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As cinzas de Gramsci

Walquíria Domingues Leão Rego - Maio 2007
 

Era um calv√°rio de suor e √Ęnsia. / Longas caminhadas em uma quente obscuridade. / Longos crep√ļsculos diante de pap√©is / amontoados sobre a mesa, por entre ruas de lama, / muradas...

(Pier Paolo Pasolini, do poema Le ceneri di Gramsci)

Morria na madrugada de 27 de abril de 1937, √†s 4h10, na Cl√≠nica Quisisana de Roma, Antonio Gramsci, pensador marxista e pol√≠tico italiano, v√≠tima de derrame cerebral, antecedido por terr√≠veis sofrimentos f√≠sicos vividos nas pris√Ķes fascistas, desde novembro de 1926. Sua morte foi noticiada pelos principais jornais europeus da √©poca. No dia seguinte, o socialista liberal e militante antifascista Carlo Rosselli, exilado em Paris, l√≠der do grupo Giustizia e libert√†, organiza uma homenagem solene ao morto e em seu discurso diz: "Com a morte de Antonio Gramsci a humanidade perdeu um pensador de g√™nio e a revolu√ß√£o italiana o seu l√≠der mais genu√≠no".

Decorridos setenta anos de sua morte, o solo das ci√™ncias sociais continua a ser fertilizado pelas cinzas de suas antecipa√ß√Ķes tem√°ticas e conceituais, empiricamente voltadas √† situa√ß√£o italiana, mas que ganharam perspectiva universal.

Os Cadernos do c√°rcere, escritos, por for√ßa das circunst√Ęncias, de modo fragment√°rio, no entanto apresentam uma escritura unida por um fio tem√°tico com espessura suficiente para envolver uma reflex√£o forte e contundente sobre a singularidade da situa√ß√£o italiana. As "premissas particulares" orientam a reflex√£o vivida sob certas condi√ß√Ķes pol√≠ticas e sociais. Emerge deste experimentum crucis intelectual um conjunto categorial inovador e heterodoxo, configurando um grande movimento de converg√™ncia anal√≠tica com as novas quest√Ķes postas pelas ci√™ncias sociais contempor√Ęneas.

As perguntas de Gramsci sobre os distintos modos de forma√ß√£o de sujeitos pol√≠ticos, dotados ou n√£o de "vontades pol√≠ticas transformadoras", s√£o respondidas mostrando que a forma√ß√£o de sujeitos e de vontades depende da natureza das institui√ß√Ķes e das hist√≥rias nacionais. A reflex√£o gramsciana, observadora dos nexos internos e externos dos fatos sociais, destaca suas condicionalidades temporais e espaciais.

A historiciza√ß√£o anal√≠tica constitui o cerne de sua proposta metodol√≥gica. Quando se debru√ßa para apreender as particularidades da situa√ß√£o italiana e russa, captura o peso das antigas estruturas sociais de domina√ß√£o e das tradi√ß√Ķes culturais que se combinam com certas estrat√©gias de poder e domina√ß√£o de classe. Assim, torna particularmente significativo o papel dos intelectuais, antecipando a problem√°tica manheimiana da intelligentsia. Por outro lado, quando estuda a forma√ß√£o dos consensos e dos modos institucionais de difus√£o de valores culturais, antecipa as an√°lises posteriormente feitas pelas teorias funcionalistas americanas dos anos de 1950.

Em outras formula√ß√Ķes seminais ressalta a import√Ęncia de se conhecer o papel da cultura organizada - bibliotecas, museus, clubes liter√°rios, imprensa, o romance de folhetim - na forma√ß√£o de muitos fen√īmenos cotidianos com for√ßa normativa na vida pol√≠tica de uma coletividade. Compreende a "solidez das cren√ßas populares", na express√£o de Marx, para a constitui√ß√£o e ligadura de um bloco hist√≥rico. Entendeu que a grande tradi√ß√£o de pensamento pol√≠tico italiano teve decisivo papel na forma√ß√£o do esp√≠rito p√ļblico do pa√≠s, fatores importantes no desenho da "quest√£o meridional", cujo destino e trag√©dia s√£o faces de um drama √ļnico: a situa√ß√£o geral da It√°lia e a natureza de revolu√ß√£o passiva de seu processo de State-building, porque se conformou, ali, uma mudan√ßa pol√≠tica e econ√īmica sem altera√ß√£o fundamental das velhas estruturas de domina√ß√£o pol√≠tica e social.

Examinando sempre a hist√≥ria, Gramsci percebe agudamente que uma crise pol√≠tica org√Ęnica se efetiva quando se realiza a ruptura da representa√ß√£o pol√≠tica "natural" entre os grupos sociais e seus partidos, ou quando as "massas politicamente passivas" apresentam novas reivindica√ß√Ķes e suas necessidades latentes s√£o transformadas em demandas pol√≠ticas. Neste momento, as modalidades de representa√ß√£o entram em crise. Em que condi√ß√Ķes, ent√£o, se configura uma rela√ß√£o "org√Ęnica" entre os representantes e os representados?

No texto "Americanismo e fordismo", em que desenha o futuro das rela√ß√Ķes sociais de trabalho na ind√ļstria, mostra que a produ√ß√£o do consenso ativo dos dominados se faz no seio mesmo do processo de trabalho e de sua disciplina fabril. Seu pensamento, atento √†s mudan√ßas sociais mais moleculares e √†s diferen√ßas finas nas rela√ß√Ķes de for√ßas da pol√≠tica, condenou-o, nos "tempos de ferro e fogo" em que viveu, √† dor permanente advinda do aguilh√£o da heresia. Suas indica√ß√Ķes de novos temas foram sempre profanas ao dogmatismo economicista.

Transgrediu c√Ęnones interpretativos, lan√ßou pioneiramente no campo marxista elementos de cr√≠tica sobre os modos como eram percebidas as rela√ß√Ķes entre pol√≠tica, economia e cultura. O esp√≠rito her√©tico levou-o a denunciar o perigo das seitas que ent√£o proliferavam no meio oper√°rio. Ergueu-se contra elas. Nas suas reflex√Ķes sobre Maquiavel, afirma que este tipo de a√ß√£o pol√≠tica acaba por produzir a funda√ß√£o de "clientelas pol√≠ticas particulares", dissolvendo, mais que permitindo, o florescimento da pluralidade pol√≠tica.

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Walquiria Domingues Leão Rego é professora titular do Departamento de Sociologia do IFCH - Unicamp. Este texto também foi publicado em La Insignia.



Fonte: Carta Capital, 9 maio 2007.

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