo globalizado, que convive hoje tanto com a desconfian√ßa que leva ao aprofundamento das fronteiras quanto com a potencial subvers√£o contra o sistema dominante patrocinada pelas novas tecnologias da comunica√ß√£o. √Č neste ambiente que a comunica√ß√£o, no come√ßo do novo s√©culo, encontra-se encarcerada entre fortes mudan√ßas e densas opacidades, que derivam da necessidade de uma raz√£o comunicacional que d√™ conta da fragmenta√ß√£o que desloca e descentra, do fluxo que comprime e globaliza e da conex√£o que desmaterializa e hibridiza.

Entre as mudan√ßas e opacidades citadas por Mart√≠n-Barbero, est√£o os efeitos que os processos de globaliza√ß√£o econ√īmica e informacional provocaram sobre as identidades culturais, a educa√ß√£o, o mundo do trabalho, o exerc√≠cio da cidadania e a percep√ß√£o do tempo. S√£o especialmente oportunas as constata√ß√Ķes que o autor faz a respeito das muta√ß√Ķes infligidas pela globaliza√ß√£o √†s identidades culturais. At√© pouco tempo, identidade se confundia com ra√≠zes, ou seja, com costumes, territ√≥rios, tempo longo e mem√≥ria simbolicamente densa. Hoje, a tecnicidade midi√°tica acrescentou √† forma√ß√£o das identidades culturais as migra√ß√Ķes, as redes, os fluxos, a instantaneidade e a fluidez. As ra√≠zes ganharam movimento. √Č claro que a comunica√ß√£o na sociedade globalizada faz-se como eficaz motor da venda de bens simb√≥licos, sustent√°culo para a legitima√ß√£o do consumo de todo e qualquer tipo de mercadoria, sempre no sentido centro-periferia.

Mart√≠n-Barbero alerta ainda que a parafern√°lia midi√°tica criou novos campos de mudan√ßa, que devem ser compreendidos para que se vislumbre como se processam e que efeitos provocam em pontos nevr√°lgicos da sociedade atual, como, por exemplo, a desterritorializa√ß√£o/relocaliza√ß√£o das identidades, as hibrida√ß√Ķes da ci√™ncia e da arte, dos escritos liter√°rios, audiovisuais e digitais e a reorganiza√ß√£o dos saberes desde os fluxos e redes, pelos quais se mobilizam n√£o s√≥ a informa√ß√£o, mas tamb√©m o trabalho e a criatividade. O autor extrai do cen√°rio atual da comunica√ß√£o duas pervers√Ķes e duas oportunidades. As pervers√Ķes est√£o vinculadas √† tend√™ncia de concentra√ß√£o no controle dos ve√≠culos e conte√ļdos que circulam pelas redes mundiais de comunica√ß√£o e nas amea√ßas contra a liberdade de express√£o e informa√ß√£o surgidas a partir do 11 de setembro. As duas oportunidades se baseiam nas possibilidades abertas pela digitaliza√ß√£o, que pode fomentar o aparecimento de uma linguagem comum de dados, que desmonte a hegemonia racionalista do dualismo que at√© agora opunha a raz√£o √† imagina√ß√£o, a ci√™ncia √† arte e o livro aos meios audiovisuais. A segunda oportunidade diz respeito √† configura√ß√£o de um novo espa√ßo p√ļblico e de cidadania. Perigos e promessas de um mundo midi√°tico em que a comunica√ß√£o ganhou o status de estrutura. De um lado, a vis√£o de que a tecnologia √© o motor principal das mudan√ßas que estamos presenciando e experimentando; de outro, um olhar sobre a comunica√ß√£o e a produ√ß√£o de conhecimentos a partir das "re-produ√ß√Ķes" ¬Ė grafia escolhida pelo autor ¬Ė que realizam os receptores com base nos referentes informativos com os quais negociam sentidos.

Guillermo Orozco G√≥mez parte de uma contraposi√ß√£o entre as perspectivas tecnoc√™ntrica e socioc√™ntrica para discorrer sobre as mudan√ßas tecnol√≥gicas que fundamentam a sociedade do conhecimento. O autor assume, de imediato, que se sente mais confort√°vel navegando pelas √°guas do sociocentrismo, at√© porque a maior parte dos problemas vividos dentro do mundo globalizado refere-se mais √† cultura nascida do uso das novas tecnologias do que propriamente das condi√ß√Ķes impostas pela m√°quina. As media√ß√Ķes originadas pelo computador, por exemplo, proporcionam uma nova combina√ß√£o entre c√©rebro e informa√ß√£o, muito mais relevante que a tradicional rela√ß√£o do corpo com a m√°quina. Orozco G√≥mez deixa claro desde o in√≠cio que as mudan√ßas que estamos presenciando no campo da comunica√ß√£o n√£o se devem ao potencial tecnol√≥gico mais recente, mas, sim, √† extensa presen√ßa das m√≠dias e tecnologias nascidas na modernidade. Foi essa sobreposi√ß√£o de novidades tecnol√≥gicas, sempre se somando e raramente se substituindo, que levaram √† transi√ß√£o do paradigma da literalidade ao paradigma da imagem. Essa sobreposi√ß√£o deu origem a um complexo ecossistema comunicativo, que desembocou em des-ordenamentos e destempos, j√° que a rapidez do desenvolvimento tecnol√≥gico n√£o acompanha a sua assimila√ß√£o cultural, nem perceptiva, nem tampouco pol√≠tica. Para o autor, h√° atualmente uma explos√£o de media√ß√Ķes ¬Ė entendidas como processos estruturantes que prov√™m de diversas fontes, incidindo nos processos de comunica√ß√£o e formando as intera√ß√Ķes comunicativas dos atores sociais. Em meio a essa explos√£o, as media√ß√Ķes ligadas √†s institui√ß√Ķes t√≠picas da modernidade, como o Estado e a escola, perderam espa√ßo como orientadores das produ√ß√Ķes de sentido, sendo vorazmente sobrepujadas pela media√ß√£o tecnol√≥gica.

Orozco G√≥mez destaca que uma das mudan√ßas socioculturais mais importantes estimuladas pela media√ß√£o tecnol√≥gica √© o da "audiencia√ß√£o", inst√Ęncia em que a audi√™ncia ganha novos contornos de v√≠nculo entre os atores sociais, de estrutura√ß√£o e de ancoragem no real. Toda a an√°lise do autor converge para o impacto provocado pelo mundo midi√°tico sobre o mundo da educa√ß√£o. Orozco G√≥mez admite que a rela√ß√£o entre esses dois mundos exala mais incertezas do que perspectivas. A tecnologia que privilegia a imagem desgastou a escola enquanto fonte de conhecimento. Ao mesmo tempo, a escola n√£o descobriu ainda que n√£o basta levar as novidades tecnol√≥gicas para dentro das salas de aula para recuperar a aten√ß√£o da sociedade-audi√™ncia. O autor, olhando especialmente para os pa√≠ses latino-americanos, n√£o apresenta uma receita para superar a montanha surgida da erup√ß√£o tecnol√≥gica. Ele apenas sugere que, em meio a grande mudan√ßa de √©poca que vivemos, o melhor a fazer √© continuar debatendo e repensando a educa√ß√£o e a comunica√ß√£o.

O desafio essencial do amanh√£ que prop√Ķe Marc Aug√© no t√≠tulo ("Sobremodernidade: do mundo tecnol√≥gico de hoje ao desafio essencial do amanh√£") passa pelo entendimento dos paradoxos que marcam a momento hist√≥rico atual, rico em esperan√ßas e carregado de contradi√ß√Ķes. O maior dos paradoxos √© o que aponta para um mundo, ao mesmo tempo, unificado e dividido, uniformizado e diverso, desencantado e reencantado. Dimens√Ķes t√£o d√≠spares conseguem ficar lado a lado em fun√ß√£o da interliga√ß√£o planet√°ria proporcionada pelos meios de comunica√ß√£o, que fez com que para todos os indiv√≠duos e lugares o contexto passasse a ser planet√°rio. Essa mudan√ßa de perspectiva √© impactante e leva a tr√™s movimentos complementares, segundo o autor: a) o passar da modernidade, chamada de sobremodernidade; b) o passar dos lugares, que se transformam em n√£o-lugares; c) e o passar do real ao virtual. Aug√© cunha o termo sobremodernidade para dar conta da coexist√™ncia das correntes de uniformiza√ß√£o e particularismos que convivem no mundo atual. A situa√ß√£o sobremoderna amplia e diversifica o movimento da modernidade. Ela √© pautada pela l√≥gica do excesso, que pode ser mensurada a partir dos excessos de informa√ß√£o, de imagens e de individualismo, todos umbilicalmente ligados. Do excesso de informa√ß√£o e de imagens nasce a no√ß√£o de que a Hist√≥ria se acelera, de que o planeta encolhe e de que h√° uma prioriza√ß√£o do tempo sobre o espa√ßo. O excesso de individualismo deriva dos dois excessos anteriores. A exposi√ß√£o cotidiana aos meios de comunica√ß√£o gera indiv√≠duos abstra√≠dos da rela√ß√£o com os outros, que substituem o cara a cara pelo som ou a imagem. Os espa√ßos de circula√ß√£o (auto-estradas, aeroportos, √°reas de servi√ßo em postos de gasolina), os espa√ßos de consumo (hipermercados, cadeias hoteleiras, grandes lojas de departamento) e os espa√ßos de comunica√ß√£o (telas, cabos) s√£o os n√£o-lugares que substituem os lugares.

Na vis√£o de Aug√©, os lugares s√£o espa√ßos em que se podem ler a identidade, a rela√ß√£o e a hist√≥ria. Os n√£o-lugares s√£o espa√ßos em que essa leitura n√£o √© poss√≠vel. Neles, os indiv√≠duos n√£o praticam rela√ß√Ķes sociais duradouras. N√£o se comprometem, praticam a solid√£o acompanhada. Para o autor, a mais importante reflex√£o, no entanto, √© que a envolve o real e o virtual. Constru√≠do principalmente a partir da imagem, o virtual provoca media√ß√Ķes submetidas ao exerc√≠cio midi√°tico. Essa condi√ß√£o leva o indiv√≠duo a ter uma depend√™ncia da imagem e a viver de simula√ß√Ķes do real. Com freq√ľ√™ncia cada vez mais assustadora, a imagem n√£o representa um papel de media√ß√£o e, sim, um papel de legitima√ß√£o do real. A realidade parece n√£o existir enquanto n√£o se traduz em imagem. O autor, entretanto, n√£o assume uma postura pessimista ao fazer essas constata√ß√Ķes. Aug√© sugere que, mesmo diante de for√ßa t√£o avassaladora, algumas recomposi√ß√Ķes simb√≥licas e sociais operar√£o por vias m√ļltiplas e invis√≠veis, fruto dos usos n√£o programados que o homem fez, faz e sempre far√° da tecnologia.

Douglas Kellner parte das an√°lises de Guy Debord para discorrer sobre "a sociedade do espet√°culo" numa era em que a cultura da m√≠dia promove espet√°culos cada vez mais sofisticados para conquistar audi√™ncias e aumentar o poder e o lucro da ind√ļstria cultural. O foco do autor est√° nas produ√ß√Ķes constru√≠das tecnologicamente e disseminadas pela m√≠dia de massa. Perpassa a publicidade, os espet√°culos comerciais, o entretenimento, o esporte, a moda, as artes, a m√ļsica, o erotismo, a arquitetura, a economia, a pol√≠tica. Tudo √© feito para impressionar e vender, √© transformado em mega-evento, do esc√Ęndalo das celebridades √†s guerras arquitetadas sob as lentes das c√Ęmeras e transmitidas pelos canais de jornalismo em tempo integral. Estamos t√£o acostumados ao espet√°culo que nossa aten√ß√£o j√° n√£o responde a est√≠mulos que n√£o se caracterizem como tal. As corpora√ß√Ķes da m√≠dia e os gigantes do mercado sabem disso melhor que ningu√©m, mas tamb√©m sabem os governos, os atores da pol√≠tica e os protagonistas dos movimentos contr√°rios √† hegemonia dominante, que mais sobressaem pelo inusitado de suas a√ß√Ķes e pela publicidade que lhes √© dada que pelas pr√≥prias causas que querem levar a efeito. Estas, ali√°s, parecem desaparecer, fazer cada vez menos sentido, num mundo que s√≥ responde pelo tr√°gico, pelo chocante, pelo maravilhoso que enche os olhos do espectador, mesmo quando √† custa de milhares de vidas.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano fecha a primeira parte do livro dando conta da contradi√ß√£o do mundo. Por um lado, este nunca foi economicamente t√£o desigual, enquanto que, por outro, nunca foi t√£o furiosamente igualador, quando se trata de id√©ias e costumes que se imp√Ķem em todo lugar. O abismo que separa pobres e ricos dobrou em 30 anos, mas, paradoxalmente, h√° uma adora√ß√£o un√Ęnime dos valores da sociedade neoliberal, que oferece o direito de escolher entre coisas id√™nticas. Capitaneada por uma m√≠dia cada vez mais concentrada em grupos poderosos, a comunica√ß√£o vende a id√©ia de um √ļnico mundo poss√≠vel, regido pelos mercados, cuja prega√ß√£o √© o culto ao consumo. A televis√£o transforma em necessidades reais as demandas artificiais que o Norte inventa para uma minoria que consume, enquanto os exclu√≠dos s√£o levados a saciar seus desejos por uma viol√™ncia em expans√£o. Ao mesmo tempo em que √© instigada pela publicidade, a delinq√ľ√™ncia √© espetacularizada pela telinha e torna-se produto tamb√©m. Mas estigmatizada como resultado do fracasso, e n√£o da injusti√ßa, numa sociedade cada vez mais competitiva e n√£o desigual. S√≥ √© pobre quem √© incompetente, prega o discurso dominante. E assim somos condicionados a aceitar como destino uma realidade que nos humilha.

A parte II abre com o artigo de Lorenzo Vilches. O autor faz uma reflex√£o sobre a cria√ß√£o de valor na era das migra√ß√Ķes midi√°ticas e analisa v√°rios casos em que se evidencia a passagem do conceito de produto ou de conte√ļdo cultural para o de imagem corporativa, afirmando que, no novo contexto, sobrevivem as companhias capazes de gerar interesse das m√≠dias, seja na ind√ļstria, na comunica√ß√£o ou no futebol. Ilustrativa √© a contrata√ß√£o de David Beckham pelo Real Madri, em 2003, em que o que est√° em quest√£o n√£o √© exatamente o talento do jogador, mas a estrela midi√°tica que ele representa e cujo glamour permite ganhos suculentos com direitos de imagem. O clube espanhol √© o mais claro exemplo de gest√£o futebol√≠stica em que o objeto n√£o √© exatamente o esporte, mas a compra e ostenta√ß√£o de valores midi√°ticos. Na televis√£o, d√°-se algo parecido. Mais que apostar na qualidade dos produtos que oferece, o ve√≠culo centra for√ßas no marketing e na promo√ß√£o de sua imagem, gerando expectativas que revertam em prest√≠gio. O discurso que acompanha os produtos sempre √© adjetivado, "o melhor do cinema", "o melhor da m√ļsica", e assim por diante. Mas se esfor√ßa tamb√©m o meio para incorporar a seus ganhos novas fontes de financiamento, adicionando para isso recursos adicionais, como o telefone, que, al√©m de servi√ßo b√°sico das sociedades, √© agora tamb√©m objeto imprescind√≠vel para a cria√ß√£o de valor. Sob o discurso da interatividade, as televis√Ķes convertem as liga√ß√Ķes do p√ļblico em milh√Ķes de d√≥lares e devolvem a ilus√£o da participa√ß√£o e a cria√ß√£o de uma expectativa de mudan√ßa para uma vida melhor, como bem denotam os reality shows. A mudan√ßa de vida n√£o proporcionada pela vida real, mas vendida pela televis√£o, tamb√©m √© uma cria√ß√£o de valor. A passagem do anal√≥gico para o digital alterou o valor da fotografia. Mais do que a realidade que representa, o que importa agora √© o tempo em que se move a imagem. Aquela sempre pode ser retocada, melhorada, modificada, mas a distribui√ß√£o n√£o pode esperar. A efic√°cia reside na circula√ß√£o, na distribui√ß√£o imediata, na apresenta√ß√£o em tempo real. √Č ela que satisfaz a pressa do espectador, sempre pressionado pela acelera√ß√£o da oferta. No novo cen√°rio midi√°tico, sobressai-se a internet como lugar onde se constituem e proliferam novos valores. A valoriza√ß√£o das empresas ponto.com, com seus mecanismos de busca, shoppings virtuais e oferta de informa√ß√Ķes e servi√ßos em abund√Ęncia, √© o retrato mais evidente disso. Mas tamb√©m a a√ß√£o comunicativa √© ampliada, a linguagem oral e escrita √© reavivada pelos chats em exerc√≠cios que reinventam a gram√°tica sem perder a efic√°cia, e uma diversidade de vozes nunca antes vista comprova o potencial democr√°tico da rede, que, na opini√£o do autor, j√° exerce uma concorr√™ncia frente √†s m√≠dias tradicionais que vir√° a equilibrar o poder da informa√ß√£o. Para Vilches, a liberdade √© o principal valor da internet.

Da mesma opini√£o compartilha Manuel Castells. Para o autor de A era da informa√ß√£o, a internet √© o meio de comunica√ß√£o local-global mais livre que existe, permitindo descentralizar os meios de comunica√ß√£o de massa. Castells contrap√Ķe-se √† tese do determinismo tecnol√≥gico e diz que sugerir a revolu√ß√£o tecnol√≥gica como respons√°vel por uma √ļnica forma de organiza√ß√£o social poss√≠vel, associada √† lei do mercado e ao processo de globaliza√ß√£o, como vende a ideologia tecnocr√°tica futurol√≥gica, equivale a aceitar que, se utilizadas racionalmente, a ci√™ncia e a tecnologia, por si, seriam capazes de solucionar os principais problemas da humanidade. Ele entende que a disparidade de conhecimento e capacidade cient√≠fica se concentra cada vez mais em termos relativos, por pa√≠ses, por classes, por institui√ß√Ķes e por organiza√ß√Ķes, e levanta que o problema reside no fato de que os efeitos desta revolu√ß√£o sobre a qualidade de vida s√£o apropriados fundamentalmente pelas grandes corpora√ß√Ķes e seus circuitos de distribui√ß√£o. A Internet n√£o √© fruto das corpora√ß√Ķes ou das instru√ß√Ķes burocr√°ticas, mas surgiu do impulso criador e da generosidade pessoal dos inovadores, observa o autor, citando aqui os hackers, os universit√°rios e os milh√Ķes de internautas espalhados pelo mundo. O autor n√£o nega a comercializa√ß√£o que h√° por dentro da rede, nem que esta foi convertida em instrumento essencial para a atividade econ√īmica, mas lembra que a grande massa de fluxos de informa√ß√£o na Internet √© de uso social e pessoal, n√£o comercial. Castells defende o software livre e afirma que o controle tecnol√≥gico privado do software equivale √† apropria√ß√£o privada do alfabeto nas origens da hist√≥ria. Louva as iniciativas dos programas produzidos livremente, sem direito de propriedade intelectual, e elogia, sobretudo, a ado√ß√£o do sistema cooperativo de livre associa√ß√£o de produtores e usu√°rios no processo de inova√ß√£o tecnol√≥gica. Para ele, n√£o √© a concentra√ß√£o que gera a riqueza, mas seu oposto. Por isso, h√° que se cuidar para que n√£o se d√™ um tratamento indevido no que tange ao direito de propriedade intelectual. Encaminhamentos muito restritivos podem, no seu entender, constituir-se em s√©rio obst√°culo ao progresso material e √† qualidade de vida na era da informa√ß√£o.

Pierre Musso d√° um outro vi√©s √† discuss√£o e centra sua an√°lise na interpreta√ß√£o do ciberespa√ßo. Este √© pensado sob um enfoque espiritual, n√£o no sentido doutrin√°rio, mas como a concretiza√ß√£o de um reino de comunh√£o e, quem sabe, de eterniza√ß√£o da vida terrena. Musso diz que o ciberespa√ßo reatualiza uma mitologia do s√©culo XIX, que j√° demonstrara um certo desencantamento com a religi√£o em favor de um deslocamento para a ind√ļstria e as redes t√©cnicas. Aqui, como j√° se deu l√° atr√°s, a Internet, e n√£o mais a estrada-de-ferro, √© a rede que promove a comunh√£o entre os sujeitos, com a diferen√ßa de que liberados do corpo e de territ√≥rios. Neste novo espa√ßo, onde √© permitido ter um lugar e estar em todos ao mesmo tempo, o que conta √© o esp√≠rito, o c√©rebro desenraizado e disposto numa interconex√£o sem fim, onde todos comungam das mesmas possibilidades e t√™m o direito de falar e se fazer ouvir. Agora √© a rede, este c√©rebro coletivo e planet√°rio, que pensa a sociedade e tem o poder de eliminar tudo o que resiste. O ciberespa√ßo dissolve o territ√≥rio, o corpo, a mem√≥ria, o Estado, a pol√≠tica. Utopia? J√° h√° demonstra√ß√Ķes bastantes que n√£o, e que, pelo menos potencialmente falando, a rede t√©cnica permite a comunica√ß√£o, a comunh√£o e a democratiza√ß√£o pela circula√ß√£o igualit√°ria dos homens. Para o autor, o desenvolvimento das redes √© uma revolu√ß√£o pol√≠tica, mas n√£o apenas isso. A rede, a concretiza√ß√£o do ciberespa√ßo, pode ser comparada a uma catedral cuja flecha indicaria n√£o mais o al√©m, mas o futuro terrestre prometido, como j√° antecipara a fic√ß√£o cient√≠fica. O ciberespa√ßo, fruto da fic√ß√£o, torna-se projeto ut√≥pico universal realiz√°vel.

Para Armand Mattelart, se h√° um tema de fato controverso nas discuss√Ķes sobre as tecnologias da informa√ß√£o √© o do regime da propriedade intelectual. O autor fecha o livro condenando os poderes estabelecidos, pol√≠ticos e econ√īmicos, que est√£o na imin√™ncia de provocar um novo distanciamento Norte-Sul, e elogia a resist√™ncia das organiza√ß√Ķes n√£o-governamentais e das redes sociais nessa discuss√£o. Ao perguntar "Para que uma nova ordem mundial da informa√ß√£o?", Matellart chama √† reflex√£o ao lembrar que, no √ļltimo quarto do s√©culo XX, a reivindica√ß√£o de uma "nova ordem" passou do campo da contesta√ß√£o do interc√Ęmbio desigual para feudo dos donos do mundo. H√° que cuidar, portanto, para que a hist√≥ria n√£o se repita. Da√≠ a import√Ęncia da organiza√ß√£o e do envolvimento da sociedade. O autor reitera que os usos sociais das tecnologias s√£o tamb√©m assuntos dos cidad√£os e n√£o s√≥ do determinismo do mercado e da t√©cnica. No que se refere especificamente √† propriedade intelectual, alerta que as regras de gest√£o t√™m ainda muito que evoluir, e o que se pode desejar √© que a din√Ęmica, desta vez, seja dada por uma sociedade civil ampliada, preocupada por inserir a quest√£o da t√©cnica no porvir da democracia.

Sociedade midiatizada √© um livro que discute e ajuda a melhor compreender nossa era, com os questionamentos e as reflex√Ķes necess√°rias para a constru√ß√£o de uma comunica√ß√£o democr√°tica em favor de uma sociedade mais igualit√°ria.

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Este texto foi originalmente publicado em EPTIC - Revista de Economia Política das Tecnologias da Informação e Comunicação, v. VIII, n. 2, maio-ago. 2006.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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