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No limite: darwinismo social e ideologia de controle

Paulo Denisar Fraga - 1999
 

A id√©ia de que o mundo quer ser enganado tornou-se mais verdadeira do que, sem d√ļvida, jamais pretendeu ser.

(Theodor Adorno e Max Horkheimer)

A Rede Globo acabou de apresentar "No limite", seu mais novo sucesso televisivo, na verdade uma vers√£o tupiniquim do programa "Survivor" (Sobrevivente), da CBS americana.

A not√≥ria aceita√ß√£o do programa pelo grande p√ļblico poderia sugerir que esse √© o √ļnico crit√©rio para avali√°-lo, com aplausos. Realmente, como tudo que a ind√ļstria cultural fabrica, "No limite" parece imperiosamente simp√°tico. Mas uma r√°pida an√°lise cr√≠tica do seu conte√ļdo j√° revela o seu car√°ter instrumental, a servi√ßo de formas refinadas de controle dos indiv√≠duos e da perpetua√ß√£o das condi√ß√Ķes sociais geradas pela domina√ß√£o.

O enredo do programa não só é expressão nua e crua do modo de vida da sociedade capitalista, como também reprodução consciente e ativa da ideologia que lhe corresponde. A força dessa ideologia não está no que ela diz, mas na sutileza do que sugere e inculca homogênea e sistematicamente. Por isso, é preciso dissolver o fetiche da imagem perfeita e compacta, para vislumbrar alguns dos seus traços manipuladores e entender a natureza regressiva da ideologia que perpassa essa série.

Lidando n√£o com atores ou manchetes da vida real, o apelo realista do programa, que lhe confere sucesso, corre por conta de duas equipes, que, sob situa√ß√Ķes predeterminadas, competem entre si num jogo cujos desafios implicam diretamente as condi√ß√Ķes de sua exist√™ncia, tais como alimenta√ß√£o e abrigo. Como uma esp√©cie de par√≥dia do tr√°gico, o programa familiariza-se com o p√ļblico pela reprodu√ß√£o imag√©tica de uma no√ß√£o mais ou menos comum √† vida social em crise: a de que viver tornou-se um desafio.

"No limite" realiza a sublima√ß√£o estetizada do dilaceramento da vida humana na sociedade capitalista. Mas, no sistema da ind√ļstria cultural, toda sublima√ß√£o √© repressiva, porque √© distra√ß√£o da sensibilidade cr√≠tica em favor do convite √† divers√£o com formas variadas do sofrimento humano. A alma do programa √© a competi√ß√£o, hiperpotencializada pela promessa ilus√≥ria de que a escalada da fama est√° ao alcance de qualquer um. Mas, nele, tudo est√° muito certinho. Os que perecerem no caminho √© porque se mostraram menos "aptos". Afinal, a concorr√™ncia d√° a todos a sua chance, j√° que ela, como manifesta√ß√£o da "liberdade", nunca tolhe o "justo" lugar dos "mais capazes". √Č a estetiza√ß√£o do darwinismo social, perfectibiliza√ß√£o reacion√°ria da id√©ia de que a vida social n√£o √© para todos e que s√≥ os "mais aptos" podem perseverar. √Č por isso que, no topo da pir√Ęmide de "No limite", s√≥ cabe um √ļnico indiv√≠duo, assim como no capitalismo s√≥ cabe uma classe social.

Mas "No limite" n√£o se deixa flagrar facilmente. Comporta em si indiv√≠duos dos mais diferentes estratos sociais. A sugest√£o √© de que o problema n√£o est√° no sistema da desigualdade social e que a mis√©ria n√£o √© quest√£o de revolu√ß√£o, mas de vontade pr√≥pria e determina√ß√£o individual. √Č assim que o belo cen√°rio natural, a utiliza√ß√£o de uma linguagem com termos nativos da l√≠ngua guarani e o reconhecimento das equipes como Sol e Lua, astros da natureza, correspondem √† exig√™ncia liberal de naturaliza√ß√£o da concorr√™ncia, ao mesmo tempo que recalcam a compreens√£o dos conflitos sociais como resultado das desigualdades da sociedade de classes.

Na hora de decidir quem sai do grupo após uma derrota, cada um que vota justifica-se entre a acusação e o lamento, espécie de autodefesa para expiar a razão de todos os problemas na figura singular daquele outro indivíduo, tudo seguindo a cega e mórbida lógica de que o sistema como um todo jamais pode ser questionado. Os telespectadores sentem-se realizados na exclusão do "mauricinho", do "mandão", e torcem pelos componentes mais humildes e solidários do programa. Não se percebe que isso funciona, psicologicamente, como uma válvula de escape para a qual o sistema canaliza a insatisfação social, oferecendo o descarte individualizado de alguns dos seus efeitos enquanto desvia a atenção do conjunto de suas causas. Na inquisição do indivíduo, sabota-se o próprio sentimento da indignação humana, para que esta nunca ouse se alçar à imaginação sob a forma do coletivo.

Por√©m, o ritual pareceria ser democr√°tico; afinal de contas, as pessoas votam. Claro, a ind√ļstria cultural sempre precisou sustentar a ilus√£o do respeito √† liberdade de escolha, para esconder que fabricou o pr√≥prio consumidor ao manipular o homem pela raiz, ou seja, na elabora√ß√£o de suas mais √≠ntimas necessidades. √Č assim, como disse Marcuse, que, "sob o jugo de um todo repressivo, a liberdade pode ser transformada em poderoso instrumento de domina√ß√£o", j√° que "o alcance da escolha aberta ao indiv√≠duo n√£o √© o fator decisivo para a determina√ß√£o do grau de liberdade humana, mas o que pode ser escolhido e o que √© escolhido pelo indiv√≠duo" (1). Ora, no interior do "ritmo de ferro" dos programas da ind√ļstria cultural, ningu√©m escolhe livremente nada, pois tudo j√° est√° previamente calculado, das perguntas √†s respostas. Afinal, como escreveram Adorno e Horkheimer, "s√≥ a vit√≥ria universal do ritmo e da reprodu√ß√£o mec√Ęnica √© a garantia de que nada mudar√°, de que nada surgir√° que n√£o se adapte" (2).

O fato de ser um indiv√≠duo aquele que vencer√° a competi√ß√£o de "No limite" n√£o significa nenhuma afirma√ß√£o da individualidade. Pelo contr√°rio, √© express√£o concreta da nega√ß√£o da humanidade como g√™nero, pois pressup√Ķe a elimina√ß√£o de todos os outros em vista de um. De fato, a ind√ļstria cultural, como advertiram Adorno e Horkheimer, s√≥ realiza o homem como ser gen√©rico maldosamente, onde, sob o achatamento das diferen√ßas individuais, "cada um √© t√£o-somente aquilo mediante o que pode substituir todos os outros: ele √© fung√≠vel, um mero exemplar" (3). Assim, n√£o interessa quem fique ou quem saia, pois todos j√° est√£o reduzidos a engrenagens da mesma m√°quina. A expectativa sobre quem vai sair ou vencer √© vazia. N√£o obstante, √© ostentada com for√ßa total, pois dessa tens√£o depende a efic√°cia do sistema em canalizar a aten√ß√£o do p√ļblico para a sua forma pr√©-fabricada de ver o mundo, finalidade perante a qual a alegada preocupa√ß√£o com os √≠ndices de audi√™ncia n√£o passa de meio e disfarce.

O m√©todo de "No limite" est√° inscrito em um processo mais amplo de consolida√ß√£o progressiva da vida administrada, onde a divers√£o s√°dica com a especula√ß√£o dos limites e mazelas da vida privada do outro carrega um veio totalit√°rio. N√£o √© √† toa que a id√©ia das webc√Ęmeras da internet, que transmitem 24 horas por dia a vida de algumas pessoas, √© o mesmo m√©todo de cobertura que garante o sucesso de "No limite", e encontra a sua inspira√ß√£o original no Grande Irm√£o, o ditador do livro/filme 1984, de Georg Orwell, cujo olho eletr√īnico vigiava ininterruptamente a vida cotidiana das pessoas. Eis um dos motivos pelos quais a apologia acr√≠tica dos te√≥ricos do deslumbramento n√£o √© suficiente para esconder os aspectos regressivos da internet, os quais reatualizam toda a for√ßa cr√≠tica do conceito frankfurtiano de ind√ļstria cultural.

Enquanto cidades espalham c√Ęmeras por todos os lados, estrategistas projetam uma vida urbana em que os indiv√≠duos seriam monitorados por cart√Ķes, que usariam para acessar todo e qualquer lugar, at√© a porta de suas casas. Mas a melhor f√≥rmula de controle ainda √© rebaixar a cultura ao extremo de transformar o sofrimento em divers√£o. A ind√ļstria cultural est√° apenas inculcando formas subjetivas de divers√£o, que, quando sa√≠rem completamente da virtualidade para a vida real, ter√£o arregimentado tantas tend√™ncias irracionais que a sociedade inteira salivar√° diante do controle totalit√°rio.

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Paulo Denisar Fraga é professor do Departamento de Filosofia da Unijuí, no Rio Grande do Sul.

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Notas

(1) Marcuse, H. A ideologia da sociedade industrial. 6. ed. Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 28.

(2) Adorno, T., Horkheimer, M. Dialética do conhecimento. 7. ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1997, p. 126.

(3) Ib., p. 136.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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