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A √ļnica esquerda "que vale"

Ulrich Beck - Abril 2007
Tradução: Caia Fittipaldi
 

Para os que esperavam, depois da queda do muro de Berlim, que a imaginação política renascesse na esquerda, afinal libertada do marxismo dogmático, a desilusão é profunda. Assusta-me a ausência total de análises sobre a situação da Europa no mundo, e de idéias políticas novas.

Onde est√° a esquerda? Est√° calada. Que dizem os sindicatos? Est√£o mudos. Que prop√Ķem os intelectuais? Ningu√©m diz nada. Sobre todos os problemas que agitam o mundo - da prote√ß√£o ao meio ambiente √† paz, passando pelos problemas da interdepend√™ncia econ√īmica ligados √† globaliza√ß√£o ou aos movimentos migrat√≥rios -, o pensamento que se baseia sobre os recursos nacionais chegou ao limite de sua compet√™ncia pol√≠tica. Diante disso... What's ¬Ďleft¬í (o que sobrou da esquerda ou o que √© a esquerda)? O "ser-de-esquerda" foi, de certo modo, pulverizado, pluralizado. Se se considera que, de um lado, nos dividimos entre "protecionismo" e "globalismo" e, do outro lado, entre "nacionalismo" e "transnacionalismo", obt√™m-se quatro tipos de "esquerdas": a esquerda protecionista, a esquerda neoliberal (a "terceira via"), a esquerda resistente e a esquerda cosmopolita.

Em todos os campos, as estrat√©gias ortodoxas que visam a preservar as conquistas est√£o na defensiva. Fala-se, por toda parte, de "flexibilidade" - modo de dizer que um "empregador" pode "botar na rua" mais facilmente os seus empregados. Quanto mais as condi√ß√Ķes de trabalho s√£o "desreguladas" e "flexibilizadas", mais depressa a sociedade do trabalho transforma-se em sociedade do risco, na qual ningu√©m pode fazer projetos e proje√ß√Ķes para o futuro.

Contra essa economia da inseguran√ßa, ergue-se a esquerda protecionista. Seu vi√°tico e sua contrapartida: a denega√ß√£o coletiva da realidade. Professando um nacionalismo de esquerda, seus militantes redescobrem o Estado social protecionista como se ele oferecesse resposta a tudo e recusam-se a ver que a crise dos sistemas sociais √©, aqui, de natureza n√£o-conjuntural. √Č o fim de uma √©poca, que come√ßou, na Alemanha, com as leis sociais de Bismarck, e que permitiu crer, pelo menos na Europa, que cumprir√≠amos a grande tarefa de garantir √† maioria dos homens uma vida de liberdade com seguran√ßa. Num contexto no qual a popula√ß√£o est√° envelhecendo, no qual, por causa do capitalismo ¬Ďinformacional¬í e ¬Ďplugado¬í, os empregos assalariados s√£o buscados por um n√ļmero cada vez maior de pessoas, ao mesmo tempo em que n√£o cessam de decrescer em n√ļmero, declarar sacrossantos a massa e o n√≠vel das presta√ß√Ķes ¬Ďdevidas¬í pelo Estado social p√Ķe em perigo o conjunto da sociedade.

Do nacionalismo estreito da esquerda protecionista (para a qual se inclinam também os comunistas e os ecologistas) ao campo da direita xenófoba, é um passo curto, tanto mais fácil quanto mais se sabe que os ideólogos de direita e de esquerda dão-se as mãos na defesa do "nacionalismo de bem-estar".

Ao contrário, a esquerda neoliberal leva a sério o desafio da globalização; ela procura estabelecer outro tipo de relação entre o Estado-nação e o mercado globalizado - o que se vê claramente no programa político da "terceira via", sobretudo do New Labour. Retomando os termos do sociólogo Anthony Giddens (considerado um dos inspiradores de Tony Blair), trata-se de tentar adaptar o programa da socialdemocracia a um mundo que, em 40 anos, transformou-se radicalmente.

A esquerda neoliberal define-se em oposi√ß√£o √† esquerda protecionista. De um lado, dedica-se a permitir o acesso √†s "novas realidades" mediante uma pol√≠tica reformista; mas, de outro lado, ela permanece ainda ligada a uma compreens√£o nacional da pol√≠tica e √† modalidade de pensamento √ļnico que da√≠ decorre. Por mais que os reformadores neoliberais do Estado social busquem compreens√£o e ades√Ķes, seus esfor√ßos est√£o condenados ao fracasso na exata medida em que os Estados perceberem sua margem de a√ß√£o reduzir-se ao seguinte dilema:¬†exibir uma pobreza crescente¬†por causa do¬†alto desemprego (como na maioria dos pa√≠ses europeus) ou aceitar¬†uma pobreza gritante acompanhada de um desemprego um pouco mais claramente circunscrito (como nos Estados Unidos).

A esquerda de resist√™ncia (muito semelhante √† direita de resist√™ncia) √© a que mostra os dentes aos nossos vizinhos estrangeiros. Nesse sentido, a Uni√£o Europ√©ia s√≥ serve para proteger as fronteiras nacionais com instrumentos europeus. Em mat√©ria de economia de mercado, os Estados economicamente fortes seguem uma pol√≠tica de moral d√ļbia: exigem que todos os outros pa√≠ses apliquem princ√≠pios da liberdade de mercado, mas protegem seus pr√≥prios mercados internos contra as "inger√™ncias estrangeiras". E o que vale para a competi√ß√£o econ√īmica vale tamb√©m e sobretudo para a m√£o-de-obra estrangeira. Em vez de ver, numa pol√≠tica equilibrada de imigra√ß√£o, uma vantagem estrat√©gica para esse continente que envelhece, v√™ a imigra√ß√£o negativamente e responde a ela construindo uma "Europa-fortaleza" - num amplo consenso que re√ļne todos os governos e todos os partidos "europeus".

A esquerda cosmopolita seria uma esquerda idealista sem aparelho partid√°rio nem perspectiva de acesso ao poder.¬†Em outros termos:¬†entre a quest√£o do poder e a quest√£o da justi√ßa, h√° uma afinidade eletiva oculta. Quase se poderia dizer que, doravante,¬†a quest√£o da justi√ßa est√° no cora√ß√£o da quest√£o do poder. Renunciar √† utopia √© renunciar ao poder. Somente quem pode se entusiasmar pode ganhar adeptos e ades√Ķes. A redescoberta da quest√£o da justi√ßa sempre pressup√Ķe uma outra concep√ß√£o da pol√≠tica, que n√£o se esgota no Estado-na√ß√£o. A quest√£o-chave de saber como conter politicamente os riscos a que a globaliza√ß√£o dos fluxos de capitais nos exp√Ķe a√≠ est√°, desafiando todos os governos e todos os partidos pol√≠ticos.

A resposta reside numa melhor coordena√ß√£o internacional das pol√≠ticas, em controles supranacionais mais eficazes sobre os bancos e as institui√ß√Ķes financeiras, na redu√ß√£o do dumping fiscal entre Estados e numa colabora√ß√£o mais estreita no seio das organiza√ß√Ķes transnacionais. Se queremos devolver √† pol√≠tica sua capacidade de agir, as solu√ß√Ķes a√≠ est√£o, e s√≥ h√° essas. O m√©todo do realismo cosmopolita: essa √© a via de sa√≠da. Dar e receber de modo multilateral, de modo que cada um consiga resolver melhor, em √ļltima inst√Ęncia, seus problemas nacionais.

Se h√° uma via capaz de permitir que a pol√≠tica recupere o seu poder, essa √© a via que renove os conte√ļdos da pol√≠tica. O cosmopolitismo n√£o √© portanto apenas um idealismo, √© tamb√©m uma estrat√©gia de conquista do poder. Quanto mais a pol√≠tica for estreita em esp√≠rito, mais ela ser√° escrava de seu desejo de adaptar-se √†s pretendidas leis do mercado globalizado, e mais ver√° o poder escapar-lhe.

Na dire√ß√£o oposta, quanto mais a pol√≠tica impregnar de imagina√ß√£o, entusiasmo e credibilidade sua ambi√ß√£o pol√≠tica de moldar as coisas, mais a pol√≠tica mostrar-se-√° convincente em sua vontade de emancipar-se do dever de casa neoliberal, que ela pensa ter de transformar em seu credo; e mais poderosa ser√°, porque assim a pol√≠tica reativar√° sua l√≥gica pr√≥pria e sua autonomia, face √† din√Ęmica da economia mundial.

Nesse sentido, uma pol√≠tica econ√īmica "moderna" ser√° uma pol√≠tica que dar√° novo vigor √† pol√≠tica, fazendo-a valer na coopera√ß√£o transnacional, face √† economia globalizada. A pol√≠tica dominante, que leva a radicalizar as desigualdades e enfraquece o direito, caminha para colidir de frente contra o muro de sua total deslegitima√ß√£o popular.

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Ulrich Beck é filósofo e sociólogo da Universidade de Munique. Traduzido do alemão para o francês por Christian Bouchindhomme. Traduzido do francês para o português, sem finalidades comerciais, por Caia Fittipaldi.



Fonte: Le Monde, 5 out. 2006.

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