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A esquerda italiana e o reformismo no século XX

Giuseppe Vacca - Junho 2007
Tradução: Luiz Sérgio Henriques
 

Na segunda metade dos anos 1990, uma singular sincronia eleitoral fez com que, em treze dos quinzes pa√≠ses da Uni√£o Europ√©ia, partidos socialistas ou coaliz√Ķes de centro-esquerda se encontrassem pela primeira vez no governo ao mesmo tempo. O acontecimento era de alcance extraordin√°rio: nos anos oitenta, em todos os pa√≠ses europeus o reformismo socialista havia registrado uma crise de consenso e, em 1989, fora desafiado pela orgia em torno da "morte do comunismo", de que a opini√£o p√ļblica mundial parecia ter se convencido. Para compreender como teve origem tal acontecimento, pode ser √ļtil fazer uma compara√ß√£o entre o "velho" reformismo, que travou suas batalhas no horizonte da pol√≠tica nacional, e o "novo" reformismo, que enfrenta os desafios da supranacionalidade. A compara√ß√£o ter√° uma inflex√£o particular, uma vez que o foco do discurso recai sobre a It√°lia, que, como se sabe, n√£o conheceu e ainda n√£o conhece a exist√™ncia de um partido reformista de n√≠vel europeu.

1. A crise dos anos trinta e as primeiras experiências de governos reformistas

Os sujeitos pol√≠ticos se definem atrav√©s dos desafios a que tentam responder com base nos valores, nas vis√Ķes e nos interesses que os caracterizam. Em outras palavras, definem-se reciprocamente com base nos diferentes modos pelos quais se referem aos processos hist√≥ricos gerais. Portanto, devemos estabelecer preliminarmente qual √© o termo de compara√ß√£o do reformismo e o g√™nero pr√≥ximo a que se refere. O tema n√£o √© banal, antes de mais nada porque nos anos mais recentes o termo "reformismo" sofreu uma dilata√ß√£o sem√Ęntica despropositada, de modo que, especialmente na linguagem jornal√≠stica, ele √© empregado para indicar qualquer tipo de governo - de esquerda, de centro ou de direita - que implemente reformas. No entanto, em sentido pr√≥prio a "quest√£o do reformismo" diz respeito √† hist√≥ria do socialismo. Mas, para focalizar o problema, esta delimita√ß√£o do campo n√£o basta. Ainda se deve ajustar contas com a id√©ia muito difundida de que os movimentos pol√≠ticos distinguem-se com base na sua identidade, definida de uma vez por todas; de tal sorte, √© opini√£o corrente que o socialismo encarne a id√©ia de igualdade, de conte√ļdos vari√°veis, mas sempre igual a si mesma como valor. Na "eterna" contraposi√ß√£o entre direita e esquerda, ela identificaria a esquerda e, portanto, o reformismo, que √© uma parte essencial desta esquerda [1]. Na realidade, as coisas n√£o s√£o assim: direita e esquerda redefinem-se reciprocamente no tempo e no espa√ßo com base na mudan√ßa de crit√©rios de realinhamento das for√ßas sociais e pol√≠ticas determinados pelas vicissitudes nacionais e mundiais. Mas, mesmo depois desta especifica√ß√£o, o conceito ainda n√£o est√° inteiramente esclarecido. Com efeito, na It√°lia ainda prevalece a id√©ia de que reformismo seja sin√īnimo de "gradualismo": os reformistas representariam aquela parte da esquerda que aceita subordinar seus fins aos ritmos e compatibilidades do "jogo democr√°tico": seu oposto seriam os "revolucion√°rios", que, ao contr√°rio, n√£o aceitariam tais condi√ß√Ķes [2]. Esta defini√ß√£o √© patentemente anacr√īnica: est√° presa ao grande debate do final do s√©culo XIX, no qual o socialismo europeu se dividiu entre "reformistas" e "revolucion√°rios" com base em dois modos diferentes de conceber o fim √ļltimo (a "supera√ß√£o do capitalismo") [3]. Como se sabe, a divis√£o se tornou dilaceradora com o nascimento do movimento comunista e o abandono do "fim √ļltimo" por parte dos reformistas. Mas, de um ponto de vista hist√≥rico, j√° no curso dos anos vinte o movimento comunista p√īs de lado a perspectiva da "revolu√ß√£o mundial", e n√£o se pode negar que desde ent√£o, na Europa, tamb√©m tenha sido "gradualista". A divis√£o, pois, ficou limitada aos meios.

Apesar disso, permaneceu uma contraposi√ß√£o radical, uma vez que passava pelo reconhecimento ou pelo desconhecimento da democracia como regra absoluta do jogo. Sua aceita√ß√£o por parte da socialdemocracia n√£o era s√≥ uma "escolha de valor", mas tamb√©m decorria de uma vis√£o da "estabiliza√ß√£o capitalista": ela a percebia n√£o s√≥ como a hip√≥tese mais prov√°vel (depois da cat√°strofe da guerra), mas tamb√©m a mais desej√°vel, e a punha como base de uma "estrat√©gia de compromisso", destinada a favorecer a estabilidade, em troca da democracia e do Welfare [4]. Ao contr√°rio, para o movimento comunista, a estabiliza√ß√£o capitalista n√£o interrompia a "crise geral do capitalismo" e tornava inteiramente transit√≥rias (al√©m de circunscritas aos pa√≠ses capitalistas mais desenvolvidos) as "situa√ß√Ķes democr√°ticas" [5]. De todo modo, desde os anos trinta do s√©culo XX, a distin√ß√£o entre "reformistas" e "revolucion√°rios" torna-se anacr√īnica. Por outro lado, a disputa sobre o "fim √ļltimo" baseava-se num equ√≠voco. A id√©ia da "supera√ß√£o do capitalismo" nascia da contraposi√ß√£o entre capitalismo e socialismo, que √© hist√≥rica e conceitualmente infundada. Capitalismo e socialismo referem-se a dois planos diversos da realidade e n√£o s√£o compar√°veis: o capitalismo √© um modo de produ√ß√£o, o socialismo √© um crit√©rio de regula√ß√£o do desenvolvimento econ√īmico, que, portanto, n√£o se contrap√Ķe ao primeiro, mas prop√Ķe-se orient√°-lo. Para superar este falso dilema, foi necess√°rio elaborar o conceito de regula√ß√£o, e, naturalmente, n√£o estamos falando de elabora√ß√£o puramente intelectual, mas de experi√™ncia hist√≥rica concreta. Aproximamo-nos, assim, do ato de nascimento do reformismo: a crise dos anos trinta e a inven√ß√£o de um "modo de regula√ß√£o" do desenvolvimento alternativo ao do velho liberalismo, que entra em colapso [6].

Portanto, o termo de compara√ß√£o do reformismo foi e ainda √© o maximalismo. O reformismo √© programa e a√ß√£o de governo; o maximalismo, diferentemente daquilo que geralmente se considera, n√£o √© tanto radicalismo social ou antagonismo "de classe" (at√© Turati era "classista"), quanto, sobretudo, indiferen√ßa em rela√ß√£o √† responsabilidade de governo. Mas, para um partido, desenvolver capacidade de governo n√£o √© s√≥ quest√£o de vontade. Seu ponto de amadurecimento √© o alcance da capacidade de interpretar o interesse nacional, que, por natureza, est√° em disputa. De reformismo socialista s√≥ podemos falar, de modo circunstanciado, a partir de quando, elaborando programas representativos do "interesse nacional", alguns partidos socialistas chegaram ao governo nos seus pa√≠ses. Isto aconteceu pela primeira vez na Gr√£-Bretanha, na Su√©cia e na B√©lgica, entre o fim dos anos vinte e o in√≠cio dos anos trinta, numa passagem crucial da hist√≥ria do s√©culo XX. Diante dos efeitos explosivos da crise de 1929-1932, foram aqueles partidos oper√°rios que elaboraram solu√ß√Ķes mais v√°lidas do que as propostas pelos partidos liberais ou conservadores para os problemas do pr√≥prio pa√≠s e conquistaram seu governo. Na verdade, n√£o foi a primeira experi√™ncia de governo em termos absolutos: tinha havido a Rep√ļblica de Weimar; mas os socialistas que governaram a Alemanha nos anos vinte fracassaram precisamente na capacidade de enfrentar a Grande Depress√£o, abrindo assim caminho para a vit√≥ria de Hitler [7]. Ao contr√°rio, nos tr√™s casos que lembrei, os socialistas venceram o desafio porque ocorreu uma mudan√ßa fundamental da sua cultura pol√≠tica: uma mudan√ßa de paradigma, que constitui o verdadeiro ato de nascimento do reformismo.

O salto de qualidade consistia no fato de que aqueles partidos mostravam-se capazes de agir pela primeira vez n√£o s√≥ em nome da classe, mas tamb√©m em nome da na√ß√£o. Foram assim lan√ßadas as bases do reformismo nacional. Em outras palavras, de uma cultura de governo dos socialistas que, ao evoluir ainda mais, seria capaz de promover, depois da Segunda Guerra Mundial, um consenso reformista majorit√°rio num n√ļmero crescente de pa√≠ses europeus [8].

Entre os elementos que deram origem a esta evolu√ß√£o, deve-se salientar, antes de mais nada, a nova capacidade de an√°lise do capitalismo, emancipada da vis√£o catastr√≥fica das suas crises. Nos anos trinta, as tr√™s socialdemocracias que recordei mostram consci√™ncia de que as crises s√£o o processo natural do desenvolvimento capitalista e, portanto, trata-se de aprender a govern√°-las. No caso espec√≠fico, elas interpretaram a Grande Depress√£o como uma crise de subconsumo e elaboraram respostas eficazes que a cultura liberal ent√£o refutava: pol√≠ticas de sustenta√ß√£o da demanda efetiva, desenvolvimento da economia mista, compromisso entre as organiza√ß√Ķes sindicais dos trabalhadores e das empresas, reconhecendo a legitimidade do comando capitalista na f√°brica mas contratando suas modalidades, acordo sobre a rela√ß√£o entre sal√°rios e produtividade, forte impulso √†s pol√≠ticas sociais. S√£o os elementos b√°sicos daquilo que muitos anos depois se chamaria de "compromisso keynesiano" [9] ou "regula√ß√£o fordista" [10].

2. As frentes populares. Os Cadernos do c√°rcere

A import√Ęncia hist√≥rica daquelas experi√™ncias tamb√©m residia na demonstra√ß√£o de que, diante da dissolu√ß√£o da civiliza√ß√£o liberal [11], a alternativa entre bolchevismo e fascismo n√£o era inexor√°vel. Depois da vit√≥ria de Hitler na Alemanha, este parecia ser o destino da Europa. No entanto, aquelas experi√™ncias come√ßaram a alimentar o antifascismo com propostas positivas e concretas. Este foi o quadro em que, tamb√©m no movimento comunista, abriu-se um espa√ßo para a concilia√ß√£o entre classe e na√ß√£o. Para tanto, foi decisiva a experi√™ncia da Frente Popular na Fran√ßa, nascida da colabora√ß√£o entre comunistas e socialistas [12]. Na It√°lia, deve-se recordar o pacto de unidade e a√ß√£o de 1934, que tamb√©m nascia da revis√£o de an√°lises e programas que animaram a investiga√ß√£o socialista depois da derrota de 1919-1922 [13], bem como da elabora√ß√£o do PCI sobre o fascismo [14]. Ainda que de modo limitado √† necessidade de combater o fascismo, tamb√©m os comunistas resolviam o problema da participa√ß√£o em governos de coaliz√£o para enfrentar os perigos da guerra, defender a democracia e renovar seus conte√ļdos atrav√©s da realiza√ß√£o de reformas econ√īmicas e sociais. A "virada" foi aprovada no VII Congresso da Internacional, que retificou a equa√ß√£o entre socialdemocracia e fascismo. Restava o limite insuper√°vel da subordina√ß√£o dos partidos comunistas √† pol√≠tica da URSS, de modo que o que deveria ter sido uma virada estrat√©gica foi s√≥ uma virada t√°tica, logo sepultada pelo desencadeamento do Grande Terror e pelo pacto Molotov¬ĖRibbentrop [15]. Mas era de grande import√Ęncia o fato de que, atrav√©s da elabora√ß√£o de um programa concreto de luta contra o fascismo, tamb√©m os comunistas enfrentassem o n√≥ das rela√ß√Ķes entre classe e na√ß√£o, e isso contribuiria de modo significativo para valorizar seu papel na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial.

Na It√°lia, o problema de conciliar classe e na√ß√£o fora formulado por Antonio Gramsci desde 1924. A solu√ß√£o do problema, pois, inscrevia-se numa perspectiva revolucion√°ria e n√£o na reformista. Mas deve-se chamar a aten√ß√£o para a revis√£o dos fundamentos te√≥ricos do bolchevismo que Gramsci elaborou nos Cadernos do c√°rcere [16]. Partindo da an√°lise da crise de 1929, ele chegava a uma verdadeira teoria geral das crises, que continha tamb√©m a explica√ß√£o das origens da Grande Guerra. A partir das √ļltimas d√©cadas do s√©culo XIX, com a forma√ß√£o de uma "economia mundial", crises e guerras tinham origem no contraste cada vez mais gritante entre o "cosmopolitismo" da economia e o "nacionalismo" da pol√≠tica. O primeiro n√£o podia difundir seus influxos ben√©ficos porque se via obstaculizado pela exist√™ncia de uma ordem internacional baseada nos Estados-na√ß√£o, que, com suas prerrogativas (o princ√≠pio de soberania, a decis√£o exclusiva sobre a guerra e a paz), monopolizavam a pol√≠tica. Mas o princ√≠pio de soberania fora definitivamente abalado pelos eventos da Primeira Guerra Mundial, que deflagrou uma crise irrevers√≠vel do Estado-na√ß√£o. A virada isolacionista da pol√≠tica sovi√©tica (a op√ß√£o de "construir o socialismo num s√≥ pa√≠s") p√īs fora de jogo o movimento comunista, uma vez que ele identificava o socialismo com o destino da URSS. Mas nos Estados Unidos se estava desenvolvendo um novo tipo de industrialismo, destinado a expandir-se em n√≠vel mundial e a mudar os espa√ßos da pol√≠tica. Neste processo Gramsci entrevia a possibilidade de encaminhar a solu√ß√£o daquela antinomia, orientando nacionalmente a alian√ßa entre oper√°rios e camponeses para um "novo cosmopolitismo", voltado para a "reconstru√ß√£o da economia segundo um plano mundial". Etapa intermedi√°ria da nova ordem mundial, a cria√ß√£o de "agrupamentos" econ√īmicos supranacionais.

Gramsci escrevia num cárcere fascista, mas não há quem não veja como sua elaboração atinja em cheio os fundamentos do bolchevismo: a teoria da "crise geral do capitalismo", a consideração do imperialismo como "fase suprema do capitalismo" e, portanto, a idéia da inevitabilidade da guerra. Depois da queda do fascismo, sua investigação influenciaria de modo determinante a política do PCI, inspirada na perspectiva do antifascismo.

3. A guerra antifascista e a redefinição do reformismo

As primeiras tr√™s d√©cadas do segundo p√≥s-guerra registraram a ascens√£o do "reformismo nacional" e, na It√°lia, √ļnico pa√≠s da Europa Ocidental, o crescimento constante do peso eleitoral e do papel do PCI. Para analisar esta "anomalia", √© necess√°rio que nos detenhamos brevemente nas caracter√≠sticas da Segunda Guerra Mundial a partir de 1941, isto √©, a partir de quando, com a interven√ß√£o dos Estados Unidos e o surgimento da Grande Alian√ßa, ela se tornou a guerra antifascista. Devemos, pois, considerar as mudan√ßas por ela produzidas.

Deve-se chamar a aten√ß√£o para o universalismo rooseveltiano e a vis√£o que a elite do New Deal tinha da nova ordem internacional a ser constru√≠da depois da derrota do nazismo. Ela propugnava uma reorganiza√ß√£o do mercado mundial que tamb√©m inclu√≠sse a URSS, um ordenamento das rela√ß√Ķes internacionais baseado na coopera√ß√£o entre as pot√™ncias antifascistas, uma abordagem multilateral dos problemas internacionais, a cria√ß√£o de espa√ßos econ√īmicos supranacionais abertos, a constru√ß√£o de novos organismos internacionais para o governo da economia, o nascimento das Na√ß√Ķes Unidas como embri√£o de um governo mundial [17]. N√£o foi poss√≠vel realizar este projeto n√£o s√≥ por causa da morte de Roosevelt e da mudan√ßa do bloco de poder que o sucede √† frente dos Estados Unidos [18], mas tamb√©m, e talvez sobretudo, por causa da indisponibilidade da URSS a aceitar este desafio. Na elite staliniana, dominava a percep√ß√£o da inseguran√ßa da URSS, e isso fazia com que buscasse novas garantias territoriais [19]. Era a proje√ß√£o da "pol√≠tica de seguran√ßa" que Stalin havia come√ßado na segunda metade dos anos trinta [20] e que, logo depois do par√™ntese da "guerra patri√≥tica", induziu-o a restaurar o "Estado de seguran√ßa total" [21]. Aquela vis√£o leva a impor aos pa√≠ses da Europa Central e do Leste, libertados pelas for√ßas sovi√©ticas, um regime de ocupa√ß√£o permanente voltado para estender as fronteiras da URSS at√© as fronteiras desses pa√≠ses e a neles instaurar o sistema pol√≠tico e econ√īmico da pr√≥pria URSS. Era a cria√ß√£o de uma esfera de influ√™ncia totalit√°ria baseada em crit√©rios militares e na divis√£o da Europa, com o erguimento do que Churchill batizou como "cortina de ferro" [22].

Portanto, caminhavam pari passu a ruptura da alian√ßa antifascista e o nascimento da guerra fria. Mas as mudan√ßas originadas da Segunda Guerra Mundial tiveram igualmente uma relev√Ęncia epocal. Para ficar nas que se referem ao nosso tema, recordo a cria√ß√£o, por parte dos Estados Unidos, de um espa√ßo econ√īmico supranacional que se estendia a todo o Ocidente, o lan√ßamento de "pol√≠ticas de produtividade" voltadas para estabiliz√°-lo, favorecendo a reconstru√ß√£o da Europa Ocidental [23], a divis√£o do mundo em dois campos contrapostos dominados pelas duas maiores pot√™ncias, o in√≠cio da integra√ß√£o europ√©ia [24]. Nascia assim uma nova "estrutura do mundo", na qual interdepend√™ncia econ√īmica e interdepend√™ncia pol√≠tica caminhavam paralelamente. Criava-se um sistema de rela√ß√Ķes internacionais [25], no qual o Estado-na√ß√£o n√£o era mais o √ļnico protagonista. As duas maiores pot√™ncias alcan√ßaram rapidamente uma capacidade de destrui√ß√£o rec√≠proca que limitava sua pr√≥pria soberania, uma vez que a decis√£o da guerra n√£o era mais prerrogativa unilateral de uma ou de outra. Em medida bem maior, este elemento constitutivo da soberania do Estado moderno desaparecia em todos os demais pa√≠ses [26]. No plano econ√īmico, em todo o Ocidente se instaurava uma ordem d√ļplice, que, para retomar a feliz met√°fora de Robert Gilpin, baseava-se num "compromisso entre Smith e Keynes", isto √©, na predomin√Ęncia da regula√ß√£o de mercado na economia internacional e da regula√ß√£o pol√≠tica na economia nacional [27]. Isso favorecia o que Alan Milward chama de "renascimento do Estado-na√ß√£o na Europa" [28], uma vez que os mercados nacionais eram os centros propulsores da difus√£o internacional do novo industrialismo e da "economia dos consumos", que constitu√≠am a base da hegemonia americana mas tamb√©m do desenvolvimento dos pa√≠ses aliados, e a regula√ß√£o pol√≠tica do mercado interno era a alavanca do "desenvolvimento nacional" [29]. Sua promo√ß√£o, somada √† constru√ß√£o do Welfare State, tornou-se o principal objetivo das esquerdas em todas as democracias ocidentais. Esta combina√ß√£o virtuosa de fatores pol√≠ticos nacionais e internacionais iria durar at√© a crise dos anos setenta [30].

Mas, voltando √† Segunda Guerra Mundial e √† It√°lia, a Grande Alian√ßa antifascista permitiu ao Partido Comunista assumir um papel eminente na Resist√™ncia e na guerra de Liberta√ß√£o, e tornar-se o principal partido do movimento oper√°rio italiano [31]. Tomava forma assim um reformismo nacional comunista, que, caso √ļnico na Europa, demonstrou uma capacidade de resist√™ncia e de evolu√ß√£o destinada a incidir profundamente na vida pol√≠tica e civil do pa√≠s at√© os anos setenta [32]. Baseava-se, precisamente, na concilia√ß√£o entre classe e na√ß√£o, a partir da miss√£o que coube √† classe oper√°ria na Resist√™ncia e na guerra de Liberta√ß√£o; gra√ßas a ela, o PCI conseguiu ter um papel relevante na funda√ß√£o da Rep√ļblica, na elabora√ß√£o do pacto constitucional e na constru√ß√£o do sistema pol√≠tico, e, do ponto de vista program√°tico, desempenhou um papel compar√°vel √†quele que, nos outros pa√≠ses europeus, tiveram as grandes socialdemocracias [33]. Pode-se dizer que, caso talvez √ļnico entre os partidos comunistas europeus, o PCI jamais se afastou do antifascismo como fundamento de uma pol√≠tica nacional reformista. A Constitui√ß√£o republicana tornou-se seu "programa fundamental". No entanto, tratava-se de um tipo de reformismo nacional incompleto, que, sob a roupagem de um partido comunista, n√£o podia ser levado a cabo.

O "partido novo" de Togliatti era concebido como "partido de governo da classe oper√°ria", e seu programa, resumido na f√≥rmula da "democracia progressiva" (se levarmos em conta as particularidades de um pa√≠s derrotado, que havia vivido a experi√™ncia do fascismo e, com o colapso deste √ļltimo, tamb√©m o colapso do Estado; e, al√©m disso, havia experimentado uma guerra civil sangrenta, a divis√£o entre a Rep√ļblica Social e o Reino do Sul, o risco de ruptura da unidade nacional), n√£o estava em n√≠vel inferior ao dos programas de reconstru√ß√£o sustentados pelos partidos socialistas nos outros pa√≠ses da Europa Ocidental [34]. Mas, terminada a Grande Alian√ßa, o pertencimento ao movimento comunista internacional e a fidelidade √† URSS privavam o PCI da legitima√ß√£o para governar. Esta n√£o lhe era vedada pela for√ßa, mas pela falta de consenso, uma vez que, enquanto a Democracia Crist√£ dispunha de um nexo internacional virtuoso no qual inserir o desenvolvimento do pa√≠s, a "dupla lealdade" do PCI n√£o lhe permitia fazer o mesmo [35]. No mundo do p√≥s-guerra, a pol√≠tica nacional era o resultado de determinadas "combina√ß√Ķes" de for√ßas nacionais e de condicionamentos internacionais. Na esfera ocidental, em que a It√°lia estava solidamente inserida, n√£o estava dada ao PCI a possibilidade de elaborar uma pr√≥pria "combina√ß√£o" daqueles fatores que o pusesse em condi√ß√Ķes de desafiar a DC (e seu sistema de alian√ßas) quanto ao governo do pa√≠s. Em outros termos, no nexo entre pol√≠tica interna e pol√≠tica internacional, o PCI estava bloqueado por uma contradi√ß√£o insan√°vel, derivada da sua lealdade a uma coaliz√£o internacional contraposta √†quela em que estava inserida a It√°lia, que impedia o desdobramento do n√ļcleo reformista do seu projeto. Isto tamb√©m bloqueou a evolu√ß√£o da sua cultura pol√≠tica, privando-o de recursos fundamentais na gest√£o do "compromisso keynesiano" - sobretudo na concep√ß√£o das "rela√ß√Ķes industriais" - e atribuindo-lhe um papel inferior ao que, em outros pa√≠ses europeus, tinham as socialdemocracias. Finalmente, a emerg√™ncia da guerra fria cristalizou as divis√Ķes existentes no reformismo italiano, uma parte do qual - os dossettianos, os republicanos e Saragat - se colocava no governo, enquanto a outra - socialistas e comunistas - estava na oposi√ß√£o, reduzindo-lhe drasticamente o papel e a efic√°cia. No sistema da guerra fria, identificavam-se a "democracia bloqueada" e a impossibilidade de unir num s√≥ partido de governo as correntes do reformismo italiano: e isso, na It√°lia do segundo p√≥s-guerra, iria marcar toda a experi√™ncia do "reformismo nacional" [36].

4. O fim do sistema de Bretton Woods e o "conflito econ√īmico mundial". Surgimento do europe√≠smo socialista

Os arranjos internacionais originados da Segunda Guerra Mundial entraram em crise no final dos anos sessenta. Para ter um quadro exaustivo dos fatores de mudan√ßa e dos processos que tiveram in√≠cio nos anos setenta, tamb√©m dever√≠amos considerar a evolu√ß√£o das rela√ß√Ķes Norte-Sul. Mas, para os fins do nosso argumento, podemos deix√°-las de lado, mesmo porque estavam condicionadas pelas rela√ß√Ķes Leste-Oeste e pelas din√Ęmicas da guerra fria. Vamos considerar, pois, em primeiro lugar, a crise do sistema de Bretton Woods. No final dos anos sessenta, a economia americana n√£o era mais capaz de desempenhar um papel hegem√īnico na economia ocidental. A convertibilidade do d√≥lar e o regime de c√Ęmbio fixo tinham garantido a reconstru√ß√£o europ√©ia e a ascens√£o de duas outras pot√™ncias econ√īmicas capazes de cooperar, mas tamb√©m de competir com a economia americana: o Jap√£o e a Rep√ļblica Federal da Alemanha. Os Estados Unidos, que no final da guerra representavam 53% da riqueza mundial, por volta de 1970 representavam cerca de um ter√ßo desta riqueza. N√£o podiam mais arcar com o peso das despesas militares decorrentes do papel de "gendarme" internacional do Ocidente e perdiam competitividade tamb√©m por causa do peso social alcan√ßado pelas classes trabalhadoras. Este aspecto dizia respeito, em modos diferentes, a todas as democracias industriais, que haviam atingido a maturidade do "ciclo fordista" [37]. Os Estados Unidos decidiram p√īr fim √† convertibilidade do d√≥lar (1971) e ao regime de c√Ęmbio fixo (1973), destruindo o sistema de Bretton Woods. O significado desta decis√£o resume-se ao objetivo de tirar das m√£os dos governos o controle dos fluxos financeiros internacionais e entreg√°-lo a m√£os privadas. Assim, da velha ordem econ√īmica internacional passava-se a um regime que s√≥ na apar√™ncia era de "desordem": na realidade, ocorria a passagem de um sistema hegem√īnico, vantajoso tamb√©m para os aliados dos Estados Unidos, para um conflito econ√īmico mundial regulado pela lei do mais forte [38]. Entre os motivos daquela escolha, deve-se recordar a vontade de valer-se da senhoriagem do d√≥lar para financiar o desenvolvimento da "economia da informa√ß√£o", apoiando-se no complexo militar-industrial com o objetivo de reconquistar a competitividade perdida em benef√≠cio da economia alem√£ e da japonesa [39]. Objetivo n√£o secund√°rio era o de favorecer, tamb√©m em n√≠vel nacional, o predom√≠nio da regula√ß√£o de mercado para facilitar a difus√£o da "economia da informa√ß√£o" [40]. Em s√≠ntese, soava a hora final do "compromisso entre Smith e Keynes" e iniciava-se um novo ciclo de globaliza√ß√£o assim√©trica da economia mundial, entregue √† regula√ß√£o de mercado. Por outra parte, nos anos setenta tamb√©m entra em crise o bipolarismo, e se a URSS, pensando aproveitar a derrota americana no Vietn√£, tentou relan√ßar o pr√≥prio papel internacional com uma agressiva pol√≠tica expansionista no Terceiro Mundo, os EUA responderam com o lan√ßamento de uma "nova guerra fria", voltada para excluir a Uni√£o Sovi√©tica da terceira revolu√ß√£o industrial [41]. A passagem de um bipolarismo baseado na estabilidade das esferas de influ√™ncia, bem como¬†no dom√≠nio de cada superpot√™ncia no interior destas esferas, para um bipolarismo antagonista provocou o colapso da URSS, uma vez que ao seu poderio militar n√£o correspondia um igual poderio industrial e tecnol√≥gico, que lhe permitisse resistir ao desafio americano.

Mas, voltando aos anos setenta, o fim de Bretton Woods, o in√≠cio de um "conflito econ√īmico mundial", o lan√ßamento de uma "nova guerra fria" mudaram radicalmente a natureza do v√≠nculo externo. Antes de mais nada, desaparecia a autonomia relativa das economias nacionais; em segundo lugar, a estas economias se apresentavam problemas agudos de reconvers√£o industrial e de especializa√ß√£o competitiva; em terceiro lugar, a passagem do industrialismo mec√Ęnico ao neo-industrialismo inform√°tico mudava rapidamente a composi√ß√£o demogr√°fica dos pa√≠ses mais desenvolvidos. Estas mudan√ßas faziam desaparecer as vantagens da regula√ß√£o pol√≠tica das economias nacionais e reduziam sensivelmente os recursos financeiros necess√°rios para sustentar as redes de prote√ß√£o social constru√≠das nas d√©cadas precedentes (a "crise fiscal do Estado") [42]; al√©m disso, diferenciavam cada vez mais as demandas de Welfare e enfraqueciam o parceiro sindical do "compromisso neocorporativo". Era o in√≠cio do fim da identifica√ß√£o entre movimento oper√°rio e socialismo, e fechava-se o ciclo do "reformismo nacional". Como recordamos no in√≠cio, nos anos oitenta se registrou uma crise generalizada do "consenso reformista".

Mas a Europa Ocidental n√£o sofreu passivamente as conseq√ľ√™ncias do unilateralismo econ√īmico americano. Fracassada, por causa da oposi√ß√£o dos Estados Unidos, a primeira tentativa de criar uma moeda √ļnica, os governos europeus aceleraram o processo de integra√ß√£o, criando (1979) o Sistema Monet√°rio Europeu (SME) [43]. Por seu turno, os dirigentes mais l√ļcidos do socialismo europeu (Brandt, Palme, Kreisky) haviam empreendido uma busca destinada a renovar profundamente a cultura pol√≠tica dos respectivos partidos [44]. Protagonistas da constru√ß√£o europ√©ia no p√≥s-guerra foram a cultura pol√≠tica cat√≥lica e a liberal. Os partidos oper√°rios, tanto as socialdemocracias quanto os partidos comunistas, restaram por muito tempo vinculados ao nacionalismo econ√īmico. Isto se explica com o fato de que a regula√ß√£o pol√≠tica do mercado nacional e o "compromisso neocorporativo" eram seus principais recursos pol√≠ticos. Ao contr√°rio, n√£o √© justific√°vel sua dificuldade para compreender o valor progressista do regionalismo econ√īmico e da integra√ß√£o supranacional. Quanto aos comunistas, em particular, deve-se salientar a incapacidade de compreender que a integra√ß√£o europ√©ia n√£o era apenas um pilar da guerra fria, mas tamb√©m um processo que, iniciado neste contexto, tendia a superar a l√≥gica bipolar e a criar um ator pol√≠tico que poderia contribuir para sua supera√ß√£o. Mas j√° nos anos sessenta os principais partidos oper√°rios da Europa Ocidental come√ßaram uma revis√£o das suas posi√ß√Ķes em rela√ß√£o ao Mercado Comum Europeu [45]. Nos anos oitenta, a busca de novas respostas √† crise do consenso reformista levou ao surgimento de um europe√≠smo socialista [46]. Entre os partidos comunistas, o mais avan√ßado era o PCI, que, no que se refere a estes temas, seguiu uma par√°bola an√°loga √† das socialdemocracias, apesar dos limites derivados do car√°ter contradit√≥rio das suas liga√ß√Ķes internacionais. E eles foram muito rapidamente evidenciados pelo r√°pido esgotamento do per√≠odo do "eurocomunismo" [47].

No curso dos anos oitenta, a resposta européia ao desafio americano aprofundou-se e, com o Ato Único (1986), começou a tomar forma o projeto de uma União política. O tema se tornaria plenamente atual depois de 1989, quando, com o fim da guerra fria, a incorporação da Alemanha Oriental pela Ocidental e o colapso da URSS, surgiram novos problemas acerca da "globalização de mercado" da economia mundial e se apresentou concretamente o problema de unificar o velho continente.

5. Fim da guerra fria e "globalização assimétrica". O ciclo político dos anos noventa

Voltamos assim ao ponto de partida das nossas reflex√Ķes: o ciclo pol√≠tico dos anos noventa, que, depois da vit√≥ria de Clinton nas elei√ß√Ķes presidenciais de 1992, registrou a vit√≥ria das esquerdas n√£o s√≥ na maioria dos pa√≠ses europeus, mas tamb√©m em pa√≠ses importantes da Am√©rica Latina. Gostaria de tentar dar uma interpreta√ß√£o deste ciclo que, na Europa, teve como protagonista um novo reformismo.

√Ä explos√£o da globaliza√ß√£o dos mercados e ao fim da URSS a Europa Ocidental reagiu com o Tratado de Maastricht (1991) e a decis√£o de "ampliar" a Uni√£o aos pa√≠ses da Europa Central e Oriental (e, numa perspectiva a mais longo prazo, tamb√©m aos B√°lc√£s, √† Turquia e a outros pa√≠ses mediterr√Ęneos). Teve in√≠cio assim a constru√ß√£o da Uni√£o pol√≠tica europ√©ia e se lan√ßaram as primeiras bases da unifica√ß√£o do velho continente. O objetivo priorit√°rio era criar, com o surgimento de uma moeda √ļnica, o espa√ßo econ√īmico indispens√°vel para enfrentar os desafios da "competi√ß√£o global". Mas a meta da Uni√£o pol√≠tica √© muito mais ambiciosa: com efeito, visa a transformar a Europa num novo ator pol√≠tico global. Nos pa√≠ses europeus, a globaliza√ß√£o dos mercados e o processo de Maastricht mudaram o nexo internacional das pol√≠ticas nacionais e deram origem a novos crit√©rios de agrupamento de for√ßas. O problema que se apresenta √†s elites nacionais √© fazer frente aos novos condicionamentos da economia e da pol√≠tica mundial. A alternativa de fundo refere-se aos modos pelos quais cada pa√≠s pode participar do processo de integra√ß√£o supranacional e, portanto, √† reparti√ß√£o dos custos e dos benef√≠cios entre os diferentes grupos sociais. A vis√£o do interesse nacional torna-se parte integrante da percep√ß√£o do interesse comum europeu. E tanto um quanto outro s√£o determinados em modos diversos segundo as diferen√ßas de interesses, de culturas e de valores que atravessam a sociedade.

Para tornar mais acess√≠vel a argumenta√ß√£o, limitar-me-ei √† It√°lia. O primeiro problema que, no in√≠cio dos anos noventa, se apresentou era honrar ou n√£o os compromissos assumidos com a assinatura do Tratado de Maastricht [48]. Para isto acontecer, a It√°lia devia mudar o rumo. Nos quinze anos anteriores, ela fora governada com crit√©rios divergentes daqueles seguidos nas outras grandes democracias europ√©ias. D√≠vida p√ļblica, d√©ficit or√ßament√°rio, altas taxas de juros, diferencial de infla√ß√£o, pol√≠tica de gastos, protecionismo econ√īmico, modelo televisivo, atraso dos sistemas de rede e "democracia bloqueada" impediam nosso pa√≠s de desempenhar o papel que dele se esperava. Logo em seguida √† assinatura do Tratado de Maastricht, come√ßaram press√Ķes significativas das institui√ß√Ķes europ√©ias para que a It√°lia mudasse as orienta√ß√Ķes de governo. Al√©m disso, na d√©cada anterior, tais orienta√ß√Ķes produziram uma crescente discrep√Ęncia entre Norte e Sul do pa√≠s at√© o ponto de solapar sua unidade [49].

Em 1992, quem quer que vencesse as elei√ß√Ķes se veria diante da necessidade de dar in√≠cio √† converg√™ncia com os par√Ęmetros de Maastricht e de propor aos cidad√£os "grandes sacrif√≠cios" para sanear a economia. O saneamento podia ser buscado mediante escolhas unilaterais, impostas pelo n√ļcleo exportador dos grupos econ√īmicos muito mais amplos que haviam sustentado a coaliz√£o pentapartid√°ria [*], ou ent√£o mediante a promo√ß√£o de pol√≠ticas de concerta√ß√£o que redistribu√≠ssem seus custos de modo equ√Ęnime. Nem as for√ßas de governo nem as de oposi√ß√£o percebiam a quest√£o em jogo. Mas a velha alian√ßa de governo chegara ao fim da linha, uma vez que as for√ßas que a sustentaram estavam divididas pelos novos desafios da integra√ß√£o europ√©ia. Depois das elei√ß√Ķes, o crescimento da Liga Norte, a explos√£o de Tangentopoli e as vicissitudes dos movimentos referend√°rios propiciaram um r√°pido processo de deslegitima√ß√£o da classe pol√≠tica de governo. Ao mesmo tempo, a It√°lia foi alcan√ßada por uma crise da moeda que imp√īs uma pesada desvaloriza√ß√£o da lira e o abandono do SME. Enquanto o sistema de partidos se desfazia, formava-se uma nova coaliz√£o de for√ßas e de interesses decididos a guiar o pa√≠s at√© a "Europa de Maastricht". Fato de absoluta relev√Ęncia, tanto com o governo Amato (1992), quanto com o governo Ciampi (1993), aquelas for√ßas buscaram um entendimento com o movimento sindical e com a oposi√ß√£o de esquerda, pondo fim a uma orienta√ß√£o hist√≥rica das classes dirigentes italianas, que jamais haviam reconhecido √† esquerda a legitima√ß√£o para governar. Formava-se, pois, uma coaliz√£o europe√≠sta, que pretendia incluir a esquerda no governo do pa√≠s. Mas ela n√£o era majorit√°ria e se via combatida por um amplo alinhamento anti-Maastricht, cujo denominador comum era o nacionalismo econ√īmico e cujas orienta√ß√Ķes ideais tamb√©m se alimentavam de uma difusa avers√£o aos valores da modernidade. Por causa dos erros da esquerda, entre 1993 e 1994, estas for√ßas coagularam-se rapidamente e, favorecidas pelos humores "antipol√≠ticos" propagados pelos grupos do establishment que manipularam a "revolu√ß√£o" das M√£os Limpas, recolheram-se em torno de Silvio Berlusconi, sob a bandeira do novo partido por ele fundado no in√≠cio de 1994. Assim, enquanto a esquerda buscava confusamente uma nova identidade, nascia uma nova direita, populista, plebiscit√°ria, xen√≥foba e antieurop√©ia. Ela era heterog√™nea em termos de interesses e programas; mas, fato √ļnico na Europa, revelou uma capacidade extraordin√°ria de agregar um amplo consenso majorit√°rio e venceu as elei√ß√Ķes de 1994 [50].

6. Interesse nacional e interesse comum europeu

Com esta realidade teve de haver-se o PDS [Partido Democr√°tico de Esquerda], nascido em 1991 a partir da dissolu√ß√£o do PCI. Em 1992-1993, ele representava quase tudo o que restava da esquerda reformista e foi obrigado, antes de mais nada, a ajustar contas consigo mesmo, uma vez que as bases program√°ticas sobre as quais surgira eram ex√≠guas e a cultura pol√≠tica da qual se nutria era subalterna e amb√≠gua. N√£o dispunha de uma an√°lise apropriada das mudan√ßas dos √ļltimos vinte anos e estava permeado de humores maximalistas. Ambos os elementos tornavam-no antes o continuador do PCI dos anos oitenta do que uma for√ßa do novo reformismo europeu. Todavia, com a "virada" da Bolognina fora dado o passo decisivo: a parte mais consistente do PCI sa√≠ra do estado de menoridade a que a liga√ß√£o com a URSS o havia condenado e, com a entrada na Internacional Socialista, dispunha pela primeira vez de conex√Ķes internacionais mais √ļteis [**]. Al√©m disso, a dissolu√ß√£o do PCI liberalizara o mercado pol√≠tico, e o PDS estava desafiado a completar sua evolu√ß√£o reformista para poder aspirar ao governo. Com a mudan√ßa do seu l√≠der, em 1994, produziu-se uma significativa mudan√ßa de estrat√©gia.

A primeira inova√ß√£o foi introduzida no plano da an√°lise. Tratava-se, antes de tudo, de compreender as raz√Ķes da derrota. Estas foram sintetizadas na incapacidade de propor um novo "pacto social" que substitu√≠sse a velha "alian√ßa dos produtores", na qual se baseara o consenso da esquerda nos anos do ciclo fordista e da constru√ß√£o do Welfare. Apontou-se como conte√ļdo deste pacto uma articula√ß√£o entre as reformas do sistema econ√īmico e a reforma do Estado social, tendo em vista a moderniza√ß√£o do pa√≠s e sua reinser√ß√£o entre os protagonistas da integra√ß√£o europ√©ia. Isto significava dar uma perspectiva pol√≠tica √† coaliz√£o de for√ßas europe√≠stas que, a partir de 1992, havia dirigido o pa√≠s abalado pela crise do velho modelo de desenvolvimento e pelo colapso do sistema de partidos, bem como precisar as alian√ßas que permitissem ao PDS assumir um papel de governo. Aos conte√ļdos econ√īmico-sociais do "novo pacto" correspondia uma alian√ßa da esquerda reformista com o centro cat√≥lico-democr√°tico. Por outra parte, um cap√≠tulo fundamental da europeiza√ß√£o do pa√≠s era constitu√≠do pela reforma do sistema pol√≠tico e pela realiza√ß√£o de uma democracia da altern√Ęncia. Diante de uma direita que assumia as caracter√≠sticas sumariamente descritas, deviam se unir as for√ßas cujas ra√≠zes residiam nas culturas pol√≠ticas que marcaram a hist√≥ria da Rep√ļblica. Em terceiro lugar, o panorama das for√ßas pol√≠ticas que emergiam delineava o cen√°rio de um bipolarismo de coaliz√Ķes, e o centro-esquerda, em particular, n√£o podia ser concebido como uma alian√ßa eleitoral entre partidos, mas devia assumir os tra√ßos de uma coaliz√£o n√£o passageira, protagonista do desafio em torno do governo. Lan√ßavam-se, assim, as premissas de um "novo reformismo", uma vez que o modo pelo qual se interpretava o interesse nacional estava estreitamente ligado √† perspectiva de um papel destacado da It√°lia na defini√ß√£o do interesse comum europeu. Por motivos hist√≥ricos que remontam a todas as vicissitudes do s√©culo XX, na √ļltima d√©cada o int√©rprete deste reformismo n√£o foi um novo partido, mas uma coaliz√£o n√£o ainda bem definida: a Oliveira. Investigar suas origens, seguir seu percurso e tentar perscrutar seu futuro √© o tema que pusemos no centro das p√°ginas que se seguem.

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Giuseppe Vacca é presidente da Fundação Intituto Gramsci, em Roma. Este texto é o prólogo do livro Il riformismo italiano - dalla fine della guerra fredda alle sfide future (2006). Foi também publicado em La Insignia.

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Notas

[1] N. Bobbio. Destra e sinistra. Roma: Donzelli, 1994.

[2] P. Nenni. Intervista sul socialismo italiano. Roma-Bari: Laterza, 1977.

[3] D. Sassoon. Cent’anni di socialismo. Roma: Riuniti, 1997.

[4] C.S. Maier. Alla ricerca della stabilità. Bolonha: Il Mulino, 2003.

[5] P. Togliatti. Sul fascismo. Introdução de G. Vacca. Roma-Bari: Laterza, 2004.

[6] R. Boyer ¬Ė J. Mistral. "Le temp present: la crise". Annales, 1983.

[7] G.E. Rusconi. La crisi di Weimar. Turim: Einaudi, 1977.

[8] M. Telò. La socialdemocrazia europea negli anni Trenta. Milão: Franco Angeli, 1985; Leonardo Paggi (Org.). Americanismo e riformismo. La socialdemocrazia nell’economia mondiale aperta. Turim: Einaudi, 1989.

[9] W. Korpi. Il compromesso svedese. Bari: De Donato, 1982.

[10] R. Boyer ¬Ė J. Mistral. Accumulazione, inflazione, crisi. Bolonha: Il Mulino, 1985.

[11] K. Polanyi. La grande trasformazione. Turim: Einaudi, 1974.

[12] G. Caredda. Il Fronte Popolare in Francia 1934-1938. Turim: Einaudi, 1977; I. Ramone. La socialdemocrazia europea fra le due guerre. Dall’organizzazione della pace alla resistenza al fascismo (1923-1936). Roma: Carocci, 1999.

[13] S. Merli. Fronte antifascista e politica di classe. Socialisti e comunisti in Italia 1923-1939. Roma-Bari: Laterza, 1975.

[14] G. Vacca. "La lezione del fascismo". Introdução a P. Togliatti. Sul fascismo, cit.

[15] F. De Felice. Fascismo, Democrazia, Fronte Popolare. Bari: De Donato, 1973; S. Pons. Stalin e la guerra inevitabile 1936-1941. Turim: Einaudi, 1995.

[16] G. Vacca. Gramsci e Togliatti. Roma: Riuniti, 1991; Id. Appuntamenti con Gramsci. Roma: Carocci, 1999.

[17] M. Vaudagna (Org.). Il New Deal. Bolonha: Il Mulino, 1981.

[18] J.L. Harper. L’America e la ricostruzione dell’Italia 1945-1948. Bolonha: Il Mulino, 1987.

[19] V. Mastny. Il dittatore insicuro. Mil√£o: Corbaccio, 1998.

[20] S. Pons. Stalin e la guerra inevitabile 1936-1941, cit.

[21] Id. L’impossibile egemonia. L’Urss, il Pci e le origini della guerra fredda (1943-1948). Roma: Carocci, 1999; E. Zubkova. Quando c’era Stalin. Bolonha: Il Mulino, 2003.

[22] F. Gori e S. Pons (Orgs.). The Soviet Union and Europe in the Cold War 1943-1953. Londres: Mc Millan, 1996.

[23] C.S. Maier. Alla ricerca della stabilità, cit.

[24] B. Olivi. L’Europa difficile. Bolonha: Il Mulino, 1993.

[25] M. Telò. L’Europa potenza civile. Roma-Bari: Laterza, 2004.

[26] G. Vacca. Pensare il mondo nuovo. Mil√£o: San Paolo, 1994.

[27] R. Gilpin. Politica ed economia delle relazioni internazionali. Bolonha: Il Mulino, 1990.

[28] A. Milward. The European Rescue of the Nation-State. Londres: Rowtledge, 1993.

[29] H. Van Der Wee. L’economia mondiale tra crisi e benessere (1945-1980). Milão: Hoepli, 1989.

[30] L. Paggi ¬Ė M. D¬íAngelillo. I comunisti italiani e il riformismo. Un confronto con le socialdemocrazie europee. Turim: Einaudi, 1986.

[31] P. Spriano. Storia del Pci. Turim: Einaudi, 1975, v. 5; G. Vacca. Gramsci e Togliatti, cit.; R. Gualtieri. Togliatti e la politica estera italiana. Dalla Resistenza al Trattato di pace 1943-1947. Roma: Riuniti, 1995; S. Pons. L’impossibile egemonia, cit.

[32] A. Ventrone. La cittadinanza repubblicana. Forma-partito e identit√† nazionale alle origini della democrazia italiana (1943-1948). Bolonha: Il Mulino, 1996; G. Gozzini ¬Ė R. Martinelli. Storia del Pci. Dall¬íattentato a Togliatti all¬íVIII Congresso. Turim: Einaudi, 1998; S. Gundle. I comunisti italiani tra Hollywood e Mosca. La sfida della cultura di massa (1943-1991). Firenze: Giunti, 1995; G. Vacca. Vent¬íanni dopo. La sinistra fra mutamenti e revisioni. Turim: Einaudi, 1993.

[33] R. Gualtieri (Org.). Il Pci nell’Italia repubblicana. Roma: Carocci, 2001.

[34] G. Vacca. Gramsci e Togliatti, cit.

[35] F. De Felice. "Doppia lealtà e doppio Stato". Studi storici, 1989, n. 3; agora em Id. La questione della nazione repubblicana. Roma-Bari: Laterza, 1999; S. Pons. L’impossibile egemonia, cit.

[36] G. Vacca. Gramsci e Togliatti, cit.; F. Barca (Org.). Storia del capitalismo italiano dal dopoguerra a oggi. Roma: Donzelli, 1997; Y. Voulgaris. L’Italia del centro-sinistra. 1960-1968. Roma: Carocci, 1998; G. Vacca. Riformismo vecchio e nuovo. Turim: Einaudi, 2001.

[37] M. Aglietta. R√©gulation et crises du capitalisme. L¬íexp√©rience des √Čtat-Unis. Paris: Calman-L√©vy, 1976.

[38] R. Parboni. Il conflitto economico mondiale. Milão: Etas Libri, 1985; L. Thurow. Testa a testa. Usa Europa Giappone. La battaglia per la supremazia economica nel mondo. Milão: Mondadori, 1992; P.L. Ciocca. L’economia mondiale nel Novecento. Bolonha: Il Mulino, 1998.

[39] M. Pianta. Stati Uniti: il declino di un impero tecnologico. Roma: Lavoro, 1988.

[40] G. Vacca. L’informazione negli anni Ottanta. Roma: Riuniti, 1983.

[41] R. Parboni. "Il dollaro e l’economia mondiale". In: A. Graziani (Org.). Il dollaro e l’economia italiana. Bolonha: Il Mulino, 1987; M. De Cecco. "I possibili volti del nuovo ordine economico internazionale". In: S. Romano (Org.). L’impero riluttante. Gli Stati Uniti nella società internazionale dopo il 1989. Bolonha: Il Mulino, 1992.

[42] J. O’Connor. La crisi fiscale dello Stato. Turim: Einaudi, 1977.

[43] B. Olivi. L’Europa difficile, cit.

[44] M. Telò. Tradizione socialista e progetto europeo. Roma: Riuniti, 1988.

[45] M. Maggiorani. L’Europa degli altri. Roma: Carocci, 1998.

[46] G. Vacca. Vent’anni dopo. La sinistra fra mutamenti e revisioni, cit.

[47] P. Borioni (Org.). Revisionismo socialista e rinnovamento liberale. Il riformismo nell’Europa degli anni Ottanta. Roma: Carocci, 2001; R. Gualtieri (Org.). Il Pci nell’Italia repubblicana, cit.; S. Pons. "Berlinguer e la riforma del comunismo". Italianieuropei, 2004, n. 3.

[48] G. Carli. Cinquant’anni di vita italiana. Roma-Bari: Laterza, 1996.

[49] G. Bodo ¬Ė G. Viesti. La grande svolta. Il Mezzogiorno nell¬íItalia degli anni Novanta. Roma: Donzelli, 1997.

[*] No per√≠odo final da "Primeira Rep√ļblica", entre 1980 e 1992, os governos italianos compunham-se de uma coaliz√£o de cinco partidos: a DC, o PSI e tr√™s agremia√ß√Ķes menores, que reuniam socialdemocratas, republicanos e liberais (PSDI, PRI e PLI). O "pentapartido" conclui-se com o conjunto de investiga√ß√Ķes e procedimentos judiciais conhecido como Opera√ß√£o M√£os Limpas, que desvenda a Tangentopoli, gigantesco sistema de corrup√ß√£o incrustado no sistema de poder democrata-crist√£o e socialista. [N. do T.]

[50] G. Vacca. Per una nuova Costituente. Mil√£o: Bompiani, 1996.

[**] Em 12 de novembro de 1989, tr√™s dias ap√≥s a queda do Muro de Berlim, Achille Occhetto, ent√£o secret√°rio-geral do PCI, re√ļne-se com alguns velhos combatentes da Resist√™ncia na se√ß√£o da Bolognina, um bairro popular de Bolonha, e anuncia a inten√ß√£o de dar in√≠cio ao debate que levaria √† dissolu√ß√£o do PCI e √† funda√ß√£o do PDS dois anos mais tarde. No contexto desta transforma√ß√£o, uma corrente minorit√°ria daria origem √† Refunda√ß√£o Comunista. Em 1994, Occhetto seria substitu√≠do por Massimo D¬íAlema √† frente do PDS. [N. do T.]



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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